Generosidade que constrói
Com o olhar atento ao outro, pessoas comuns abraçam desafios para proporcionar sonhos
Quando se pensa em conquistas, a primeira palavra que vem à mente é oportunidade. Normalmente associada à realização de projetos e de sonhos, não raro, a sua ausência serve de justificativa para que planos e desejos se percam na névoa do tempo e acabem sendo relegados ao esquecimento.
Às vezes, a oportunidade surge na vida de alguém como um golpe de sorte; às vezes, é conquistada com lutas e sacrifícios. Alguns a aguardam; outros a buscam até ver se materializarem diante dos olhos cada um dos sonhos. Entre os muitos tijolinhos que alicerçam tais conquistas está a generosidade — o sentir, o perceber, o acolher, o se doar ao outro.
Qual garota adolescente não se imaginou em seu mágico baile de 15 anos? A cadeirante Isabella Maria de Paula Coimbra Silva não foge à regra. “O sonho de toda menina é ter uma grande festa, mas nem sempre é possível. Festa de 15 anos, hoje, é um evento grandioso, não devendo em nada aos casamentos mais completos”, comenta a estudante.
Não foi por falta de desejo que sua mãe, a funcionária estadual Greter Mara de Paula Silva não pôde realizar o sonho da filha: ao saber quanto ficaria o evento, teve que desistir da ideia, pois não tinha condições financeiras.
Foi, então, que, como em um autêntico conto de Charles Perrault, surgiram as fadas, neste caso, não Fauna, Flora e Primavera, de “A Bela Adormecida”, nem a adorável e atrapalhada fadinha de Cinderela, mas pessoas comuns, entre elas, profissionais e empresários do setor de eventos, que decidiram se unir para transformar em sonho a realidade de adolescentes de baixa renda, que terão o tão aguardado baile de debutantes, no dia 28 de setembro, às 20h.
A conquista desse sonho está sendo possível devido ao projeto “Meus doces 15 anos”, que começou com Paulo Rodrigues, proprietário do Buffet Regina Rodrigues. Inicialmente, o empresário faria uma festa para apenas uma debutante, mas foi ganhando o apoio de outros profissionais parceiros. Uma iniciativa sem fins lucrativos, baseada em doações, desde o espaço da boate Sky Music, até o trabalho de todos os profissionais envolvidos. Só de fotógrafos, haverá um para cada debutante. “Coloquei a ideia na internet, e como tenho vários amigos que trabalham com eventos, muitos quiseram participar e, hoje, são 15 meninas aniversariantes e quase 100 profissionais envolvidos”, explica Paulo.
Greter, a mãe da debutante Isabella, sente-se encantada e agradecida com a realização do sonho de sua filha. “Neste mundo imediatista e consumista em que vivemos, ver a doação de todos os envolvidos faz com que acreditemos que quando alguém deseja estender as mãos, nada o detém: basta dar o pontapé inicial e tudo vem, quando a intenção é o amor ao outro. A festa está ficando linda — a valsa, as roupas, o cuidado, o carinho. Será emocionante e ver o brilho no olhar da minha filha e dessas meninas — tudo vale a pena para realizar os sonhos desses rostinhos. Nós, mães, seremos as coadjuvantes nesse sonho. Quando alguém zela por nossos filhos, ficamos com uma dívida eterna de gratidão”, comenta a funcionária estadual.
Para a jovem Isabella, a realização do projeto é uma prova de amor e de respeito ao outro, afinal, todos os voluntários se uniram para transformar esse sonho em realidade. “Eu e as outras meninas estamos felizes. Será inesquecível, uma festa onde serei o alvo dos olhares, tendo todos que me amam participando desse sonho. Com o projeto houve um resgate da doação do outro em prol do coletivo — as madrinhas e os profissionais estão tão empolgados e eufóricos quanto nós, debutantes, e a maioria dos envolvidos não teve sua festa de 15 anos, não se realizou nesse sentido. Será um dia de princesa, o dia dos meus sonhos realizados, onde milagres e pessoas boas existem no mundo”, comenta a jovem debutante.
Isabella está certa quando comenta que os voluntários estão tão empolgados quanto as próprias debutantes. A comerciante Daniela Nicolosi é uma das madrinhas que zelam para que essas meninas tenham o seu dia de princesa. Para ela, o baile será um divisor de águas na vida dessas adolescentes que, pela primeira vez, terão a possibilidade de ir além de seu próprio convívio. “Para toda menina, o baile de debutantes é a apresentação à sociedade, é o primeiro passo dado em direção a tornar-se uma mulher. É um sonho tão mágico quanto é para uma noiva a festa de casamento. Esperamos que essas 15 jovens sirvam de modelo para as debutantes que virão, para que percebam que se estudarem, respeitarem o outro, os familiares e tiverem uma boa conduta, também podem ter seus sonhos realizados”, comenta Daniela.
