Foco e determinação
Esses são alguns dos ingredientes que norteiam a vida e o trabalho de Rosângela Aparecida de Souza, presidente do Lar do Jovem Idoso Tio João, instituição que atende a idosos a partir dos 60 anos
Empresária e dona de casa, Rosângela Aparecida de Souza assumiu a gestão da instituição de longa permanência Lar do Jovem Idoso Tio João depois do falecimento do marido, João Carlos Pires. A entidade filantrópica sem fins lucrativos foi fundada em 2 de janeiro de 2002, quando passou a atender a idosos de ambos os sexos, a partir de 60 anos, em situação de risco psicossocial. Instalada na rua Santos, 1555, na Vila Carvalho, possui capacidade para receber até 42 pessoas e abriga, de forma permanente, 41 internos no momento.
Para acolher e amparar quem precisa, o Lar do Jovem Idoso possui ambientes interno e externo acolhedores e saudáveis. “Em lugar de carência afetiva e de frustrações eventuais, no Lar, eles encontram convivência e integração entre si e com as demais pessoas da comunidade. Isso acontece por meio da construção de propostas efetivas de promoção e de proteção da vida individual e coletiva, com carinho, amor e compreensão”, explica Rosângela.
Além de moradia e refeições, os idosos recebem atendimento nutricional e de fisioterapia no próprio Lar. Já os serviços médicos e odontológicos são realizados na Unidade Básica de Saúde do bairro. Além da equipe de funcionários, a casa conta com o reforço do trabalho voluntário. Semanalmente, contadores de histórias tornam os dias dos residentes mais felizes e divertidos. São realizadas, também, festas em datas comemorativas, como Dia dos Pais, das Mães e Natal. “Aceitamos estagiários de Psicologia, Serviço Social, Nutrição, Fisioterapia e Enfermagem, pois, no momento, não contamos com nenhum desses profissionais”, destaca a presidente.
A gestora ressalta que, até o momento, a casa não recebe verba de nenhuma instância governamental. Em função disso, as dificuldades têm sido desafiadoras, em especial, em relação à obtenção dos recursos para subsidiar a casa. Despesas com encargos tributários, folha de pagamento e a própria manutenção da instituição estão em atraso. “O Lar do Idoso Tio João está sem nenhum recurso financeiro. Mesmo assim, continuamos o nosso trabalho enfrentando as muitas necessidades, dificuldades e privações”, frisa a gestora.
O que a levou à filantropia?
Tudo começou com o meu falecido marido, João Carlos Pires, carinhosamente conhecido como Tio João. Ele era espírita e passava mensagens e palavras divinas à população do bairro Vila Elisa, distribuindo pão e leite após as orações. Com o passar do tempo, essa arrecadação começou a fazer parte da sua vida. Foi quando sentiu que carregava a missão de ajudar o próximo. Em um primeiro momento, fundou uma creche, em 1986, pois Tio João começou a perceber que as crianças ficavam muito nas ruas, enquanto os pais trabalhavam.
Quando começou seu envolvimento com o lar?
Sempre acompanhei o trabalho do meu marido, mas no início de 1997, efetivamente, abracei a causa, apoiando de forma mais ativa as ações da instituição. Um ano antes, João percebeu que o trabalho não poderia parar por aí, pois viu que tinha mais pessoas para ajudar no bairro, onde também havia muitos idosos sem ter o que comer ou onde morar. Esses eram também seus irmãos e precisavam de auxílio. Em 1996, então, fundou o Lar do Jovem Idoso Tio João. Com ajuda de muitas pessoas, em 2002, conseguiu registrar o Lar no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), da Receita Federal, e até hoje estamos trabalhando para a melhoria da qualidade de vida dos idosos residentes no lar.
Como era o seu trabalho e o que mudou com a ausência do Tio João?
Construímos tudo com nosso próprio esforço e já trabalhei, no princípio, como faxineira e cozinheira para ajudar o Lar a começar as atividades. O Tio João atuava como motorista, jardineiro, auxiliar administrativo, porteiro e recepcionista, de tudo um pouco. Com o passar do tempo, conseguimos contratar outros funcionários e ficamos por conta da administração do Lar. Depois que o Tio João faleceu, as doações e contribuições caíram muito, pois muitas pessoas nos ajudavam pela figura do Tio João.
Qual o perfil e a estrutura do Lar?
Recebemos idosos somente para moradia fixa. Nossa infraestrutura dispõe de 17 quartos, banheiros masculinos e femininos, cozinha, refeitório, escritório, enfermaria, lavanderia, almoxarifado, rouparias, entre outras dependências. Para isso, contamos com 18 funcionários, entre enfermeiro, técnico e auxiliares de enfermagem 24 horas, fisioterapeuta, assistente social, nutricionista, entre outros.
Qual é o orçamento da entidade e de onde vem a receita?
No momento, nossa única renda é o valor repassado do beneficio dos idosos, mas esse montante não cobre nossa despesa, estimada em torno de R$ 36 mil por mês. Além disso, recebemos a ajuda de colaboradores, por meio de boleto bancário, que contribuem com o valor que puderem, a partir de R$ 30,00. Atualmente, essa ajuda totaliza em torno de R$ 2.200,00 mensais.
Quais são seus principais desafios à frente da instituição e quais são os avanços obtidos?
