Fôlego de campeão

Fôlego de campeão

Com 39 anos, Nicholas Santos continua em plena forma. Diante dos resultados que tem conquistado, o atleta já se prepara para disputar uma vaga na equipe que representará o Brasil nas Olimpíadas 2020

O nome de Nicholas Santos já está devidamente marcado na história da natação. O atleta ribeirãopretano, que deu as primeiras braçadas de forma despretensiosa nas piscinas da Universidade de São Paulo (USP) e, atualmente, representa a Unisanta e a Seleção Brasileira, tomou gosto pelo esporte, construiu uma carreira longeva e coleciona resultados consistentes. Destaque para o bicampeonato Mundial nos 50m borboleta, em 2012 e 2018, e para a quebra do recorde mundial, com o tempo de 21s75, alcançado em Hangzhou, na China. Na entrevista a seguir, o nadador relembra o início dessa jornada, comenta detalhes da rotina de treinos, enfatiza a importância de manter a mente em equilíbrio nas competições e revela quais são os planos para o futuro.

Como você começou na natação?

Eu tinha uns cinco ou seis anos. Naquela época, meus pais moravam perto do campus da USP. Minha mãe já nadava lá e, para aproveitar esse tempo junto comigo e com o meu irmão, fez a nossa matrícula na escolinha que funcionava no mesmo local e horário. Era, sem dúvida, o ponto alto do nosso dia. Além de ser muito divertido, era um refresco para o calor. Foi dessa maneira que o interesse pelas piscinas começou. Depois, mudei para a Recreativa. No clube, entrei em contato com a natação competitiva, mas não tinha nenhuma pretensão de seguir por esse caminho até então. Meus pais sempre deixaram claro que a escola vinha em primeiro lugar. Eu fazia a minha parte, conciliando os estudos e os treinos. Aprovado no vestibular da Unaerp, no curso de Fisioterapia, integrei a equipe de natação da universidade. Por alcançar resultados acima da média no cenário nacional — competindo, inclusive, com atletas acima da minha categoria de idade em campeonatos absolutos —, atraí a atenção de alguns treinadores. Recebi convites e propostas para representar instituições de fora da cidade e do País. A vontade de nadar, eu sempre tive. Com esse retorno positivo, fiquei ainda mais motivado. Convenceram meus pais de que eu tinha potencial para me profissionalizar e, a partir daí, a minha carreira foi sendo construída naturalmente. Saí de Ribeirão Preto e morei em diferentes lugares. Quando me estabelecia, continuava meus estudos e, assim, consegui me formar. Ainda fiz um MBA em Business e Gestão Empresarial, com ênfase em empreendedorismo.

Guarda boas lembranças de Ribeirão Preto?

Com certeza. Gosto muito de Ribeirão Preto. Eu adoraria ter continuado na cidade, mas não havia a estrutura necessária para que eu prosseguisse com os meus treinos em busca de um alto rendimento. Se quisesse evoluir, tinha de sair. Era a única alternativa. Hoje moro em São Paulo, mas meus pais seguem morando aí. Sempre que posso, faço uma visita.

Nicholas Santos começou a carreira em Ribeirão Preto e, hoje, acumula conquistas pelo mundoA vida de um atleta de ponta demanda muito treinamento e uma rotina bem regrada. Como é esse trabalho feito longe dos olhos do público para se destacar em provas tão acirradas?

O processo todo é muito longo e trabalhoso. É preciso cuidar do corpo, aprimorar a técnica dos movimentos, ter disciplina e seguir uma alimentação balanceada. Tem de ter vontade de verdade, abrir mão de muita coisa e se comprometer de forma integral para alcançar os resultados almejados. Nesse sentido, o planejamento é essencial. Sem essa organização nos treinos e no cronograma de campeonatos, a chance de algo dar errado na temporada é enorme. Para evitar qualquer deslize, conto com a ajuda de uma equipe multidisciplinar, formada por um técnico, um assistente técnico na borda da piscina, um preparador físico na musculação, nutricionista, médico, fisioterapeuta e uma psicóloga que trabalha com essa parte de meditação, de concentração e de mindfulness. Quando subimos no pódio e pegamos a medalha, lembramos de cada etapa da jornada percorrida até aquele momento. É uma sensação maravilhosa constatar que tudo o que você fez para estar ali deu certo. 

Utiliza os conhecimentos que adquiriu na faculdade de Fisioterapia a seu favor?

Claro. Atribuo a longevidade da minha carreira à minha genética, à minha dedicação e ao meu conhecimento na área. Sou o atleta mais velho em atividade na natação de alta performance e consigo manter resultados consistentes. Nunca sofri nenhuma lesão séria. Além da experiência nas piscinas, tenho repertório técnico para interagir com o médico e com o preparador físico, elaborando treinos de acordo com as minhas capacidades e limitações.

Durante as competições, o aspecto psicológico também é importante?

Trabalhar o corpo é uma tarefa recorrente para um atleta. No dia a dia, vou para a piscina, treino na academia, descanso e me alimento quase que no automático. Agora, a competição é um evento. Tem música alta, nosso nome é chamado pela torcida e colocam um holofote no nosso rosto. Em uma raia ao lado está um campeão olímpico. Na outra, o campeão mundial. Impossível não se sentir pressionado. Essa ansiedade descontrolada, principalmente no início da carreira, provoca reflexos negativos no nosso desempenho. Podemos fazer uma saída atrasada ou, então, elevar tanto a frequência cardíaca que caímos na piscina já com a sensação de cansaço, por exemplo. Por isso, é preciso preparar a nossa mente, diariamente, para canalizar a energia e lidar com essa situação de decisão da melhor maneira possível. Percebi, na prática, o quanto isso é importante. Depois que passei a condicionar meu pensamento, fiquei mais calmo, seguro e confiante para encarar meus desafios. 

