Governança sustentável
Fabricar produtos e soluções que preservam e salvam vidas é a missão do empresário André Ali Mere à frente do Grupo JP, que atua em mais de 50 países
Com participação expressiva no mercado nacional e internacional, o Grupo JP atua em mais de 50 países da América Latina, do Leste Europeu, da Ásia e da África, essencialmente fornecendo equipamentos médicos. Composto pelas empresas JP Farma e Olidef Medical, o Grupo direciona os investimentos ao desenvolvimento de produtos, estrutura física e mão de obra especializada. Essa foi a receita que levou a um desenvolvimento sustentável, nos últimos anos, sob a liderança do presidente André Ali Mere.
Seguindo os passos do pai, médico e fundador da marca, Yussif Ali Mere, André assumiu, há 21 anos, a direção geral da empresa ribeirãopretana. O Grupo atua nas áreas de terapia de infusão de soluções medicamentosas, tecnologia em transfusão, biotecnologia, produtos para terceiros (produção para diferentes empresas farmacêuticas e de produtos para saúde) e a linha de equipamentos médico-hospitalares fabricados pela Olidef.
Com duas plantas industriais, os negócios estão divididos em três áreas. A planta da JP Farma mantém as divisões de Terapias de Infusão e Soluções Especiais e de Tecnologia em Transfusão e Biotecnologia. Já a planta da Olidef tem a Divisão de Equipamentos Médicos, onde são produzidas as linhas de neonatologia, de monitoração multiparamétrica e de aspiração cirúrgica e nebulização. É produzida, também, a linha de equipamentos para bancos de sangue, como as centrífugas refrigeradas, os homogeneizadores e seladoras.
Administrador de empresas e advogado pós-graduado em Direito Internacional, André foi redator do jornal A Folha de São Paulo, no Caderno SP Nordeste, entre 1990 e 1991; presidente da Associação Brasileira da Indústria de Soluções Parenterais (Abrasp), e diretor da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios (Abimo). O gestor também atua como primeiro vice-diretor da Diretoria Regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), em Ribeirão Preto, e como primeiro secretário da Associação Comercial e Industrial do município (Acirp).
Com uma gestão arrojada e forte liderança familiar, o Grupo JP tem um conselho de acionistas que se reúne todo mês, traça estratégias e acompanha os resultados gerenciais. Aproximadamente 400 funcionários e cerca de 15 gestores corporativos conduzem o dia a dia da empresa. Para Ali Mere, Ribeirão Preto é um polo extremamente importante na área da saúde, sendo uma referência no Brasil. “Os produtos JP e da Olidef estão presentes em todos os hospitais da cidade e da região, o que nos deixa muito satisfeitos”, ressalta o executivo.
A aposta na gestão familiar foi crucial para a saúde financeira da empresa?
Na realidade, a troca de comando, das mãos de gestores profissionais para a família, ocorreu em 1997, quando assumi a direção geral da empresa, aos 32 anos. Naquele momento, o Brasil passava por circunstâncias difíceis, com taxa de juros a cerca de 40% ao mês, ou seja, o acesso ao crédito era praticamente impossível. Apesar disso, com muita dedicação e perseverança, fomos avançando num modelo de governança e gestão que nos permitiu chegar aonde estamos hoje.
Esse modelo deu certo?
O controle societário da empresa é familiar e a gestão é compartilhada entre gestores familiares e não familiares. Temos um programa de participação em resultados há mais de 20 anos e buscamos aplicar conceitos de “empowerment” (descentralização de poderes), o que deu certo em nossa organização. As empresas hoje em dia estão menos contratualistas e mais institucionalizadas no seu modelo societário.
Em quase 52 anos de história, o que mudou no perfil da JP?
Nessas décadas, tudo mudou: ambiente econômico, regulatório e tecnologia, que está em constante transformação, cada vez mais rapidamente. Hoje, estamos conectados ao mundo, aos nossos clientes e aos demais stakeholders (públicos estratégicos), além de estarmos num segmento de capital intensivo, o que faz com que tenhamos grandes investimentos. Estamos finalizando uma nova fábrica de bolsas de sangue, o que vai propiciar uma maior produtividade, levando, consequentemente, a uma maior competitividade, tema crítico para qualquer empresa. O que meu pai, Yussif Ali Mere, médico, fundador da JP Farma e falecido em 2 de fevereiro deste ano, mais gostava de fazer quando vinha aqui era ver a evolução consistente da empresa.
