Estatísticas da violência
Entre cada cinco brasileiros, um foi vítima de pelo menos um tipo de crime

Difícil encontrar quem não tenha sofrido nenhum tipo de violência ou, ao menos, não conheça alguém que tenha vivido uma situação parecida. No Brasil, os dados de uma pesquisa do Datafolha são preocupantes. Em grupos de cinco brasileiros, um foi vítima de pelo menos um tipo de crime entre abril de 2013 e 2014.
Segundo pesquisa da ONG Conselho Cidadão pela Seguridade Social Pública e Justiça Penal, do México, o Brasil possui diversas cidades entre as 50 mais violentas do mundo. Entre elas, Maceió, com 79,76 homicídios; Fortaleza, com 72,81, e João Pessoa, com 66,92 homicídios por 100 mil habitantes. Segundo o levantamento, Brasília e Curitiba deixaram a lista, entretanto, Campina Grande, Natal e Aracaju passaram a figurar no ranking. As metrópoles São Paulo e Rio de Janeiro não aparecem nessa lista.
Em Ribeirão Preto, a Zona Norte concentra o maior número de homicídios — 30, dos 55 assassinatos ocorridos entre janeiro de 2013 e de 2014. A região possui o 2º e o 5º Distrito Policial, sendo que só o 2º registrou, nesse período de um ano, 3.784 ocorrências entre roubos e furtos de veículos e de outros bens. Já o 5º DP, nesse mesmo período, também registrou ocorrências graves: seis casos de estupro e 80 ocorrências envolvendo o tráfico de drogas.
Encontrar vítimas de violência urbana, neste cenário, é uma tarefa fácil. O gerente de produtos, Gustavo Barusco, entrou para as estatísticas quando sofreu uma ameaça de roubo. Parado no semáforo perto de casa quando voltava do curso de pós-graduação, por volta das 23h, viu um rapaz sacar a arma e apontar em sua direção, tentando abordá-lo no carro. Numa reação instintiva, Gustavo abaixou a cabeça e acelerou.
Ouviu, logo em seguida, o estampido de um tiro. “Foi uma atitude sem pensar. Assim que cheguei em casa, minha primeira reação foi ver se o tiro tinha acertado o carro. Depois, comecei a pensar que poderia ter sido atingido e isso me deixou bastante preocupado”, relembra. Para o gerente de produtos, o aumento nos índices de violência no Município é reflexo da atuação da administração em todos os níveis do governo: municipal, estadual e federal. “O Estado tem responsabilidade pela segurança pública, mas não possui estrutura suficiente para atender às necessidades da população. O governo federal cria leis e artifícios que deixam uma sensação de impunidade, tanto para quem comete a violência, quanto para quem a sofre. A Prefeitura, por sua vez, esquiva-se, mas também tem culpa.
Falta criar uma política para inclusão social para famílias de baixa renda, principalmente baseada na educação”, critica Gustavo. De lá pra cá, Gustavo ficou preocupado e reforçou a segurança do apartamento com porteiro 24h, sistema de câmeras e monitoramento. “Procuro evitar ficar parado em semáforos à noite, principalmente em lugares escuros”, afirma o gerente. Para ele, a população vive com medo. “Todo dia, ouço alguém próximo do meu convívio comentando alguma espécie de violência. Isso nos dá a sensação de que o mundo está um caos”, frisa Gustavo.
Para a empresária Ana Claudia Moi, a sociedade está, cada vez mais, escondendo-se por falta de segurança. Há dois meses, foi ameaçada de sequestro e está com medo de expor sua vida. Por isso, excluiu o perfil das redes sociais e passou a ficar mais atenta ao sair de casa. “A violência psicológica que sofri me fez ficar mais atenta. Não saio sozinha à noite e procuro me cercar de segurança por meio de câmeras e outros equipamentos. Para mim, as pessoas estão se tornando reféns em suas próprias residências”, comenta Ana Cláudia. A empresária teme que os suspeitos tenham investigado sua rotina antes de ligarem para seus pais, fazendo ameaças. “Os suspeitos se informam sobre as vítimas, estudam sua rotina e, como não temos segurança suficiente, fica fácil cometer um crime”, avalia.
Melhor qualificação, educação adequada e base familiar, para Ana Cláudia, são as soluções que podem modificar essa realidade. “Sem uma estrutura familiar sólida, o indivíduo não tem perspectiva de melhorar de vida. Em segundo lugar, a educação precária facilita a criminalidade. Isso tudo, somado ao policiamento reduzido nas ruas, torna Ribeirão Preto uma cidade insegura”, conclui a empresária. Em todos os estados e cidades brasileiras, vê-se uma onda de violência, seja no trânsito, no trabalho, nas residências e em empresas públicas e privadas. Algumas ações ganham destaque na mídia nacional, outras passam despercebidas para a maioria da população, que segue sua rotina diária e se esconde atrás dos muros, trancafiados por cadeados, alarmes e sistemas de monitoramento. 
