Experiência a serviço do próximo
Em entrevista ao presidente do GACC, José Mario Tamanini, novo presidente da Sobeccan, José Wilson Ricciardi, elenca seus principais desafios à frente da instituição
Desde o dia 17 de julho, o Hospital do Câncer de Ribeirão Preto – Sobeccan tem uma nova diretoria, encabeçada pelo gestor José Wilson Ricciardi. Natural de Olímpia e tendo morado em diversos municípios, o novo presidente da instituição de saúde adotou Ribeirão Preto há 12 anos, quando se mudou para a cidade com a família para comandar a implantação da unidade do Poupatempo, programa do Governo do Estado de São Paulo que reúne diversos órgãos para a prestação de serviços à população. Acostumado ao trabalho social, José Wilson quer colocar suas experiências e capacidades profissionais a serviço do Hospital. Esta foi uma das afirmações do gerente na entrevista concedida a José Mário Tamanini, presidente do Grupo de Apoio à Criança com Câncer (GACC) que, como ele, dispôs-se, há quatro anos, a trabalhar em benefício de pacientes e familiares fragilizados pelo câncer.
Tamanini: Qual sua formação e sua trajetória profissional?
Ricciardi: Sou natural de Olímpia, assim como minha esposa, e construí minha carreira, inicialmente, em cima do agronegócio. Comecei a trabalhar, em 1970, na Ultrafértil, em Goiânia (GO), e segui carreira na empresa até me tornar gerente. Pela mesma companhia, acabei me mudando para Votuporanga, mas logo a Ultrafértil saiu da área de varejo e ficou apenas com as indústrias. Nesse momento, montei minha própria fábrica de fertilizantes em Votuporanga, negócio que comandei de 1982 a 1994. Só que, no início de anos 90, vieram as privatizações e nós, os pequenos fabricantes, ficamos sem matéria-prima graças às gigantes do segmento, que montaram consórcios e dominaram o mercado. Assim, de 1994 a 1997, precisei recomeçar. Fui, então, para São Paulo fazer pós-graduação em perícia judicial, hoje, perícia contábil, e trabalhei na área por alguns anos. Na sequência, ingressei no Programa Poupatempo, tendo trabalhado com a equipe que montou a primeira unidade, na Praça da Sé. De lá, segui para Santo Amaro e, depois, São Bernardo até surgir a oportunidade de montar o Poupatempo de Ribeirão Preto. Desde então, retornei para o interior e não saí mais. Estou aqui há 12 anos, desde a inauguração da unidade, em 2003.
Tamanini: O trabalho social já fazia parte da sua vida?
Ricciardi: Minha trajetória pessoal e familiar sempre foi pautada pelo servir. Desde os tempos de solteiro fui muito envolvido com diversas causas, especialmente, na área religiosa. Mais tarde, já em Votuporanga, participei do Rotary, da Maçonaria e de outras entidades com fins sociais, incluindo a Igreja. Tivemos a chance de levar para Votuporanga, por exemplo, a filosofia Amor Exigente, que trabalha com a família do dependente químico. Ajudamos também na construção da fazenda Nova Vida, que se ocupa do tratamento dos dependentes químicos de forma elaborativa, através do trabalho. Durante muitos anos, ainda, minha esposa e eu ministramos cursos para noivos. Portanto, dá para dizer que sempre cultivamos o hábito de participar de atividades “extramuros”.
Tamanini: De que ações você já participou em Ribeirão Preto?
Ricciardi: Na minha atividade principal, dentro da unidade do Poupatempo, temos várias ações internas e externas voltadas para o social. Agora, por exemplo, estamos encampando a Campanha do Agasalho, uma iniciativa do Governo do Estado. Também abraçamos outras iniciativas, como arrecadação e distribuição de brinquedos, óculos e o que mais for necessário. Sempre que temos a oportunidade, aderimos a campanhas locais. Dentro do Poupatempo, em 2006, fizemos um atendimento diferenciado nesse sentido que rendeu à unidade de Ribeirão Preto o Prêmio Mário Covas. Portanto, esse viés social, voltado para o próximo, é comum também no meu ambiente de trabalho formal.
Tamanini: Como surgiu a oportunidade de assumir o Hospital do Câncer de Ribeirão Preto e o que o motivou a isso?
Ricciardi: Recebi o convite para vir trabalhar no Hospital do Câncer de Ribeirão Preto – Sobeccan diretamente do último presidente, Antônio Carlos Maçonetto, e três considerações me levaram a aceitá-lo. A primeira delas foi a oportunidade de compartilhar os conhecimentos adquiridos durante minha trajetória profissional em um trabalho voluntário, destinado ao próximo. Esta, certamente, será uma chance de dividir com o outro tudo aquilo que ganhei. O segundo ponto é que todo trabalho “extramuros” nos motiva em nossa atividade principal, pois nos leva a estudar e a pesquisar assuntos relativos à nova função. Neste caso, precisei melhorar meu entendimento sobre as áreas de saúde e voluntariado, por exemplo. Nessa busca por outros indicadores acabamos nos motivando a estudar mais e levando este estímulo, assim como os novos conhecimentos, de volta para o nosso ambiente de trabalho. A terceira razão, e não menos importante, é preencher essa vontade de servir.
