Fobia Social ou TAS
A fobia social é um transtorno que atinge cerca de 22 milhões de brasileiros
E se falar ao telefone, ser fotografado, almoçar em um restaurante, cantar, tocar um instrumento musical, ou até mesmo, dirigir enquanto é observado, fosse insuportável ao ponto de se tornar impossível de ser realizado? Essa é a realidade de 22 milhões de brasileiros, e de muitas pessoas ao redor do globo.
Trata-se da Fobia Social, ou Transtorno de Ansiedade Social (TAS), como é chamado atualmente. Esse é o transtorno de ansiedade mais comum, é um distúrbio em que a pessoa sente-se intimidada ou com medo de se aproximar de outros indivíduos. Interagir ou ser observado por eles torna-se um incômodo. “Devido ao temor (desenvolvido pela fobia), essas pessoas evitam diversos eventos sociais, o que acaba prejudicando seu desempenho no estudo ou trabalho, pois, deixam uma faculdade porque são incapazes de enfrentar uma apresentação oral, ou perdem uma oportunidade de emprego para evitar uma avaliação de entrevista, por exemplo”, explica a doutora Cybele Garcia Leal, supervisora clínica, médica psiquiátrica e doutora em Saúde Mental pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP.)
Muitos pacientes que sofrem desse transtorno pensam que a timidez excessiva faz parte de sua personalidade. O professor de neurociências e ciências do comportamento da FMRP e responsável pelos estudos da fobia social, José Alexandre de Souza Crippa, conta que nos anos de 2004 e 2005 foram realizadas pesquisas na USP e na UNIFRAN, e que dentre os alunos, 10,5% sofriam da doença nos mais diferentes graus, e que somente 0,8% reconheciam o diagnóstico. “O que mais nos surpreendeu foi o fato de que a população que sofre da fobia (99%), nem sabia que a timidez que eles sentiam era uma doença. Muitos pensavam ser fraqueza de caráter, por exemplo”, conta Crippa.
Depois das pesquisas realizadas nas universidades pelo Grupo de Estudo e Pesquisa do Transtorno de Ansiedade Social de Medicina de Ribeirão Preto – USP (GRUTAS), o grupo, que conta com mais de 20 pesquisadores, entre psiquiatras, psicólogos e farmacêuticos, vem fazendo uma série de estudos, em parceria com outros pesquisadores da China, Espanha e Inglaterra, para descobrirem as causas e os tratamentos para essa patologia. E acredita-se que vários são os fatores que podem causar o transtorno.
Fator biológico: alterações de estruturas cerebrais, alterações nos neurotransmissores cerebrais, como a serotonina, que é o neurotransmissor responsável pela comunicação entre os neurônios. Esta comunicação é fundamental para a percepção e avaliação do meio e para a capacidade de resposta aos estímulos ambientais.A serotonina tem funções diversas no organismo, ela controla a liberação de alguns hormônios do sono, do apetite e a regulação do ritmo circadiano. O ritmo circadiano regula todos os ritmos materiais bem como muitos dos ritmos psicológicos do corpo humano, com influência sobre, por exemplo, a digestão ou o estado de vigília, passando pelo crescimento e pela renovação das células.
Fator sócio ambiental: a capacidade de cada pessoa para lidar com situações de estresse é influenciada pelo ambiente em que é criada. Crianças que crescem em lares onde o que predomina é o ambiente de medo e insegurança, como por exemplo, com pais abusivos ou lares politicamente instáveis, tendem a ficar mais ansiosas e mais “alertas”, preparadas para fugir ou defender-se de alguma ameaça. Essa hiperativação constante pode contribuir para os transtornos de ansiadade, inclusive o TAS.
Esses estudos realizados pelo grupo buscam melhorar o diagnóstico e identificar áreas do cérebro envolvidas nesse transtorno, através de técnicas de neuroimagem, da ação de medicamentos e no desempenho de falar em público. Os pacientes são convidados a participar dessas pesquisas, uma vez que a melhor compreensão do transtorno contribui com a evolução de seu tratamento. Para a analista de treinamento e desenvolvimento, Susi Parreira Batista (41), que soube da fobia social através de uma reportagem realizada com o Dr. Alexandre Crippa na televisão, a maior dificuldade era no trabalho. “Não tinha segurança para fazer coisas essenciais para o meu trabalho, como não conseguir falar em público, ter enorme dificuldade em falar com meus superiores, essas coisas que para muita gente é extremamente comum”, conta a analista.
Susi é uma das pacientes tratadas no Hospital das Clínicas. Iniciou o tratamento em outubro de 2009 e já sentiu o resultado nas três primeiras semanas. “Me sinto muito melhor em relação ao meu estado inicial. Faço coisas que jamais imaginei fazer. Não estou completamente curada e nem saio por aí ministrando palestras para executivos, mas já me sinto uma pessoa ‘normal’”, explica a analista.
Susi já consegue falar com um público pequeno, fala com autoridades e já não deixa de dormir por conta de um acontecimento importante (reunião, treinamento, festas), como fazia antes do tratamento. “Posso dizer, com conhecimento de causa, que vale a pena procurar ajuda”, aconselha.
Atualmente 32 pacientes são atendidos por mês pelo grupo. “São realizados vários testes com esses pacientes. Através da neuroimagem avaliamos o funcionamento do cérebro. Em uma das etapas, o paciente deve fazer um discurso em frente a uma câmera de vídeo enquanto medimos a pressão arterial e o nível de suor. Constatamos também que os pacientes com TAS têm maior facilidade em reconhecer as diferentes expressões faciais (medo, surpresa, alegria)”, explica Crippa.
No ambulatório de fobia social do hospital das clínicas os pacientes avaliados passam por tratamentos psicoterápicos ou farmacológicos. “Conversamos com o paciente e deixamos que escolha qual o melhor tratamento pra ele”, conta Cybele.
Interessados em participar das pesquisas devem ligar para o telefone: 16 3602 2703 e falar com Selma
Teste Mini-SPIN*
Indique quanto os seguintes problemas incomodaram você durante a última semana. Escolha semente um item para cada problema e verifique se você respondeu a todos os itens.
1 – Evito fazer coisas ou falar com certas pessoas por medo de ficar envergonhado.
2 – Evito atividades nas quais sou o centro das atenções.
3 – Ficar envergonhado ou parecer bobo são os meus maiores temores.
Confira o valor das respostas:
Nada = 0
Um pouco = 1
Moderadamente = 2
Bastante = 3
Extremamente = 4
Resultado:
Uma contagem igual ou superior a 7 representa provável diagnóstico de fobia social.
*Sigla em inglês para Mini-Inventário de Fobia Social. Este teste foi padronizado para a população brasileira pelos médicos José Alexandre Crippa, Flávia de Lima Osório e Sonia Regina Loureiro, do Departamento de Neurologia, Psiquiatria e Psicologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto.
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Texto Bruno Silva
Fotos: Carolina Alves