Histórias de conquistas
Com reconhecimento na área acadêmica, as pesquisadoras Alline de Campos, Maria Borsatto e Maria Bentley mostram que, com esforço e dedicação, não há limites para a realização no mercado de trabalho
Apesar de todas as realizações femininas, o mercado de trabalho ainda impõe certa resistência à ocupação dos cargos mais cobiçados pelas mulheres. As diferenças do tratamento em relação ao gênero podem ser constatadas na trajetória profissional, que costuma ser mais longa para mulheres, e nos salários, defasados em relação aos dos colegas do sexo masculino. Independentemente das dificuldades e das exigências, muitas se destacam e comprovam que reconhecimento é conquistado, sobretudo, com dedicação e paixão pelo trabalho.
Essas características não faltam a inúmeras pesquisadoras da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto. Ali, diariamente, profissionais se lançam às profundas esferas do conhecimento para reverter seu trabalho em conquista, alívio e desenvolvimento nas mais diversas áreas.
A professora Alline Cristina de Campos é docente do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP (FMRP) desde abril do ano passado, tendo realizado mestrado e doutorado no Departamento de Farmacologia da FMRP, entre 2006 e 2011. Seis meses após ser contratada, a pesquisadora conquistou o 10º Prêmio L’Oréal – Unesco – ABC Para Mulheres na Ciência. Seu trabalho se destacou entre mais de 400 inscritos.
A pesquisa na área de Neuro-psicofarmacologia se refere à participação de mecanismos plásticos do sistema nervoso central nos efeitos de psicofármacos e visa à produção de medicamentos mais efetivos, com menos efeitos adversos, com foco no tratamento de pacientes que sofrem de ansiedade e de depressão. “Ser uma das ganhadoras do prêmio foi um presente inesperado. Além dos efeitos diretos, como o financiamento do projeto, essa conquista nos deu visibilidade e nos aproximou muito da sociedade. É como se não estivéssemos mais sozinhos. Talvez estejamos traçando um caminho promissor”, afirma a pesquisadora.
Segundo Alline, os transtornos de ansiedade e depressão são doenças graves, crônicas e incapacitantes que atingem o funcionamento do cérebro e prejudicam o cotidiano das pessoas, podendo afastá-las por longo tempo do trabalho e do convívio com familiares e amigos. “Hoje, os antidepressivos podem levar de 4 a 8 semanas para começar a aliviar os sintomas. Nossa pesquisa busca saber se os efeitos dos medicamentos podem ser acelerados quando administrados simultaneamente com doses baixas de fármacos facilitadores dos efeitos dos endocanabinoides, como o canabidiol”, explica a professora. Também objetiva determinar os efeitos dessa combinação em alguns eventos plásticos do sistema nervoso central, como a formação de novos neurônios e novas conexões entre esses neurônios, eventos alterados em pacientes com transtornos de ansiedade e de depressão. Ao avaliar alvos moleculares capazes de aumentar a produção de novos neurônios, o estudo poderia ter impacto, também, no entendimento das doenças neurodegenerativas.
Apesar dos resultados serem apenas preliminares, os estudos sugerem que os endocanabinoides promovem efeitos antiestresse em uma janela de tempo menor do que os antidepressivos disponíveis atualmente. “Esses dados ainda precisam ser consolidados e devem ser replicados”, adverte Alline. No entanto, como as associações de medicamentos tendem a aumentar os riscos de efeitos colaterais, há a possibilidade de abandono do tratamento por parte dos pacientes, o que é muito perigoso. “Queremos tornar disponíveis dados experimentais que possibilitem o tratamento mais rápido dos transtornos de ansiedade e da depressão. Se nossa hipótese estiver correta, no futuro, poderemos associar os canabinoides a menores quantidades de antidepressivos, o que aliviaria os efeitos adversos e reduziria o tempo de convivência dos pacientes com os sintomas, possibilitando uma retomada mais rápida às atividades cotidianas”, explica a pesquisadora. Por ser responsável pela formação de novos profissionais, os benefícios das pesquisas acabam alcançando não somente os grupos estudados, mas toda a população.
