Geração empreendedora

Geração empreendedora

Verdadeiros caçadores de oportunidades, os empreendedores estão em evidência. Na entrevista a seguir, Marcos Chiodi e Iroá Arantes mostram como transformar pequenos negócios em grandes oportunidades

No livro “O mundo é plano”, o autor Thomas Friedman comenta algumas regras para que os empresários sobrevivam com suas empresas no mundo moderno. Algumas premissas são: “os pequenos se comportarão como grandes. (...) Uma maneira para que as empresas pequenas sobrevivam no mundo moderno é aprender a comportar-se como se fossem realmente grandes. E a chave para agir como grandes sendo pequenas é a rapidez em aproveitar todos os novos instrumentos de colaboração a fim de chegar mais longe, mais depressa, mais ampla e mais profundamente”. A obra em questão é uma das recentes leituras de Marcos Danilo Chiodi Martins que compartilhou as expectativas sobre o empreendedorismo com Iroá Arantes.

Marcos é engenheiro da computação, professor, atualmente cursa pós-graduação em gerenciamento de projetos avançados pela Stanford University e se declara um apaixonado por criatividade, pessoas e inovação. Iroá ocupa o cargo de gerente regional do Sebrae-SP em Ribeirão Preto. Graduada em economia, mestre em educação e com especializações em gestão de projetos, gestão de negócios, dinâmica de grupo e terapia neo reichiana. Também possui experiência em reconhecer o perfil dos empreendedores, além de auxiliar os iniciantes nessa área. Em uma área que cresce em escala geométrica a cada ano — mesmo em meio à crise —, as micro e pequenas empresas tornam-se muito mais do que um sonho dos novos empreendedores. Passaram a ser um assunto corriqueiro entre a população brasileira. Planejamento e o suporte de uma consultoria podem minimizar possíveis entraves e auxiliar na escolha de administradores que comandam as empresas com paixão e determinação. É exatamente sobre essa busca pelo empreendedorismo que Marcos e Iroá discutem na entrevista a seguir.

Marcos: Apesar de o Sebrae promover eventos relacionados ao empreendedorismo, vejo no meio acadêmico (entre professores e alunos) e também no mercado que as pessoas têm muitas dúvidas sobre o órgão. Como funcionam os serviços disponibilizados para a sociedade?
Iroá: A sigla Sebrae significa Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequena Empresa, sendo assim, toda e qualquer micro e pequena empresa é atendida pelo Sebrae. O foco é a gestão dessas micro e pequenas empresas. Trabalhamos com cursos, consultorias, projetos, acesso ao mercado e orientação a serviços financeiros. Podemos listar três grandes linhas de produtos que são: capacitação para a micro e para a pequena empresa, acesso a serviços tecnológicos onde contamos com parceiros como o Senai e Senac e acesso a mercado que pode ser via visitação a uma feira nacional ou internacional. Também contamos com uma infinidade de serviços para o Microempreendedor Individual, o MEI.

Marcos: Você tem uma carreira de 21 anos no Sebrae chegando agora à gerência regional de Ribeirão Preto. Qual foi sua estratégia dentro da empresa para alcançar este cargo?
Iroá: Não diria que foi uma estratégia pensada e calculada, na verdade, houve um trabalho onde o foco foi aliar o conhecimento e me sentir realizada no trabalho. Eu sempre gostei de estudar e quando você se sente realizada no trabalho você faz melhor, compromete-se mais e gosta de atingir resultados. O próprio resultado do cliente que atendemos nos deixa feliz com o sucesso. Acredito que foi isso que me motivou a buscar um pouco mais.

Marcos: A sua formação é bastante diversificada: graduada em economia, mestre em educação e com especialização em gestão de projetos, gestão de negócios, dinâmica de grupo e terapia neo reichiana. Esta formação ajudou na sua carreira?
Iroá: No primeiro momento, quando alguém olha para tudo isso tenta relacionar a graduação em economia com a pós em psicoterapia.  No Sebrae, trabalhamos com todos esses componentes, pois ao mesmo tempo em que temos que olhar para uma empresa, para sua gestão, os resultados, seus indicadores e seus objetivos, precisamos lembrar que essa empresa tem resultado porque tem pessoas. Essas pessoas precisam estar capacitadas, prontas para alcançar os resultados almejados. O Sebrae trabalha com educação e não tem como você trabalhar com educação se não entender de pessoas, com isso percebo que essas áreas são a soma para que eu possa exercer o meu trabalho.

