Há vagas, falta mão de obra
Há clientes insatisfeitos e empregadores com dificuldade de preencher vagas
No país inteiro, está difícil encontrar alguém 100% satisfeito com prestadores de serviços, públicos ou privados. Quem vai a um restaurante, por exemplo, busca algo mais do que uma boa refeição: deseja curtir momentos agradáveis para rever amigos, namorar, relaxar ou confraternizar com familiares. Porém, a falta de qualidade da mão de obra prestada é recorrente, e Ribeirão Preto não foge à regra.
O advogado esp
ecialista em direito tributário, Marcelo Elias Valente, é um dos vários moradores da cidade que enfrentaram problemas com serviços mal prestados em decorrência da falta de mão de obra qualificada no mercado de trabalho.
“Como todo brasileiro, tenho várias histórias de atendimentos precários, principalmente no ramo da alimentação. Certa vez, fui a uma lanchonete com amigos, fizemos o pedido e verificamos que a demora, já característica do local, estava acima do limite tolerável. Entramos em contato com o ‘gerente’ do estabelecimento, que, na terceira vez que foi indagado, justificou a demora no atendimento e na confecção dos sanduíches por ter disponibilizado um dos chapeiros da lanchonete para a realização do aniversário da filha, festa que ocorreria naquele dia. Muito cansado de esperar e indignado após quase duas horas de espera, os pedidos chegaram errados, alguns queimados e outros mal passados demais. Nunca mais voltei lá”, conta Marcelo.
Assim como o advogado, a assistente social Livia Mariussi Segato passou por problemas na cidade. “Há três anos, quando meu marido, Mauricio, e eu compramos nosso apartamento, contratamos uma empresa para fazer os armários. Pagamos tudo com antecedência e quando solicitamos a instalação, começaram os problemas. Primeiro, a loja havia fechado e, agora, era outra rede. Houve demora na entrega, que só aconteceu depois de 20 dias da mudança. Mesmo assim, faltaram os armários do quarto. Entramos em contato com a loja e ninguém sabia informar o que tinha acontecido. Fizemos o pedido novamente e aguardamos. Depois de muitas discussões, a gerente me ofereceu um armário a pronta entrega, alegando que era da marca da nova loja, que tinha melhor qualidade, pelo mesmo preço. Como estava necessitando de um armário, aceitei. No entanto, instalaram um armário totalmente diferente do que eu tinha comprado e com defeitos. As brigas continuaram, reclamei on-line e cheguei a ir ao Procon. Até que a empresa se dispôs a consertar os defeitos e eu topei, pois já não tinha mais forças para brigar”, recorda Livia.
Fatos como esses ocorrem frequentemente. A falta de mão de obra qualificada compromete a satisfação dos clientes, cada vez mais descontetes, e a vida dos empregadores, que não conseguem encontrar trabalhadores aptos para assumir as vagas disponíveis. Basta uma volta pela cidade para encontrar diversos cartazes anunciando vagas de trabalho. A procura é por vendedores, gerentes, garçons, pedreiros, padeiros, costureiras, operadores de caixa, entre outros. A necessidade é tanto por profissionais de nível médio quanto superior, pois também faltam médicos, advogados e engenheiros.
O país passa a se deparar com um problema há muito anunciado: a falta de mão de obra qualificada para sustentar o ritmo de crescimento acelerado. Não importa o setor ou o nível de qualificação exigido, o problema é crônico e atinge diversas cidades. Para o professor Alberto Borges Matias, que também dirige o Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração (Inepad), a escassez de mão de obra é um problema antigo que, agora, está tomando proporções maiores. “As causas para a escassez da mão de obra nunca aparecem na hora. Existem vagas de emprego, mas faltam trabalhadores qualificados para assumir as vagas disponíveis”, afirma o especialista.
Com a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) e o volume de criação de empregos, cidades como Ribeirão Preto precisam lidar com a situação. Segundo Matias, o PIB deve crescer 2% em 2014; já a inflação atingirá a faixa de 6%, totalizando um crescimento de 8%. “Não podemos reclamar, pois é visível a queda na taxa de desemprego. As pessoas atentaram-se para a falta de mão de obra agora, justamente, porque ela começou a atrapalhar “, argumenta.
Uma pesquisa realizada recentemente pelo ManpowerGroup, empresa líder no segmento de recursos humanos que fornece soluções que auxiliam seus clientes a alcançarem resultados no mercado de trabalho, revela que a escassez de mão de obra, ou de talentos, afeta mais de um entre três negócios mundialmente. O problema é mais grave no Japão (85%) e no Brasil (68%). Em contrapartida, dados disponibilizados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), divulgado pelo Ministério do Trabalho, revela que o Brasil registrou abertura de 29.595 vagas em janeiro, porém, vale ressaltar que o resultado é abaixo do esperado.
