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A reestruturação do sistema de mídia, especialmente influenciada pela chegada da internet, está entre os pontos de análise do sociólogo da comunicação Marco Antônio de Almeida
Inquieto por natureza, o paulistano Marco Antônio de Almeida escolheu as Ciências Sociais como formação por acaso e a opção feita acabou sendo fundamental para que acumulasse a bagagem crítica e analítica necessária para seguir como pesquisador na área da cultura e da comunicação. A cultura, aliás, sempre esteve entre suas paixões, desde a literatura, passando pela música, até as histórias em quadrinhos. Durante o mestrado e o doutorado, inclusive, a literatura e o cinema foram seus objeto de estudo, transitando entre o erudito, o popular e o massivo.
Posteriormente, Marco Antonio ingressou no Instituto Pólis, Organização Não Governamental de atuação nacional e internacional sediada em São Paulo. Como seu integrante, dedicou-se a estudar, fundamentalmente, políticas públicas e sociais no campo da cultura. Ao tornar-se professor da Universidade de São Paulo (USP), na área de Ciências da Informação, percebeu que este era um campo interdisciplinar bastante rico, capaz de conectar práticas e estudos tradicionais, como a Biblioteconomia, a Arquivologia e a Museologia, a questões emergentes relacionadas à internet e às novas tecnologias.
Durante a carreira, aprofundou esses conhecimentos, especialmente em Ribeirão Preto, onde chegou há 15 anos para dar aulas nos cursos de Biblioteconomia e Ciência da Informação, da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras (FFCLRP-USP). Percebeu que poderia incorporar à área, juntamente com suas preocupações sociais e culturais, elementos da sua formação. Hoje, lidera um grupo de pesquisa sobre conexões entre práticas culturais e tecnologias de informação e comunicação. Além de publicar artigos de própria autoria, orienta alunos na graduação e na pós-graduação dentro dessa temática.
Revide: Como avalia a comunicação nos últimos 30 anos, período de existência da Revide?
Marco Antônio: A comunicação sofreu mudanças profundas nas últimas três décadas, particularmente, pelo surgimento e pela expansão da internet, a partir, principalmente, de meados da década de 1990. Isso gerou uma reestruturação do sistema de mídia, em especial, na relação com o público.
Quais eram as principais formas de acesso da população brasileira à informação nos anos de 1980?
A imprensa escrita, embora tenha sua importância, não foi, historicamente, a principal fonte de informação para a população, papel desempenhado, inicialmente, pelo rádio e, depois, pela televisão. Havia uma hierarquização relacionada ao nível educacional dos indivíduos que separava muitas pessoas da informação impressa, mesmo no caso dos jornais e das revistas mais populares. A imprensa construiu uma sinergia com estes meios, diversas vezes fornecendo a pauta de suas discussões, fazendo com que as pessoas tivessem acesso indiretamente aos conteúdos impressos.
Apontaria diferenças entre a comunicação nos grandes centros urbanos e no interior, naquele momento? Hoje essa diferença ainda existe?
Havia uma distinção, uma separação mais clara entre a informação nacional e global, assim como em relação à informação em geral de mais fácil acesso, particularmente pelo rádio. Hoje, essa diferença é muito tênue, especialmente pelo amplo acesso proporcionado pelos dispositivos móveis — laptops, tablets e, principalmente, celulares.
Quais foram as principais mudanças nesse contexto na década seguinte? Quando a internet começou a mostrar sua força na comunicação?
A internet e sua posterior popularização protagonizou uma mudança gigantesca no sistema de mídia, na circulação e na comunicação de informações. As pessoas, inclusive alguns “especialistas”, muitas vezes, possuem uma ideia equivocada das transformações culturais e tecnológicas, por verem esses processos de forma linear. Elas entendem que certas tecnologias e formatos ficaram “ultrapassados”, que se tornariam obsoletos e destinados à extinção, e que, portanto, seriam substituídos por outros, mais “modernos”.
O surgimento do rádio foi um divisor de águas?
