Festival da literatura
Ribeirão Preto recebe mais uma vez uma verdadeira festa da literatura com programação para todos os gostos
Debutando no universo das feiras literárias, a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, uma das sete maiores da América Latina, chega com fôlego de adolescente e sabedoria anciã aos seus quinze anos, oferecendo extensa programação. o patrono é o empresário Chalim Savegnago e o autor local homenageado é Divo Marino, ambos idealistas da cultura e da literatura, entusiastas do seu poder transformador sobre o ser humano
Que rufem os tambores: a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto vai começar! A partir do dia 14 de junho, por oito dias consecutivos, a cidade e a região poderão respirar literatura. Acesso facilitado à compra de livros dos mais variados gêneros e das mais diferenciadas editoras, em plena praça pública, e a proximidade com o pensamento dos mais conceituados escritores da atualidade, nas sessões de autógrafos, salões de ideias e conferências programados para acontecer nos três períodos, durante toda uma semana, são apenas algumas vantagens que a realização do evento na cidade proporciona.
Durante uma semana, o que se vivencia nos pontos estratégicos que dão suporte à feira — o Theatro Pedro II, o Centro Cultural Palace, a Praça XV de Novembro, a Biblioteca Padre Euclides, O Museu de Arte de Ribeirão Preto, a Praça Carlos Gomes, o Colégio Marista, a OAB-SP, o SESC, a Escola Estadual prof. Dr. Domingos João Baptista Spinelli e o Centro Cultural Quintino Facci II —, é uma intensa concentração de pessoas de todas as idades, trocando conhecimento. Além do livro, também a música, a dança, as artes plásticas e o teatro ganham projeção nestes dias.
Na edição de 15 anos, a organização da Feira propõe o encontro dos tempos, para que o público tenha novos olhares sobre o passado, o presente e o futuro. “São os encontros que aquecem todas e quaisquer iniciativas. É um tema muito feliz porque nós entendemos que o encontro é uma base inicial para o que vem depois”, afirma a vice-presidente e curadora do evento, Adriana Silva.
Para ela, os 15 anos de Feira do Livro promovem o encontro dos tempos. “É o passado que bem ali detrás segue soprando bons ventos para seguirmos. É o melhor tempo de lembrar quanto importante foi para este país o educador Rubem Alves. Momento mais do que oportuno para saudar Mário de Andrade, homem que visitou o futuro para fazer o que fez no passado. Foi ele quem disse que o passado é lição para se meditar, não para se reproduzir. Que pensando em Rubem Alves, o homem educador, e em Mário de Andrade, o homem do futuro, a gente pense no Brasil, nosso homenageado nesta edição histórica”, diz Adriana.
HOMENAGENS MERECIDAS
Como tradicionalmente acontece, em sua 15ª edição, a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto presta algumas homenagens relevantes. Como país, para o Brasil; como autor, Mário de Andrade, escolhido por votação na internet, realizada no ano passado; como autor Educação, Rubem Alves, um dos intelectuais mais famosos e respeitados do país; como autora infanto-juvenil, Ruth Rocha, ganhadora do Prêmio Jabuti em 2012; e, como autor da região, o escritor e professor Divo Marino.
Para assumir a responsabilidade como patrono da 15ª edição, foi escolhido o empresário Chalim Savegnago, patrocinador do evento há vários anos. “Sempre investirei na Cultura, que para mim é base de tudo. Não adianta desejar um país melhor, sem criminalidade, com mais segurança e igualdade, se não investir na Cultura e na Educação”, aponta o empresário.
A Feira do Livro coloca a cidade em um patamar cultural diferenciado que, segundo o autor da terra homenageado deste ano, Divo Marino, deveria ser melhor valorizado pelo ribeirãopretano. “Essa é, realmente, uma grande data, um período do calendário da cidade muito importante. É um momento em que todos se lembram do livro. É uma forma de ressuscitar o amor ao livro. Pode até parecer sem importância ou de pouco sucesso para alguns, mas, assim como o livro, o importante da Feira é existir”, ressalta o escritor.
