Gestão do  conhecimento

Gestão do conhecimento

Atuantes na educação, Débora Vendramini e João Alberto de Andrade Velloso entendem o processo de educar como uma ferramenta essencial para a formação do cidadão e do bem-estar social comum

Com um percurso profissional na educação iniciado muito jovem, a inquieta Maria Débora Vendramini Durlo passou por vários cargos na rede pública, tanto no município quanto no Estado. Já ocupou postos em São José do Rio Preto, Barretos, Votuporanga e Ribeirão Preto, onde também já atuou como coordenadora pedagógica do Senac e professora do ensino superior, no Centro Universitário Moura Lacerda e no Centro Universitário Barão de Mauá.

Secretária da Educação da cidade há seis anos, é membro da Comissão Própria de Avaliação (CPA), implementada pelo MEC, e do Conselho Acadêmico Superior (CAS). Débora ingressou no serviço público em 1980, como diretora efetiva, por concurso de títulos e provas na Escola Estadual Sinhá Junqueira, em Ribeirão Preto. À frente da pasta municipal, comanda aproximadamente três mil professores e mais de 50 mil alunos matriculados em 108 escolas.

Na entrevista ao também educador João Alberto de Andrade Velloso, revela que, como professora, sempre lutou pela elevação de pessoas, aplicando os conceitos da ciência e do humanismo à época em questão. A secretária lembra que a sociedade carece de profissionais da educação preocupados não só em transmitir valores essenciais, mas também em fazer com que as crianças apreendam tais valores de forma prática. A dirigente reforça a ideia de que é preciso atuar, em todos os ambientes possíveis, nas relações humanas, especialmente no caso dos professores.

Velloso: Nestes seis anos de gestão da Educação em Ribeirão Preto, quais foram os avanços na rede municipal de ensino?
Débora: Educação é um processo inacabado, que deve ser renovado sempre, uma vez que os avanços científicos continuam e a sociedade está em constante transformação. Assim, o avanço educacional é parte de toda evolução social, científica, profissional, etc. Precisei, quando assumi a Secretaria Municipal, atender à demanda social, primeiramente construindo escolas, reformando os equipamentos existentes e oferecendo suporte aos profissionais da educação, tais como formação, atendimento, entre outros. Para saber qual era o nosso avanço, como estávamos caminhando para diagnosticar o processo de aprendizagem dos alunos, uma preocupação constante, precisei selecionar indicadores e identificar quais as intervenções necessárias. Para isso, foi imprescindível formar uma equipe multiprofissional, capaz de construir esse processo de avaliação.

Velloso: Em números, qual foi o crescimento? 
Débora: Com padrão de qualidade e conforto garantidos a alunos e profissionais da educação, envolvidos no ambiente escolar, construímos 22 novas escolas, das quais 18 são de atendimento à Educação Infantil e quatro de Ensino Fundamental, gerando mais de 10 mil vagas.

Velloso: Com essa ampliação, foi possível atender à demanda de vagas nas creches?
Débora: Estamos trabalhando, e bem, para isso. Não tenho déficit, mas, sim, atendimento, e isso tem sido feito por meio de adequação das escolas, por exemplo. Eu cumpri todas as ações civis públicas e tenho lidado com o Ministério Público e com o juiz da Infância e da Juventude. Como o atendimento é bom nas escolas da rede municipal, a procura só aumenta. A qualidade do serviço prestado em termos receptividade, acolhida às crianças, ensino diferenciado, desde as questões mais simples, como a alimentação, até o meio ambiente, tudo isso leva as pessoas a se interessarem pela unidade. No Ribeirão Verde, construímos cinco escolas, mas com o crescimento populacional daquela região, acho que o próximo prefeito vai precisar fazer mais dez. Buscamos atender a todos da melhor forma, com padrão de qualidade instalado e estamos respondendo de forma positiva à demanda manifestada de crianças a partir do sexto mês de vida. Objetivamos sempre o melhor e trabalhamos com a realidade de cada região, com construção adequada, pensada, com espaço pedagógico, com equipamento. Das 22 unidades construídas, 18 são escolas municipais de Educação Infantil (EMEIs) e quatro de Ensino Fundamental. Sempre estou aberta para atender e tentar resolver as questões diárias de forma transparente.

Velloso: O sistema de avaliação ajuda a rede a monitorar o trabalho e a perceber quais as intervenções que devem ser realizadas para melhorar a qualidade de ensino?
Débora: Como já falei anteriormente, a importância da autoavaliação consiste em oferecer a nós, educadores, parâmetros para a construção do nosso caminhar e conhecer o que é necessário mudar. Nosso processo de avaliação é fundamentado numa elaboração coletiva, fruto de uma discussão ampla entre coordenadores de área e professores que podem participar do processo, sugerindo e enviando questões. Não é uma decisão imposta de cima para baixo, mas uma decisão coletiva, mesmo quando houve a necessidade de mudar o processo de análise, para avaliar o aluno em seu desenvolvimento global. Esse sistema nos ajuda a buscar melhorias da técnica profissional, da dinâmica do processo de ensino/aprendizagem e a verificar se há a necessidade de criar novos projetos.

