Futuro incerto
Déficit mensal nas contas da APAE de Ribeirão Preto compromete, segundo o presidente, Celso Fujioka, a continuidade dos serviços, que visam à qualidade de vida da pessoa com deficiência intelectual
Criada em Ribeirão Preto há 52 anos, por meio da mobilização de famílias preocupadas com questões relativas à pessoa com deficiência intelectual, a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Ribeirão Preto (APAE-RP) convive com a incerteza. Isso porque, apesar de ter atingido um nível diferenciado no que diz respeito à qualidade dos serviços prestados, a entidade vem trabalhando com um importante déficit mensal. As contas não fecham em função de parcelas de passivo trabalhista, bancos, dívidas de exercícios anteriores e folha de pagamentos não contempladas em convênios públicos.
Quem explica é o economista e administrador de empresas Celso Fujioka, que preside a APAE-RP desde 2014. Seu envolvimento com a administração da entidade começou no ano anterior, quando ocupou a diretoria financeira da instituição. Celso permanecerá na atual função até 2019. Hoje, divide sua agenda entre a família — é casado e pai de três filhos —, as responsabilidades como CEO da Tonon Bioenergia —, empresa do setor de açúcar e etanol — e a presidência da APAE-RP, onde sua principal atividade é o trabalho institucional junto aos poderes públicos locais, às associações de classe e ao universo corporativo, por meio de sua rede de relacionamentos.

Revide: Quais são os serviços reunidos na APAE-RP?
Celso: A instituição faz um trabalho único no município. Aqui, está reunida uma equipe multidisciplinar formada por profissionais altamente capacitados, focados na promoção da qualidade de vida, da dignidade e da autonomia da pessoa com deficiência intelectual. Atualmente, a entidade está operando em seu melhor momento em relação aos serviços oferecidos, graças a um processo de melhoria contínua, porém, vem apresentando um déficit mensal recorrente por diversos fatores. Essa situação compromete a continuidade do atendimento prestado aos 420 assistidos da entidade, pois não há recursos financeiros disponíveis, públicos ou privados, para arcar com esse déficit, o que deixa o futuro da instituição incerto.
Qual é o principal desafio da entidade?
É, justamente, equacionar o déficit mensal no curto prazo e manter os serviços prestados com qualidade e responsabilidade. Acreditamos que uma das formas mais eficazes de conseguir esse equilíbrio é com o engajamento de toda a comunidade ribeirãopretana —poder executivo, legislativo, empresários, associações de classe, famílias, enfim, todas as pessoas que, de alguma forma, reconheçam que, nesses 52 anos, desenvolvemos um trabalho único e contínuo, ainda que enfrentando dificuldades. Isso só foi possível graças à perseverança, à determinação e ao comprometimento de todos os envolvidos na missão de proporcionar bem-estar, amor e carinho às pessoas mais do que especiais com as quais temos o prazer e a satisfação de conviver diariamente.
De que maneira as pessoas podem ajudar?
Acreditamos que todos podem ajudar fazendo sua parte, através de contribuições regulares, seja como associado ou por apadrinhamento, é muito simples e rápido, basta entrar em contato com a instituição que tomaremos as providencias necessárias.
Quais são os pilares dos serviços prestados?
São oferecidos, gratuitamente, serviços multidisciplinares completos dentro de três áreas de abrangência: saúde, educação e assistência social. Na saúde, estão envolvidos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e psicólogos. Na área da educação, há uma equipe de professores com especialização para o atendimento à pessoa com deficiência intelectual, além de auxiliares de sala, atendentes, equipe de apoio, coordenadores pedagógicos e aulas de educação física, balé, música, dança, entre outras que contribuem para o desenvolvimento dos usuários dos serviços. Na área da assistência social. A APAE disponibiliza uma equipe de educadores e assistentes sociais, psicólogos, atendentes, monitores e pedagogos, que trabalham visando à dignidade da pessoa com deficiência, com foco na sua autonomia diante das atividades do dia a dia e no apoio aos familiares, tornando assim o trabalho amplo e complexo.
Qual é a infraestrutura necessária para manter a entidade ativa?
Para que possamos atender adequadamente nas três frentes, de acordo com o que ficou estabelecido em cada uma das parcerias com os convênios públicos do município, do Estado e União, nossa infraestrutura é bem complexa. Hoje, é necessário que tenhamos salas de aula divididas por nível de comprometimento e idade. Também dispomos de espaços para atividades ao ar livre, como quadra e salão, onde são promovidas aulas de dança e música. Temos, ainda, a Casa Modelo, onde o assistido é estimulado a realizar atividades da vida diária em um ambiente simulado. Assim, ajudamos a promover o desenvolvimento e a autonomia. Uma piscina aquecida recebe as atividades de hidroterapia, comandadas por fisioterapeutas. Um ambulatório garante atendimento de baixa complexidade dentro da área da saúde, que também conta com consultórios. Realizamos trabalhos com as famílias dos assistidos e temos, também, salas equipadas para terapia ocupacional, fonoaudiologia e fisioterapia. A APAE dispõe, ainda, de ônibus próprios para transportar parte dos assistidos e auditório para atividades que envolvam recursos de multimídia. Além dos profissionais que fazem girar toda essa estrutura, há o setor administrativo. Hoje, nosso quadro de funcionários possui 130 colaboradores, todos com contrato de trabalho.
