Gestão em campo

Gestão em campo

O educador físico Gustavo Gironi, o presidente do Botafogo de Ribeirão Preto, Gerson Engracia Garcia, elenca alguns dos fatores que ajudaram a levar o Clube de volta ao cenário nacional do futebol

No dia 14 de novembro, depois de um empate sem gols na casa do River, do Piauí, na capital Teresina — vantagem construída na vitória em casa por 3 a 2 no primeiro jogo da final — o Botafogo de Ribeirão Preto sagrou-se campeão da Série D do Campeonato Brasileiro. A conquista — o primeiro título nacional do clube ribeirãopretano — chega para coroar, como faz questão de ressaltar o atual presidente, Gerson Engracia Garcia, um trabalho realizado a muitas mãos. De acordo com o gestor, as últimas administrações foram bem-sucedidas na recuperação da credibilidade e da transparência dentro do Botafogo.

Os resultados que aparecem no campo alegram a torcida do Pantera, da qual faz parte Gustavo Gironi. Ex-atleta do Clube, a carreira de goleiro do educador físico só não prosperou por mais tempo por conta da baixa estatura para a posição, mas a paixão pelo futebol foi determinante para os caminhos que decidiu seguir. Por ter convivido por muitos anos nos bastidores do Botafogo, Gustavo construiu uma entrevista completa sobre o time do coração e aproveitou para rememorar os velhos tempos por meio de uma visita guiada pelo presidente, que respondeu a todas as perguntas do torcedor com clareza e objetividade.

Gustavo: Todos temos um momento em que despertam a admiração e o amor por um time de futebol. Como começou a sua história botafoguense?
Gerson: Minha história é bem comum e vem da família. Meu pai sempre foi torcedor do Botafogo. Apesar de ter sido criado no Jardim Paulista, eu nasci na Vila Tibério. Vi meu pai se tornar conselheiro do Botafogo e meus tios fizeram parte da diretoria. Então, tenho uma relação muito grande com o Clube desde criança. Lembro-me remotamente do Estádio Luiz Pereira e com total clareza de toda a história do Santa Cruz, desde a inauguração, onde estive com o meu pai.

Gustavo: Quando começou a participar mais ativamente no Botafogo como conselheiro e diretor e em qual gestão mais atuou?
Gerson: Eu me tornei conselheiro em 1993. Antes disso, já era muito ligado ao Botafogo. Torcedor apaixonado, era desses que viajam para acompanhar cada partida do time. Como gestor, minha carreira dentro do Clube começou na primeira administração de Laerte Alves, quando houve uma renovação muito grande no Clube. Desde então, nunca mais me afastei, tendo desempenhado as mais diversas funções aqui dentro. Já fui porteiro, bilheteiro, diretor de futebol, diretor de marketing, vice-presidente do Conselho, presidente do Conselho, entre outros. Agora, em abril de 2015, fui eleito presidente.

Gustavo: Qual time do Botafogo mais o marcou como torcedor? Lembra-se do ano e da escalação?
Gerson: Na verdade, não há como deixar de mencionar dois times: o de 1977, composto por Aguillera, Wilson Campos, Nei, Manuel e Mineiro; Mario e Lorico; Zé Mário, Sócrates, Arlindo Fazolim e Motoca; e o time de 2015, campeão brasileiro da Série D, tanto por eu estar na presidência quanto por representar o primeiro título nacional do Botafogo.

Gustavo: Em relação aos jogos da história do Clube, algum foi especialmente marcante?
Gerson: Também preciso destacar dois. O primeiro é o jogo do Campeonato Paulista de 2012, em que um gol do Clebinho no jogo contra o Guarani salvou o time de ser rebaixado da Série A da competição aos 43 minutos do segundo tempo. Já o segundo, vivido como presidente, foi o jogo contra o Vila Nova, em Nova Lima, Minas Gerais, que começamos na frente, tomamos a virada por 2 a 1 até os 40 minutos do segundo tempo e, em cinco minutos, voltamos à ponta do placar. Talvez, se não tivéssemos vencido aquela partida, não teríamos conseguido a classificação.

