Febre maculosa
As capivaras estão entre os hospedeiros do carrapato-estrela, mas não são os únicos

Febre maculosa

Apesar do surgimento repentino de casos e de mortes em São Paulo, doença é rara e prevenção, simples

Os 53 casos e oito mortes por febre maculosa registrados no país apenas este ano trouxeram medo à população e chamaram a atenção para uma doença que existe no Brasil desde 1929, quando foi registrada pela primeira vez. Segundo boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, todos os óbitos por febre maculosa em 2023 ocorreram na região Sudeste (seis em São Paulo, um em Minas Gerais e um no Rio de Janeiro). No Estado de São Paulo, até o dia 15 de junho, haviam sido registrados 17 casos. Em 2022, foram registrados 63 casos, com 44 óbitos confirmados e, no ano anterior, foram 87 casos e 48 mortes, conforme os dados da Secretaria de Estado da Saúde.


A transmissão da febre maculosa ocorre por meio do contato com o carrapato-estrela infectado pela bactéria do gênero Rickettsia. Normalmente, esse carrapato vive em regiões de parques e matas e nos animais que frequentam estes locais, como as capivaras. Não há transmissão de pessoa para pessoa. Do total de óbitos confirmados em São Paulo este ano, quatro foram de pessoas que estiveram em um mesmo evento, na Fazenda Santa Margarida, na região de Campinas. Outras regiões com maior frequência de casos são Piracicaba, Assis e Sorocaba. “Ao se aventurar em regiões de mata e cachoeira, é importante estar ciente de que estamos no período de reprodução do carrapato-estrela, ocorrendo o risco de transmissão da febre maculosa através de sua picada”, explica Tatiana Lang, Diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo.


Em Ribeirão Preto, foram notificados quatro casos suspeitos de febre maculosa este ano. Todos foram negativados e descartados, segundo a Divisão de Vigilância Ambiental em Saúde, órgão da Secretaria Municipal da Saúde. Por meio de nota, a Divisão informou, também, que atua na vigilância e no controle da febre maculosa de acordo com as normas e diretrizes da Superintendência de Controle de Endemias da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. O órgão atende com frequência as notificações quanto à presença de carrapato vindas da demanda espontânea da população. Nestas áreas, como os parques públicos de Ribeirão Preto, por exemplo, são realizadas visitas para identificação do carrapato, avaliação do nível de infestação e orientações à população quanto às medidas preventivas que devem ser adotadas.


Por ter a capivara como hospedeiro, animal que vive em áreas verdes próximas a córregos, o controle de carrapatos é feito por meio da poda periódica das árvores e da grama bem rente ao solo, para permitir a incidência de raios solares e a consequente eliminação dos carrapatos por dessecação, informa o órgão municipal. “O controle químico não é indicado porque os carrapatos ficam embaixo das folhas e não são atingidos pelo produto químico, além dos possíveis danos ambientais causados por essa ação”, complementa a nota.

 

Parque Olhos D’Água


Um dos espaços públicos de Ribeirão Preto com o maior número de capivaras é o parque Olhos D’Água, fechado ao público desde julho de 2021 por causa de uma infestação de carrapatos do gênero Amblyomma, situação que está sendo monitorada pela Secretaria Municipal da Saúde por meio da Divisão de Vigilância Ambiental. O órgão informa que, desde o fechamento do local, deu início a uma série de trabalhos realizados conjuntamente pelas Secretarias Municipais e Estaduais do Meio Ambiente e Saúde para a avaliação e classificação da área, identificação da espécie de carrapatos e também para verificar se existia a presença da bactéria causadora da febre maculosa.


Segundo a pasta, após a classificação, levantamento do nível de infestação, população de capivaras, estrutura do parque, entre outros, foi submetido ao Estado uma solicitação para colheita de sangue e sorologia das capivaras. O material foi colhido e encaminhado para análise e o resultado foi não reagente. Na sequência, foi realizada uma inspeção por técnicos do Estado para verificar “in locu” a problemática do parque. “Dessa maneira aguardamos o parecer das Secretarias de Estado da Saúde e Meio Ambiente com as orientações para a próxima etapa do processo”, diz o informe do órgão municipal.  


A nota continua. “Embora não exista o risco iminente da transmissão da febre maculosa brasileira, conforme o resultado da sorologia, ainda deveremos aguardar para reabrir o parque, pois a infestação de carrapatos continua elevada, o que pode trazer riscos à saúde da população humana e também animal que frequenta o local. Os trabalhos estão em andamento, sendo os próximos passos a realização do manejo reprodutivo dos animais e o cercamento da Área de Preservação Permanente. Nesse momento, foi contratado o serviço de castração, que está na fase de encaminhamentos do projeto à Secretaria Estadual do Meio Ambiente para início dos trabalhos”, finaliza.

 

Diagnóstico e tratamento precoce salvam vidas


A médica veterinária Fernanda Battistella Passos Nunes, integrante da Comissão Técnica de Médicos-veterinários de Animais Selvagens do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo, afirma que os sintomas da febre maculosa podem ser confundidos com outras doenças como dengue e leptospirose. “Os sintomas são subjetivos e facilmente confundidos com uma gripe ou até mesmo com a Covid-19, que são febre, mialgia (dores de cabeça e no corpo) e manchas avermelhadas, iniciando nas mãos e solas dos pés. Por isso, deve-se informar precocemente (até 48h do início dos sintomas) que a pessoa frequentou áreas de pesqueiro, sítios, matas, fazendas, ou trilhas ecológicas, locais onde possa ter tido contato com animais e ser picada por um carrapato”, orienta.


Apesar da letalidade, que chega a 70% no Estado de São Paulo, a médica veterinária afirma que a febre maculosa é uma doença rara, já que menos de 1% da população de carrapatos é infectada pela bactéria. “Contrair febre maculosa é mais raro do que contrair a dengue. Desta forma, sem informação adequada e com sintomas subjetivos, há um risco grande de erro de diagnóstico. Muitas pessoas contaminadas acabam vindo a óbito devido à falta de tratamento adequado precoce”, explica Fernanda. A Secretaria de Estado de Saúde São Paulo elaborou uma cartilha, disponível no site (https://portaldenoticias.saude.sp.gov.br/febre-maculosa-saiba-mais-sobre-as-principais-medidas-de-combate-e-prevencao/) com informações sobre as principais medidas de combate e prevenção à doença.

 

Prevenção 

 

• Evitar transitar em locais com mato alto. Repelentes também podem ser eficazes contra picadas de carrapatos.

• Em ambientes de mata, usar roupas claras com manga longa, calça comprida e calçado fechado, de preferência de cano longo.

• Não frequentar áreas sinalizadas de infestação de carrapatos.

• Verificar com frequência se há algum carrapato preso ao corpo. Quanto mais rápido o carrapato for retirado, menor o risco de contrair a doença.

• Caso seja encontrado carrapato no corpo, retirar com auxílio de uma pinça torcendo levemente. Não esmagar os carrapatos unhas, pois pode ocorrer a liberação de bactérias que têm capacidade de penetrar através de microlesões na pele. 

• Manter vigilância constante sobre os animais domésticos (cães e gatos) que possam estar transportando os carrapatos. Aplicar, rotineiramente, carrapaticidas.

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