Flexibilidade é essencial
Na avaliação do psicólogo Guilherme Davoli, exercer a paternidade nos dias atuais depende, como nunca, de disposição para dialogar e para se adaptar à realidade, em constante e rápida transformação
Entre as características mais marcantes da sociedade contemporânea está a velocidade das mudanças ocorridas nas mais diversas áreas. Impulsionadas pela tecnologia, as transformações impactam tudo e todos, desde os hábitos de consumo até a construção dos relacionamentos, fazendo com que o perfil das gerações seja redefinido rapidamente. Se, antigamente, os estudiosos reavaliavam as características das crianças e dos jovens em intervalos de aproximadamente 20 anos, hoje, fazem isso a cada nova década ou menos. Segundo o psicólogo Guilherme Davoli, cinco anos podem ser suficientes para alterar a dinâmica das crianças e dos jovens e fazê-los adquirir novas denominações.
Tanta rapidez desafia, também, os pais, que precisam garantir altas doses de flexibilidade para acompanhar as transformações em pleno curso. Pai de Danyela, de 24 anos, e de Lays, de 19 anos, Guilherme, que também é consultor educacional e empresarial, acredita que o maior desafio de ser pai é conciliar o aprendizado recebido em seu tempo às novas demandas e necessidades, andando junto, apesar das diferenças, que seguem em alteração quase instantânea. Para isso, garante, na sua casa, amplo espaço para o diálogo sobre os anseios trazidos pelas filhas antes de apresentar a elas suas próprias ideais.
O papel do pai na criação dos filhos vem sofrendo transformações ao longo dos anos?
Com certeza. Se há alguns anos, a figura paterna era marcada pela austeridade (o protetor que atuava a partir de seus valores e da sapiência da idade), enquanto as mães se envolviam quase que exclusivamente com a rotina dos filhos, hoje, observamos que, com a condição semelhante de trabalhos entre pais e mães e, principalmente, com as diferentes linguagens de cada geração (acredito que um casal com dois filhos que tenham cinco anos de diferença é um casal com dois filhos únicos, em razão de tantas diferenças), a atuação paterna tem exigido a prática de uma capacidade de conversa e interpretação para qual nunca foram preparados. Meninos historicamente ainda são educados para o comando e raramente para o diálogo. A atuação do pai deixou de ser a do herói das horas especiais para ser aquele que caminha junto com toda a estrutura familiar. Não apenas decretar caminhos certos, mas principalmente andar junto por alguns deles, antes de se posicionar.
É possível definir um perfil do pai contemporâneo?
Ser contemporâneo em um momento social de tanta transformação de hábitos e de valores é, antes de tudo, ser flexível, não na aceitação de toda e qualquer solicitação — ou exigência — dos filhos, mas na busca da compreensão da importância dessa demanda. Não são os filhos que vivem as mudanças, mas, sim, a sociedade. Quando se começa o discurso com a expressão “no meu tempo...”, começamos a fechar a porta dessa adequação. Falar desse tempo passado é importante para que o filho tenha referências de sua própria história, porém, sem ser escravizado por ela.
Hoje em dia, já não é raro encontrar exemplos de homens que dividem com as mulheres responsabilidades antes delegadas apenas a elas. De que forma isso impacta na vida dos filhos?
Da maneira mais saudável possível, já que as tarefas do lar e os compromissos familiares, como levar o filho à escola, auxiliar nas tarefas ou mesmo aguardar na saída de uma festa são exercícios de sobrevivência dentro da dinâmica de nossos dias. O compartilhamento das responsabilidades da família (inclusive com os filhos) é o alimento da compreensão da vida em comunidade, tornando-se base para o enfrentamento de situações sociais e até mesmo profissionais, no futuro. Observe que muitos jovens que sonham em estudar fora de suas cidades ou partir para intercâmbios no exterior simplesmente entram em pânico quando se percebem despreparados na hora de cuidar de si próprios e de conviver com novas estruturas sociais.
A relação do pai com as crianças, meninos ou meninas, ajuda a construir uma visão diferente sobre o papel do masculino na sociedade?
Com certeza. A visão dos modelos masculino e feminino andando juntos e se equalizando a partir de suas diferenças facilita a compreensão do papel do homem, ainda colocado como sendo o “de comando”, como forte não pela mera imposição, pouco aceita pelos mais jovens, e, sim, pelas portas das oportunidades de compreender e trocar impressões a respeito das mesmas. O homem não tendo que provar que é homem, mas naturalmente se apresentando com suas características apenas.
Ter um pai presente no cotidiano ajuda a construir novas referências de masculinidade?
Os modelos são fundamentais na construção da nossa identidade e, nesse sentido, quanto mais claras forem nossas referências, maior nossa condição de avaliar e seguir ou não esses padrões. Em um tempo anterior, em que, via de regra, o pai se comportava como “forte e, na maioria das vezes, distante”, a ideia de masculino tendia a se radicalizar. Enquanto muitos filhos o avaliavam como o protetor sábio, outros se afastavam por considera-lo um carrasco perverso. Sem esses extremos, passamos a ver os filhos de hoje com mais facilidade de conviver com alguém capaz de se mostrar forte quando necessário e companheiro no tempo restante.