Velloso: Quais são as perspectivas para a Educação Ambiental? 
Débora: Trabalhamos com a abordagem transversal, com a preocupação de falar sobre temas que envolvem aspectos gerais da natureza, tais como sustentabilidade ambiental, agronegócio, respeito à natureza e sua preservação, a fim de dar qualidade de vida ao ser humano. Temos o Programa de Integração de Educação Ambiental (PIEA), em parceria com a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, que funciona no Bosque Zoo Fábio Barreto, oferecendo informações e vivências aos nossos alunos sobre a flora e a fauna.

Velloso: O crescimento da aplicação de recursos em várias áreas serve como referência para outras redes de ensino? 
Débora: Para falar de recursos, é preciso mostrar sua aplicação: na inclusão de pessoas temos, aproximadamente, 500 alunos com deficiência inseridos em todos os níveis — Centros de Educação Infantil (CEIs), EMEIs, Escolas Municipais de Ensino Fundamental EMEFs. Implementação das salas multifuncionais, ou seja, há centros de Atendimento Educacional Especializado (AEE), um serviço da educação especial que faz diagnósticos sobre as reais necessidades deles, elabora recursos pedagógicos e promove a acessibilidade, eliminando as barreiras, para que haja a plena participação desses alunos. A Secretaria Municipal da Educação de Ribeirão Preto conta com esse serviço em 18 unidades escolares. Existe também a inclusão digital, laboratórios de informática em todas as escolas: na Educação Infantil (a partir dos 4 anos) e nas 31 unidades de Ensino Fundamental. Em todas elas, há monitores de informáticas, dando atendimento aos professores e aos alunos.

Velloso: Na aplicação da Lei Federal 11.645/08, que trata da obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos estabelecimentos de ensino, como tem sido o trabalho? 
Débora: Intenso e rico, transversal (trabalhado em todas as disciplinas), com cursos de formação para professores, visitas técnicas nas escolas (acompanhamento dos trabalhos realizados) e visitas dos alunos a outros municípios, para conhecimento e enriquecimento deles sobre a cultura local. Houve a implementação do Programa Mais Cultura nas escolas que, apesar de estar baseado no eixo afro-brasileiro, inclui os vários aspectos da história e da cultura brasileira que caracterizam a formação da população, ou seja, não esquece a abordagem de outras culturas, importantes também. Todo o trabalho, este ano, culminou numa “Mostra Interativa Afro-Brasileira”.

Velloso: Pensando na diversidade cultural, acredita que evoluímos nos últimos anos?
Débora: Quando se fala de trabalho, a escola tem que rever sua função social, que é ensinar, missão que não é para qualquer um. Já o ato de aprender é para todos: todo mundo aprende, principalmente porque hoje temos a inclusão social. Por exemplo: a Organização das Nações Unidas para a Educação (Unesco) reconheceu a capoeira como patrimônio imaterial. Fizemos uma mostra de três dias na Casa da Ciência, explicando seu gênero, seu estilo, seu instrumento, ferramentas importantes no processo de educar, mas, para que isso dê certo, preciso capacitar os professores em capoeira. Nestes seis anos em que estou na Secretaria, já encontrei algumas demandas, e os professores estão respondendo muito bem, estão muito engajados nestas questões. Todo mundo gosta do som do berimbau, mas é preciso buscar o significado deste instrumento, como ele foi gestado. Por isso, digo que o professor é um guerreiro que nunca para de trabalhar em educação.

Velloso: Existe, em todo esse trabalho, uma preocupação com os valores de essência a serem ensinados, além dos conteúdos? 
Débora: Sim, essas formações visam ao desenvolvimento do professor com atividades planejadas, projetos de leituras, tais como “Artesãos das Palavras” que, em 2011, fez a impressão de, pelo menos, um livro por escola com poemas, histórias, com as produções textuais dos alunos; em 2012, houve a produção de livros digitais; em 2013, a produção de audiolivros, e, neste ano, a produção de jornais digitais literários. Vale lembrar que eles estão no site da Secretaria da Educação. Também, nesses encontros, há a elaboração de materiais didáticos e está sendo realizada a construção (coletiva) de um referencial pedagógico, com o objetivo de nortear o trabalho do professor. Nesse referencial, estamos contemplando temas que exigem dos alunos reflexões sobre os valores necessários à boa convivência, tais como relações sociais, comportamento, respeito à diversidade e ao patrimônio público, relações éticas entre todos os que participam da comunidade escolar e combate a atitudes preconceituosas e discriminações.

Velloso: Quais as competências exigidas para os profissionais da educação diante da diversidade real existente na sala de aula atualmente? 
Débora: Prontidão, dinamismo, aceitação do outro, cumprimento da função profissional, social e política, com responsabilidade, compromisso e comprometimento com a arte de ensinar por meio de exemplos. Todos os mais de três mil professores estão qualificados. Para ingressar na rede, precisa ser concursado, ter curso superior e continuar os estudos. O professor é um estudante permanente.

Velloso: Quais os desafios para a escola diante da sociedade atual? 