Nosso principal desafio, hoje, é a reforma exigida pela Vigilância Sanitária, que não temos condições de realizar. A obra consiste em aumentar o tamanho dos quartos e colocar banheiros em todos eles, assim como salas de fisioterapia e de nutrição. Também precisamos instalar elevador de carga para o segundo andar, onde funciona a lavanderia e a rouparia e, por fim, arejar o refeitório e a cozinha. Estimamos que o custo das obras será de, aproximadamente, R$ 250.000,00. Por isso, precisamos de ajuda, tanto na captação dos recursos, quanto para a aquisição dos materiais para a construção e o custeio da mão de obra.
Acredita que uma gestão mais transparente e a profissionalização da entidade podem contribuir para melhorar os resultados e atrair mais apoiadores?
Com certeza. Creio que manter uma gestão transparente é dever de todas as entidades. Este é o único caminho para conquistarmos credibilidade para o nosso trabalho.
Quais são as principais dificuldades do Lar e o que pretende fazer para saná-las?
Nosso maior gargalo, hoje, é o financeiro. Para resolver a questão, pretendemos montar um telemarketing para captação de novos recursos. Ainda não levantamos qual será o valor do investimento para que possamos implantar o serviço, que deve demandar do trabalho de, pelo menos, três pessoas para começar.
Em 2016, a casa sofreu uma das maiores crises e quase fechou as portas. Como reverteu a situação?
Na realidade, ainda enfrentamos muitos desafios e dificuldades. O Lar possui uma série de necessidades e precisa de doações —alimentos, produtos de higiene pessoal e de limpeza; roupas e dinheiro, para pagar as despesas com encargos trabalhistas, dos quais ainda não somos isentos. Além disso, temos custos fixos, como água, telefone, luz, funcionários e, agora, por exigência da Vigilância Sanitária, precisamos fazer uma reforma na casa e aumentar o número de funcionários.
De que forma é possível colaborar com a Instituição?
De todas as maneiras possíveis, seja com algumas horas de trabalho, com a doação de produtos ou de dinheiro em espécie, que pode ser depositado diretamente em uma conta no Bradesco, agência 0490-1, conta corrente 020082-4.
O Lar está com a documentação em dia para captar recursos públicos?
Não, para isso, precisamos finalizar o processo de legalização do nosso terceiro terreno, o que já está em andamento para, então, conseguirmos nossa inscrição como entidade filantrópica junto à Prefeitura. Dois deles já estão legalizados.
A entidade conta com repasse da Nota Fiscal Paulista?
Não podemos requerer este repasse porque ainda não temos nossa inscrição na Prefeitura, justamente, por falta da legalização de um dos três terrenos onde estamos instalados. Somente depois de aglutinar e passar esses lotes para o nome do Lar do Jovem Idoso Tio João, poderemos dar entrada no setor de Planejamento da Prefeitura, juntamente com o alvará da Vigilância Sanitária, para, assim, sermos reconhecidos como entidade filantrópica. A partir daí, poderemos conseguir os repasses. Por enquanto isso não é possível. Essa documentação também facilitará o acesso a outras leis e programas de incentivos fiscais.

De que forma a Instituição se prepara para o momento em que poderá pleitear outros recursos públicos?
Já contamos com a colaboração de alguns profissionais que realizam vários projetos para a instituição, como assistente social, enfermeiros e nutricionistas. Toda ajuda é sempre muito bem-vinda e o trabalho conjunto resulta na melhoria dos serviços oferecidos, bem como na qualidade de vida dos nossos residentes.
Profissionalizar a equipe contribui para prestar um atendimento mais qualificado?
Com certeza. Sem os profissionais que reúne, o Lar não teria como funcionar e atender aos idosos como eles merecem. Assim, com a equipe capacitada, como qualquer outro setor, podemos prestar uma assistência com qualidade. Contamos com a colaboração de muitos voluntários, mas eu entendo que essa capacitação deveria vir de órgãos públicos.
Hoje, a instituição é autossustentável financeiramente?
Infelizmente, não. Nossas despesas fixas são relativamente altas, com gastos mensais aproximados de: folha de pagamento de R$ 20.000,00; INSS parcelado de R$ 4.750,00; INSS dos funcionários de R$ 5.400,00; FGTS R$ 1.600,00; água e outros recursos de R$ 1.500,00; energia de R$ 2.000,00; gás de R$ 900,00; telefone de R$ 300,00, entre outros gastos como combustível, farmácia e manutenção.
Quais são os principais desafios da entidade e suas metas para a gestão?
O financeiro continua sendo nosso principal desafio. Uma das nossas prioridades no momento é conseguir a legalização dos terrenos e, assim, pleitear o repasse da Prefeitura. Nossa reforma também está entre as principais metas para um futuro próximo.
Quais as próximas ações e os planos para melhorar ou ampliar os atendimentos oferecidos na entidade?
Pretendemos conseguir verbas e ajuda para a reforma do Lar e, assim, melhorar o espaço que nossos idosos vivem.

Como será o fim do ano entre os residentes?
Todo fim de ano, alguns colaboradores fiéis da casa fazem um evento, que esse ano aconteceu no dia 9 de dezembro, na própria Instituição. Esses colaboradores trazem presentes e fazem uma manhã bem divertida, que termina com um almoço para os idosos. O evento se torna uma bela e emocionante confraternização.
Texto: Rose Rubini
Fotos: Julio Sian