Qual a linha de maior produção hoje?
Todas as linhas são importantes para termos as metas alcançadas.
No portfólio, há produtos sem similares no mercado nacional ou internacional?
Temos vários produtos sem similar nacional, fruto da engenhosidade das pessoas, combinada aos recursos provenientes de inovação e parcerias. Na divisão de equipamentos médicos temos: incubadoras de transporte com oximetria e umidade controlada; centrífugas refrigeradas para bancos de sangue; bilirrubinômetro (equipamento que mede a bilirrubina), onde contamos com o apoio do professor Arthur Gonçalves, da USP de Ribeirão Preto, e também bolsas para coleta e congelamento do sangue do cordão umbilical.
A concorrência e o livre mercado são saudáveis?
Acredito que são fundamentais, pois os dois são pressupostos de uma sociedade livre. Também entendo que os órgãos de defesa da concorrência devem agir para evitar distorções, não permitindo a formação de cartéis, monopólios e oligopólios. Temos que ser incansáveis na busca por um desenvolvimento econômico sustentável ambientalmente. Em 1990, o autor Francis Fukuyama escreveu “O Fim da História”, onde insinuava que, com a queda do muro de Berlim e o esfacelamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o capitalismo triunfara. Não tenho dúvida de que modelos de economia planificada não deram certo. Precisamos, sim, de um capitalismo inclusivo, mas não excludente, como temos visto nos países emergentes e em outras economias. Não devemos perder a noção do “welfare state” (estado do bem-estar), que tanto desenvolvimento social levou para a Europa. Ainda assim, abusos foram cometidos e a Grécia é um exemplo. Quando entrou para a União Europeia, era um país pobre, beneficiou-se bastante dos incentivos, mas caiu na tentação dos gastos públicos e está passando pelo purgatório.
Que reformas o Brasil precisa de reformas implementar para preservar o futuro?
Precisamos privatizar. Não faz sentido ter empresas estatais que, na verdade, servem a políticos corruptos e grandes empresários criminosos. Certos setores da esquerda ainda acham que o que é estatal é público. Concluo o seguinte: ou são malandros ou inocentes. A história já mostrou isso. O debate precisa se libertar das ideologias de esquerda ou direita. O Estado precisa ser eficiente e entregar serviços de qualidade à população.
Segundo dados do setor, o faturamento das farmácias cresceu 20,81% de janeiro a outubro de 2017, em relação ao ano anterior. Já o mercado farmacêutico em geral cresceu 12,85% no mesmo período. Mesmo com a crise, a venda de medicamentos vem crescendo?
Há um ditado que diz que a indústria de medicamentos é a última a entrar na crise e a primeira a sair dela. São produtos essenciais para a saúde humana, mas isso não se aplica a bens duráveis, pois as compras podem ser adiadas até segunda ordem.
Mesmo com um setor competitivo, os preços dos medicamentos ainda são altos no Brasil. Tanto para hospitais quanto para o consumidor final, o que pode ser feito para mudar esse quadro?
Importante ter conhecimento de que o Brasil é um dos poucos países que tributa excessivamente os medicamentos. Por outro lado, há diversas classes de medicamentos. Diria que medicamentos novos e de alto custo têm preços elevados, mas genéricos, similares e outros têm uma concorrência bem acirrada. Além disso, existe um controle rígido do preço dos remédios, por sinal, acho que é o único segmento da economia que controla preços. Outro ponto a destacar é que mais de 90% das matérias-primas e dos princípios ativos são importados, principalmente da China e da Índia.
A deterioração da economia, somada à crise política e à carga tributária, agrava este cenário?
