Frente a frente com Papai Noel

Frente a frente com Papai Noel

Na entrevista concedida a Lucca Saba de Mello Pará, Papai Noel revela detalhes da produção de presentes, fala sobre alguns de seus hábitos e costumes, e se mostra uma figura extremamente sensível

Associado à bondade, ao acolhimento e, principalmente, à generosidade, o Papai Noel chega no fim do ano como figura principal de uma encenação diretamente ligada ao comércio. É ele quem ajuda a alavancar as vendas, estimulando a troca de presentes, as confraternizações e amigos secretos. Porém, não é só esse o papel do emblemático velhinho de roupas vermelhas, que carrega um saco de balas para distribuir para a criançada. Ele instaura, também, um clima de harmonia e traz ensinamentos que devem ser disseminados o ano todo, como o bom comportamento, por exemplo. 

Presença certa nos centros de compras, Papai Noel recebe as crianças para uma conversa rápida, um abraço apertado e muitos pedidos, que podem ser atendidos ali mesmo, poucos minutos depois do bate-papo. Os pais vão até às lojas mais próximas e já garantem que a visita do bom velhinho será feita na noite de Natal, atendendo ao pedido recém-lançado. É claro que esta transação toda inclui uma negociação com as crianças — já que elas costumam pedir além do que se pode atender —, uma organização financeira prévia, entre outros detalhes particulares de cada família.

Para as crianças, toda essa parte organizacional está fora de discussão. O que elas querem é pura e simplesmente se sentar ao lado de Noel no trono, fazer os seus pedidos e pronto: já está tudo acertado para que ele deixe o presente embaixo da árvore de Natal. Afinal, é para isso que ele, a Mamãe Noel, os elfos e duendes trabalham o ano todo. Quando a produção é finalizada, Papai Noel sai das montanhas de Korvatunturi, na Lapônia, Finlândia, e atravessa o mundo todo distribuindo presentes. Com a ajuda de Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago, as renas que puxam o seu trenó, o bom velhinho consegue atender todas as crianças, mas nem sempre entrega exatamente o que foi pedido.

Papai Noel faz uma lista das crianças ao redor do mundo, classificando-as de acordo com seu comportamento e, então, ele entrega presentes, como brinquedos e doces, a todos que são bem comportados. Porém, o bom velhinho está sempre de coração aberto e pronto para dar uma chance a qualquer criança. Por conta dessa sua generosidade, entre tantas outras características admiráveis, Papai Noel é um mito em todo o mundo; uma das maiores celebridades de todos os tempos. 

Estudiosos afirmam que a figura de Noel foi inspirada em São Nicolau. Antigamente, ele era desenhado e representado com uma roupa de frio verde escura ou marrom. Foi em 1886 que um desenhista alemão chamado Thomas Nast criou um novo figurino para o Papai Noel, que passou a usar roupas vermelhas e brancas, com um cinto preto cortando a grande barriga. Esse figurino vermelho se espalhou pelo mundo todo graças a uma propaganda da Coca-Cola, criada em 1931, que fez muito sucesso. Logo, ele passou a se vestir de acordo com a imagem do comercial.

Foi com essa figura de roupas e gorro vermelhos, botas pesadas e um cinturão marcando a barriga, com barbas longas, óculos e um belo par de olhos azuis que Lucca Saba de Mello Pará, de nove anos, se encontrou na primeira manhã de dezembro. No espaço montado no Shopping Iguatemi Ribeirão Preto para receber o bom velhinho, os dois conversaram por alguns minutos e, ali, Lucca tirou suas dúvidas, conheceu um pouco mais da história do Papai Noel e contou que tem se comportado bem. Mesmo sendo merecedor do presente pelo bom comportamento, ele ainda não sabe qual será o seu pedido neste Natal.

Papai Noel, que tem trabalhado incansavelmente nos últimos dias, atendeu ao pedido da Revide com o mesmo carinho que recebe cada uma das crianças que senta em seu trono. Ele respondeu todas as questões, contou histórias, abraçou o menino e se emocionou ao dizer que, muitas vezes, fica mudo diante da inocência das crianças. Nessas ocasiões, fica igualmente emocionado e deixa escorrer algumas lágrimas, mostrando a sensibilidade que fazem dele uma figura querida não só pelo seu histórico e os mitos que o envolvem, mas por ter o dom para exercer esse papel. Esse clima de encantamento e magia tomou conta da conversa toda, que resultou na entrevista a seguir.

Lucca: Como você sabe quais são as crianças que obedecem e as que não obedecem para presenteá-las? 
Papai Noel:
Eu sempre ligo ou mando e-mails para os papais e mamães perguntando de vocês. Então, eles me falam e eu faço a listinha de quem se comportou bem para ser presenteado, mas vocês também não podem mentir para mim. Quando eu pergunto, vocês precisam dizer a verdade.

