Exames que salvam
Diagnóstico precoce é a principal arma da Medicina para a cura do câncer de próstata e de outras anomalias que acometem a glândula que compõe o aparelho reprodutor masculino
Pesquisa mostra que quatro em cada dez homens não sabem identificar ou desconhecem os principais sintomas do câncer de próstata. Em um estudo conduzido pelo Instituto Ipsos, apenas 66% dos homens afirmam realizar check-up anual, enquanto, entre as mulheres, esse percentual sobe para 86%. O medo de receber um diagnóstico de câncer aflige três em cada quatro entrevistados de ambos os sexos — foram ouvidas 500 pessoas entre 27 de setembro e 2 de outubro. Pela regularidade com que visitam o consultório médico, as mulheres têm mais chances de receberem um diagnóstico precoce. Vale reforçar que a descoberta de qualquer tumor em fase inicial é considerada pelos especialistas uma das etapas mais importantes para o sucesso do tratamento.
Diante da suspeita de um câncer de próstata, metade dos homens ouvidos pelo Instituto Ipsos procuraria um urologista. O rastreamento para identificar qualquer tipo de alteração na glândula é indicado a partir dos 50 anos de idade, caso não haja sintomatologia ou associação de riscos, como casos envolvendo familiares próximos. Em situações assim, os pacientes devem iniciar o acompanhamento da próstata aos 45 anos.

O tumor prostático é o segundo tipo de câncer com que convivem os homens brasileiros, perdendo apenas para o câncer de pele não melanoma, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA). Dos 68.500 novos casos da doença que são esperados para 2018 no país, 15.000 deles serão diagnosticados no Estado de São Paulo — um terço na capital e dois terços, no interior. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), mais de metade dos homens na faixa etária dos 60 anos e 90% dos cidadãos com mais de 70 anos apresentam algum tipo de alteração na próstata. O rastreamento do órgão é feito, inicialmente, pela medição do Antígeno Prostático Específico (PSA), no sangue, e pelo toque retal.
Para um diagnóstico ainda mais preciso, em caso de alteração, o médico pode solicitar um ultrassom com biópsia da próstata para verificar a presença ou não de um tumor. Se não for diagnosticado em tempo, o câncer pode evoluir e atingir outros órgãos. “Por isso é tão importante realizar o acompanhamento médico e os exames preventivos”, orienta o urologista e professor da Faculdade de Medicina da USP, Rodolfo Borges dos Reis (CRM: 67.294), também responsável pelo setor de Uro-oncologia do Hospital das Clínicas, ambos de Ribeirão Preto.
Idade, descendência afro-americana e genética são, segundo o especialista, os principais fatores de risco para a doença. “Pai ou irmão diagnosticados com câncer de próstata ampliam de três a cinco vezes as chances de desenvolver a doença”, alerta Rodolfo. Os exames preventivos e regulares são, segundo ele, a melhor forma de detectar qualquer alteração na próstata.
Rodolfo destaca que vários foram os avanços da Medicina Diagnóstica na direção de facilitar a descoberta de problemas prostáticos. Entre os novos testes de sangue estão a medição do Índice de Saúde da Próstata (PHI) e do 4K, que melhorou a sensibilidade do PSA, assim como a ressonância magnética, em especial, à multiparamétrica, que pode indicar a presença de lesões mais agressivas e o local mais preciso a ser investigado pela biopsia. O urologista reforça que a dosagem do PSA não substitui o exame de toque, pois 20% dos tumores não apresentam alteração no valor do antígeno. Algumas lesões agressivas podem produzir pouco PSA. “A ressonância reduz o número de biópsias desnecessárias, aumentando a detecção da doença de alto risco. Entretanto, só é indicada quando se cogita realizar uma biópsia prostática, e não como exame para rastreamento do câncer”, explica Rodolfo.

Valores de referência
De acordo com Maria do Carmo Favarin de Macedo (CRM: 108.456), hematologista e hemoterapeuta, o PSA é um teste bastante sensível, mas pouco específico. Isso quer dizer que o exame pode apresentar índices alterados por diversos fatores, sem indicativos de câncer de próstata. Os valores de referência para este teste variam entre zero e quatro ng/ml (nanograma por mililitro). Estima-se que somente 25% dos pacientes com PSA entre quatro e dez ng/mL apresentam uma biópsia positiva para a doença.
Gestora regional do Sabin Medicina Diagnóstica em Ribeirão Preto, Maria do Carmo destaca que diversos testes foram desenvolvidos a partir do PSA para aumentar a segurança e a especificidade do exame. Por isso, hoje têm um papel especial na hora de médico e paciente decidirem pela realização de uma biopsia de próstata. “São exames que aumentam a nossa segurança em apostar ou afastar a possibilidade de um câncer de próstata. Por este motivo, possui um papel fundamental na redução da realização de biopsias desnecessárias”, frisa a médica.

Um dos novos marcadores é o PHI, que agrupa a avaliação de PSA total, o livre e o proPSA, apresentando o dobro de sensibilidade do teste convencional, o que reduz a necessidade de biopsias da próstata em até 30%. Por ser muito sensível, é possível ter diversos interferentes no resultado do PSA, que pode ser elevado por quadros infecciosos, uso de alguns medicamentos, procedimentos invasivos, trauma, ejaculação, atividades físicas como equitação, ciclismo e musculação com envolvimento de membros inferiores. “Seguindo este raciocínio, esses exames alterados devem ser sempre repetidos”, orienta a hematologista.
Outra ferramenta que, em breve, deve estar disponível é o exame EN2, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Surrey, na Grã-Bretanha, que está em fase de estudo. Segundo Maria do Carmo, o teste ainda não está disponível para uso de rotina, somente em projetos de estudo, e aguarda a liberação dos órgãos reguladores. O exame consiste na avaliação de uma proteína produzida e liberada somente pelo tecido tumoral da próstata e detectada pela urina. “Com isso, poderemos aumentar a confiança do laudo em até 88% de resultados positivos em um paciente com tumor de próstata, contra 30% a 40% de positividade com o PSA”, reforça a médica.
Se suspeitassem de um câncer metade dos entrevistados procurariam um urologista.
Principais sintomas
• Dificuldade, dor, ardor ou vontade frequente de urinar.
• Sensação de bexiga cheia.
• Urina escura ou com sangue.
• Jato de urina fraco.
• Dor ao ejacular e sêmen escuro ou com sangue.
O que também pode aumentar o PSA?
• Alguns procedimentos urológicos.
• Andar de bicicleta.
• Câncer.
• Ejaculação.
• Hiperplasia benigna da próstata.
• Idade.
• Infecção ou inflamação da próstata.
• Infecção urinária ou genital.
• Retenção urinária aguda.