Quando o rádio surgiu, em setembro de 1922, logo foi decretado o fim dos jornais; quando veio o cinema, era o rádio que estava com os dias contados; com a televisão, todos os cinemas seriam fechados. Sabemos que não foi isso que aconteceu. Cada nova tecnologia e os formatos culturais relacionados a ela não decretam o fim das formas antigas — elas as reposicionam de outra forma no sistema cultural e comunicacional criado a partir daí. Por isso, não se deve acreditar que a internet vai acabar com os livros, com a imprensa e com outras mídias. Basta ver o rádio, que existe há 100 anos. Pelo contrário, a internet proporcionou uma sobrevida, o surgimento de novas possibilidades. Muitas pessoas, por exemplo, sintonizam as transmissões de rádio pela internet em computadores e celulares.
A comunicação ainda está em plena transformação? Em que sentido?
A principal revolução proporcionada pela internet está na mudança do modelo comunicacional, de divulgação e de circulação de informações. Anteriormente, o modelo dominante, praticamente único, era o de “um-para-muitos”. Os órgãos de comunicação e as empresas de mídia detinham o poder de transmissão, o monopólio de expressão. O papel ativo era reservado ao rádio, às TVs, aos jornais e às revistas. Ao público, restava o papel passivo de consumir conteúdos previamente selecionados e sobre os quais eles não possuíam praticamente nenhum poder de determinação.
O jeito de produzir e de difundir a informação mudou muito na virada deste século?
A internet mudou radicalmente essa configuração, ao se estruturar com base em outra lógica comunicacional, de “muitos-para-muitos”. Agora, as pessoas e os grupos têm a chance de se expressar, de fazer circular as ideias e as produções, de uma maneira que era impossível anteriormente. Obviamente, há nuances dentro dessa história e seus resultados, como estamos percebendo, possuem aspectos positivos e negativos.
Qual é a “cara” da comunicação no início do século XXI?
A “cara” da comunicação, hoje, tem a ver com as características das novas tecnologias: valoriza a velocidade, a interação e a agilidade. Há uma busca maior pela interação com o público e com sua participação: todos os veículos de comunicação possuem uma página na internet, de comunicação com leitores, ouvintes ou telespectadores, que também é utilizada para transmitir conteúdos diferentes ou complementares àqueles que circulam nos meios “tradicionais” — rádio, revistas, jornais e TV. Por outro lado, isso, muitas vezes, traz uma fragmentação da informação, uma dificuldade em visualizar o contexto mais amplo, em aprofundar as abordagens e as discussões.
Os veículos de Ribeirão Preto acompanham esta mudança?
A cidade está integrada a esse fluxo dinâmico e global de informações, compartilhando essas características.
Quais seriam as principais características da sociedade contemporânea que favorecem a comunicação on-line? Onde posicionar as redes sociais dentro da comunicação praticada na atualidade?
O grande fator que impulsionou essa comunicação foi o surgimento da tecnologia wi-fi e sua incorporação pelos dispositivos portáteis — em outras palavras, internet móvel e celulares. Hoje, no Brasil, o acesso à internet é primordialmente realizado por meio de celulares e a rede social mais utilizada é o Whatsapp. Isso modificou não só a relação das pessoas com as informações e com os meios de comunicação, mas também como eles organizam seu cotidiano, das relações interpessoais aos negócios e às transações financeiras. Assim como o WhatsApp, o Facebook e o Youtube são redes sociais que conectam milhões de indivíduos no mundo inteiro. Os governos têm pouquíssimo controle sobre elas, ao contrário do que costumava ocorrer com os meios de comunicação tradicionais.
Quais são os aspectos positivos e negativos deste novo formato?
Isso é positivo no sentido de que os governos possuem menor capacidade de censurar e/ou influenciar os cidadãos, fato sempre lembrado quando surgem movimentos em prol da democracia, como a “Primavera Árabe”, em diversos países do mundo árabe, o “Podemos”, na Espanha, e outros. Entre os aspectos negativos estão problemas com a dependência em relação às redes no que tange, por exemplo, à divulgação de políticas e conteúdos culturais, muitas vezes, censurados sem critério pelas próprias empresas, ou em relação à descontinuidade dos serviços. Isso sem mencionar o grande problema da falta de controle sobre a circulação de dados pessoais na rede, assim como informações sensíveis de empresas e governos obtidos por meio de espionagem — vide os casos denunciados pelo Wikileaks e por Eduard Snowden.