Em Ribeirão Preto, a carência da mão de obra não fica atrás. A Contratta — Gestão de Pessoas, empresa que tem como principal serviço o recrutamento e a seleção de profissionais, tem mais de 22 vagas de emprego disponíveis hoje, sendo a maioria para os setores operacionais e administrativos, que envolvem as áreas de telemarketing, auxiliar de cobrança, supervisor de loja, auxiliar de almoxarifado, porteiro, auxiliar administrativo, caixa, atendente e outras. Algumas vagas são mais difíceis de serem preenchidas, principalmente quando é necessário trabalhar durante a madrugada. “Em conversas com empresários e até em notícias divulgadas pela mídia, vi que o mercado ribeirãopretano tem uma enorme dificuldade de recrutar e selecionar funcionários, não só nas grandes empresas, mas também nas pequenas e médias”, revela Rafael Martinez, diretor comercial da Contratta.
De acordo com os dados do Ministério do Trabalho relativos ao Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) nos municípios, avaliados pelo Inepad & MTE, vendedores, demonstradores, trabalhadores de administração, conservação e manutenção de edifícios e de logradouros representam as principais ocupações no mercado de trabalho de Ribeirão Preto. A análise mostra que o saldo de novas vagas já caiu. Em 2011, foram criados 9.029 novos postos em Ribeirão Preto; já em 2012, esse número foi de 6.391 e, em 2013, de 6.642, revelando uma desaceleração nas contratações. Os dados disponibilizados são de dezembro de 2013. “Creio que a dificuldade não acontece só em Ribeirão Preto, mas em todo o Brasil. Aqui, o principal ‘apagão’ está nas vagas que menos exigem qualificações, como trabalho doméstico, construção civil e agricultura. Temos um grande desafio quando somos contratados para buscar profissionais para esses setores”, alega Martinez.
O problema está no padrão do atendimento prestado. Para cargos que exigem contato com o público, a falta de preparo é muito grande. Para Livia uma cidade com a estrutura de Ribeirão Preto deveria ter empresas mais preocupadas com o atendimento qualificado. “Nossa cidade tem um grande potencial econômico que, muitas vezes, acaba pouco explorado pela falta de qualificação profissional. Se continuarmos assim, as pessoas irão buscar produtos e serviços fora da nossa cidade”, analisa a consumidora.
A criação de cargos cada vez mais específicos, o uso de equipamentos ultramodernos e a globalização dos negócios contribuem para a acentuar o problema. A segunda edição da pesquisa Carência de Profissionais no Brasil, realizada pela Fundação Dom Cabral no ano passado, revelou que 91% das empresas pesquisadas têm dificuldades para contratar. Ainda segundo a pesquisa, os motivos que mais dificultam a contratação de mão de obra é a carência de profissionais capacitados (83,23%) e a deficiência na formação básica (58,08%).
Segundo o Marcio De La Corte, superintendente de Obras da Stéfani Nogueira Incorporação e Construção, o mercado da construção civil, por exemplo, muitas vezes, não encontra mão de obra disponível no mercado. “Isso depende muito da ocasião. Geralmente, sentimos mais dificuldade nas áreas de hidráulica, pintura e acabamento”, explica. Para driblar a escassez, as empresas recorrem às escolas técnicas, oferecem cursos dentro da própria unidade e propõem planos de carreira. “Em função do nosso tempo de atuação no mercado da construção civil, conquistamos parcerias importantes com profissionais, garantindo melhor qualidade, produtividade e, consequentemente, bem-estar para todos, tanto empregadores quanto trabalhadores e, de forma especial, ao cliente final, que pode contar com um produto diferenciado. A relação de confiança entre as partes é fundamental”, define Marcio.
Matias frisa que, na procura pela redução dessa carência, algumas empresas buscam no exterior mão de obra para algumas áreas. “Temos um processo natural acontecendo: a migração dos países desenvolvidos para o Brasil. Essa, talvez, seja uma das soluções para a carência da mão de obra, afinal, se estão faltando médicos, temos o Programa Mais Médicos. Também foi liberada a entrada de engenheiros no Brasil. É preciso aproveitar o momento para trazer profissionais capacitados do exterior. Infelizmente, ainda pensamos muito no período histórico recente marcado pelo alto desemprego, mas não podemos resistir a essa migração”, pontua Matias.
Para o professor, a realidade atual só é esta porque não houve planejamento. Segundo Matias, o país está vivendo agora o que foi construído nos últimos 20 anos e, caso queira mudar o cenário, é necessário começar já. “Na minha opinião, chegamos a essa escassez porque somos ruins de planejamento. Planejamento não faz parte da nossa vida, nem dentro de casa. Os países desenvolvidos têm bons resultados porque planejam. Isso significa fazer o futuro que queremos”, salienta.
Qualificar para empregar
Quando questionados sobre os principais fatores que contribuem para escassez da mão de obra, os empregadores não relutam em apontar a falta de competência técnica, a deficiência na formação e a falta de fluência em inglês.
