França pode ir à semifinal

França pode ir à semifinal

Para o ex-jogador Raí, os franceses estão bem preparados e podem ir longe na Copa do Brasil

Raí, que por cinco anos jogou na França, considera boas as chances da seleção de Didier Deschamps no mundial
Luiza Meirelles | Fotos: Arquivo Revide 

Início no Botafogo, convocação para a seleção brasileira, carreira no São Paulo e contratação pelo Paris Saint-Germain. Nesta entrevista, o ex-jogador Raí Vieira conta um pouco de sua carreira e fala de sua ligação com a França, país que visita de cinco a seis vezes por ano.


Ele comenta ainda de sua participação no mundial de 1994, quando o Brasil foi tetra depois de 24 anos sem vencer, das possiblidades da França na Copa do Mundo do Brasil e diz que pretende assistir a cerca de oitos jogos – na abertura ele estava presente.

Para o ribeirãopretano que brilhou na França, Ribeirão ganhou uma boa oportunidade de se aproximar do país europeu, com quem pode, ao sediar a seleção, estreitar laços políticos e comerciais.

Luiza: Quais as suas primeiras memórias do futebol, ainda em Ribeirão?
Raí: Futebol de rua e nos campos de terra perto da minha casa no Sumaré, e claro com meus irmãos. Depois foi a vez da escola, Marista, e do primeiro clube, a Recreativa (Sociedade Recreativa e de Esportes de Ribeirão Preto). Como torcedor ferrenho do Botafogo, pude acompanhar os anos de glória, final dos anos 1970, onde tinha uma grande bandeira com uma linda pantera desenhada.

Luiza: Qual a importância do Botafogo em sua carreira?
Raí: O Botafogo foi meu início, e a base de tudo, e tenho muito orgulho de ter sido convocado para a seleção, pela primeira vez, ainda jogando pelo Botafogo. Enfim devo muito da minha carreira a este começo.


Luiza: Você tornou-se um dos grandes ídolos são-paulinos. Imaginava tantas conquistas pelo clube?
Raí: Sabia que a ótima estrutura do São Paulo Futebol Clube (SPFC) me daria todas as condições para alcançar muitas conquistas, mas acho que consegui ir muito além, sendo capitão no momento mais vitorioso da história do clube.

Luiza: O que você guarda de mais precioso de suas experiências na Seleção Brasileira?
Raí: Meus primeiros jogos, ainda como atleta do Botafogo, meus quatro anos como capitão da seleção, e obviamente a conquista do mundial de 94. Nossa volta depois da conquista, e o encontro com a torcida, foi um dos momentos mais fortes da minha vida.

Luiza: Qual foi o momento mais marcante dessas passagens? Qual a emoção de participar de uma copa do mundo?
Raí: É o sonho de qualquer criança, e até por isso, se torna uma especial mistura mágica de sonho com grande responsabilidade.

Luiza: E de vencê-la?
Raí: O Brasil não vencia havia 24 anos e foi uma copa muito difícil. A conquista deste evento maior foi libertador para o futebol brasileiro, que andava em baixa. Depois desta conquista chegamos a mais duas finais seguidas.

Luiza: A camisa 10 canarinha pesa de alguma forma?
Raí: A camisa 10 é mítica, e tem tudo que se pode esperar: responsabilidade, peso, orgulho, alegria etc... E eu a vesti por quatro anos seguidos.

Luiza: Qual foi, para você, o grande segredo da seleção campeã de 1994?
Raí: Foi saber lidar com a pressão de 24 anos sem vencer, que caía sobre nossos ombros. E de, com muita união, saber suportar isso e ter bastante foco na única coisa que nos interessava, que era a vitória. Foi também importantíssimo contar com uma excelente defesa e com a ótima fase de Romário e Bebeto.

Luiza: Qual sua expectativa para a Copa do Brasil?
Raí: Temos um ótimo elenco, e um treinador experiente, que sabe lidar como poucos com esse tipo de competição, que é a Copa, de sete jogos apenas. Por isso temos grandes chances de sairmos vencedores.

Luiza: Estará nos estádios. Em que jogos?
Raí: Vou assistir além da abertura e final, mais cinco ou seis jogos, a maior parte de disputas do Brasil.

PASSAGEM PELA FRANÇA

Luiza: Como surgiu a oportunidade de ir para o Paris Saint-Germain?
Raí: Ganhamos, com o SPFC, o mundial interclubes, contra o Barcelona. Depois desse jogo surgiram muitos clubes interessados, mas  a PSG chegou antes e me fez uma proposta ainda em dezembro, quando os campeonatos Europeus começam somente em agosto. Adorei a ideia de jogar em Paris, cidade e país que sempre quis conhecer melhor, e aceitei. E ainda por cima, no PSG, começava um projeto esportivo ambicioso.


Luiza: Como jogador, quais os principais aprendizados desse período?
Raí: Adaptar-me ao jogo europeu, muito mais dinâmico. Aprender a jogar em gramados pesados e superar a dificuldade de ganhar seu espaço fora do Brasil.

Luiza: Como pessoa, o que a França lhe ensinou?
Raí: Reforçou minhas convicções sobre direitos humanos e justiça social. Consegui aprender muito sobre o Brasil, tendo uma visão de fora, e tudo que uma civilização mais madura que a nossa pode nos ensinar.

Luiza: Qual a sua relação com o país atualmente?
Raí: Minha relação com a França, ainda é muito forte. Tenho uma filha que mora lá, tenho meu apartamento e sinto um grande respeito dos franceses em relação à minha história e meus valores. Sempre digo que aqui, sou mais popular, mas lá sou mais respeitado ainda. Desde que voltei para o Brasil, nunca saí realmente da França, vou a Paris cinco ou seis vezes por ano. Nesta copa, vou escrever para o Jornal L'Equipe (o mais respeitado jornal de esportes na Europa) e vou fazer uma participação cotidiana em uma das maiores rádios da França, a EUROPE1.

Luiza: Acompanha o futebol francês? Qual sua expectativa em relação à seleção que se hospedará em Ribeirão?
Raí: Sim, acompanho o futebol francês sempre que posso, mas não é fácil. E me mantenho próximo ao PSG. A seleção da França cresceu muito neste último ano. Por issoe acredito que possa chegar à semifinal e derrubar outros grandes. Tem um grande e experiente treinador e uma boa mistura de jogadores experientes e jovens. Tudo vai depender, também, de um bom desempenho do atacante Karim Bezema, já que o outro grande astro (Ribéry) ficou fora da copa.

Luiza: Você vê alguma relação entre a França e nossa cidade?
Raí: Tenho certeza que os franceses vão adorar a receptividade dos ribeiraopretanos. E que esta oportunidade pode ser o começo de uma ótima relação comercial e política, entre Ribeirão e a França. Os franceses sempre adoraram o Brasil e os brasileiros agora vão conhecer um pouco mais sobre nosso interior. Em termos de comportamento dos habitantes, o interior da França tem muitas semelhanças com nosso interior e quem, deles, tiver origem em cidades do sul da França (região com população aberta) , vai se identificar conosco.

* Publicado em 13/06/2014



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