Estímulo dinamizado
À frente da gerência executiva da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), Fred Guimarães discute com Guilherme Feitosa os desafios do cargo
Católico praticante desde criança e devoto de Nossa Senhora, o economista Fred Guimarães tem sua formação pessoal e profissional alicerçada em princípios morais, de amor à família e ao trabalho. Dedicado, proativo e perseverante em tudo que faz, este mineiro de Sete Lagoas encontrou em Ribeirão Preto a oportunidade que buscava para expandir horizontes e disseminar conhecimentos junto à comunidade. Homem de fé e um otimista declarado, acredita no ser humano e não dispensa as oportunidades que lhe desafiam a cada dia.
Tendo a formação da cidadania e o sentimento de pertencimento a Ribeirão Preto como base, há cinco anos atua na Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP), primeiro como economista e agora à frente da gerência executiva, cargo criado dentro de um processo de profissionalização que a instituição desenvolve desde 2014. No bate-papo com o amigo Guilherme Feitosa, diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) de Ribeirão Preto, a jornalista Rose Rubini registra os principais momentos deste encontro.
Guilherme: Por que você decidiu ser economista?
Fred: Acredito que a economia está no sangue de cada brasileiro. No meu, ela entrou meio que por um acaso. Não tinha planejado ser economista. Quando morava em Maringá, no Paraná, trabalhava num grupo e sentia necessidade de estudar, mas ainda não sabia ao certo o caminho a seguir, tanto que fiquei entre Direito e Economia. Pesando os prós e os contras, os deveres e as obrigações de um advogado, fiquei com a Economia. No inicio, não morria de paixão pela disciplina, porém, automaticamente, quando comecei a me inserir no processo, passei a gostar muito de economia, que não é uma ciência exata, nem tampouco puramente social, mas que tem no capital humano o principal objeto de estudo e trabalho.
Guilherme: Como ocorreu a escolha por Ribeirão Preto?
Fred: Já casado, a empresa onde eu trabalhava em Sete Lagoas fechou e dois amigos me convidaram para ir a Curitiba. Chegando lá, logo comecei a trabalhar no Grupo Jurídico LF Queiroz & Advogados Associados, que presta serviços para condomínios. Depois de seis anos atuando ao lado da minha esposa, recebemos a proposta de abrir uma filial fora do estado paranaense. Entre os locais desejados, estava Ribeirão Preto. Depois de uma ampla pesquisa de mercado, resolvemos abrir a empresa aqui, hoje, sob responsabilidade da minha esposa. Isso só foi possível porque a diretoria investe no capital humano. Eles reconheceram nosso empenho e nós, por outro lado, soubemos aproveitar esta oportunidade.
Guilherme: No início você enfrentou muitos obstáculos?
Fred: Sim. Quando chegamos, há quase nove anos, eu não tinha a real noção das dificuldades que iria enfrentar porque, por mais que você faça um planejamento, não tem como mensurar o que vai acontecer, de fato. Cheguei de coração aberto, olhando no olho de cada pessoa que eu conversava, dizendo realmente só o que podia fazer. Comecei a plantar sementes, a conhecer pessoas e vi que o mercado tinha uma peculiaridade: aqui a credibilidade é valorizada. Por isso, sempre fui e sou muito verdadeiro em tudo o que faço e proponho.
Guilherme: Você é um homem de fé?
Fred: Sim. E não é pouca, não. Eu tenho muita fé em Deus e acredito que aquilo que ele faz pela gente é a contrapartida daquilo que nós fazemos. Nenhum ser humano, independente de sua crença ou ateísmo, atinge um objetivo sem que haja a concordância divina. Chega uma hora na vida em que a gente vê que alguma força superior está nos movendo. No meu caso, essa força vem de Deus. Ele está comigo em todos os momentos e tenho certeza que foi ele que me inseriu num mercado difícil de entrar e de se sustentar, como a área de Economia, principalmente aqui, em Ribeirão Preto.
Guilherme: Como aconteceu a sua aproximação com a ACIRP?
