Falta qualificação

Falta qualificação

Desenvolvimento tecnológico acelerado aliado à falta de capacitação profissional gera escassez generalizada de mão de obra

O crescimento acelerado do Brasil, estimado em torno de 7% para este ano, somado ao desenvolvimento tecnológico e à falta de investimentos em capacitação, dificulta a contratação de funcionários em 67% das empresas brasileiras. Um levantamento realizado pela Fundação Dom Cabral mostra que as empresas não conseguem suprir a demanda em um curto prazo. A falta de qualificação é o principal item apontado pelas 76 maiores companhias do país ouvidas.

A pesquisa mostra que, depois de atingir a construção civil e a indústria naval, a falta de profissionais qualificados chegou aos setores automobilístico, ferroviário, moveleiro, siderurgia, metalurgia, transportes e serviços. Para sanar o impasse, muitas empresas recorrem à seleção em outras regiões do país, no exterior e em cursos de qualificação realizados internamente ou em parceria com instituições de ensino. Para suprir a demanda imediata, seria necessário treinar 1,3 milhão de trabalhadores a mais do quem em 2009.

Em Ribeirão Preto, a situação não foge à regra. Segundo especialistas, o mercado educacional não consegue atender às reais necessidades das empresas. Por consequência, as organizações precisam investir mais em capacitação profissional.

Com programas de treinamentos defasados, Dimas Facioli, consultor e proprietário da Facioli Consultoria, revela que as empresas buscam profissionais em outros mercados, dentro ou fora do país. O consultor explica que há dez anos, para contratar três executivos, por exemplo, o empresário selecionava dez candidatos. Hoje, para suprir o mesmo número, 60 passam pela seleção. “O nível de exigência aumentou, mas o trabalhador não avançou no mesmo ritmo”, ressalta o Dimas.

Escassez para uns, oportunidades para outros, como o gaúcho Juliano Pinzani, que viu na hotelaria hospitalar um nicho de trabalho pouco explorado. Natural de Ijui (RS), chegou a Ribeirão Preto em setembro para suprir uma vaga aberta há quase cinco meses na Maternidade Sinhá Junqueira. Responsável pelo recém-criado setor de hotelaria, Juliano é graduado em Administração Hospitalar com ênfase em gestão e hotelaria hospitalar e pretende dar continuidade aos estudos.

No Sinhá Junqueira, o profissional incrementa o setor, um dos mais complexos da unidade, que engloba desde os cuidados com a recepção e a internação do cliente até a rouparia do quarto, a limpeza, a manutenção, entre outras áreas. “Estamos melhorando e aperfeiçoando os processos de cada segmento”, ressalta o gestor. José Carlos Moura, gerente administrativo da Maternidade, aponta que o mercado está em ebulição, porém os trabalhadores não se desenvolveram profissionalmente no mesmo ritmo. Apesar de muitas vagas disponíveis nas mais diferentes áreas, o empresário não encontra funcionário gabaritado para assumir determinada função.

Além de gestores, as áreas de suprimentos, de manutenção e o financeiro também sofrem com a falta de qualificação profissional. “As instituições de ensino precisam criar novos cursos que atendam às necessidades das empresas, sejam em serviços, no comércio ou na indústria”, alerta José Carlos.

Para Marcelo Brandão, professor de Gestão em Recursos Humanos, pesquisador e responsável pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a falta de estímulo ao estudo é um agravante. A exigência em relação aos horários de trabalho e os baixos salários dificultam ainda mais o acesso do trabalhador, não só à graduação profissional, mas também à educação continuada, com cursos de pós-graduação, mestrado, técnicos ou de especialização.

Ao contrário do passado, hoje a construção civil investe muito em capacitação. “Os salários melhoraram e isso tem um reflexo direto no número de contratações”, frisa Marcelo. Dados do Caged apontam que na região, de janeiro a agosto, a construção civil saltou para a segunda posição no ranking de geração de vagas formais, com um saldo positivo de 2.376 vagas. Nesse período, a cidade registrou um saldo de 10.506 vagas formais. O total reflete a variação positiva, que é a diferença entre admissões (69.185) e demissões (58.679). O setor que mais empregou foi o de serviços (4.615). O comércio (2.026) e a indústria (1.011) ficaram respectivamente com o terceiro e quarto lugar na geração de vagas positivas.

