Falar livremente
Psicólogo e psicanalista Ionan Ferreira Santos incentiva que pacientes falem de forma livre sobre as próprias dores para clarear o sofrimento psíquico
Fotos: Lidia Muradás
A pandemia do novo coronavírus tem afetado diretamente a saúde mental dos brasileiros. Segundo pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), os casos de depressão quase dobraram e os de ansiedade e estresse cresceram 80% entre março e abril. Em um cenário atípico como esse, os sofrimentos psíquicos ficam ainda mais evidentes e se intensificam, aumentando a angústia humana e disparando a sensação de impotência em um momento inesperado.
As reflexões sobre perdas, danos, lutos e sequelas estimulam as reflexões sobre a vida, a morte e a razão de existir, conforme destaca o psicólogo e psicanalista Ionan Ferreira Santos (CRP: 12/11531), que recorre a princípios do austríaco Sigmund Freud para abrandar o sofrimento de pacientes e defende a livre expressão dos sentimentos para a busca da cura psíquica.
“Os pacientes devem falar livremente sobre suas angústias e seus sofrimentos com destino à cura”, pontua o psicanalista
“Deixem-me falar”
Para justificar a fala livre como principal mecanismo de recuperação, Ionan relembra o início da psicanálise, no final do século XIX, retomando o caso de Anna O. “Esse caso deu início a inúmeros estudos investigados por Freud e outros grandes nomes. Uma paciente de 21 anos manifestou seu desejo de dizer algo sobre seu sofrimento durante o tratamento médico. Anna O. obteve um resultado realmente positivo e tornou-se renomada médica por meio da sublimação de seu sofrimento psíquico, falando livremente. Portanto, a associação livre é a única regra que não pode ser negociada dentro do tratamento analítico: os pacientes devem falar livremente sobre suas angústias e seus sofrimentos com destino à cura”, explica. “A histeria e a sexualidade foram temas determinantes nos estudos do caso Anna O., cujo nome verdadeiro era Bertha Pappenhaim. O histórico de vida da jovem foi marcado pelos sintomas histéricos, entre outros, agravados no período em que prestou cuidados extremos ao pai doente, que veio a falecer”, completa.
A partir do caso de Anna O., estudos sobre a teoria psicanalítica foram expandidos com resultados positivos, partindo de princípios freudianos. “Segundo Freud, a psicanálise em essência é a cura pelo amor. Essa definição deveria ser simples, mas, infelizmente, não é. A psicanálise é um saber diferente. Ela foi criada e desenvolvida por Freud por meio de regras, métodos e técnicas devidamente apropriadas, com o objetivo de resgatar a cura dos males que invadem a alma humana e geram inúmeras doenças”, pontua Ionan, destacando que, à época, a ciência ainda não oferecia respostas às necessidades e às investigações do psicanalista austríaco, obrigando Freud a buscar subsídios fora do meio cientifico.
A psicanálise
Segundo Ionan, a cura psicanalítica não consiste em apagar da memória os traumas e sofrimentos do passado, mas dar para eles um outro olhar, transformando-os em oportunidades de aprendizados, crescimento e renovação. “O inconsciente, a individualidade e a sexualidade fundaram a teoria da psicanálise e são as bases dos estudos teóricos e práticos, desde a era Freud, passando pelo francês Jacques Lacan, que estruturou a psicanálise como linguagem e permitiu que a teoria psicanalítica avançasse por meio de uma linguagem própria. Foi um vasto e complexo caminho percorrido pelos profissionais da área até os dias de hoje”, argumenta Ionan, que cita referências mais atuais da área, como Donald Woods Winnicott, Wilfred Bion, André Green, Melanie Klein, Françoise Dolto e Roberto Harari.
“Somos frágeis e passíveis do inesperado”, comenta Ionan
A dor de existir
O sofrimento é inerente ao ser humano. “Somos frágeis e passíveis ao inesperado. A finitude pode acontecer a qualquer momento em nossas vidas. Isso é o real: a morte é a única certeza absoluta com que nos deparamos. Porém, a vida tem tempo e trajeto próprios, repletos de aprendizados, escolhas, desafios, incertezas, mistérios, encantos, desencantos, alegrias, tristezas e belezas. A natureza e a vida em si comprovam essa realidade, porque viver há de valer a pena”, pontua o psicanalista Ionan.
Com base na obra “Sua majestade, o bebê”, de Freud, o psicólogo retoma as fases de desenvolvimento dos seres humanos, desde o nascimento à vida adulta. “Na evolução da trajetória humana, a infância é um período crucial na fundação das estruturas psíquicas. Os aprendizados adquiridos nessa etapa da vida se consolidam no aparelho psíquico, ecoando até a finitude do indivíduo. Se a infância representa total importância na vida dos seres humanos, a adolescência também invoca inúmeras transformações, gerando sofrimentos múltiplos até a chegada do amadurecimento do ser, e a fase adulta dá continuidade a inúmeras questões e aprendizados que levam o ser humano ao entardecer da vida e à inevitável decadência física — o preço pago àqueles que possuem o privilégio de desfrutar de uma vida longa”, destaca Ionan.
Para o psicólogo, alguns questionamentos se fazem presentes com frequência durante toda a existência. “Afinal, de onde viemos e para aonde vamos? Por que sofremos? Qual é a razão de existir? Enfim, cada um deverá refletir sobre os mistérios da vida e sobre as perguntas que não cabem respostas em razão das limitações humanas”, analisa.
Para Ionan, as melhores escolhas talvez consistam em procurar, de todas as maneiras, viver bem, fazer o melhor, enxergar as possibilidades, aproveitar as oportunidades, acalmar as inquietudes, driblar o sofrimento, tentar diminuir as dores e, principalmente, enxergar o lado bom da vida. “Porque, viver é um estado de graça, portanto, valorizemos o percurso”, conclui.