Fred: Nesse processo de instalação da empresa na qual sou sócio, e quando da minha inscrição no Conselho Regional de Economia de São Paulo (CORECON), conheci o Fabiano Guimarães, gerente regional do CIESP, na época. Inicialmente, pretendia atuar na área de perícias econômico-financeiras. Ele disse que havia uma oportunidade de trabalho na Associação e eu fui conversar com o José Carlos Carvalho, ex-presidente da Entidade. Lembro de ter dito a ele que eu poderia, talvez, não ser a pessoa mais preparada para assumir a vaga, mas que ele iria trabalhar com uma pessoa honesta, correta, que respeitaria a Instituição e jamais usaria o seu nome para me promover na sociedade ou tirar um tostão afora o meu salário. Não tenho vocação para ser político. Trato a Associação Comercial com idoneidade e sem viés. Nestes cinco anos que estou aqui, ninguém que me procurou ficou sem resposta, todos os e-mails são lidos e respondidos. Nunca deixei as tarefas acumularem e nem medi esforços nas soluções das questões que apareciam.
Guilherme: Qual é o principal papel da instituição?
Fred: São vários, mas um dos principais é a defesa do desenvolvimento econômico de Ribeirão Preto. Claro que no dia a dia surgem demandas pontuais, mas estamos traçando estratégias junto aos grupos e instituições que participamos, como o Fórum das Entidades de Ribeirão Preto e Região (FERP), que tem interesse no desenvolvimento da cidade.
Guilherme: Diante das dificuldades econômicas que estamos vivenciando, quais as expectativas para o mercado ribeirãopretano?
Fred: Até 2013, a economia local evoluiu de forma satisfatória. Enquanto o Brasil crescia entre 1,5% e 2,5%, a cidade estava entre 4% e 5%. Como o município é polo regional de compras, o comércio e serviços sempre foram os pontos altos da economia. A indústria representa cerca de 20% do PIB interno e o setor da construção civil também é bem representativo. Entre 2010 e 2011, esse foi o segmento que mais cresceu na cidade e, apesar de ter perdido um pouco do seu dinamismo, ainda gera muitas vagas. Embora haja uma perda natural de dinamismo, acredito que Ribeirão Preto mantenha boas expectativas de crescimento, em torno de 2% ou 3%, com oportunidades de canalizar bons projetos na área de serviços de utilidade pública.
Guilherme: Maringá adotou conceitos de planejamento que nem passam à margem da nossa cidade. Como você vê as ações de instituições como o FERP?
Fred: Morei lá por oito anos. Maringá é uma cidade muito bem planejada, bem estruturada, que não está na rota de cidades de primeiro mundo ou na rota do Brasil de crescimento, mas está numa região forte do ponto de vista agrícola e também pecuário. Só que lá o desenvolvimento acontece diferente porque houve uma equipe — sob o ponto de vista técnico e de administração pública —, que organizou as etapas de crescimento. Já Ribeirão Preto foi bombardeada pelo crescimento populacional desordenado, vindo de várias classes do Brasil, principalmente para trabalhar no setor da cana. A cidade é polo universitário, referência em saúde, centro comercial e já foi considerada a “Califórnia brasileira”. Por outro lado, a sucessão de administrações públicas não pensou a cidade sob o ponto de vista de planejamento e de serviço de utilidade pública na dimensão que deveria.
Guilherme: Isso contribuiu para seu desenvolvimento desordenado?
Fred: Sim. Prova disso é que temos hoje uma demanda represada representada por um plano municipal de saneamento básico e de mobilidade urbana, áreas que exigem, por baixo, investimentos em torno de R$ 1,5 bilhão nos próximos 20 anos. Isso sem falar na manutenção das obras já executadas e em execução, que não foram pensadas. Nós temos um sistema federativo baseado e fundamentado na Constituição de 1988, que criou muitos direitos e poucos deveres. Um sistema que é concentrado sob o ponto de vista da decisão do gasto, porém, é descentralizado em relação a obrigação de fazer, de realizar, de construir. Outro ponto agravante é a cultura de gastar mais do que ganha, de trabalhar com orçamento deficitário, que gera dependência do sistema financeiro. Ribeirão Preto tem uma divida ativa da ordem de R$ 800 a R$ 900 milhões, que é o que a população deve para a Prefeitura. Eu falo de uma forma geral, não culpo ninguém especificamente porque o erro persiste de 20 a 30 anos atrás. A administração pública precisa criar mecanismos para atrair novas empresas e aumentar o número de indústrias seja na cidade ou na região, pois hoje não temos uma política para resolver os problemas regionais.
Guilherme: Quais são as saídas?
