Estudo da prematuridade
A terceira fase do trabalho em Ribeirão Preto e a segunda em São Luiz vai até abril ou maio de 2012
Em Ribeirão Preto, o índice de natimortalidade, que era de 22 por cada mil nascimentos em 1978, caiu para 9,5/1000 em 1994; e, em 2010, dados preliminares indicam que esse número está em torno de 5/1000. Esse dado está próximo dos países desenvolvidos, como por exemplo, nos Estados Unidos, que é de 3,8/1000. Já a mortalidade infantil na cidade, que era de 35/1000, em 1978, foi para cerca de 18/1000 em 1994 e agora, tudo indica, que está abaixo de 9/1000.
Os dados, aparentemente positivos, são resultados do terceiro estudo da pesquisa “Saúde perinatal da criança e do adulto jovem”, realizada pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e coordenada pelos médicos Marco Antonio Barbieri e Heloísa Bettiol, responsáveis pelos dois primeiros estudos epidemiológicos realizados em 1978 e 1994, em Ribeirão Preto e em 1997 em São Luiz (Maranhão). Os pesquisadores também contam com a colaboração da professora Viviane Cunha Cardoso, da FMRP e da pós-graduanda Katia Silene Dalkmin Trombé.
O trabalho aponta, ainda, que, ao longo de 32 anos, o uso do cigarro durante a gravidez também caiu. Em 78, eram 27%, caiu para 20% em 1994, e dados preliminares já indicam que está abaixo de 15%. Em São Luiz, em 1997, era de 6% o índice de mães fumantes. No grupo pesquisado em 1994, as crianças nascidas de mães que fumaram mais de dez cigarros por dia na gravidez tiveram mais relato de dor de cabeça.
O aumento da cesariana, entre 1978 e 1994, no Brasil, e a sua relação com o acréscimo da prematuridade, de bebês nascidos com baixo peso e com restrição de crescimento intrauterino foi mostrado pela primeira vez pelos estudos realizados em Ribeirão Preto. Isso levou a uma mudança no perfil das crianças a serem seguidas. “Depois disso, vários trabalhos foram publicados no mundo mostrando achados semelhantes ao do nosso grupo”, destaca Barbieri, esclarecendo que o parto prematuro precoce é considerado, gerallmente, abaixo de 34 semanas de gestação.
Inquieto por natureza e intrigado com as razões para o aumento de nascimentos prematuros e as consequências no desenvolvimento infantil, o pediatra e epidemiologista Barbieri pretende identificar novos diagnósticos etiológicos para os partos prematuros. As principais causas da prematuridade ainda são desconhecidas. Somente cerca de 45% foram desvendadas. Entre elas, as causas biológicas, como hipertensão gravídica, algumas infecções, doenças endocrinológicas e outras.
Nesta terceira fase do trabalho em Ribeirão Preto e segunda em São Luiz, que vai até abril ou maio de 2012, os pesquisadores colhem informações dos bebês entre 13 e 16 meses e suas mães. Ao todo, estão sendo pesquisados cerca de 7,5 mil ribeirãopretanos e 1/3 dos partos (cerca de 6,5 mil) em São Luiz. Além disso, tem os grupos com início no pré-natal (1.425 mães em Ribeirão Preto e 1.410 em São Luiz).
Outro achado do ponto de vista da saúde é que entre os bebês nascidos em 1978, quando examinados aos 23 anos, cerca de 40% dos meninos apresentaram pressão arterial alterada e também aumento do sobrepeso entre meninos e meninas, em torno de 30%. Já as meninas que nasceram pequenas para a idade gestacional, excluindo as prematuras, apresentaram maior risco de síndrome de ovário policístico e, aos 23 anos. Também as meninas com restrição de crescimento se mostraram mais propensas ao consumo maior de calorias às custas de açúcar – chocolate, por exemplo, aumentando a chance de desenvolver obesidade na idade adulta.
As crianças nascidas em 1978, de parto cesariana, aos 23 anos quase triplicaram a chance de serem obesas. Uma das hipóteses para isso é que as microbiotas, as bactérias do intestino, foram modificadas em função do parto cesárea. Por outro lado, ao comparar Ribeirão Preto e São Luiz, é menor o número de mães fumantes na gravidez. Em Ribeirão Preto, fumar é uma característica atribuída às mais pobres e menos escolarizadas. Já em São Luiz, o consumo do tabaco é mais distribuído entre as classes sociais.
Outra diferença entre as duas cidades é que, ao se avaliar as crianças em idade escolar, em São Luiz a desnutrição é maior, enquanto em Ribeirão Preto o problema já é a obesidade. “Atualmente, os bebês estão sendo retirados prematuramente com sucesso, do útero da mãe e com grande chance de aumentar a sua sobrevida. Agora, precisamos conhecer o seu desenvolvimento e as consequências dessa prematuridade,” observa Barbieri, lembrando que esse é um dos objetivos da pesquisa, já que as crianças que nasceram em uma situação diferente precisam ter tratamento e promoção da saúde também diferenciados.