Débora: Primeiro, é preciso ter o desenho do aluno nos dias de hoje e as perspectivas que este ser humano pode ter. Quem é esse aluno e qual o perfil do nosso professor? Que tipo de proposta pedagógica posso fazer para atender a este público? Eu estou num momento histórico de grande dúvida e a educação passa por este processo. Preciso ter os horizontes da sociedade muito presentes, caso contrário, não conseguimos avançar. Então, quais são esses horizontes que devo buscar para que o aluno se encaminhe, que tenha oportunidades? É um trabalho de construção da cidadania, o verdadeiro papel da educação. Para virar conhecimento, tem que haver relevância e significado, buscados através da discussão e do diálogo com a sociedade civil. Este, aliás, é outro grande desafio porque é uma luta pelo bem comum. Não é para um grupo, para instituições específicas, para interesse pessoal ou de pequenos grupos. Uma relação social precisa ter um contorno diferente, e esse é o nosso desafio.

Velloso: Falando em tempos modernos, a relação família-escola mudou?
Débora: Os conceitos de família e de sociedade mudaram. Hoje, os valores são outros e as questões também. Para tentar sanar estes questionamentos, é preciso trabalhar no mundo das ideias. Estamos fazendo a gestão do conhecimento e, como ele tem toda uma dinâmica e um movimento próprio, numa velocidade ímpar, tenho que buscar atender a estes anseios com tecnologia e com conhecimento, pois hoje o estudante tem muita informação à disposição, de forma fácil e rápida, principalmente por meio da internet e das redes sociais, portanto, precisa saber selecionar o que realmente é importante. Para isso, deve ter conhecimento para saber discernir sobre a qualidade desta informação, saber selecionar, aproveitar o melhor e passar esse conteúdo para o seu referencial.

Velloso: Como o município se prepara para receber os alunos do nono ano? 
Débora: Esta fase está sendo instalada a partir do próximo ano e temos que organizar e projetar as escolas em função desta novidade. Já desenhamos 2015 e estamos preparados para receber os cerca de quatro mil alunos. Reativamos, em convênio com o governo do Estado, três unidades desativadas desde 2005: Flamboyant, Monte Carlo e Jóquei Clube. Outro fator que merece destaque é o transporte de alunos, um sistema adequado, planejado e eficiente.

Velloso: Quais as dicas para os gestores realizarem um bom trabalho? 
Débora: É preciso perseverança, firmeza, dar continuidade aos projetos, crer na inteligência humana e no desenvolvimento da razão e da sensibilidade para estabelecer relações afetivas no trabalho de educar. Também entendo a educação com bons exemplos, seja em casa, na escola, na rua, na sociedade em si, mas lamentavelmente, não é isso que vemos hoje. Um menino de 12 ou 13 anos precisa de limites e de uma relação de autoridade na família, mas não há um encontro dessas pessoas. É exatamente isso que eu faço na educação: promovo encontro entre profissionais, não só professores, mas de outras áreas. Não é a permanência do aluno na escola que determina a qualidade do ensino, mas sim o projeto politico-pedagógico da escola, elaborado e executado da melhor forma possível.

Velloso: Ao terminar sua gestão, você a deixará com o sentimento de dever cumprido?
Débora: Penso que sim, não só em relação às instalações e à qualidade, mas essencialmente na construção das relações interpessoais e no clima social de trabalho. Todo mundo que entra em uma de nossas unidades encontra um clima de trabalho favorável, percebe a diferença e, até por isso, a procura aumenta a cada ano, tanto por parte dos servidores quanto dos pais. Mas há conflitos a enfrentar, não em benefício de pequenos grupos, mas em prol do bem comum. Trabalho com educação há mais de 50 anos. Sinto-me sempre com o dever cumprido. Sou professora e gosto muito do que faço.

TALENTO RECONHECIDO

“Conheço a professora Débora há tempo suficiente para nela reconhecer talentos, competências e, acima de tudo, um extraordinário caráter que faz dela um ser humano especial, capaz de unir seriedade, leveza e descontração no trato dos mais árduos temas e desafios profissionais ou cotidianos. Somos amigos e, juntos, trabalhamos no universo das escolas particulares, que inclui Barão de Mauá, Ateneu, Sabin e Anchieta. Desde o primeiro mandato da prefeita Dárcy Vera, Débora está à frente da Secretaria da Educação de Ribeirão Preto, creio ser ela a pessoa que mais tempo ocupou essa pasta, o que, certamente, não é tarefa fácil e só vem confirmar que o tempo é, e será sempre, o senhor da razão. Como presidente do Sindicato, orgulhoso por sediar, nessa área geoeducacional, as mais importantes e destacadas escolas do país, manifesto minha admiração e reconhecimento ao trabalho desenvolvido na rede de ensino de nossa cidade, referência de qualidade e seriedade, reflexo direto da atuação de Débora Vendramini, que muito me honrou com essa entrevista.”

João Alberto de Andrade Velloso é educador e presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Ribeirão Preto.

Texto: Rose Rubini
Fotos: Ibraim Leão

 

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