Tamanini: Você é voluntário na Sobeccan?
Ricciardi: Sim, eu e todos os membros da diretoria e dos conselhos trabalhamos sem remuneração na gestão do Hospital. Para as atividades fim e de apoio, possuímos profissionais contratados, portanto, remunerados. São médicos, enfermeiros, pessoal da administração, entre outros profissionais, que formam uma equipe de aproximadamente 20 pessoas. Além disso, temos um amplo quadro de voluntárias cujas principais funções estão ligadas à captação de recursos. A equipe de senhoras que atua em benefício do Hospital do Câncer trabalha, principalmente em um quadro de eventos e programas com o objetivo de angariar fundos para a instituição. Não é só isso. Há voluntários que prestam apoio aos pacientes; outros responsáveis por promover o Hospital e, ainda, aqueles que cuidam de feiras e de bazares. São várias formas que as pessoas encontram para nos ajudar.
Tamamini: Atualmente, como o Hospital sobrevive?
Ricciardi: Não temos receitas próprias, então, sobrevivemos das receitas oriundas dos eventos e doações. Por isso mesmo, um dos nossos principais desafios é credenciar o Hospital do Câncer de Ribeirão Preto na Rede SUS. Depois disso, com uma receita própria em mãos, poderemos abrir as portas para os pacientes apropriadamente. Do jeito que nossa estrutura está hoje, realizamos poucos atendimentos aqui, mas eles já representam uma despesa maior do que a receita. Enquanto entram 35 mil mensais, o custo da instituição gira em torno de 110 mil. Não conseguimos, então, equilibrar as contas, tendo que buscar mais alternativas para suprir as necessidades do Hospital. Isso é feito através dos recursos da Nota Fiscal Paulista; dos doadores via boleto, que contribuem todos os meses, além de eventos como um jantar anual, entre outras iniciativas.
Tamanini: Como gestor de uma instituição desse gênero, quais são seus principais desafios?
Ricciardi: Considero que tenho três grandes desafios pela frente. O primeiro é, justamente, entender a gestão hospitalar. O segundo é buscar eficiência na aplicação dos recursos e ser eficaz nas atividades fim do Hospital, assim como dar sustentabilidade financeira à instituição. Por último, buscamos o atendimento humanizado, no que já temos um grande conhecimento. Nesse item, refiro-me ao atendimento integral, desde a qualidade e o cuidado com a infraestrutura, que interfere no atendimento, até a postura de toda a equipe. Com isso tudo em funcionamento, definiremos os rumos que o Hospital seguirá: buscar especialização em um determinado tipo de câncer ou de público, por exemplo. Isso só será definido mais à frente, com o auxílio de todo o conselho curador.
Tamanini: O que o Hospital oferece aos pacientes com câncer hoje em dia?
Ricciardi: No estágio em que o Hospital se encontra hoje, não conseguimos prestar um serviço completo, ou seja, não podemos dizer que o atendimento tenha começo, meio e fim. Na área de Oncologia, o paciente vem para a instituição de saúde graças a uma indicação de um determinado especialista. Se há uma suspeita, é preciso investigá-la, o que significa iniciar a primeira fase do atendimento, o diagnóstico. Nesse momento, são exigidos diversos exames de citopatologia, patologia, ultrassonografia, e assim por diante. Aqui no Hospital do Câncer de Ribeirão Preto, não é possível realizar todos os exames dependendo da área investigada. A segunda fase do processo, depois do diagnóstico confirmado, é seguir o protocolo de tratamento recomendado pelo laudo médico. No entanto, também não tempos esta etapa totalmente implementada na nossa instituição. A terceira fase, muito desejada tanto pelos pacientes quanto pelos profissionais da área, é a fase de apoio, em que é preciso disponibilizar psicólogo, assistente social, fisioterapeuta, etc. Só assim é possível cuidar do paciente com câncer de maneira integral.
Tamanini: Acredita que é possível completar estes ciclos que você mencionou?
Ricciardi: O importante, agora, é criar uma condição que nos permita ajudar a minimizar a deficiência do que é oferecido aos pacientes de Oncologia. Hoje, esse ciclo completo só existe no Hospital das Clínicas e na Beneficência Portuguesa, além das clínicas particulares, onde a situação é bem diferente. O SUS é responsável pelo tratamento da maioria dos casos de Oncologia e é para atender a essa parcela dos pacientes que o Hospital do Câncer precisa se preparar.