Investigação
Segundo Barbieri, agora eles começam a avaliar as crianças, prematuras ou não, no segundo ano de vida, incluindo aí os que estão sendo acompanhados desde o pré-natal. Retirando os que morreram e os que mudaram de cidade, a equipe pretende atingir cerca de 5,5 mil em Ribeirão Preto e 4,5 mil em São Luiz. Nesta pesquisa, realizam vários estudos, como: antropometria (registro das particularidades físicas dos indivíduos), avaliação do desenvolvimento cognitivo e neuromotor, coleta de sangue para verificar, por exemplo, anemia e alergia, no segundo ano de vida e um banco de DNA para estudos genéticos, além dos dados sobre a saúde mental e biológica da mãe.
Ainda, dentro do universo de 7,5 mil nascidos em Ribeirão Preto e 6,5 mil em São Luiz, a equipe finaliza a fase da coleta de informações sobre as causas de prematuridade onde foram colhidos informações de 1.425 mães em Ribeirão Preto e 1.410 em São Luiz, no quinto mês de gestação.
Apaixonado pela carreira escolhida, o professor ressalta ainda que, apesar da população da cidade ter colaborado muito nesses 32 anos de pesquisa, nesse grupo específico não conseguiram dados de 5,3% dos nascimentos de 2010. Eles querem conseguir os dados no segundo ano de vida da criança, cuja mãe foi entrevistada no nascimento ou que já vem sendo acompanhada desde o quinto mês de gestação. Então, segundo Barbieri, essa mãe precisa ter um grande desprendimento para sair da sua casa e ir ao Hospital das Clínicas para participar da pesquisa. “É fundamental que tenhamos uma amostra representativa das ribeirãopretanas nesta avaliação, principalmente para que o uso dos dados, do ponto de vista epidemiológico, possa identificar questões ligadas à biologia e ao ambiente, incluindo o consumo de saúde e a qualidade de vida”, reforça o pediatra.
A equipe quer saber o que está ocorrendo com as crianças para que se houver algum problema, ele possa ser resolvido o mais rápido possível. Então, nesse momento, Barbieri faz um apelo para que as mulheres que já foram entrevistadas na primeira fase, principalmente dos aspectos sociais mais ricos e mais pobres que são, por razões diferentes, as que têm mais dificuldades em participar, que repensem essa questão e se apresentem como voluntárias da pesquisa.
Comparando dados
Nos 32 anos de trabalho em campo, Barbieri lembra que, na pesquisa iniciada em 1978, foram estudados na fase perinatal 6.827 recém-nascidos, incluindo 146 gêmeos. Na segunda fase, avaliaram as crianças em idade escolar, entre 8 e 10 anos, e colheram informações de 43,5% desse grupo ou 2.861 crianças. Na terceira avaliação, foram colhidas informações de 2.048 meninos, representando 64%, na idade de apresentação ao serviço militar. “Nesse momento, foram comparados os dados dessa idade (18 anos), com os da idade escolar e com as informações colhidas no nascimento. Esse grupo foi avaliado mais uma vez entre 2002 e 2004, com idade entre 23 e 24 anos, e 2.130 meninos e meninas participaram”, explica o pesquisador.
Dois anos depois, pesquisadores do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da FMRP estudaram uma amostra, com 650 das meninas deste grupo de 1978. Eles avaliaram a relação entre tamanho ao nascer e doença do ovário policístico. No total, o grupo de 1978 passou por mais de 12 mil avaliações, além dos estudos de mortalidade infantil e da mortalidade até 20 anos. Outro dado importante foi identificar a influência da classe social na prematuridade. No grupo de 1978, o número de prematuros foi maior entre as mais pobres. Já no conjunto de 1994, o número de bebês nascidos antes do tempo aumentou no grupo de mais acesso aos bens de consumo de saúde.
Em 1994, as mulheres que fizeram o parto em hospital particular elevaram a diferença na forma de nascer entre as classes sociais, ou seja, a prematuridade nesse período quase dobrou em função do nascimento das mais ricas, pois elas utilizaram mais a cesariana para ter seus filhos e isso pode ser uma das explicações para o aumento da prematuridade. O número de cesariana saltou de 30%, em 1978, para 51%, em 1994. “Os estudos de 2010 ainda não têm uma resposta definitiva para esse fenômeno, mas é possível que tenha melhorado a relação entre prematuridade e cesariana nesse período”, conclui Barbieri.
Texto: Rose Rubini
Fotos: Carolina Alves
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