Qual é o custo fixo da entidade?
Atualmente, nossos custos fixos são de R$ 350.000,00 ao mês, com folha de pagamento — sem considerar 13° salário e vale-alimentação —, e outros R$ 15.000,00 mensais, aproximadamente, com despesas operacionais.
Quanto representam os recursos públicos recebidos pela APAE- RP?
Mensalmente, recebemos de repasses de recursos públicos — convênios com a Secretaria da Educação, da Saúde e da Assistência Social —, em torno de R$ 210.000,00, o que significa apenas 60% do necessário para fazer frente à nossa folha de pagamentos. Atualmente, nosso déficit mensal está em torno de R$ 100.000,00, considerando o pagamento da folha e de despesas com manutenção, materiais de enfermaria, de limpeza, energia elétrica, entre outras. Além disso, temos outros compromissos que somam em torno de R$ 98.000,00 por mês, referentes a parcelamento de passivo trabalhista, financiamentos com bancos e outras dívidas contraídas em anos passados. Caso esse déficit não seja solucionado no curto prazo, os serviços prestados pela instituição poderão ser descontinuados, trazendo prejuízos importantes para os assistidos e seus familiares.
Como fechar a conta?
Temos um calendário anual de eventos que contribui muito com a instituição e estamos sempre buscando novos eventos e formas de angariar recursos. Neste 2018, nossa Rifa já está disponível para venda. Em abril, promoveremos uma Noite Mineira e outra, de Pizza; em junho, a famosa Festa Junina; no mês seguinte, faremos uma Rifa de Copa do Mundo; em agosto, haverá o evento Apaixon-se, no Theatro Pedro II e, em outubro, um grande Leilão.
Existe um corpo de voluntários vinculado à APAE de Ribeirão Preto?
Sim, toda a diretoria, o conselho e a presidência são compostos por voluntários, que doam conhecimento e tempo à causa. Além disso, temos voluntários que prestam serviço diretamente aos assistidos da instituição, auxiliando os profissionais em diferentes frentes de atuação, de acordo com a disponibilidade e o perfil. Também temos diversos parceiros voluntários que atuam de forma pontual, desde empresas que doam serviços e treinamentos, até doações materiais, como de equipamentos. Contudo, a instituição necessita de mais voluntários para atuar nas suas mais diversas áreas, seja na saúde, na educação ou na assistência social, seja na manutenção predial, realizando serviços de jardinagem, eventos internos e externos, mobilização de recursos, entre outras atividades. Enfim, a instituição está aberta a qualquer tipo de ajuda voluntária.
Como fazer parte desse grupo?
Qualquer pessoa pode abraçar nossa causa. Basta entrar em contato pelo tel.: (16) 3512.5200 ou fazer uma visita à APAE, que fica na Rua Coracy de Toledo Piza, 571. O funcionamento da entidade acontece de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 16h30. Precisamos de mão de obra, recursos financeiros e materiais. Atualmente, estamos em busca de parceiros para a manutenção da nossa área externa, como serviço de jardinagem e de pintura. Aceitamos doação do material a ser usado ou da mão de obra. Toda ajuda é bem-vinda, todos podem colaborar.
O terceiro setor também sofreu as consequências da recente crise brasileira? De que forma?
Sim, muito. Com a crise econômica, as empresas diminuíram as doações às entidades, e a APAE não foi exceção. Também por isso, nosso problema financeiro se tornou ainda mais agudo, pois passamos um longo período sem poder contar com doações. Como se não bastasse a crise econômica, desde janeiro deste ano, o Governo do Estado de São Paulo alterou o sistema do processamento das doações da Nota Fiscal Paulista para as entidades sociais — antes, os registros eram feitos apenas com os cupons fiscais e, agora, terão que ser feitos pelo próprio contribuinte no site oficial da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, onde poderá escolher a entidade a ser beneficiada. Por ser um processo mais trabalhoso e demorado, dependerá do engajamento dos cidadãos, por isso, imaginamos que o recurso cairá. Neste ano, estava previsto que essa fonte renderia ao orçamento da APAE aproximadamente R$ 250.000,00, o que certamente não conseguiremos mais atingir.
Quais são as principais necessidades enfrentadas pela APAE hoje?
Hoje, nossas principais necessidades são por recursos financeiros para mantermos a qualidade e a sustentabilidade do serviço.
Há projetos aguardando apoio para sair da gaveta?
Sim, temos a intenção de construir um Centro Especializado em Reabilitação e Oficina Ortopédica (CER), o que permitirá ampliar os atendimentos e as modalidades oferecidas aos assistidos.
Como pessoas jurídicas podem colaborar?
As empresas podem colaborar através de doações em dinheiro, feitas por meio de depósito bancário, e também com a destinação de 1% do Imposto de Renda devido de empresas tributadas pelo lucro real. A APAE está cadastrada no Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, o que nos permite receber os recursos doados por esse caminho. Vale lembrar que as pessoas físicas podem fazer a mesma destinação de até 6% do Imposto de Renda.
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Ibraim Leão