Lucca: Quem são as crianças que se comportam bem?
Papai Noel:
São aquelas que estudam, obedecem os pais, organizam os brinquedos, não brigam com os irmãos e amiguinhos. Essas crianças fazem por merecer o presente de Natal.

Lucca: Como é sua casa no Polo Norte?
Papai Noel:
É uma casa muito gostosa, com um salão bem grande onde os duendes e a Mamãe Noel ajudam a confeccionar os brinquedos. Como lá nas montanhas é muito frio, é como se eu morasse dentro de uma geladeira. Por isso, na sala, há uma chaminé para nos aquecer. Tem também dois quartos, um para mim e outro para receber alguns amigos. Ainda tem um jardim grande onde eu deixo as renas soltas e também o trenó.

Lucca: Quem ajuda a fazer os brinquedos?
Papai Noel:
Os duendes, os elfos, que são seres da natureza, e a Mamãe Noel. Os outros Papais Noéis também ajudam, pois somos todos amigos.

Lucca: Como você consegue entregar todos os presentes em uma noite só para todas as crianças?
Papai Noel:
Minhas renas encantadas são tão rápidas que, quando eu me dou conta, já visitei todos os netinhos, que são vocês, crianças. Além disso, tem aquilo que eu falei anteriormente: todos os outros Papais Noéis me ajudam.

Lucca: Você entrega os presentes sem ninguém ver. Como faz isso?
Papai Noel:
Eu fico quietinho, observando as crianças à minha espera, e, quando elas dão uma piscadela, eu entro e coloco os presentes na árvore.

Lucca: Como você entra nas casas, para entregar os presentes, com a porta trancada?
Papai Noel:
Na maioria das vezes, entro pela chaminé e, claro, como todos os papais sabem que eu vou fazer a visita, já me deram uma cópia da chave para que eu possa entrar sem fazer barulho. Quando eles esquecem, eu abro com a minha chave mágica. Só não posso entrar pela churrasqueira, senão viro churrasquinho de Papai Noel.

Lucca: Para quantas crianças você entregará os presentes esse ano?
Papai Noel:
Para milhares de crianças. Onde tiver uma criança querendo minha presença, eu estarei lá. Você mesmo, Lucca, vai receber a minha visita.

Lucca: Além de entregar presentes, você também realiza sonhos?
Papai Noel:
Depende do tamanho do sonho. Eu sempre dou uma forcinha, mas quem tem que se esforçar para realizá-los é cada um de vocês. O que eu posso fazer é receber vocês, ir nas casas e levar esperança para as crianças. Eu adoro realizar os sonhos das crianças.

Lucca: O que você faz nos outros meses do ano?
Papai Noel:
Estudo novas maneiras de fazer os brinquedos para o próximo ano, descanso e ainda recebo a visita de algumas crianças na minha casa no Polo Norte. Ela está sempre aberta para receber visitas.

Lucca: A partir de quando se tornou Papai Noel? Já nasceu com esta missão ou percebeu seu talento mais tarde?
Papai Noel:
Percebi essa missão quando começaram a me reconhecer nas ruas. Aí, fui notando que eu gostava e sentia o mesmo carinho por todas as crianças. Hoje, sou extremamente realizado com isso.

Lucca: Você teve que estudar ou fazer um treinamento para se tornar Papai Noel?
Papai Noel:
Sim, fiz um curso para ter mais conhecimento. Além de gostar muito de crianças, eu preciso saber como lidar com elas. 

Lucca: Você recebe muitas cartinhas de adultos também?
Papai Noel:
Sim, afinal, os adultos já foram crianças. Eles escrevem pedindo presentes, mas as crianças têm prioridade. Outras vezes, os adultos escrevem para contar sobre o comportamento de seus filhos. Eles são meus informantes.

Lucca: Quais são os presentes mais pedidos?
Papai Noel:
Tablets, videogames, celulares e bicicletas. As crianças não querem mais bolinhas de borracha para jogar no quintal. Só querem ficar sentadas diante da televisão ou mexendo em seus tablets e celulares.

Lucca: Hoje, com a tecnologia tão avançada, você ainda recebe muitas cartinhas escritas à mão?
Papai Noel:
Sim, as crianças escrevem muitas cartinhas. Aqui mesmo, atrás do meu trono, tem um espaço para isso. Quando elas não sabem, pedem para os pais escreverem. Além disso, algumas enviam e-mail, que é um meio de comunicação mais rápido.

Lucca: Por que, às vezes, você se confunde com o presente?
Papai Noel:
Eu estou velhinho. Às vezes, confundo os presentes e até os nomes das crianças, mas nunca deixei de levar uma lembrancinha para aqueles que visito.