Fred: É preciso resolver a situação de forma sistêmica, mas, para isso, os órgãos envolvidos precisam estar na mesma sintonia. Por exemplo, hoje, a mobilidade e o transporte público são alguns dos grandes problemas de Ribeirão Preto, porém, nós temos uma política nacional que estimula o setor automotivo e, consequentemente, o transporte individual. Enquanto o Ministério das Cidades estimula o transporte coletivo urbano, o Governo isenta o IPI sobre a venda de carros novos, estimulando a compra. O investidor, que é o empresário e o Executivo, precisa pensar os projetos em longo prazo. Uma saída para esse impasse seria estimular o turismo regional nos fins de semana para que haja demanda pelo transporte individual e que se criasse uma estrutura moderna de transporte coletivo para a população nos dias de trabalho.
Guilherme: Como o FERP pode contribuir para promover o desenvolvimento socioeconômico da cidade?
Fred: Sempre defendemos que houvesse uma atuação conjunta por parte das instituições e, hoje, o FERP responde, por exemplo, por 25 entidades representativas, que buscam o diálogo na solução dos problemas. Porém, não vamos conseguir êxito se ficarmos só na conversa. Temos um plano municipal de mobilidade urbana que contempla várias obras e precisamos saber o que foi priorizado porque, até então, o que está sendo discutido é o que os administradores pensam ser prioridade, mas não é o que a sociedade pensa. Então, instituições como o FERP, a ACIRP, o CIESP têm que pensar grande, com um embasamento técnico.
Guilherme: Falta maior união destas instituições?
Fred: Ribeirão Preto ainda não conta com uma organização de instituições que oriente as ações e na qual o empresário deve investir. Esse talvez fosse o papel que a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Ribeirão Preto (CODERP) deveria desempenhar, mas não acontece. Ninguém é inimigo da Prefeitura, da Transerp, ou da USP, nada disso, até porque existe uma relação de respeito por elas, mas é preciso planejamento que indique por qual caminho a cidade deve caminhar. Hoje, por exemplo, só sabemos que a cidade luta pela internacionalização do aeroporto Leite Lopes e isso abrirá caminho para investimentos, mas não se sabe de que forma isso deve ocorrer e o que vai acontecer depois.
Guilherme: A criação da região metropolitana de Ribeirão Preto é viável?
Fred: Esse é outro problema. Com a criação da região metropolitana, atraímos investimento, mas também um monte de pessoas. O que vai acontecer com a economia? Vamos precisar de investimento e de remodelação de todo o sistema de água, de esgoto, do resíduo sólido, problemas para os quais ainda não temos respostas, assim como para enchentes em determinados pontos da cidade e tantas outras questões ainda sem solução. Esta é exatamente a diferença entre Maringá e Ribeirão Preto. Lá, os gestores pensam o desenvolvimento com planejamento em longo prazo, aqui não.
Guilherme: Qual o desafio nesta sua nova etapa dentro da ACIRP?
Fred: Unir pessoas. Elas são relativamente individualistas, não querem compartilhar experiências, não dão o braço a torcer naquilo que, de repente, é o gargalo da empresa. Eu costumo dizer que ninguém no mercado é dono da verdade, mas quando se chama as pessoas para o trabalho, nem sempre a resposta é satisfatória. Aqui, meu principal papel é fazer com que as pessoas se integrem e se doem de corpo e alma pela instituição. Não que isso já não aconteça, mas elas não o fazem de forma sistêmica.
Guilherme: Em relação à globalização, a tecnologia impacta de forma positiva a cidade ou o país?
Fred: Sim, e isso acontece de forma natural. Temos profissionais mais integrados, que dão mais retorno para a empresa. No caso de Ribeirão Preto, vejo a situação com um pouco de preocupação. Atualmente, formamos muita gente boa, mas, em função da nossa economia estar um pouco travada, estamos perdendo esses profissionais para outras regiões. O ato de valorizar o capital humano é uma questão importante. Chega uma hora em que a empresa precisa dar valor a essa mão de obra e estimular o conhecimento, e, por consequência, gerar resultados aqui. Desta forma, se cria identidade, amor, cidadania e, sendo cidadão, você cuida mais daquilo que é seu.
Guilherme: Este processo contribui para formar cidadania?