As brincadeiras comuns na infância ajudam a forjar, inclusive, os pais do futuro?
Com certeza. Somos frutos de nossas experiências e, nesse sentido, as oportunidades da infância e da adolescência nos viabilizam caminhos diferentes. Nesse caso, não podemos esquecer que essas experiências não vêm diretamente da família e da escola, por mais significativas que elas sejam, pois a interferência do mundo virtual, com todas as suas vertentes, têm um peso bastante especial naquilo que os filhos passaram a considerar como certo ou errado. Nesse sentido, é importante que pais observem quais são essas interferências e dialoguem a respeito delas, pois foi-se o tempo da expressão “filho de peixe, peixinho é”.
É correto afirmar que a sociedade ainda é machista?
Apesar das nuances de modernidade e do desejado mundo sem preconceitos, parece-me que continuamos distantes de uma visão equilibrada entre masculino e feminino, o que sugere a figura do macho como sendo ainda necessária, a exemplo da maior parte do reino animal, em que o mesmo se incumbe da proteção do bando. Ainda temos muito a viver e a aprender para construirmos juntos, para que esse muro venha a ser derrubado.
Dados da realidade atual demonstram que o índice de homens envolvidos em homicídios, acidentes de trânsito e ações violentas é superior ao de mulheres. Esses índices podem ser relacionados às referências paternas?
Creio que em parte sim, principalmente, com a confusão existente entre o conceito de masculino e o de “macho”, aquele que sempre tem que provar sua força e sua competência; aquele que não leva desaforo para a casa, inclusive quando o desaforo nem existe.
Podemos dizer que a construção de uma masculinidade mais saudável é um desafio a ser vencido?
Com absoluta certeza, mas é importante salientar que as mudanças nesse sentido vêm crescendo de forma bastante positiva, principalmente, na medida em que muitos homens têm descoberto o prazer da paternidade em contraposição ao mero orgulho que muitos ainda têm de simplesmente serem perpetuadores de um nome ou de uma família.
Nesse processo, é importante discutir a questão dos gêneros dentro da família? Há preparo para isso?
Acredito que o discutir esse ou aquele tema é sempre importante, desde que haja o interesse e isso aconteça no momento adequado. Em um período com tanta informação, colocar conceitos que não estejam conectados com a conversa do momento apenas gera cansaço e dispersão. Por outro lado, conversas sérias a respeito daquilo que “simplesmente achamos” podem ser perigosas pela falta de alicerce. De maneira geral, estamos sempre precisando aprender um pouco mais antes de declarar nossas opiniões, para não corrermos o risco de nos desdizermos em poucos dias.
Ainda são registrados muitos casos de violência contra a mulher dentro de casa, cometidos por homens. Isso impacta na formação da masculinidade das próximas gerações?
Sim, e em dois sentidos antagônicos. Em primeiro lugar, aquele filho que idolatra a figura heroica do pai machista pode considerar as agressões comuns, podendo vir a replicar tal conduta e, em segundo, aquele filho que, ao observar e rejeitar tal atitude, passe a aceitar o modelo paterno como incorreto, rejeitando a assimilação, inclusive, de outras atitudes desse mesmo pai.
A educação dos meninos de hoje — conscientes de que podem chorar ou colaborar em atividades relacionadas aos afazeres domésticos — pode ser um ponto de partida para uma mudança nesse sentido?
Com certeza, mas acredito que tão ou mais importante que esses dois itens estão o hábito do diálogo em grupos mistos (meninos e meninas), pois é nesse tipo de vivência que se quebram as barreiras e minimizam-se os preconceitos.
Como ensinar as crianças a conviverem com as emoções — raiva, tristeza, entre outras — de forma saudável?
Parece-me que o exemplo sempre será o melhor professor. A verdade é que crianças e adolescentes que crescem em ambientes mais equilibrados, com pais, professores e outras pessoas que não se comportam de forma destemperada, buscando refletir a respeito de seus momentos de dor, tendem a buscar essa mesma postura quando estão diante de seus problemas. Em outras palavras, “aprendemos o equilíbrio emocional” convivendo com ele. O equilíbrio, com raras exceções patológicas, é resultante da aprendizagem com o meio. Pais precisam prestar atenção em como se comportam diante das adversidades.
A figura de homem protetor, provedor, reprodutor e autoconfiante ainda é predominante?
De maneira geral sim, mas cada vez menos isso é idolatrado pelos filhos e pela sociedade. Autoconfiante é aquele que não precisa mostrar quem é.

É possível pensar em um modelo de educação que contemple a criação do masculino e do feminino de forma igualitária?
Não sei se a questão seja pensar um modelo ou simplesmente permitir que as mudanças aconteçam no seu tempo. Uma análise das duas últimas décadas, em comparação com as anteriores, já mostra diferenças bastante significativas nesse sentido. O não aprisionamento da educação dentro da família e/ou das escolas, permitindo que as variáveis externas sejam observadas, conversadas e, dentro do possível, assimiladas, já vem proporcionando mudanças saudáveis, mesmo que muitos pais se assustem em um primeiro momento.
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Ibraim Leão