Marcos: A missão do Sebrae é "Promover a competitividade e o desenvolvimento sustentável dos pequenos negócios e fomentar o empreendedorismo para fortalecer a economia nacional". Qual é a importância dos pequenos negócios para a economia nacional e para o posicionamento do Brasil no mercado mundial?
Iroá: Hoje 99% das empresas abertas no Brasil são micro e pequenas empresas e 50% dessas são microempreendedores individuais. Até a criação do MEI, um grande número de pessoas estava na informalidade e, com as oportunidades e benefícios que a lei oferece, formalizaram as empresas. Podemos dizer que a economia é abastecida por esse público. Se fôssemos pensar, hoje, apenas nas médias e nas grandes empresas, teríamos apenas 50% da massa salarial que gira a economia no Brasil. Essa micro e pequena empresa é sim responsável por sustentar e por fazer com que a nossa economia gire.  Posso dizer, ainda, que, se olharmos por um lado mais social, ela é uma das melhores formas de distribuição de renda no Brasil, porque não tem altos salários, mas tem uma diversificação, consegue distribuir essa renda para a população que consome e faz com que os negócios se tornem mais perenes.

Marcos: Sempre que se fala sobre empreender e abrir novos negócios, também menciona-se a importância de se fazer um plano de negócios antes de iniciar o empreendimento. Porém, as novas start-ups vêm se valendo de outra técnica para modelar o seu negócio que é o Business Model Canvas (BMC). Você acredita que o BMC veio para substituir o plano de negócio ou para complementá-lo?
Iroá: O modelo Canvas e o Plano de Negócio são formas de diminuir a mortalidade desses negócios. São maneiras de estruturar quais são as necessidades do novo empreendimento e como elaborar o planejamento para a abertura desse negócio. Essas duas ferramentas não são apenas para quem quer abrir uma empresa. As já existentes também deveriam utilizá-las para se manterem no mercado, para se reposicionarem ou para crescerem. Tanto o Canvas quanto o Plano de Negócios são importantes para saber se devo ou não investir em um negócio. No meu ponto de vista, são complementares, porque através do Canvas pensarei exatamente em qual é a proposta do meu negócio, enquanto com o Plano de Negócio o empreendedor utilizará todo o conhecimento produzido pelo Canvas para afunilar os detalhes de gestão da atividade que estão propondo no mercado. O Sebrae promove cursos sobre os dois modelos, que são oferecidos periodicamente em nossa unidade em Ribeirão Preto e nos postos de atendimentos nas cidades da região.

Marcos: A bola da vez no discurso de quase todas as start-ups, novas empresas e empresas modernas é "inovação". Em várias bibliografias especializadas sobre o assunto muito se fala sobre o ganho proporcionado pela inovação ao gerar para a empresa um "monopólio momentâneo" que permite a ela aumentar a sua margem de lucro. Porém, pouco se fala sobre o risco de inovar, principalmente em empresas iniciantes. Você poderia nos falar um pouco sobre esta questão?
Iroá: Quando falamos em micro e em pequena empresa, temos que simplificar tudo isso. As grandes empresas já têm o percentual do faturamento que vai para investimento em inovação e tecnologia. Na micro e na pequena empresa, não temos isso. Normalmente, o espírito inventor é minoria nesse setor. Porém, trabalhamos muito com a inovação incremental. Por exemplo, todo mundo tem um atendimento básico e inova na forma de atender.  Isso é inovação para a micro e pequena empresa, não só é menos arriscado, mas, também, um investimento. Vale ressaltar que apontamos o investimento em inovação como algo essencial para o resultado. Hoje em dia, as empresas precisam se diferenciar no mercado, por isso o Sebrae oferece inúmeros serviços voltados à inovação.

Marcos: Rosabeth Moss Kanter, especialista em liderança de Harvard, diz que as pessoas que fazem a diferença são aquelas que: aparecem e se mostram disponível (show up), usam o poder da voz (speak up), buscam algo grande (look up), fazem bons times (team up), nunca desistem (Never give up) e compartilham o sucesso com o time (lift others up). Você acredita que no Brasil as pessoas que vêm fazendo a diferença possuem essas características? Tem algum exemplo?
Iroá:  O Sebrae trabalha com dez características do empreendedor de sucesso. Essas opções nasceram de uma pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), que formatou uma metodologia para trabalhar os dez conceitos de forma prática. Essa metodologia é aplicada no Brasil, exclusivamente pelo Sebrae, em um curso chamado Empretec. Trabalhamos dez comportamentos empreendedores que são muito parecidos com esses seis pontos que a especialista coloca. São eles: busca de oportunidades e iniciativa; persistência; correr riscos calculados; exigência de qualidade e eficiência; comprometimento; busca de informações; estabelecimento de metas; planejamento e monitoramento sistemáticos; persuasão e rede de contatos; independência e autoconfiança. Vale lembrar que quem tem esse comportamento empreendedor não se diferencia apenas quando é empresário, também se destaca mesmo sendo funcionário. É o que chamamos de conceito “intraempreendedor”: ele não é o dono do negócio, mas usa os comportamentos e busca resultados como se fosse.