A violência, em suas diversas formas, é uma ação despropositada e arbitrária de uma pessoa contra a outra ou contra bens de terceiros, motivada por um desequilíbrio emocional ou financeiro que corrompe, fere a honra e desnuda a dignidade. A população, em busca de segurança e tranquilidade para a família, recorre a condomínios fechados e outras saídas segregadoras. Para o arquiteto e urbanista José Antonio Lanchoti, essa é uma alternativa que traduz uma falsa imagem da segurança. “A busca pelo local fechado é uma demonstração de alienação ao problema real da segurança no país. É conveniente trancar-se entre muros e manter o perigo longe da nossa realidade. No entanto, é necessário reconhecermos o aumento da marginalidade urbana e buscarmos juntos a solução para este problema social, que é de responsabilidade de todos”, aponta o especialista.
Para Lanchoti, a proteção dos muros indica onde moram os que precisam se esconder, direciona a concentração de renda e facilita o reconhecimento de quem são os principais detentores do dinheiro. A alta demanda por esse tipo de moradia reflete no distanciamento da população aos demais serviços. “Para comprar um simples pão, por exemplo, a pessoa precisa pegar o carro e andar alguns quilômetros. Isso só aumenta o tráfego nas cidades e a vulnerabilidade daqueles que estavam ‘seguros’ no seu casulo, frente à ‘selva de pedras’”, comenta. O arquiteto ainda ressalta a necessidade da sociedade compreender que a segurança é um dever de todos: além dos governantes, empresários, comerciantes, professores e população precisam envolver-se na solução. “Se assim não for, não teremos êxito na redução dos índices de violência e viveremos trancados entre os muros do condomínio”, avalia.
Em nota, a Polícia Militar informou que tem atuado no policiamento preventivo, agindo nos dias, horários e locais de maior incidência criminal. A este esforço, agrega informações qualitativas que possibilitam ao patrulheiro atuar de forma a coibir a criminalidade. Ainda assim, destaca, na nota, que a Polícia Militar é apenas um elo no sistema de Segurança Pública. “Em conjunto com a Polícia Civil, temos trabalhado para tornar nossa cidade mais segura”.
O professor titular em finanças da FEA-RP/USP, Alberto Borges Matias, comenta que o aumento da violência, nos últimos anos, é reflexo de uma sociedade passiva, que nada faz para mudar a realidade. “Estamos em meio a uma guerra civil, com números comparáveis a grandes guerras mundo afora”, salienta, destacando que apenas 8% dos homicídios são solucionados. O especialista sugere que as cidades brasileiras se espelhem em modelos aplicados na Europa para a resolução de crimes e aplicabilidade de penas. “Para ocuparmos um lugar entre os países desenvolvidos, é necessário discutir com clareza e transparência a real situação da criminalidade no país. O Brasil é a sétima potência do mundo, estando atrás de países como Alemanha, Inglaterra e França. Por que não se espelhar nesses modelos para mudarmos a realidade?”, questiona o professor. Para Matias, os números da violência são resultado da passividade da população. “Estamos acostumados a sugerir e propor melhorias, mas, de fato, essas sugestões não saem do papel e os índices, que só aumentam, são responsabilidade de toda a sociedade”, avalia Matias.
O papel da educação
Para Renata Carone Sborgia, educadora e autora do livro “Responsabilidade Acadêmica do Gestor Educacional”, a educação possui impacto em todas as áreas. Analisar as inovações e as perspectivas de uma nova modalidade de gestão educacional, proposta no livro, contribui para a construção de um sistema educacional seguro, autônomo, democrático, atual, moderno e com relações humanizadas, refletindo no comportamento social. “O devido conhecimento sobre Direitos Humanos, com o intuito de ter educandos mais fraternos e sensibilizados diante dos inúmeros problemas do dia a dia — entre eles, a violência, os preconceitos, as desigualdades sociais, o desrespeito e a agressão humana — é trazer para a sala de aula uma educação que humanize o cidadão, ou seja, suscitar nos educandos a capacidade de reflexão e de crítica, bem como a aquisição do saber, o acolhimento do próximo, o cultivo do bem-estar social e a redução da violência”, analisa Renata.
A educadora ainda ressalta que é necessário intervir por meio de disciplinas educacionais que insiram os jovens no contexto da cidadania, das regras e éticas sociais, a fim de proporcionar aos jovens a noção de civilização. “Mais do que a pobreza em termos absolutos, é a desigualdade social um dos fatores relacionados à violência. Se a educação é capaz de impactar na diminuição desta desigualdade, contribuirá para uma sociedade menos violenta. Além de formar cidadãos mais críticos e conscientes de seus direitos, a educação também colabora para que a sociedade cumpra seus deveres cívicos. É pela educação que aprendemos a nos preparar para a vida”, finaliza a educadora. 
Reação perigosa
O site da Secretaria da Segurança Pública oferece um Manual de Segurança ao Cidadão, elaborado pela Polícia Militar, que contempla 50 formas de condutas e medidas a serem adoradas em diferentes situações de risco. Confira algumas delas:
• Não ameace sair correndo;
• Não faça gestos abruptos;
• No veículo, não tire o cinto de segurança e não toque no freio de mão;
• Obedeça às instruções do assaltante;
• Não provoque o assaltante;
• Não o encare nos olhos;
• Mantenha a calma;
• Não discuta;
• Entregue ao criminoso o que ele exigir. Assim, o tempo do roubo será menor.
Texto: Cristiane Araujo
Fotos: Carolina Alves e Luiz Cervi
* Publicado em 03/07/2014