Lucca: Quantos anos você tem?
Papai Noel:
Sou tão esquecido que já não me lembro mais. Estou bem velhinho.

Lucca: Você já fez a barba algum dia na vida?
Papai Noel:
Não. Já me acostumei a ser Papai Noel o ano inteiro. Só corto de vez em quando para ela não arrastar no chão.

Lucca: Quantas roupas você tem?
Papai Noel:
Várias. Todo ano eu mando fazer uma. É claro que vou trocando e lavando, pois, como trabalho muito, sempre precisa de um conserto aqui, outro ali. Todas elas são quentinhas como esta que estou usando, pois o clima do Polo Norte é bem frio.

Lucca: Você gostaria de ter uma roupa de verão para visitar os países quentes?
Papai Noel:
Sim, eu tenho, mas vocês estão tão acostumados com esta que é bem capaz de não me reconhecerem. Já imaginou o Papai Noel de bermuda e chinelo no Caribe?

Lucca: Quantas renas puxam o seu trenó?
Papai Noel:
São nove renas voadoras que puxam o meu trenó: Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago.

Lucca: Qual é a sua comida preferida? 
Papai Noel:
Eu gosto de arroz, feijão, sorvete, gelatina e muito chocolate. Por isso, sou assim gordinho.

Lucca: Cadê a Mamãe Noel?
Papai Noel:
Ela ficou na fabriquinha, lá no Polo Norte, terminando de confeccionar os presentes junto com os duendes.

Lucca: O que você quer ganhar de presente neste Natal?
Papai Noel:
Saúde, paz e que todas as crianças possam viver bem e com respeito. Desejo muita felicidade a todos.

Lucca: O que você faz logo depois do Natal?
Papai Noel:
Tiro férias com a Mamãe Noel. Aí nós descansamos, organizamos a fabriquinha de brinqueados e começamos a produzir tudo novamente.

Lucca: Qual é a melhor parte de ser Papai Noel?
Papai Noel:
É ser reconhecido como Noel. Adoro quando as crianças vêm até mim e ficam felizes em me ver. Aí, elas me dão um abraço bem apertado e desejam um Feliz Natal.

Lucca: Há alguma parte ruim?
Papai Noel:
Sim, quando a criança chora com medo de mim. O Papai Noel é muito bonzinho, então, não tem porque a criança chorar. 

Sim, Papai Noel existe

“Desde que recebi a pauta de uma entrevista com o Papai Noel, que seria concedida a uma criança, já fiquei apreensiva. Primeiro, pelo encontro em si, das duas fases mais puras da vida de uma pessoa: a infância e a velhice. Depois, pelo lado técnico mesmo, em como tornar isso real, como encontrar uma criança que acredite em Papai Noel e tenha condições para formular algumas perguntas, e também de que maneira fazer essa conversa render quatro páginas de entrevista. Fiquei tão envolvida que essas questões foram resolvidas rapidamente. A partir daí, eu estava livre para me envolver com a essência disso tudo, com a minha própria relação com o Natal e a figura do Papai Noel. Em meio a tantas caixinhas se abrindo na minha mente, o meu ponto de partida para a organização dos pensamentos foi: sim, Papai Noel existe. Com a representação única dessa figura que se vê nos shoppings, por trás dele está um pai que atende ao pedido da filha, uma mãe que reúne todas as economias para dar algo próximo do que lhe foi solicitado, um avô que faz de tudo para ver o sorriso no rosto de seus netos. Algumas vezes, o Papai Noel é uma família toda empenhada em atender um pedido especial. Outras vezes, é alguém desconhecido que envia um presente de longe ou alguém de perto mesmo, mas sem nenhuma ligação com quem escreve aquelas cartinhas de letras irregulares, mas cheias de esperança. Eu mesma me lembro de vários Noéis que passaram pela minha vida e que, embora alguns presentes não tivessem nada a ver com o que permeava os meus sonhos, o pouco que eles fizeram foi muito para mim, por saber que era o máximo que podiam fazer. Da minha infância para cá, vários Natais já se passaram e eu também tive — e tenho — a oportunidade de me tornar Noel, mesmo sem ter barbas longas e um belo par de olhos azuis.” Máisa Valochi, jornalista.

A dúvida do presente

“Eu achei legal fazer a entrevista com o Papai Noel. Fiquei feliz em participar, mas não fiquei ansioso. Ainda não sei o que vou querer que ele me dê de presente. Só escolhi o que quero ganhar da minha mãe: um jogo de videogame.” Lucca Saba de Mello Pará, 9 anos, aluno do 3º ano do Ensino Fundamental.

Texto: Máisa Valochi
Fotos: Ibraim Leão

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