Marcos: Qual é o maior desafio que os empreendedores brasileiros encontram para empreender no mercado interno e para conquistar o mercado externo?
Iroá: Vi, recentemente, uma declaração que dizia o seguinte: “o ego do empreendedor está comprometido com o sucesso do seu negócio”, ou seja, se a empresa não deu certo é porque  ele não deu certo. Se eu vou e fracasso é como se eu tivesse fracassado, não a minha empresa. É uma derrota pessoal e isso torna o desenvolvimento profissional muito difícil. Todavia, o empreendedor é persistente e tem autoconfiança. Ele vai e empreende de novo. Nessa pesquisa feita para a criação do Empretec, notamos que o empreendedor de sucesso não abriu o primeiro negócio e ficou rico. Existe, inclusive, um estudo mostrando que para o empreendedor ter sucesso, ele quebra, em média, três vezes. O empreendedor tem que assumir riscos, claro que devem ser calculados, mas assumi-los também é um comportamento empreendedor.

Marcos: Uma nova tendência no mercado é o setor "dois e meio", empresas de iniciativa privada que visam ao lucro e criam impacto socioambiental positivo, ou seja, lucram por meio de ações sociais. Você acredita que, de fato, há muitas oportunidades de empreendedorismo neste setor?
Iroá: Há pouco tempo, víamos as instituições que trabalhavam na área social pedindo recursos para se manterem. Não era possível ser empresário e voluntário, ou tinha uma empresa ou contribuía com a sociedade. Em um determinado momento, essas instituições passaram a procurar oportunidades no mercado para que elas pudessem ser autossustentáveis. Hoje, temos esse movimento que chamo de “um novo passo de evolução” que é onde eu consigo ter um negócio e junto com isso deixar que a minha empresa seja socialmente responsável. Atualmente, conseguimos unir as duas coisas, sem necessariamente ter que abrir mão de uma ou de outra. Existem grandes oportunidades nisso, tudo depende do contexto, da minha preocupação. O foco é o que é social para o empreendedor em questão, se é  o indivíduo, o meio ambiente, a sustentabilidade e qual é a preocupação. Isso tem a ver com os princípios da pessoa, com seus valores, com o que é importante para ela como ser humano. A partir desses valores, ela vai conseguir ter uma visão do mercado.

Marcos: Quais são as dicas que você daria para aquele estudante que esta saindo agora da faculdade e quer empreender?
Iroá: Às vezes, também me aventuro nesse lado da docência. O que eu vejo é que hoje temos um aluno que tem acesso rápido à informação, à tecnologia e ao conhecimento. A pessoa não precisa sair muito de onde está para poder ter acesso ao que está acontecendo no mundo.
Em termos de informação e conhecimento, estamos muito à frente do que estávamos no passado. Esse profissional que sai da faculdade depende muito de si próprio, o que ele quer conhecer e o que ele quer fazer. É importante o aluno saber o que aprendeu, como irá aplicar o conhecimento na sua vida e o mais importante: qual o resultado que ele obterá. Antigamente, as faculdades formavam apenas no conhecimento e era fácil ver alunos das áreas de administração ou economia que tinham um grande conhecimento em gestão, mas poucos deles abriam seu próprio negócio. Enquanto a grande maioria dos alunos de medicina ou engenharia concluía o curso e empreendia, a própria atuação profissional pedia isso. Nesse contexto, vale lembrar, que não existia a disciplina de empreendedorismo, diferente dos cursos atuais, em que muitos já contam com essa matéria. Acredito que essa inclusão trouxe à tona a busca pelo comportamento empreendedor por parte do aluno. Antes muitos tinham o sonho de trabalhar numa multinacional ou estudar para concurso público — isso ainda acontece e é ótimo. Entretanto, o comportamento que vemos é que as pessoas não estão mais pensando em ter carreiras de 30 anos na mesma empresa, como é o meu caso, elas querem buscar aquilo que as realizam. Sendo assim, se o empreender é algo que vai me realizar pessoal e profissionalmente, é necessário que eu siga em frente.

DESAFIO A SER VENCIDO

“Vejo o Sebrae como uma organização que apoia e ajuda as pequenas empresas a utilizar todos os instrumentos possíveis, inclusive os de colaboração, para alcançar o sucesso e prosperar em um mercado moderno extremamente competitivo, que, cada vez mais, reserva menos espaços para amadores. Por isso, quando recebi o convite para realizar a entrevista com a Iroá, a gerente regional do Sebrae de Ribeirão Preto, fiquei extremamente contente por saber que poderia conversar com uma pessoa que, além de ter um profundo conhecimento sobre como funciona o Sebrae e como esta organização apoia o empreendedor, também tem um curriculo sensacional, com uma forte formação acadêmica e com uma bonita história dentro da área de empreendedorismo. O resultado de tudo isto só poderia ter sido esta excelente entrevista, gostosa de se fazer e de se ler que trouxe a mim (e tenho certeza de que aos leitores da Revide também) uma oportunidade única de conhecer um pouco mais sobre uma pessoa tão espetacular quanto a Iroá e um pouco mais sobre o Sebrae”.
Marcos Danilo Chiodi Martins, professor


Texto: Pâmela Silva
Fotos: Julio Sian






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