Força de vontade X mudança
Quer mudar? Esqueça a força de vontade! Essa é a proposta do professor e escritor Fábio Zugman
Especialista em criatividade e empreendedorismo Fábio Zugman é autor do artigo “Quer mudar? Esqueça a força de vontade!” onde afirma que o sucesso de uma mudança não está em desafiar hábitos e sim criar mecanismos para que os velhos sistemas sejam substituídos. Zugman ainda destaca fatores como o desgaste e o estresse, e como eles contribuem para o fracasso, e como muitas decisões desastrosas ocorrem justamente quando a rotina do dia-a-dia está abalada.
“Discussões, más decisões financeiras, brigas e até traições conjugais ocorrem mais facilmente quando estamos estressados e cansados”, afirma. Emagrecer, ganhar mais, ser mais produtivo, poupar e investir. O que todas essas coisas têm em comum? Segundo Zugman, esses são alguns dos desejos de melhorias mais comuns que as pessoas têm para suas vidas e carreiras e dicas para se alcançar esses objetivos não faltam (economizar no cafezinho, cortar gorduras, e assim por diante), mas o especialista oferece uma alternativa inusitada: não contar com a força de vontade!
Segundo o autor, as pessoas estão acostumados a ver a mudança como desafio. Se o desejo é entrar em forma, é pertinente matricular-se em uma academia e sacrificar momentos de lazer ou trabalho enquanto se atinge a meta. Para economizar dinheiro, deve-se abrir mão dos prazeres do consumo. “Todos nós temos sistemas, hábitos e movimentos que incorporamos ao nosso dia-a-dia. O segredo para uma mudança, então, não é desafiar esses hábitos com a força de vontade, mas sim criar mecanismos para que os velhos sistemas sejam substituídos, tornando a mudança esperada algo natural”, explica.
“Vamos dar o exemplo de uma dieta”, diz o autor. “Se você tem o hábito de almoçar no mesmo restaurante e comer uma sobremesa, pode ser uma tortura continuar frequentando o mesmo local e evitar todo dia aquele bolo que você adora. Uma solução, pode ser evitar o restaurante por completo. Dessa forma você cria um novo hábito em seu almoço. Ou se você toma muito café durante o trabalho, ou se pega checando alguma rede social repetidamente, é de se examinar se está fazendo isso porque precisa ou se na verdade está simplesmente entediado. Nesse caso, a mudança pode ser conquistada levantando e dando uma volta”, acrescenta.
Para Zugman, quando se estabelece um comportamento novo, a velha ação está sendo substituida por completo, evitanto a luta constante com os velhos hábitos e o cansaço originado dela, que pode explicar recaídas, inclusive reações exageradas. “É o caso de quem passa a semana evitando aquele bolo, mas perde o controle por completo no fim de semana”, avalia.
Depender da força de vontade — segundo o autor — cansa. Por exemplo, deixar um pacote de biscoitos na gaveta e passar o dia resistindo a ele pode fazer o nível de estresse aumentar e a qualidade das decisões cair ao longo do dia. Assim, evitando tomar decisões sobre esse tipo de coisa, ironicamente, o indivíduo aumenta seu desempenho no trabalho.“Várias tentativas de mudança falham quando, por um motivo ou outro, estamos desgastados. A capacidade de tomar decisões do ser humano é limitada, por isso, é importante criar padrões. Muitas decisões desastrosas ocorrem justamente quando a rotina do dia a dia está abalada. Gostamos de achar que nossa força de vontade nos fará vencer, mas geralmente nessas ocasiões isso nos deixará em uma situação pior do que quando começamos. Nesse caso, a melhor coisa a fazer é dar um tempo, descansar e procurar uma nova rotina para resolver os problemas, sem contar ou depender da famosa força de vontade”, justifica Zugman.
A seguir, acompanhe uma rapida entrevista do portal da Revide com o autor.
A ‘força de vontade’ não é inerente ao homem?
Todos temos força de vontade. Mas assim como músculos, inteligência e outras características, ela pode ser desenvolvida. Também podemos usar estratégias para utiliza-la melhor.
Por que ter força de vontade cansa?
Há diversos experimentos que demonstram que o uso da força de vontade consome energia e é cansativo. O simples ato de recusar um doce, por exemplo, pode diminuir o seu desempenho para resolver um quebra-cabeças logo em seguida. No dia a dia, é fácil perceber como as pessoas tomam más decisões quando estão cansadas. É o caso de quando tomamos decisões demais em sequência, algo que revendedores de automóveis adoram utilizar. Quando vai comprar um carro, você precisa decidir uma diversidade de questões: cores, opcionais, motorização… Não é à toa que o preço e condições de pagamento são deixados para o final, quando estamos cansados de decidir essas coisas. Também tomamos piores decisões financeiras, e até ruins para nosso bem estar pessoal, como as evidências que mostram que o maior número de traições conjugais ocorrem no fim de um expediente de trabalho, quando as pessoas estão esgotadas. O estresse também é uma situação de esgotamento prolongado que diminui nossa força de vontade, o que nos faz cair a velhos vícios e diminui nosso desempenho em várias atividades. Há até evidências que mostram que juízes tomam decisões mais negativas antes do almoço do que depois de comer. O fato é que exercer a força de vontade cansa e consome energia, e por isso, é importante desenvolver um planejamento de como essa força de vontade será utilizada e recuperada ao longo do dia. É como um atleta de alto desempenho, que monta uma estratégia de como utilizar seu potencial ao longo de uma prova.