DESTAQUES DA PROGRAMAÇÃO
A programação da Feira em 2015 conta com 56 salões de ideias previstos para abordar os mais variados temas, entre eles, a violência nas escolas, o futuro do jornalismo, a sexualidade e as drogas, os rumos da literatura, o consumo de água, a literatura ao alcance do deficiente visual e a formação de professores. Alguns grandes autores participantes são Eliane Brum, Pedro Bandeira, Ignácio de Loyola Brandão, Guiomar de Grammont, Maria Rita Kehl e Gregório Duvivier.
A lista de conferências conta com nove grandes nomes: Mário Sérgio Cortella, Heloisa Starling, Lira Neto, Luiz Felipe Pondé, Augusto Cury, Frei Betto, Robson Rodovalho, Ana Miranda, César Nunes e Ana Maria de Araújo Mello.
Os lançamentos incluem uma quarta edição do livro premiado pela Academia Brasileira de Letras, do autor homenagenado, Divo Marino, “O Populismo Radiofônico em Ribeirão Preto”; a obra “Odilla Mestriner: O Olhar do Colecionador”, de Rogério Ruiz e Paulo Fabrino; e a coletânea “Combinando Palavras com Ariano Suassuna”, obra coletiva de alunos do Otoniel Motta.
O calendário ainda conta, além dos encontros temáticos, “A História Impressa”, com diversos autores e profissionais, quatro espetáculos, quatro apresentações de corais, sete saraus, três oficinas, quatro contações de histórias, uma leitura dramática e três exposições. A programação completa pode ser conferida no site do evento: www.feiradolivrorp.com.br
UM PATRONO MECENAS
Presidente-executivo de uma rede de supermercados que emprega quase seis mil pessoas, Sebastião Edson Savegnago, o Chalim, conhece bem o peso da responsabilidade. Por isso, embora surpreso, não se fez de rogado ao convite para ser o patrono da 15ª edição da Feira do Livro. “Nunca imaginei ser convidado. Fiquei muito emocinado. Pelo tanto que admiro e tenho carinho especial pela Feira, achei uma honraria ser patrono, ainda mais da 15ª, que é uma edição especial. Gostei muito e faço questão de falar onde posso que sou o patrono da Feira do Livro de Ribeirão Preto. Para mim, esse é um grande título”, afirma Chalim.
Um orgulho que faz sentido. Afinal, 2.296 escritores e 504 artistas já passaram pelo evento, aproveitado gratuitamente por mais de cinco milhões de pessoas nos últimos quinze anos. Se Ribeirão Preto ainda não percebeu toda a dimensão da Feira, o empresário Chalim, habituado a enxergar longe, acredita em seu potencial e investe para que ela aconteça. “Esta é minha primeira participação como patrono, mas somos patrocinadores há vários anos. Temos visto a importância do evento em benefício da cultura, o tanto de pessoas que participam, o quanto incentiva a leitura e achamos isso muito importante para despertar o conhecimento”, avalia.
Esta relação de respeito e admiração pelo evento está impressa não apenas no patrocínio ofertado como também no usufruto e na valorização da programação. As crianças assistidas pela Instituição Aparecido Savegnago são um exemplo, pois terão a oportunidade de visitar a Feira do Livro. Segundo Chalim, além das aulas gratuitas de música e de artes, os alunos também recebem livros em doação e são incentivados a ler, depois a contar e escrever o que leram.
Pragmático, o patrono aproveita para chamar a atenção do empresariado sobre a necessidade de uma mudança de postura que possibilite não apenas a manutenção, mas o desenvolvimento da Feira do Livro. “Os governos Estadual e Federal nos dão condições, através do PROAC e da Lei Rouanet, de destinar parte de nosso imposto devido ao Estado e à União para o benefício de instituições e entidades de nossa escolha e confiança. O empresariado precisa pensar melhor sobre isso, perceber que não há nenhum custo extra, que só depende da vontade e da disposição para fazer. É preciso deixar esse dinheiro aqui na região, nas mãos de pessoas que fazem eventos bem feitos, como é o caso da Feira do Livro”, afirma Chalim.
INSTITUIÇÃO APARECIDO SAVEGNAGO, A CASA DA CIDADANIA
Aparecido Savegnago deixou um legado aos seus filhos de preocupação com o aspecto social, o que os levou a homenagear o pai com a realização de um sonho: a criação da “Instituição Aparecido Savegnago”. Nascida em 2007 com a missão de atender e beneficiar crianças e adolescentes carentes, com a realização de cursos gratuitos, a instituição oferece aulas no contraturno escolar, nas áreas de música, arte, teatro, idiomas e informática para 230 crianças.