A intenção de Alline, agora, é continuar fiel e determinada na busca por ferramentas que proporcionem a melhoria da qualidade de vida da população. “Para tanto, procuro reciclar meus conhecimentos para realizar, da melhor maneira possível e com muita responsabilidade, o meu trabalho como formadora de pessoas e divulgadora de resultados científicos”, comenta a professora.
Dedicação e reconhecimento
Para a ribeirãopretana Maria Vitória Lopes Badra Bentley, professora titular da USP desde 2006, com pós-doutorado na University of Manchester, a excelência no trabalho que desenvolve não se reverte somente em méritos para a pesquisa, mas para os cargos administrativos que conquistou dentro e fora da USP: participou do Conselho de Pesquisa da USP, como presidente da Comissão de Pesquisa da FCFRP; foi chefe do Departamento de Ciências Farmacêuticas; membro do Conselho Consultivo da ANVISA; membro do Comitê Assessor da Área da Farmácia no CNPq; coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas (conceito 7 Capes); vice-diretora da FCFRP-USP e, agora, diretora na mesma faculdade. Prestou, também, assessoria científica a empresas como Natura, Stiefel e Sanofi-Aventis na área de produtos dermatológicos e cosméticos.
Maria Vitória formou-se em Farmácia Bioquímica na USP-RP, em 1986, e dois anos depois, tornou-se docente. Em 1994, concluiu o doutorado em Fármacos e Medicamentos. Entre suas realizações está a implantação do primeiro Laboratório de Análise de Medicamentos Genéricos, na USP-Ribeirão Preto: o Centro de Estudos em Equivalência Farmacêutica, Biodisponibilidade e Bioequivalência da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP), criado em 1999 para atender às exigências regulatórias dos medicamentos genéricos.
As análises de Bioequivalência e Equivalência Farmacêutica realizadas pelo Centro possibilitaram o registro de 61 medicamentos genéricos por várias empresas do setor. “Foi considerado um centro de excelência. Éramos procurados para resolver questões analíticas e farmacotécnicas complexas, devido à nossa infraestrutura e conhecimento científico destacado na área. Por vários anos, o Centro contribuiu para a implantação dos medicamentos genéricos no país, beneficiando a sociedade”, conta a pesquisadora.
Atualmente, a área de interesse de Maria Vitória é a Nanotecnologia Farmacêutica, que viabiliza várias terapias para as mais diversas doenças por meio dos nanocarreadores, que liberam o fármaco no local desejado, promovendo uma ação otimizada. “Através da Nanotecnologia Farmacêutica, é possível obter nanopartículas contendo um fármaco específico que vai atingir, de forma seletiva, o tecido e as células doentes, liberando esse fármaco na dose terapêutica correta, podendo ainda sustentar essa liberação”, conta a docente.
A pesquisadora ressalta, ainda, que a Nanotecnologia viabiliza a aplicação do medicamento na pele ou na mucosa, substituindo o injetável, representando um avanço tecnológico para a terapia gênica e para o uso terapêutico de produtos biotecnológicos. “A Nanotecnologia Farmacêutica e a Biotecnologia representam as tecnologias do futuro na área de medicamentos. A comunidade científica e as empresas farmacêuticas de todo o mundo estão voltadas para essas áreas portadoras de futuro”, esclarece Maria Vitória. “Os projetos de pesquisa estão direcionados à obtenção e à avaliação de nanopartículas lipídicas para veiculação de genes para o tratamento tópico de doenças cutâneas crônicas de tratamento difícil ou inexistente”, esclarece, destacando a psoríase, o vitiligo e o câncer de pele.