De acordo com a pesquisa “Desafios da Economia Brasileira”, feita pelo Inepad e CAGED, o perfil profissional de vagas ocupadas em 2013 é de 0,55% para analfabeto, 48,86% para pessoas com ensino médio completo e 6,72% para profissionais com Ensino Superior completo. Para Alberto Matias, faltam candidatos com Ensino Médio completo. O professor explica que, de 2006 para 2013, a necessidade do mercado aumentou em termos de qualificação. Hoje, a busca por empregos exige mais preparo. “Nos últimos anos, houve um aumento de 68% dos postos de trabalhos ocupados entre 2006 e 2013 e poucas variações dos profissionais empregados. Então, se os perfis profissionais cresceram proporcionalmente, onde está o problema? Na qualificação”, esclarece.
Para a psicóloga especializada em psicologia organizacional e do trabalho, Carla Caetano, que atua na Contratta ao lado de Martinez, a educação é o ponto fundamental para a qualificação, mas há algumas controvérsias. “Não dá para afirmar se a falha é no ensino ou se a pessoa não teve vontade de se qualificar para o mercado de trabalho. Com certeza, ter um bom currículo faz a diferença na disputa por uma vaga, mas a boa comunicação, o domínio do português e uma maneira adequada de se vestir e de se comportar são fundamentais também”, destaca a psicóloga.
Matias acredita que a escassez de mão de obra vai exigir, prioritariamente, uma boa formação, então, é necessário incluir SENAI, SENAC, Pronatec, entre outros, para formar rapidamente profissionais que irão sanar essa carência. “Precisamos envolver a indústria e o comércio na qualificação, inclusive dos jovens. Os pais precisam ficar mais atentos à formação de seus filhos, cobrar para que o problema do sistema educacional seja resolvido”, acrescenta Matias.
Na visão de Juliano Calderero, gerente do Senac Ribeirão Preto, a falta de mão de obra qualificada é o grande desafio do Brasil e do Senac, que atua para preparar as pessoas para trabalhar de forma produtiva e sustentável. “A qualidade da educação está relacionada com o desenvolvimento das pessoas e a preparação delas para a vida. O trabalho é parte disso e pode ser muito favorecido pela escola, mas existem outros fatores ligados ao desenvolvimento profissional como, por exemplo, o ambiente profissional e o ambiente familiar”, aponta o gerente.
Tendo como missão o desenvolvimento e a transformação das pessoas pela educação, o Senac oferece cursos ligados ao comércio e aos serviços, incluindo cursos técnicos, de idiomas e de pós-graduação. “A qualificação é parte de um contexto aonde devemos incluir interesses e valores sociais. Hoje, não conseguimos atrair bons profissionais apenas com salários. É necessário que o propósito, ou a missão, da empresa seja interessante. Quem consegue fazer essa relação tem muito menos dificuldade para montar e desenvolver equipes”, analisa Juliano.
Na contramão da escassez
No Outback, o trabalho é árduo, pois a casa está sempre cheia, tanto no almoço quanto no jantar. O atendimento acolhedor é apontado frequentemente pelos clientes como a maior qualidade da casa. O segredo é conseguir que os funcionários da rede vistam a camisa e ajudem na contratação de novos funcionários. “ Muitos deles estão conosco há mais de 4 anos. A troca de experiência, o aprendizado cotidiano e um ambiente de trabalho agradável são alguns dos fatores que fazem os funcionários gostarem de trabalhar no Outback”, afirma Tiago Arruda, sócio-proprietário do Outback RibeirãoShopping. Segundo ele, a faixa etária dos colaboradores é outro ponto que conquista o cliente. “Temos colaboradores jovens e animados, além de uma boa recepção e de um atendimento intimista que deixa as pessoas à vontade ao escolher o Outback”, esclarece.
Tiago, que é funcionário do Outback há 13 anos e começou trabalhando como garçom, conta que hoje não possui grandes dificuldades na hora de contratar mão de obra qualificada. Segundo o sócio-proprietário, vagas sempre vão existir, principalmente em restaurantes e bares, pois o número de clientes geralmente é alto. “Continuamos contratando com a colaboração de uma empresa especializada, mas também temos o auxílio dos funcionários da casa que, por gostarem de trabalhar aqui, trazem currículos e novas pessoas dispostas a aprender conosco”, frisa.
Diferente de muitas empresas, o Outback contrata pessoas com ou sem experiência profissional, pois o funcionário passará por treinamentos específicos. Além disso, a rede possui um plano de carreira que permite que os colaboradores assumam novos desafios no trabalho. “Acompanho pessoalmente o treinamento e o desenvolvimento de cada colaborador. Também faço um feedback para que ele saiba como está o seu trabalho. Acredito que, ao contratar e treinar os funcionários, todos saem ganhando: o Outback, por contar com profissionais dedicados e qualificados, e os próprios colaboradores, que ganham experiência e desenvolvimento profissional”, conclui o sócio-proprietário.
Texto: Pâmela Silva
Fotos: Carolina Alves, Julio Sian e Ibraim Leão
Produção: Marcela Versiani e Mel Cândido