Em Sertãozinho, a maior dificuldade é encontrar profissional especializado em gestão, em administração, em produção e em logística. Sinlei Bertoni, coordenadora de Recursos Humanos da Brumazi, revela não encontrar dificuldades com relação aos cargos operacionais, basta fazer um bom trabalho de divulgação que obtém resultados. Mas com as vagas de gestão não há profissionais bem preparados disponíveis. “Gerente industrial é um exemplo”, frisa. Para sanar a questão, a Brumazi possui um plano de treinamento anual que atende às necessidades de capacitação e de desenvolvimento em todas as áreas.

Treinamento interno é também o responsável por manter em alta a qualificação dos funcionários da OuroFino, em Cravinhos, e suprir as necessidades internas. Depois de perder muitos trabalhadores especializados para outras indústrias, a empresa investe em capacitação e também na parceria junto a instituições de ensino superior, com a abertura de estágios em várias áreas. “Oferecemos treinamento, cursos em outras localidades, bolsas de estudo para o ensino superior, MBA ou línguas”, explica Ruben Guimarães, diretor de Recursos Humanos da empresa.

Acesso de todos
Com 950 vagas disponíveis em Ribeirão Preto, o Centro de Apoio ao Trabalhador (CAT) e os Postos de Atendimento ao Trabalhador (PAT) oferecem opções de trabalho e também a oportunidade para capacitação e aperfeiçoamento profissional. “Hoje, o profissional precisa ter postura, comprometimento, planejamento de carreira, entre outros fatores. Entendendo que salário é meio e não fim”, orienta a
diretora regional do PAT em Ribeirão Preto, Rita Aparecida Ribeiro Vieira.

Para suprir as deficiências do profissional menos qualificado, o órgão viabilizou para o município, há quatro anos, a realização de vários cursos de curta duração. A ação foi realizada em parceria com o SENAI, com a Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho do Estado de São Paulo (SERT), por meio da Comissão Municipal do Emprego (CME). Dessa forma, o trabalhador recebe uma bolsa de estudos no valor de R$ 210,00 e R$ 120,00 de ajuda de custo para o transporte. Só este ano, cerca de duas mil pessoas passaram pelos cursos, que também são oferecidos pelo SENAC e pelo Centro Paulo Souza.

Considerado um dos mais importantes polos nacionais de geração e difusão de conhecimento aplicado ao desenvolvimento industrial, o SENAI é parte integrante do Sistema da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e das Federações das Indústrias dos estados e apoia 28 áreas industriais. Na cidade, cerca de seis mil pessoas estão matriculadas, como aponta Valdeir Borges, coordenador da Instituição.

Para muitos, o SENAI é a garantia de emprego certo, pois a instituição insere o aluno no mercado de trabalho. Ricardo Henrique Barbin, de Guariba, e Danilo Messias, de Cajuru, já estão empregados. Ambos almejam a carreira de Engenharia Mecânica. “A qualidade dos cursos oferecidos pelo SENAI abre as portas”, reforça Danilo.

Já no Centro de Qualificação Social e Profissional, mantido pela Prefeitura de Ribeirão Preto, os 22 cursos oferecidos gratuitamente e a capacitação do trabalhador para o mercado formal e autônomo é o foco central. “Este ano, mais de três mil pessoas estão sendo atendidas”, explica Rosangela Fontanezi, coordenadora do Centro.

Para suprir as necessidades do mercado o Centro Universitário Barão de Mauá ampliou as opções de cursos oferecidos por meio do Barãotec. O centro de educação tecnológica oferecerá, em 2011, 14 novos cursos voltados às áreas de gestão, tecnologia da informação, gastronomia, estética e cosmética. Além da qualidade do corpo docente, formado por profissionais atuantes, o curso tem como diferencial a vivência e a prática profissional do aluno, como destaca o coordenador geral, José Armando Calderaro. As inscrições para o vestibular vão até o dia 4 de novembro.

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