Acredito que o pior passou em 2015 e em 2016. O presidente Michel Temer, com todos os problemas de ordem política e até policial, colocou uma equipe competente na área econômica, o que foi muito bom. O ano de 2018 certamente será melhor, desde que a taxa de juros, extremamente alta, seja baixada. Por sinal, se a concentração econômica é danosa, imaginem a concentração financeira e a bancária? É isso que acontece no país. Seis bancos controlam quase todo o crédito. A sociedade está muito “financeirizada” e este é um desafio para o próximo governo também.
Apostar em exportação contribuiu para elevar receitas?
Em um mercado globalizado, não há razão para não apostar em exportações, se há produtos competitivos em mãos. Aliás, isso já não é mais uma aposta, pois exportamos produtos com tecnologia há décadas.
Qual é a sua receita para a longevidade da JP Farma?
É muito motivador fabricar produtos e soluções que preservam e salvam vidas. Estamos sempre atentos ao que o mercado e os usuários desejam. Temos uma história de solidez e segurança naquilo que fabricamos. Diria que os controladores de toda empresa devem ter muito claro o que querem e esta definição deve ser muito bem comunicada, fazendo com que saia do topo da empresa ao chão de fábrica de forma objetiva e facilitada. Nossos gestores estão qualificados e capacitados para fazer isso. Além disso, os profissionais devem ter mente qual a missão da empresa e o que devem fazer para alcançá-la. O meu sonho corporativo é a “autodisciplina”, enquanto ela não vem completamente, aplicamos o nosso mantra “confiança é princípio, controle é gestão”.
O senhor participou da primeira diretoria do Arranjo Produtivo Local (APL) da Saúde, em Ribeirão Preto. Acredita que o setor ganhou com a iniciativa?
A região de Ribeirão Preto é uma das mais importantes para a indústria da saúde e também em serviços nesta área. Temos universidades públicas e privadas, faculdades, um parque tecnológico e profissionais gabaritados de toda ordem. É um verdadeiro “cluster” da saúde, ou seja, um conjunto de setores em colaboração mútua que torna todos mais eficientes. Participei da organização inicial do APL e dei minha contribuição. Agora o bastão foi passado, como deve ser.
Como avalia o empresário ribeirãopretano?
Participo de entidades empresariais, como a ACIRP e o CIESP porque acredito no associativismo, em trabalhar naquilo que é senso comum e não nas diferenças. Devemos nos dedicar a demandas legítimas, que criem valor para o setor industrial e, necessariamente, para a sociedade, ou qualquer atividade perde o sentido. Há vários empresários engajados para criar uma cidade melhor, para não revivermos o passado recente de Ribeirão Preto. A Prefeitura e a Câmara Municipal deveriam fazer um pacto pela redução das despesas públicas em favor de investimentos no município. A cidade tem um orçamento de R$ 3 bilhões e quase nada para investimentos, dependendo de verbas orçamentárias do Estado e da União. É um verdadeiro absurdo!
Quais as perspectivas para 2018?
Como disse anteriormente, o pior já passou, mas precisamos das tão conhecidas reformas, caso contrário estaremos condenados ao eterno voo de galinha e ao atraso socioeconômico. Espero que políticos populistas e “salvadores da pátria” sejam apenas uma miragem no mapa eleitoral e o povo eleja um bom presidente e uma Câmara Federal renovada.
Qual a influência das eleições presidenciais na economia?
A economia sempre influencia muito nas eleições. A eleição de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva são exemplos, embora este ano não acredite nisso, pois avançamos bastante e o presidente continua muito mal avaliado, ou seja, não será beneficiado pela melhora econômica.

Qual a sua avaliação política e econômica de Ribeirão Preto?
Os últimos oito anos foram um desastre. Tudo o que vimos na imprensa sobre a Operação Sevandija mostrou como a população foi jogada às traças pela Prefeitura e por grande parte dos vereadores. O prefeito Duarte Nogueira tem um bom desafio. As informações prestadas até aqui evidenciam que as contas já melhoraram. A atual administração precisa mostrar a que veio, ou seja, fazer gestão e melhorar a qualidade de vida do ribeirãopretano. A população deve acompanhar tudo o que acontece nessa área em todas as esferas, pois não há nenhum político no país que não tenha sido eleito pelo povo.
Texto: Rose Rubini
Fotos: Julio Sian