Tamanini: Existem convênios com alguma instituição?
Ricciardi: Não, o que existe é uma pequena parceria com o Governo do Estado de São Paulo na área de citologia, que nos permite processar três mil análises mensalmente. Um laboratório nas nossas dependências permite fazer esse trabalho, cujo resultado é reencaminhado ao oncologista. A patologia, por exemplo, não é feita por nós. Para isso, precisamos buscar parcerias com outras entidades.
Tamanini: Essas parcerias são uma boa alternativa?
Ricciardi: Na minha visão, é preciso que haja um grande diálogo entre todas as instituições dedicadas aos cuidados com o paciente oncológico. Seria interessante que todas elas pudessem se dar as mãos para pensar de que maneira, juntas, poderiam atender às expectativas e às necessidades dos pacientes. Ainda mais se levarmos em consideração que a Oncologia está muito avançada, seja no que se refere ao conhecimento e à capacitação dos especialistas, seja na área de equipamentos de alta complexidade e medicamentos bastante específico para os tratamentos. Só faltam, realmente, instituições como a nossa, dedicadas a funcionar como uma ponte entre todos esses recursos e o paciente.
Tamanini: Qual é a realidade do Hospital do Câncer em números?
Ricciardi: Além do laboratório que analisa as três mil lâminas de citologia mensalmente, também realizamos mamografia, ultrassonografia e Raio X. Oferecemos enfermaria e farmácia completa, um centro cirúrgico e uma ala para diagnóstico bucal em andamento. Nossa capacidade de prestação de serviço é ampliada pelo Mamamóvel, ônibus adaptado que realiza uma primeira avaliação em busca sinais de câncer de mama, e pelo Programa Vida Feliz, que leva um grupo de pessoas a escolas com a finalidade de instruir as crianças em relação a hábitos saudáveis que podem minimizar o risco de câncer. O nosso corpo clínico é formado por oncologista, mastologista, enfermeiro, profissional de farmácia, especialistas em laboratório, entre outros.
Tamanini: Nesse momento, qual é a principal necessidade da Fundação?
Ricciardi: Criar receita própria, seja através do credenciamento no SUS ou através da formatação de parcerias com outras instituições de saúde. Estamos iniciando o credenciamento do Hospital do zero, mas, para conseguir, tecnicamente, ainda temos que finalizar o centro cirúrgico, o que demanda muitos recursos. As parcerias com outras instituições estão começando a caminhar agora. Temos aqui outros dois diretores que serão muito importantes nesse processo, o doutor Luiz Benjamin Trivellato, que cuida da parte técnica das atividades fim do Hospital, e Neida Felício, que vai contribuir no relacionamento com os voluntários para ampliar a credibilidade e o volume dos eventos em favor da instituição. Para que eles possam atuar de forma mais ativa, proporemos uma mudança estatutária.
Tamanini: De que maneira acredita que poderá colocar sua experiência profissional em favor desse novo trabalho
Ricciardi: Durante todos os anos de experiência, aprendi bastante a ouvir mais, a lidar com todos os tipos de situações, a buscar decisões mais assertivas, a montar uma equipe eficiente para buscar melhores resultados. Aqui, esse será meu papel. Um dos grandes trabalhos que pretendo desenvolver é, continuadamente, reunir toda a equipe para avaliar o trabalho realizado e propor melhorias. Junto com os profissionais que já integram o Hospital há anos, certamente, será mais fácil encontrar soluções, afinal, foram eles que fizeram o trabalho acontecer até agora.
Tamanini: Como a sociedade pode contribuir com o Hospital?
Ricciardi: Contribuindo, entre outras ações, com a captação de recursos. Vale reforçar que o Hospital é da sociedade, assim como toda associação e toda fundação. Quando os cidadãos passam a enxergar determinada entidade como propulsora de um trabalho honesto, transparente e eficaz, eles vêm e colaboram. Por isso, buscaremos, cada vez mais, dar conhecimento e gerar credibilidade em torno do Hospital, pois estamos aqui e queremos fazer um bom trabalho. Tenho certeza de que a sociedade responderá a isso, como tem respondido há anos.
GRATA SURPRESA
“Antes desta entrevista, não conhecia o atual presidente do Hospital do Câncer. O José Wilson Ricciardi é uma dessas pessoas que dá prazer encontrar pelo caminho, pois está acostumado a se dedicar a causas tão nobres quanto o combate ao câncer. Pessoas como ele, que possam servir ao próximo com empenho doando seu tempo a uma causa, fazem realmente a diferença. Estou certo de que ele fará uma administração competente e transparente à frente da Fundação Sobeccan e, assim, será cada vez mais reconhecido pela sociedade de Ribeirão Preto e região. Desejo sucesso a José Wilson nessa nova missão.”
José Mário Tamanini, presidente do Grupo de Apoio à Criança com Câncer
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Ibraim Leão