Gustavo: Sabemos as dificuldades financeiras que a maioria dos clubes brasileiros passa atualmente. As categorias de base, muitas vezes, são uma saída para essa situação, com a formação e a venda de novos talentos. O que está sendo feito hoje e quanta atenção tem sido dada às categorias de base do Botafogo?
Gerson: Certamente, a saída para o futebol brasileiro passa pelas categorias de base. Aí está o segredo da sobrevivência de um clube, juntamente com outras questões. O Botafogo, que tem tradição nessa área, conseguiu, em 2013, seu certificado como clube formador, conquista que foi renovada este ano. Sem dúvida, isso é um marco dentro do Clube. Se não me engano, apenas 10 agremiações brasileiras possuem esse certificado, e o Botafogo é um deles. Investimos muito em alojamento, material, treinamento, entre outros ingredientes que ajudam a garantir equipes fortes na base. Esse esforço vem gerando bons resultados, como o quarto lugar no Campeonato Sub-17. Nosso time Sub-15 se manteve invicto até a última fase e acabou perdendo quando não podia. Além disso, o Botafogo foi vice-campeão da Copa São Paulo, no início de 2015, o que também é um fato relevante. Nosso Clube, portanto, está conseguindo manter a tradição de revelar bons jogadores, e não pode perdê-la. É claro que o futebol mudou muito nos últimos anos, especialmente no que diz respeito à relação entre clubes, jogadores e empresários, o que dificulta, no meu entender, a vida do Clube. Tem muita gente querendo ganhar, muita especulação, muita picaretagem. Ainda assim, essa é uma das saídas que precisamos buscar sempre.

Gustavo: De fato, revelar jogadores faz parte da tradição do Botafogo. Quais atletas do elenco profissional atual são do Botafogo e podem ser negociados futuramente?
Gerson: No time profissional, temos uma participação do Caio Ruan — que pertence ao Coimbra — e somos donos do Carlos Henrique, do Mike, do Lineker, do Baratella e do Daniel, entre outros em que depositamos muita confiança. No Sub-17, dá para destacar o atacante Pedro Tonzar, o volante Edson, o goleiro Felipe, entre outros. São muitos jogadores que apresentam boas perspectivas para o Clube. Recentemente, negociamos nomes como Wesley, Gimenez, Isaac e Vitinho, na tentativa de recompor nosso caixa. Essa tradição não pode ser perdida e é daí que devem sair os recursos para que o Clube sobreviva e consiga, paulatinamente, cuidar do seu passivo, que é muito grande. Acreditamos que esse é o caminho para resolver a questão.

Gustavo: O Botafogo evoluiu bastante em sua forma de administrar o Clube. Como botafoguense, acompanhei essa movimentação, especialmente a partir da gestão de Luiz Pereira. Qual o modelo de gestão mais eficiente para sanar as dívidas acumuladas ao longo do tempo e ainda montar times competitivos? O programa de sócio-torcedor é uma possibilidade?
Gerson: Em relação à primeira questão, o Botafogo tem sido muito feliz quanto às pessoas que se sucederam em sua recente administração, que encontraram o Clube em uma situação crítica, na Série A3 do Campeonato Paulista, endividado e sem credibilidade. Luiz Pereira começou uma reconstrução e, junto com o Virgílio Pires Martins, fez um realinhamento dentro do Botafogo, recolocando-o nos eixos. No retorno do Luiz, o Clube foi campeão do Interior e da Série A3; o Virgílio recolocou o Botafogo na Série A1; o Silvio Martins conseguiu dar uma pluralidade a nossa agremiação, abrindo as portas do Clube; a partir do Gustavo Assed, o Botafogo adquiriu uma nova cara e mais musculatura, o que teve continuidade com o Rogério Barizza. Nesses últimos três anos, o time profissional se classificou para a segunda fase do Campeonato Paulista, disputou duas Séries D, foi vice-campeão Sub-20 e da Copa São Paulo, além de ter conseguido o certificado de clube formador. Desde abril, nossa diretoria está dando sequência a esse trabalho, profissionalizando o Clube, mantendo o foco na gestão, especialmente a financeira, para buscar novas saídas, fazendo mais com menos. A partir de agora, o Botafogo tem um grande desafio, ao lado dos demais clubes brasileiros, que é se adequar à Lei Pró-fut, uma tarefa árdua. É preciso buscar um fluxo de receita contínuo e, nesse contexto, estão incluídos os Botafanáticos, nosso programa de sócios-torcedores. Temos, hoje, cerca de 1.500 sócios, mas precisaríamos ampliar esse número para que o Clube possa ter uma receita significativa.