Conforme a cerimonialista Ana Cristina Pereira Peres, cada debutante tem direito a 10 convites. Para a profissional, é importante investir nos sonhos. “Hoje, a juventude está desacreditada. As meninas já perceberam que o evento realmente acontecerá e está tudo muito lindo: a esperança, a realização das crianças envolvidas, é tudo maravilhoso”, ressalta Ana Cristina.
A coreógrafa Miriam Peto, que está conduzindo as jovens na dança e na escolha do repertório, está muito feliz em fazer parte do projeto. “É gratificante ver a união de todos em torno do mesmo ideal, todos cooperando tanto e tão focados em organizar uma bela festa”, destaca a profissional, que preparou para o momento tão especial da valsa não só a cadeirante, mas também outra adolescente com paralisia cerebral. “Está sendo feito um trabalho diferenciado com a Isabella, para que possa participar de todos os momentos da festa, junto com as demais adolescentes”, explica a coreógrafa.
Lições que também se aprende na escola
A inclusão na vida de um cadeirante geralmente é cheia de desafios, já que as cidades não são planejadas para as necessidades de toda a população. Ribeirão Preto não é exceção. Entretanto, Sonia Soranzo e Jeferson Andrade, dois cadeirantes, tiveram uma iniciativa que está mudando a vida de muitas crianças do bairro Orestes Lopes de Camargo. Trata-se do projeto Suave Caminho – Apoio ao Aprendizado.
O trabalho coordenado pela dupla teve início em 2007. “Tivemos essa ideia ao ver as dificuldades que as crianças vizinhas tinham na escola, foi uma forma de incentivá-las”, conta Sonia. A escolinha funciona na garagem de uma casa. No primeiro ano, tinha cerca de 10 alunos e, hoje, proporciona, anualmente, reforço escolar a 40 crianças, em média, com idades entre cinco e 11 anos.
Não demorou muito para o projeto chamar a atenção. Há dois anos, em novembro de 2014, o apresentador Luciano Huck veio a Ribeirão Preto entregar à Tia Sonia e ao Tio Jeferson, como são conhecidos na vizinhança, a nova sede da escolinha, por meio do quadro “Um por todos, todos por um”. Foi com o apoio de todos que se beneficiavam do projeto, que promoveu uma mudança radical no espaço, inclusive em termos de adaptação, para facilitar a função pedagógica dos cadeirantes.
Mais importante do que a atenção da mídia é a atenção que a própria comunidade tem dado à escolinha. “Nosso trabalho tem sido muito valorizado, pois são crianças que esperavam apenas uma oportunidade. Quando as crianças têm que faltar por algum motivo, as mães nos trazem atestado, vêm conversar”, comenta tia Sônia. Não é para menos: alunos que anteriormente estavam com problemas de aprendizado têm se destacado nos cursos regulares. Uma das crianças entrou na escola particular e, hoje, está entre as 10 melhores alunas. Não raro, meninos e meninas que passam por aquelas carteiras têm recebido homenagens em suas escolas de origem.
As aulas acontecem de segunda a quinta-feira, sendo que às segundas e quartas, são atendidas as crianças de 3ª a 5ª séries e, às terças e quintas, os pequenos do pré-primário até a 3ª série, sempre das 17h às 18h30. A Suave Caminho não aceita contribuições em dinheiro, vive apenas de doações de itens e de materiais. Além das lições escolares, da generosidade e do respeito ao outro, as crianças aprendem com o exemplo dado por Sonia e Jeferson. “Elas veem dois cadeirantes com uma iniciativa dessas e se tornam diferentes, passam a valorizar o que antes não valorizavam”, ressalta Sonia, que sonha em encontrar algum voluntário que se prontifique a dar aulas de inglês para as crianças.
A confeiteira Patrícia Aparecida Carvalho de Oliveira é mãe de Hugo Fernando, de oito anos, um dos beneficiados pela escolinha. Ela conta que o menino tem se desenvolvido a cada dia. “Com o reforço que eles dão, meu filho está se interessando mais pelos estudos, comporta-se cada vez melhor, tem aprendido a dividir as coisas. No início, ele tinha grande dificuldade em se relacionar, hoje, está bem melhor. É gratificante para a gente porque é um trabalho feito com o coração”, afirma a mãe de Hugo.
