Fazendo a diferença
Projeto insere jovens na programação da Feira Nacional do Livro
É tempo de cultura: começa hoje a 14ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto. Até o dia 25 de maio, diversos endereços da cidade serão tomados por uma extensa programação cultural, que tem no livro e na leitura a principal motivação. Em 14 anos de história, o evento passou por várias etapas, tendo se tornado, em 2004, responsabilidade da Fundação Feira do Livro, entidade sem fins lucrativos presidida atualmente pelo cineasta Edgard de Castro, com Adriana Silva e Sérgio Lago, ambos ex-secretários da Cultura do Município, como vice-presidentes.
Mas o trabalho a ser conferido pelo público — são esperadas mais de 600 mil pessoas — acontece durante o ano inteiro. Desde o fim da 13ª edição, a Feira de 2014 começou a ser planejada. “Assim que encerramos o evento do ano passado, iniciamos as conversas que definiriam os novos rumos da Feira”, conta Viviane Mendonça, superintendente da Fundação Feira do Livro. Segundo ela, uma das preocupações mais latentes da diretoria da Fundação estava em ampliar a inserção dos jovens na programação, que marcaram alguns noticiários sobre o evento em 2013.
Um dos projetos desenvolvidos para isso foi nomeado “Jovens Protagonistas”, com a proposta de desenvolver um trabalho contínuo com adolescentes da zona Norte de Ribeirão Preto. “A ideia era propor que esses jovens participassem ativamente da programação do evento, sugerindo o que eles gostariam de ver. Mais do que isso, nossa intenção foi convidá-los a se tornarem agentes culturais em seus bairros, mostrando que é possível transformar o local onde vivemos e que a cultura pode ser um bom caminho para isso”, explicou Edgard de Castro.
Foi o que começou a acontecer em meados de 2013. Convidado pela Fundação, o produtor cultural Elieser Pereira abraçou a proposta de criar um grupo de jovens interessados em conhecer mais os ingredientes do protagonismo juvenil. “Eu já havia participado de algumas edições da Feira, desenvolvendo workshops agendados para estudantes nos Estúdios Kaiser de Cinema. Assim, pude conhecer mais de perto o trabalho e encontramos um caminho para trilhar juntos”, conta Elieser.
Já familiarizado com ações direcionadas a jovens moradores das periferias, o produtor iniciou uma busca nas escolas dos bairros Adelino Simioni, Quintino Facci II e Avelino Alves Palma. “Visitei várias salas de aula apresentando o projeto e convidando a todos para participar. Depois de algumas entrevistas, formamos um grupo de dez jovens, que aceitaram o desafio de se tornar protagonistas de sua história”, recorda. O projeto, que ganhou também a parceria da mentora Luciana Ramos Balieiro, teve início em agosto de 2013.
Por meio de encontros semanais, realizados no Centro Cultural Quintino II, os Jovens Protagonistas passaram a ter acesso a conceitos importantes, como cidadania, elaboração de projetos culturais, ocupação dos espaços públicos, entre outros. “Junto aos jovens, definimos interesses e prioridades, discutimos maneiras de atuar ativamente junto à comunidade e desenvolvemos diversas ações”, lista Luciana. Entre elas, está a pintura do próprio Centro Cultural, que passou a receber workshops, aulas, encontros, etc. O Dia das Crianças da comunidade também teve a interferência direta dos jovens protagonistas e foi um sucesso, mobilizando muitas famílias do entorno.
A Revista Entre Nós, lançada recentemente, também é resultado do trabalho desenvolvido junto aos jovens. Na publicação, estão expostos diversos conceitos trabalhados semanalmente, assim como dicas para quem quer saber mais sobre a formação de coletivos culturais, especialmente para o público jovem.
Além disso, a Feira do Livro será palco da interferência direta desses adolescentes. No dia 24 de maio, data em que os direitos da juventude estarão no centro do debate, um espaço estará garantido para os jovens na Praça Carlos Gomes. No local, haverá pista de skate, quadra de basquete, espaço para grafite, batalha de MCs e um palco aberto para o talento juvenil. Além disso, uma rádio será operada pelos integrantes do projeto ao vivo e deve agitar a cena cultural do evento.
Nas últimas semanas, os adolescentes visitaram diversas escolas ribeirãopretanas, convidando cada estudante a fazer parte da programação. Desta forma, transformaram-se em multiplicadores culturais, papel que devem continuar desempenhando dentro de sua comunidade quando o Jovens Protagonistas migrar. “A intenção é fazer com que este projeto circule por outros bairros, impactando positivamente, como aconteceu com os meninos da zona Norte, na vida de mais adolescentes”, esclarece Luciana.
A Feira traz, também, uma ampla programação direcionada ao público jovem. Para este público, estão reservados os Estúdios Kaiser de Cinema, que receberão a Fábrica do Conhecimento, com diversas oficinas, como de Iniciação Circense, Novos Escritores, Robótica, Grafite, Dança de Rua, DJ e MC. Para o local, também estão programados espetáculos teatrais, apresentações musicais e salões de ideias, como o da psicóloga e educadora sexual Laura Muller. A programação completa pode ser conferida no site da Fundação Feira do Livro, www. feiradolivroribeirao.com.br.