Gustavo: A transparência e a seriedade na gestão resgatam a credibilidade do Clube e o crescimento do programa de sócio-torcedor, do qual faço parte, é exemplo disso. Qual seria o volume necessário de sócios-torcedores para que o programa seja justificativo para o Clube?
Gerson: A transparência é nosso compromisso. Na nossa gestão, a primeira atitude foi pedir uma reunião com o Conselho Deliberativo em que foram apresentadas todas as contas do Botafogo: receitas, despesas, projeção de fluxo de caixa, déficit de 2015, entre outras informações. Estamos começando a implantação do SAP, um dos softwares de gestão mais utilizados mundialmente, cujo mérito é dar ainda mais transparência à administração. No futebol brasileiro, apenas Palmeiras e Grêmio possuem este
software instalado. Tenho certeza de que teremos um ganho de qualidade relevante, tanto do ponto de vista da seriedade quanto da perspectiva da gestão em si. Nossa pretensão em relação ao programa “Botafanáticos” é chegar aos cinco mil associados, o que acreditamos ser possível, uma vez que nosso time profissional já tem um calendário anual. No primeiro semestre, disputaremos o Campeonato Paulista da Série A1 e, no segundo semestre, estaremos no Campeonato Brasileiro da Série C. Além de assistir a todas as partidas, o sócio tem uma ampla rede de benefícios à sua disposição. Por R$ 39,90 por mês, o botafoguense poderá aproveitar tudo isso e ainda vir ao campo o ano inteiro, o que garantirá um tíquete médio bem barato para o torcedor e um fluxo de caixa interessante ao Botafogo.

Gustavo: Sabemos que o Botafogo tem uma dívida muito alta com o Banco Axial, adquirida em uma péssima gestão em 1999. Como a questão está sendo tratada hoje? Ainda existe algum risco do Botafogo perder o Estádio Santa Cruz?
Gerson: Essa é uma grande preocupação da atual administração. Como você fazia parte do dia a dia do Clube naquela época, como jogador, sabe os absurdos que aconteciam por aqui. O Botafogo foi realmente vítima de uma gestão desastrosa, que resultou em uma dívida realmente grande com o Banco Axial. Temos um terreno aqui ao lado do Estádio Santa Cruz, que está penhorado. Para tratar disso, há uma comissão de ex-presidentes e membros do conselho, um grupo de aproximadamente 10 pessoas que está cuidando disso com muito zelo, procurando saídas que passam por todas as questões jurídicas e comerciais. Hoje, vivemos um momento econômico muito difícil no país inteiro, o que limita as oportunidades, mas continuamos em busca de alternativas. Não há como negar que não corremos o risco de ter essa demanda judicial executada, mas isso não vai acontecer à revelia. Estamos acompanhando a questão bem de perto, dando prioridade à solução desse problema. Isso não será fácil, mas tem muita gente envolvida e empenhada. Estamos cientes dos riscos que nos assombram, e não são poucos, mas temos muita confiança de que conseguiremos uma saída.

Gustavo: Qual é a postura do Banco? Eles estão abertos à negociação, são flexíveis?
Gerson: Eles são rígidos, têm a certeza de que precisam receber um dinheiro do Clube e fazem todo o trabalho necessário para isso. Em determinadas situações, há abertura para o diálogo, em outras, não. São, na verdade, credores como tantos outros, e não se importam com aspectos da emoção que envolve um time de futebol. Apenas querem receber aquilo que eles têm de direito.