Ana Vitória, aos nove anos, já sabe que obstáculos existem para serem superados. Sua mãe, Ana Paula Rocha de Silva, vê a filha, que antes tinha dificuldades, tornar-se uma das melhores alunas da escola. “Aqui eles aprendem o que nem sempre conseguem captar na escola. A Tia Sonia é bastante dedicada e, na escola regular, pelo grande número de alunos, é difícil conseguir a mesma atenção. Antes, minha filha era avoada, não prestava atenção e, hoje, é bem concentrada; antes, não queria ir para a escola, hoje, ela pede para vir; antes ela não sabia nada e, agora, já está se desenvolvendo mais do que as outras crianças da classe dela”, conta a mãe.
Para Sonia e Jeferson, a retribuição vem na forma de carinho. “Tenho dois alunos que estão no colegial e até hoje me abraçam e me beijam. Isso não é um projeto, é uma família e essas crianças são nossos filhos do coração”, frisa a educadora.
O caminho do recomeço
No caso do médico Milton Cabral de Alvarenga Teixeira, 37 anos, as oportunidades são conquistadas, gradualmente, dia após dia. Em 7 de novembro de 2014, estava no carro, a caminho do trabalho, quando colidiu com um caminhão. Ele pouco se lembra do acidente, mas, devido à sua experiência profissional, conforme foi acordando após a tragédia, percebeu que sua mente já dava indícios de que havia algo errado. “Aos poucos, fui me dando conta da situação, uma vez que tentava mexer minhas pernas e não conseguia, bem como percebia pelos testes clínicos e físicos realizados pelos colegas”, conta. Ele havia, de fato, se tornado tetraplégico.
De lá para cá, vive um processo de adaptação difícil, que exige um trabalho constante, tanto mental quanto fisicamente, através de mudanças e de adaptações feitas em casa, na rotina diária e no trabalho. Quem pensa que esse foi o fim do profissional, muito se engana: Milton atua, hoje, no São Francisco Resgate como Médico Regulador, na Prefeitura de Ribeirão Preto como Médico Regulador no DACA pela manhã e, no período da tarde, atendia como Médico Clínico, na UBS João Rossi. Atualmente, também está na UBS Maria Casagrande, além de ser médico clínico responsável na Clínica Geriátrica Carmel Residence, da qual é sócio-proprietário ao lado da irmã, Ana Vasconcellos. Milton também já fez pós-graduação em Medicina do Trabalho.
O passo mais difícil rumo ao recomeço, ressalta o médico, é aceitar o fato de que, a partir de um dado momento, você se torna um deficiente físico, sobretudo diante do pré-julgamento de incapacidade, muito comum na sociedade. “Outra dificuldade constante, que me deixa muito angustiado é a falta de acessibilidade, onde o que me limita não é a deficiência física, mas a falta de civilidade e de respeito com todos que possuem necessidades especiais e precisam de acessibilidade”, afirma o médico.
Milton explica que, no início, o desgosto pela vida é comum. Com a mudança radical, o segredo é focar na recuperação e aceitar a situação, com confiança em Deus. Seus principais aliados nessa batalha foram o apoio, o amor e o carinho de familiares e dos amigos, e a oportunidade de retorno ao trabalho. “Sinto-me íntegro, novamente, ajudando o próximo, cuidando de vidas, como sempre fiz. Na verdade, o trabalho me deu vida e, a cada dia, proporciona uma conquista nova”, esclarece Milton, reforçando que não é fácil superar as adversidades e os preconceitos. “Porém, com o tempo conseguimos provar que a maior deficiência está na cabeça das pessoas, e não apenas em nós. Indispensável, com certeza, são os três ‘Fs’ — foco, força e fé”, avalia.
Hoje, após vencer tantas lutas, Milton sonha em acompanhar o crescimento do seu filho Arthur, viver cada momento ao lado dele e de sua esposa, Anne, estar mais perto de toda a família. Quer continuar cuidando da Carmel e, por meio de seu trabalho, ajudar cada vez mais pessoas. Também pretende iniciar palestras motivacionais e de desenvolvimento humano, mostrar que tragédias como a dele não são o fim e escrever um livro que já tem até nome: “Vida Paralela”.
Com sua nova condição, aprendeu muito. “Pelo fato de necessitar de cuidados especiais, eu consegui humanizar ainda mais o atendimento que presto, ficou mais fácil me colocar no lugar dos pacientes, entender o próximo e trabalhar de maneira ainda mais árdua. O maior aprendizado que tirei dessa jornada é o valor do verdadeiro amor que recebi de minha família e de meus amigos. Todas as demais dificuldades são e serão vencidas com fé e amor”, conclui o médico.