Uma adolescente bem madura
Durante sua trajetória, a Feira do Livro ribeirãopretana passou por diversas etapas, mas algumas características foram preservadas. Desde a primeira edição, o evento é oferecido à população gratuitamente, ao mesmo tempo em que faz um convite à ocupação dos espaços públicos. A céu aberto são reunidos, desde 2001, estandes de inúmeras editoras, traço que colocou a Feira da cidade entre as maiores do gênero no país. A isso, foram agregados, ano a ano, outros valores: encontro com escritores, palestras, salões de ideias e muito mais.
Somou-se à leitura, ainda, outras formas de cultura, como apresentações teatrais, cinema e música, incluindo shows com grandes nomes da música brasileira, que funcionaram como importantes atrativos para o público que, talvez por falta de oportunidade, estivesse apartado dos livros. Dessa maneira, foi construída uma nova Feira, cuja marca registrada, entre outras, tornou-se a diversidade cultural.
Tal característica está garantida na 14ª Feira Nacional do Livro. As mais de 600 atrações contemplam diversas formas de cultura, em 14 endereços diferentes. Repetindo a fórmula de 2013, três locais reúnem boa parte dos eventos: Praça XV de Novembro, Esplanada e Theatro Pedro II; Parque Maurilio Biagi e Estúdios Kaiser de Cinema. No primeiro núcleo, está concentrada a maior parte dos estandes de livros, também espalhados nos demais locais, e muitas palestras, salões de ideias e mesas de debate, que são a grande novidade deste ano.
Pela primeira vez, a programação possui uma temática central, que norteará todas as atrações: “A história em suas mãos – o livro e a leitura diante dos novos direitos civis e dos novos sujeitos sociais do Brasil”. A nova proposta foi desenvolvida para abrir espaço para o debate e contou com a orientação do filósofo César Nunes, que é professor da Unicamp e antigo frequentador da Feira do Livro de Ribeirão Preto.
Juntamente com a equipe da Fundação, foram elencados dez personagens que merecem ser discutidos: a criança, a mulher, o idoso, o negro, o índio, o deficiente, o homossexual, o meio ambiente, a juventude e os direitos humanos no Brasil. “Desta maneira, a 14ª Feira Nacional do Livro inova, mais uma vez, contribuindo, efetivamente para a construção de uma sociedade mais cidadã e também servindo de exemplo para outros eventos do gênero no país”, pontua César, que estará em um Salão de Ideias no auditório do Centro Cultural Palace (1º andar), no dia 18 de maio, às 14h.
Faz parte deste modelo, ainda, a Carta Aberta da 14ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que já está disponível para assinaturas na internet. O documento é endereçado, primeiramente, ao povo brasileiro e, em segundo plano, aos poderes constituídos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. A Carta reafirma os 10 temas que compõem a Feira e ressalta alguns valores priorizados pelos organizadores do evento. Depois de convocar a participação do público, a intenção é recolher as principais demandas elencadas durante os debates promovidos e transformá-la em um instrumento de pressão, a ser entregue às autoridades municipais, estaduais e federais. A Carta já está disponível para assinaturas on-line, no site do evento.
Grandes nomes
Mais uma vez, a 14ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto é marcada pela pluralidade de atrações literárias, trazendo ao palco do interior paulista nomes consolidados do mercado editorial, assim como pesquisadores e intelectuais reconhecidos. A começar pelo convidado internacional Mauro Maldonato, psiquiatra e professor que tem o tempo como uma das temáticas centrais de seus trabalhos. Entre os nomes que retornam a Ribeirão Preto e prometem atrair a atenção do público estão a filósofa Márcia Tiburi, o escritor Cristovão Tezza, o rapper, ator e ativista MV Bill, o filósofo, escritor e educador Mário Sérgio Cortella e o escritor Ignágio de Loyola Brandão.
Estarão pela primeira vez no evento a militante política Clara Charf, viúva do guerrilheiro Carlos Marighella, o ator Gregório Duvivier, o deputado federal Jean Wyllys, a escritora Liliana Syrkis, o jornalista e escritor Ruy Castro, o jornalista Xico Sá e o também jornalista e escritor Fernando Morais. Atual presidente da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado participará da Feira no dia 16 de maio, por meio de um vídeo pelo Skype, já que cancelou sua vinda à cidade por motivo de saúde. A premiada autora infanto-juvenil é uma das homenageadas da 14ª edição do evento, que também faz referência à África do Sul, a Darcy Ribeiro, como autor da educação; a Ely Vieitez, como autora local, e a Mario Quintana, como escritor. O patrono do evento de 2014 é José Carlos Ferreira de Oliveira Filho, engenheiro metalurgista que comandou por diversos anos a OHL Brasil. À frente da concessionária rodoviária, estreitou sua relação com a Feira do Livro por conta da parceria, que continua até hoje. Para o encerramento do evento, está programada uma apresentação da Bachiana Filarmônica SESI-SP, regida pelo maestro João Carlos Martins.
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian e arquivo Revide
Diagramação: Lucas Chaibub