Que valores a tecnologia agregou à comunicação, à produção e à difusão da informação?
O ponto positivo foi proporcionar uma base material para realizar a ideia de que todos os indivíduos e grupos têm direito ao acesso à informação e também a se expressar livremente. Isso propiciou a circulação de discussões importantes, mas que, muitas vezes, não possuíam visibilidade pública, como aquelas relacionadas às demandas e às características de gênero, etnia e geração. Mulheres, negros e jovens conquistaram mais espaços para reivindicar direitos partir da apropriação das tecnologias e do espaço da internet. O aspecto negativo, paradoxalmente, decorre também da possibilidade de acesso irrestrito proporcionado pelas tecnologias: a internet se tornou, ao mesmo tempo, um espaço de propagação de valores autoritários, xenófobos e racistas.
Que pontos de atenção também surgiram com a internet? Mesmo que ainda em curso, é possível analisar os principais movimentos nesse sentido?
Podemos perceber estes embates, por exemplo, com o surgimento dos “robôs” (na verdade, programas que reproduzem e enviam automaticamente mensagens e conteúdos diversos). Eles permitem desde a proliferação de propagandas indesejadas, os spams, até a divulgação de informações falsas, as “fake news”, destinadas a influenciar as pessoas, induzindo-as a determinados comportamentos. Isso pode estimular posturas consumistas e até destruir reputações, influenciar eleições e disseminar o que os especialistas chamam de “discurso do ódio”. Governos e empresas lutam para combater essa situação, mas as próprias características da internet dificultam essa tarefa. Trata-se de um desafio muito grande: defender dados e informações privadas das pessoas, coibir a disseminação das “fake news” e, ao mesmo tempo, preservar o ambiente de circulação livre que caracteriza a internet. Como disse o grande sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “é o grande dilema da sociedade contemporânea: equilibrar liberdade e segurança – o aumento de uma quase sempre acarreta a diminuição da outra”.
A atual crise do mercado editorial não tem precedente. A situação, por exemplo, da Editora Abril e o fechamento de inúmeras vagas de emprego para jornalistas, inclusive em Ribeirão Preto, assustou o setor. Esse segmento pode acabar?
A situação da Abril envolveu vários fatores, que vão da gestão temerária do capital passando por arranjos nebulosos (como revistas bancadas por assinaturas artificiais) e um modelo de negócios excessivamente engessado e centralizado. Apesar disso, esse caso ilustra uma tendência global de disputa entre oligopólios da mídia versus pequenas empresas, com enxugamento de quadros nos primeiros e a dificuldade de sustentação econômica nas segundas. Acredito que o setor de pequenas e de médias empresas e seus veículos de comunicação podem sobreviver se encontrarem nichos de mercado, públicos específicos, e souberem atender às expectativas dos potenciais consumidores.
De que forma os veículos de comunicação off-line podem sobreviver?
Nesse sentido, estabelecer uma sinergia com o universo digital, aproveitando as potencialidades das tecnologias e da internet, é estratégico. Também é preciso inovar em relação aos formatos e buscar novas formas de monetarização dos serviços e de modelos de negócio.
É possível identificar um auge para a comunicação impressa nessas últimas três décadas?
Essa questão tem relação com a anterior, na medida em que retoma a oposição entre o “grande” mercado e o mercado de nicho. O acesso ao fluxo global de informações e conteúdos culturais colaborou tanto para “derrubar” alguns dos grandes veículos impressos, que tiveram que fechar ou diminuir suas tiragens, como também ajudou a impulsionar veículos menores e mais ágeis, muitas vezes, com raízes locais. Surgiram muitas revistas especializadas ou voltadas para segmentos específicos de públicos, tanto dentro de parâmetros mais convencionais quanto também inovando em formatos e temáticas. Muitas delas transitam entre o suporte impresso e as plataformas digitais na internet. Mecanismos diferentes de financiamento, como o crowdfunding (uma espécie de “vaquinha” virtual, que capta recursos via internet) têm sido empregados. Não se trata de propor uma fórmula, até porque em situações de crise econômica as dificuldades são grandes para todos. Estamos falando de tendências que podem ser criativamente exploradas.
Marco Antônio de Almeida | Texto: Rose Rubini | Fotos: Ibraim Leão