Gratidão à vida
Grupo de amigos de Medicina se reuniu para custear um tratamento de câncer no valor de R$ 32 mil
Sempre dedicado aos estudos. Desde muito cedo, descobriu um fascínio pela física teórica avançada, ao mesmo tempo em que estudava na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, na turma que iniciou o curso em 1962. Marcos D’Ávila Nunes encontrou na escrita uma forma de atenuar o sofrimento decorrente de um câncer e em sua sétima obra agradeceu aos colegas da “Magnífica XI Turma” por um gesto de solidariedade que salvou sua vida.
Os percalços da vida foram capazes de derrubar o cientista. O primeiro sinal foi uma fadiga incessante. O escritor foi diagnosticado com câncer colorretal, tumor maligno que se desenvolve no intestino grosso, no cólon ou no reto. Marcos, que já havia perdido a segunda esposa vítima de câncer de mama, passou a se empenhar demasiadamente no estudo da doença. Fez do universo virtual uma potente ferramenta de divulgação sobre a hadronterapia. A técnica consiste em acelerar prótons, que posteriormente serão lançados dentro do tumor, sem necessidade de cirurgia. Esses prótons quebram a molécula de DNA, causando sua morte.
Gesto de amizade
Com a piora do câncer, Marcos necessitava de um quimioterápico de preço elevado, denominado Regorafenibe. O tratamento para três meses custaria R$ 48 mil. Diante da recusa da Justiça para fornecer o medicamento, alegando falta de recursos, os colegas de turma, à época, sensibilizados com o caso, dividiram os gastos, que chegaram a R$ 32 mil, suficientes para dois meses. Sequer podiam imaginar que, anos mais tarde, um gesto tão nobre poderia servir como motivação para que o professor relatasse a passagem em um livro.
Como forma de agradecimento, disse aos colegas que escreveria uma obra narrando a trajetória da turma, desde o início da graduação até os dias atuais. O livro “A Magnífica XI Turma da FMRP/USP e sua Saga Humanitária”, com participação de ex-alunos, apresenta uma linha do tempo relatando a vida acadêmica no período de 1962 a 1967. “A característica fundamental dessa obra é que ela não é ofensiva. É um livro puramente construtivo e de caráter quase épico. Espero que todo mundo tenha orgulho da obra, feita para ser mostrada em casa para filhos, netos e amigos. Eu dei o máximo de mim e meus colegas me ajudaram também. Esta foi minha maneira de agradecer, eternizando a turma”, destaca o autor.
Dois colegas da XI Turma que ajudaram na compra do quimioterápico participaram do bate-papo. Dra. Margarida Moraes, que curou um câncer de mama há 22 anos, relembra com saudade as peculiaridades da turma, sempre apta a ajudar qualquer amigo que estivesse em um momento de desespero. Para ela, a solidariedade já era a principal característica de um grupo de 100 alunos. O cientista ressalta que essa qualidade torna o mundo mais humano e aproxima a classe médica que, por vezes, é vista como insensível por lidar com a morte diariamente.
Ao lado do marido nos momentos de superação, Maria Sílvia Junqueira Garcia, de 59 anos, emociona-se quando perguntada como é lidar com a doença e, ao mesmo tempo, ver que Marcos está sempre à procura de conhecimento. “Para mim é uma satisfação. Eu me orgulho muito dele ter esse dinamismo intelectual. Em vez de a gente trazê-lo para vida, é ele quem nos traz”, garante a esposa, terceira companheira do escritor. Com os ouvidos bem atentos, Marcos logo responde que o que o mantém vivo é a possibilidade de conviver com pessoas tão amorosas. “Minha energia toda vem desse amor”, completa. Tamanha é a motivação para viver que vizinhos do prédio o procuram para conversar e aproveitar o conhecimento e a experiência acumulados em anos de profissão.
Sempre curioso, em busca da cura de uma doença que tanto causa sofrimento. “Não é fácil encontrar as habilidades que o Marcos tem, o que fez dele uma figura proeminente, tanto na ciência quanto na literatura científica. Há nele um sentimento e uma afetividade muito especial”, afirma o médico João Antônio Granzotti, um dos homenageados.

O porquê de magnífica
“Já me perguntaram por que considero a XI Turma da FMRP/USP magnífica. Tenho o maior prazer em responder a esta questão — não só de responder, mas também de provar minha proposição ao longo da obra. Ela é magnífica não só por atos de solidariedade profunda, mas também pelo caráter de seus componentes. Todas pessoas íntegras e insubstituíveis, buscando com realismo esforçado de quem tem boa vontade à construção de um mundo melhor para a humanidade e seus herdeiros”, descreve Marcos no prefácio da obra.
Lançamento do livro
A obra “Magnífica XI Turma da FMRP/USP e sua Saga Humanitária” foi lançada no dia 29 de junho, no Stream Palace, às 19h, com jantar dançante para os convidados. O livro de 152 páginas narra, além da trajetória acadêmica do grupo de 1962-1967, viagens à Europa, residência, pós-graduação, publicações nacionais e internacionais. Reúne, ainda, fotos e currículos dos membros da turma, artigos e uma homenagem aos familiares dos falecidos. Foi o primeiro livro do país lançado por um grupo de médicos contando uma história de mais de 50 anos e que teve como editor um homem com câncer terminal que, mesmo com fortes dores pelo corpo, encontrou tempo e coragem para se dedicar aos amigos. “Foi um trabalho duro. Eu com câncer na coluna, fígado, pulmões e ossos. Trabalhava uma hora, descansava e voltava a escrever”, relata. Mesmo nos momentos árduos, declara que a paixão por livros o manteve vivo até hoje. A ele, foi dada uma expectativa de vida de cinco anos. Já venceu dois.