A sua sugestão é ‘driblar’ o desafio da mudança, através do uso de técnicas que atenuem a necessidade de força de vontade, que criem circunstâncias que exijam menos empenho da pessoa. Mas a força de vontade integra o processo de aprendizagem/evolução do ser humano e ludibriá-la ou não fazer uso dela não seria um equívoco, algo negativo do ponto de vista do mérito pessoal para o alcance dos objetivos?
Muito pelo contrário. A rotina não é necessariamente ruim. Muitas pessoas gostam de dizer que são contra a rotina, mas o fato é que a maioria das coisas do dia a dia, e muitas das quais depende o nosso sucesso, são baseadas em rotina. Experimente parar a rotina de escovar os dentes, por exemplo. Nós não ficamos todo dia de manhã parados decidindo se vamos escovar os dentes ou não. O que fazemos é decidir de antemão que os dentes serão escovados todo dia de manhã, e essa atividade é incorporada em nossa rotina matinal. Dizer que diminuir o uso da força de vontade atrapalha é o mesmo que dizer que um maratonista não devia parar nunca de correr. A força de vontade é algo esgotável, só que ao contrário dos músculos, muitas vezes não percebemos esse esgotamento. Apenas nos comportamos mal ou tomamos decisões ruins. Dizemos que estamos bloqueados no trabalho, ficamos em frente à televisão tempo demais e assim por diante. As técnicas existem justamente para podermos observar as coisas de modo objetivo e aprender com nossas ações. O importante é tomar as decisões de antemão, de forma equilibrada, e definir estratégias para atingir nossos objetivos. O erro é justamente deixar as decisões para a ultima hora, esperando sempre tomar a melhor decisão no momento que estamos envolvidos na situação. Se você passa por uma linda confeitaria todo dia no caminho do trabalho - onde vendem aquele maravilhoso bolo de chocolate - e deseja parar de comer tanto bolo para emagrecer, é um erro achar que toda vez que passar ali vai dizer não. Invariavelmente um dia você vai voltar ao velho hábito. É mais fácil e garantido, se você quer se comprometer com a decisão de diminuir o bolo, mudar o caminho e não precisar resistir a tentação todos os dias. O bolo e a tentação vão incomodar muito menos, não vão te cansar, e você estará mais perto de seu objetivo de emagrecer. O mesmo vale para decisões que vão evitar uma traição, conflitos no trabalho e ajudar a economizar dinheiro e a resolver problemas.
Afinal, ter força de vontade não é razão de orgulho, desafiar a si mesmo não é uma maneira de se exercitar a coragem?
Você pode exercitar, mas deve saber que ela também é esgotável. O problema é que quando nossa força de vontade se esgota ela não dói como um músculo quando fazemos muito exercício. Apenas tomamos decisões ruins ou nos comportamos de forma prejudicial. Fazemos coisas que não faríamos normalmente e encontramos uma justificativa como "estou cansado", "não aguento mais essas situações" ou "eu mereço". Então, não há motivo para tentar ser herói. Se você abusar de sua força de vontade acabará se dando mal. É melhor reconhecer isso e aprender a utilizá-la da melhor forma possível.
Há um tempo definido como ideal para o estabelecimento de um novo padrão de comportamento?
Não. Até porque depende se seu objetivo, esforço e tempo que levará para você chegar a esse novo comportamento. O que importa é ter regras e objetivos claros. Algo como um contrato que você faz com você mesmo. Assim você vai estabelecendo seus objetivos e as rotinas do dia a dia que te ajudarão a atingí-los
Quais padrões de comportamento considera mais nocivos do ponto de vista profissional?
Não acho que exista tal coisa. Depende de profissional para profissional. Cada um deve examinar seu padrão de comportamento, ver no que ele auxilia ou atrapalha, e se vale a pena o esforço de tentar mudá-lo. O que funciona para um pode não funcionar para outro. Não é uma questão de dizer o que é certo ou errado, mas sim de como as pessoas podem identificar rotinas que estão as atrapalhando e colocar outras mais benéficas no lugar.
Toda mudança de comportamento exige, antes, uma mudança de pensamento, sugerem estudiosos como Napoleon Hill e Louise Hay, como você avalia isso e de que forma sugere lidar com essa necessidade?
Só o pensamento não adianta. Até porque caímos de novo na questão da força de vontade. A indústria de auto-ajuda, infelizmente, ainda foca muito na ideia de que com força de vontade podemos fazer tudo. Seria mais certo dizer que com boas decisões e comportamentos podemos mudar o mundo. Aliás, muitas pesquisas modernas mostram que mudando comportamento, o pensamento acompanha. Duvida? Faça o seguinte, quando você estiver triste, segure um lápis entre os dentes por alguns minutos. Esse sorriso forçado, surpreendentemente, faz com que você se sinta melhor. Sorrir, mesmo de forma forçada e falsa, levanta o nosso humor. O comportamento pode sim levar a novos pensamentos. A relação não é tão clara como esse pessoal do "pensamentos levam a mudanças" quer acreditar. As pessoas geralmente sabem o que querem mudar, sentem-se frustradas com isso e só se penalizam mais ainda lendo tais livros. É importante ter ferramentas e técnicas adequadas para que uma mudança de verdade aconteça.
Sobre o autor
Fábio Zugman é paulistano e tem 32 anos. É professor universitário, doutorando em Administração pela FEA-USP e Mestre em Administração pela UFPR. É autor dos livros Empreendedores esquecidos (Elsevier, 2011); Administração para profissionais liberais (Elsevier, 2005); Governo eletrônico: saiba tudo sobre essa revolução (Livro pronto, 2006); O mito da criatividade (Elsevier, 2008); Criatividade sem segredos (Atlas, 2010) e coautor de Dicionário de termos de estratégia empresarial (Atlas, 2009).
Revide Online