As vagas são preenchidas 70% por crianças carentes de Sertãozinho e 30% por filhos dos funcionários da Rede Savegnago. As crianças aprendem disciplina e dependem de boas notas e frequência nas aulas do ensino regular para continuarem participando das atividades oferecidas pela instituição. A expectativa, segundo a presidente, Shirley Pais Savegnago, esposa de Chalim, é ajudar um número cada vez maior de crianças a ter acesso aos benefícios da Cultura.
UM DIVO NA FEIRA

Uma das grandes oportunidades que a Feira do Livro oferece à população de Ribeirão Preto e região é conhecer — e reconhecer —, os trabalhos desenvolvidos na área literária por escritores locais e regionais. Este ano, por exemplo, quem nunca ouviu falar dele, nunca leu um dos seus 12 livros ou algum dos seus artigos semanais publicados no jornal A Cidade, tem a oportunidade de saber que Divo Marino, aos 90 anos, permanece ativo e merecedor da justa homenagem.
Gozador, o eterno professor, diz que está “velho demais” para a honraria, mas que foi uma surpresa boa. “Nunca imaginei ser lembrado, não sou escritor de carreira, mas me sinto orgulhoso e agradecido”, ressalta. Natural de São Carlos, Divo se declara um ribeirãopretano convicto. “O fascínio de Ribeirão Preto é ser uma grande cidade onde as classes sociais são misturadas, a elite penetra no meio do povo. Esse tipo de democracia espontânea, que não é política, precisa sempre existir. Por isso, dificilmente o cara que muda para Ribeirão Preto vai embora”, analisa o escritor.
Ainda que não tenha feito carreira, como afirma, Divo é autor de “João Marangalha”, “O Desenho Infantil e a Sexualidade”, “Influência do Meio Sobre o Desenho Infantil”, “Metodologia do Desenho da Criança”, “O Desenho da Criança”, “Libertar a Criança pela Arte”, “Legislação sobre Comunicação a Serviço da Aldeia Global”, “O Populismo Radiofônico de Ribeirão Preto”, “Os Farsantes”, “A Casa Modernista”, “A Cidade do Conde” e “Orquídeas para Lincoln Gordon”.

A relação de proximidade com o livro e a leitura, segundo ele, ocorreu por influência do avô, que tinha a casa repleta de volumes. “O livro é comum na minha vida”, declara, sentado em frente ao notebook, em uma sala com estantes lotadas, do chão ao teto. Questionado se leu todos eles, responde: “Quase todos”.
Seu livro “O Populismo Radiofônico de Ribeirão Preto” recebeu, em 1976, o Prêmio Alfred Jurzykowski da Academia Brasileira de Letras e será relançado na 15ª Feira do Livro, em quarta edição, com prefácio de Adriana Silva. “Livro, para mim, é uma coisa muito comum. Gosto do livro em geral e isso me levou a escrever. Meu traço principal está na capacidade de prestar atenção nas diferentes linguagens: o desenho da criança é um exemplo, a caricatura é outro. Minha vida teve muita atividade nesse sentido, fiz milhares de caricaturas”, explica o escritor.
Além de ensinar e escrever, Divo cultivou também, desde a infância, o dom para o desenho. Tornou-se pintor e caricaturista e criou, no Colégio Otoniel Motta, onde trabalhou por 37 anos, a primeira escolinha de arte da cidade e do Estado de São Paulo. Entre as suas contribuições para a cidade, como Secretário Municipal da Educação e da Cultura, destaque para a criação do Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP) e do Arquivo Público e Histórico Municipal.
Para o autor local homenageado, a Feira do Livro deveria ser tratada pelo poder público e pela população como um grande momento de mudança do panorama cultural comum. “Não basta apenas comparecer à Feira do Livro, mais do que em outros anos. Esse modelo vivenciado por parte dos cidadãos, durante o período da feira — de gostar mais do livro —, deveria ser algo permanente. Feira do Livro e Ribeirão Preto combinam muito bem e esse deveria ser o símbolo, a marca da própria cidade”, enfatiza Divo.
Texto: Yara Racy
Foto da capa: Júlio Sian
Produção da capa: Marcela Versiani
Fotos: Júlio Sian e Ibraim Leão.