Gustavo: De volta ao futebol, o Campeonato Paulista da Série A1 de 2016 vai rebaixar seis clubes e subir apenas dois. Com isso, o número de clubes participantes da competição será de apenas 16. Isso não é ruim para os times do interior?
Gerson: O atual presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro Bastos, tem feito um excelente trabalho. Existe bastante pressão dos grandes clubes das capitais e da própria televisão pelo esvaziamento dos campeonatos estaduais. No entanto, São Paulo é um caso a parte, pela quantidade de bons times que reúne. Mas para negociar com emissoras de TV remunerações melhores, é preciso dar outra dinâmica aos campeonatos estaduais. Com esse movimento, aumenta o número de jogos importantes, com um maior poder de atrair público. Daí a necessidade de reduzir o número de clubes, tornando os estaduais mais fortes. Aqui, vale aquela máxima de que “vão-se os anéis, mas ficam os dedos”. Tirando os grandes clubes paulistas, que, por sua estrutura, têm menos chances de cair, aumenta o risco dos demais times caírem para a segunda divisão. Claro que não gostaríamos de passar por isso, mas essa é uma situação posta. Futuramente, ficará melhor para os times que sobreviverem, e esperamos estar entre eles.

Gustavo: O Botafogo já inicia a preparação para o novo ciclo com uma base praticamente pronta. Isso significa sair na frente dos times que precisarão montar um novo grupo, certo?
Gerson: Antigamente, tínhamos que contratar de 20 a 25 jogadores para disputar um campeonato. Dessa vez, isso não será necessário, pois temos uma base pronta. Você, que jogou futebol, sabe que o conjunto é mais importante do que um ou outro grande jogador. Para o Botafogo, será necessário apenas trocar uma ou outra peça, buscar um ou outro jogador, para completar essa equipe que venceu a Série D. Esse grupo será mantido e valorizado, na medida das possibilidades do Botafogo. Esse é nosso conceito e nossa filosofia, que acreditamos que irá facilitar o trabalho.

Gustavo: Como presidente, você conquistou um grande feito, que foi recolocar o Clube no cenário nacional. Quais objetivos ainda almeja atingir?
Gerson: Em 2015, depois de quase 40 anos, houve disputa nas eleições do Botafogo — até então, uma longa sequência de chapas únicas decidiram as gestões. Em um colégio eleitoral com 240 integrantes e 226 votantes, venci por uma diferença de cinco votos. A apuração foi tensa e muito emocionante, decidida voto a voto, entre o Alfredo (Cristóvão Guilherme do Carmo) e eu. Durante a contagem, nas minhas orações, pedi que eu só vencesse a disputa se fosse para conseguir bons projetos para o Clube, caso contrário, que a vitória fosse do Alfredo. Felizmente, eu ganhei e tenho no Alfredo um grande companheiro, uma pessoa que me acompanhou em todos os jogos, que esteve próximo o tempo todo. Posso dizer que, hoje, o Botafogo é uma coisa só. Sonhamos com um clube melhor e que esteja disputando as melhores competições. Recentemente, recebemos o presidente da Federação Paulista em nosso estádio, que viu nossas instalações e afirmou que a Série C ainda é pouco para o Botafogo. Também acreditamos que podemos mais e trabalharemos para isso. Queremos consolidar o Clube como um lugar de gente comprometida, séria e que cumpre seus compromissos. Temos certeza de que essa postura torna o cenário mais fácil para a bola entrar nos momentos decisivos. Gostaria de chegar lá na frente, na hora de encerrar nosso mandato, e entregar um clube melhor, mais consolidado e disputando competições ainda maiores.

Mais do que torcedor

“A oportunidade de entrevistar o presidente Gerson Engracia Garcia foi, também, uma chance de voltar no tempo e reviver, por algumas horas, uma fase da minha vida que deixou saudade. Passei boa parte da minha juventude dentro do Botafogo, treinando como goleiro — na minha carteira de trabalho, o Clube é o meu primeiro empregador. A estatura não ajudou muito e acabei seguindo por outros caminhos, mas a paixão pelo Botafogo é a mesma de sempre. Como torcedor, faço questão de acompanhar cada passo do Clube. Essa entrevista com o Gerson me deixou bastante confiante em um futuro cada vez mais vitorioso para o Pantera.” Gustavo Gironi, educador físico e diretor da Academia Corpore

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