Apesar da rotina agitada, o atleta e empresário sempre reserva um tempo para ficar com o filho, NicholasEntre tantas conquistas, alguma que teve um gosto mais especial?

A primeira classificação para as Olimpíadas de Pequim 2008 foi um marco. Todo atleta quer fazer parte do maior evento esportivo do mundo. Estar lá, competindo, foi inesquecível. Em termos de resultado, destaco o Mundial de Piscina Curta, em Hangzhou, na China, no ano passado. Bati o recorde mundial na prova dos 50m borboleta, com 21s75, e conquistei o ouro. Isso com 38 anos, algo inédito na natação. Um feito muito especial. No mesmo dia, integrei o revezamento 4x50m medley, com Felipe Lima, Guilherme Guido e Cesar Cielo. Ficamos com o bronze. 

Qual é o seu próximo desafio nas piscinas?

Acabei de participar do Troféu Maria Lenk e venci os 50m borboleta em 22s77. Agora, o foco está na “Champions Swim Series”, um campeonato com quatro nadadores por prova, todos convidados pela Federação Internacional de Natação (FINA). Para participar, é preciso ser medalhista olímpico, campeão mundial, recordista mundial ou estar entre os três melhores do ranking mundial. Serão três etapas: China, Hungria e Estados Unidos. Uma competição duríssima. É uma grande honra ter meu nome relacionado nessa seleção. Depois, no final do ano, vou participar das etapas da Copa do Mundo. 

Ainda veremos você por muito tempo nas piscinas?

Até final de 2020 eu continuo. Estou em um dilema para escolher qual prova vou nadar para disputar uma vaga para a Olimpíada em Tóquio. Existem duas possibilidades. A primeira é a 100m borboleta. Em 2016, atingi o índice para a classificação, mas apenas os dois melhores tempos foram relacionados para competir no Rio de Janeiro e eu acabei em terceiro. A outra opção é voltar para os 50m livre. Essa foi a principal prova na maior parte da minha carreira. Não dá para tentar as duas, porque os treinos são completamente diferentes. Hoje, minha especialidade é os 50m borboleta, mas essa não é uma prova olímpica. Então, passando essa temporada de competições, no segundo semestre, vou sentar com o meu técnico e definir isso.

Compartilha a sua experiência com a nova geração?

A natação brasileira avançou demais nesse sentido. Os atletas que inspiraram a minha geração foram Gustavo Borges e o Fernando Scherer. Os dois tinham grandes resultados e competiam em alto nível, mas eram, de certa forma, inacessíveis. Acabei me tornando amigo deles, mas, naquela época, havia uma cultura de guardar as informações. Com isso, o esporte não evoluía. Hoje, faço questão de ajudar os novos nadadores e treinadores. Às vezes, dou uma dica que para mim é simples, mas que para eles faz toda a diferença. É uma troca de experiências enriquecedora. Quero que a natação cresça e que o Brasil tenha atletas cada vez mais rápidos. 

O nadador pretende disputar uma vaga na equipe que representará o País nas Olimpíadas de Tóquio, em 2020Quando se aposentar das piscinas, pretende seguir no meio esportivo?

Sim. Tenho duas empresas voltadas para o esporte. Uma promove eventos como clínicas, encontros e palestras sobre a minha história e minha carreira. A outra é uma empresa educacional, na área de certificação de treinamento de alto rendimento. Trabalhamos com especialistas que são referência em assuntos como impacto, força, potência e velocidade. Ministramos cursos e prestamos consultoria em todo o País e até no exterior. O próximo passo é o centro de treinamento que vou montar em Ribeirão Preto, mais precisamente em Bonfim Paulista. Possivelmente, em junho estará pronto. A princípio, não abriremos para o público. Vamos usar como laboratório para fazer avaliações e testes com o auxílio de tecnologia de última geração. Será um local para capacitar e atualizar os estudantes e os profissionais, contribuindo, também, para o desenvolvimento dos atletas da região. 

Por falar em tecnologia, esse é um recurso que veio para ficar?

Com certeza absoluta. A tecnologia corta um caminho extenso. Antigamente, gastávamos muito tempo tentando encontrar maneiras de trabalhar todos os sistemas do corpo para chegar à meta traçada. Agora, temos todas as informações em um tablet. Em tempo real, vemos se, diante de determinado estímulo, o atleta alcança o rendimento dentro do padrão esperado. Isso contribui para a efetividade dos treinamentos. Temos vários contatos fora do país e posso afirmar que estamos cada vez mais alinhados com as principais tendências. 

Como consegue conciliar tantas funções com a vida pessoal?

Aproveito cada instante e faço tudo com o maior prazer. A carreira de atleta está acabando. Acho justo me aposentar das piscinas aos 40 anos. A partir de então, investirei ainda mais nessa parte de treinamento e de tecnologia do esporte. Se não estou treinando, em viagem ou na empresa, fico com o meu filho, Nicholas, que vai fazer três anos em julho. Sou bem presente e muito coruja. 

Texto: Paula Zuliani

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