Fred: A globalização trouxe retorno positivo para a sociedade sob o ponto de vista do conhecimento. As pessoas estão mais preparadas, mas, geralmente, elas não criam identidade e aqui, a economia regional se ampara na história e na cultura do local. À medida que a região vai perdendo sua identidade, a consequência é a perda de responsabilidade social, de compromisso, representada pelo enfraquecimento das raízes. Por outro lado, a globalização é positiva ao compartilhar conhecimento, técnicas e tecnologias entre os profissionais das mais variadas regiões do planeta. A videoconferência é uma delas. A cidade precisa resgatar sua história, pois só desta forma, com o que contar, ela tem uma sociedade mais forte.
Guilherme: Então a globalização enfraquece a região?
Fred: De certa forma sim, porque ela dissemina o investimento, o conhecimento. Na região, enquanto história, ela se perde; por outro lado, enquanto cultura, ela se prolifera, abre um leque cultural maior. Só que isso por si só não é garantia de investimento. O empresário da cidade precisa de uma remodelação, uma renovação do conceito de uma economia renovadora. A todo o momento, é preciso criar novas coisas e recriar a todo tempo.
Guilherme: Se isso não acontecer se perde dinamismo para outras regiões?
Fred: Sim e são regiões que têm um nível de empreendedorismo e de criação de novos produtos e de patentes maior do que a nossa região. Então, a gente vive num mundo que é globalizado, mas que exige da nossa sociedade uma reinvenção diária.
Guilherme: Quem tem esse papel?
Fred: As instituições: ACIRP, CIESP, FIESP, USP, Prefeitura, todo mundo, e também a sociedade. Ribeirão Preto precisa se reinventar, estimular os jovens ao conhecimento, retê-los na cidade, para que gostem daqui e queiram investir aqui. Criar este sentimento de pertencimento, de amor e satisfação em contribuir para o desenvolvimento da sua cidade.
Guilherme: Como você vê esta falta de referência de valores?
Fred: Independente de ideologia ou de crença religiosa, fundamentalmente, deixamos os valores principais de lado, assim como a crença em uma força maior, que, para mim, é Deus. É preciso ter claro o que é fundamental para você, para sua família, para seus filhos. Ser um cidadão organizado, que se preocupa com seu bairro, com sua sociedade. É preciso unir forças de todas as instituições, a começar pela família, as associações de bairro, entre outras. Nós não nos preocupamos com certas questões estruturais que estão à nossa volta, mas, nos preocupamos com as festas, com o Carnaval, com o Réveillon, com os feriados. Lamentavelmente, vejo hoje a instituição família dilacerada, falida.
Guilherme: Seus filhos estão integrados à cidade?
Fred: Tenho dois filhos gêmeos, de 15 anos, e uma filha, de 9 anos. Todos estão muito integrados, adoram Ribeirão Preto. Como eu, são católicos atuantes. Desde muito jovem eu sou ligado à Igreja. Sou dizimista e comentarista das missas que frequento na paróquia de São José. Sou devoto da Virgem Maria, consagro meu coração a ela, rezo o terço todos os dias e não tenho vergonha, pelo contrário, faço questão de enfatizar que amo a Deus e a Virgem Maria. Não tem um valor maior na vida do que você reconhecer aquilo Deus lhe deu oportunidade de viver. Ele faz tudo por meio do seu filho Jesus e de sua mãe, Maria. Cada dia que passa, quero ser a pessoa mais integrada ao meu trabalho e dou muito valor a três coisas: trabalhar, estudar e rezar. Para mostrar o caminho para meus filhos, tenho que ser exemplo.
ÉTICA E CONFIANÇA
Conheci o Fred Guimarães por meio das reuniões de trabalho do Fórum das Entidades de Ribeirão Preto e Região (FERP), que tem como entidade participante a Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP), bem como pelas constantes entrevistas e colunas sobre as pesquisas econômicas da região. Percebi, pelo nosso bate-papo, que o Fred tem uma trajetória muito bonita, pois sempre buscou se qualificar e aperfeiçoar o seu conhecimento, conquistando, dessa forma, credibilidade e confiança da classe empresarial de Ribeirão Preto. Acredito que esse novo desafio, como gerente executivo da Entidade, irá proporcionar grande aprendizado e crescimento, assim como beneficiará muito Ribeirão Preto, tendo uma pessoa tão competente à frente da ACIRP.
Guilherme Feitosa é diretor regional do Ciesp de Ribeirão Preto