Como os tratamentos tradicionais para essas doenças nem sempre são efetivos e envolvem a administração de medicamentos com alto potencial tóxico, a proposta é veicular genes silenciadores (siRNA) de proteínas específicas produzidas de forma exacerbada nesses processos patológicos, inibindo ou reduzindo o desenvolvimento e a manifestação da doença. O desafio da equipe é desenvolver nanopartículas que encapsulem o siRNA específico, mantenha a molécula estável e a libere nas camadas da pele onde o processo patológico se desenvolve. “Atingir esses propósitos é um desafio, dada à complexidade das tecnologias e dos processos biológicos envolvidos. É muito gratificante poder contribuir com um tratamento efetivo, seletivo e seguro para os milhares de paciente acometidos por essas doenças”, frisa Maria Vitória.
Pioneiro nos estudos in vitro de penetração cutânea de fármacos no Brasil e, hoje, referência nacional e internacional na área, seu grupo foi nucleador de outros que se espalham pelo país, e desenvolve trabalhos com empresas farmacêuticas, cosméticas e veterinárias nessa área. A importância de suas pesquisas são atestadas pelo reconhecimento conquistado na comunidade científica e pela aquisição de recursos financeiros de grande monta nas agências de fomento. Entre as premiações destacam-se o Prêmio Capes de Tese da área da Farmácia, em 2006, a ilustração de capa de revista estrangeira com resultados de trabalho científico, a coordenação de Redes de Pesquisas em Nanotecnologia Farmacêutica, o 2º lugar no Prêmio Natura Campus, em 2010, além das interações científicas com renomados grupos de pesquisa no exterior, citações em trabalhos, formação de dezenas de mestres e doutores e convites para palestras em importantes congressos no exterior.
Segundo a pesquisadora, colaborar com o desenvolvimento de medicamentos que curem ou controlem a manifestação de tais doenças de forma efetiva e sem os graves efeitos tóxicos das terapias tradicionais é uma grande satisfação. A boa notícia é que grandes empresas farmacêuticas estão apostando nessa tecnologia para viabilizar medicamentos inovadores.
Por um tratamento mais humano
A qualidade de vida, o pioneirismo e o tratamento humano permeiam fortemente a carreira da também ribeirãopretana Maria Cristina Borsatto. Formada pela Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, em 1983, concluiu o mestrado e o doutorado na Faculdade de Odontologia de Araraquara, UNESP, e foi aprovada no Concurso de Livre Docência na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP-USP), de onde se tornou professora titular. Hoje, atua na Odontopediatria do Departamento de Clínica Infantil da mesma faculdade.
Desde que foi contratada como cirurgiã dentista pelo Departamento de Clínica Infantil, Odontologia Preventiva e Social da FORP-USP, em 1989, e se tornou docente, em 1992, Maria Cristina se dedica não somente à pesquisa, mas ao ensino e à extensão universitária. “Atualmente, a pesquisa se tornou fundamental, porque alicerça o ensino e a extensão. Assim, no final da década de 90, a minha produção científica tomou um impulso considerável. No entanto, o ensino de graduação continuou sendo prioridade na minha vida docente”, conta a cirurgiã-dentista.
Há 33 anos na Odontopediatria, Maria Cristina tem acompanhado a evolução dos materiais odontológicos e das novas tecnologias. Conforme a mestra, a utilização da irradiação com laser, tanto os de alta potência quanto de baixa potência, foi um grande avanço em praticamente todas as áreas da Saúde, e é uma de suas linhas de pesquisa mais fortes na Odontologia. “O impacto na qualidade de vida dos pacientes é notório, já que, muitas vezes, não é necessária a aplicação de anestesia dentária para a remoção das lesões de cárie, uma das maiores dificuldades, principalmente, na Odontopediatria”, comenta a pesquisadora, revelando que, como o laser não apresenta aquele ruído desagradável do temerário motorzinho (alta-rotação), tornou-se uma importante ferramenta no controle do comportamento das crianças.
A cirurgiã-dentista esclarece, ainda, que os lasers de baixa potência apresentam inúmeras indicações na Odontologia e são muito utilizados, principalmente, em tecidos moles. “Uma das aplicações mais impactantes na qualidade de vida dos pacientes é a utilização desses lasers em casos de mucosite, um efeito adverso da quimioterapia em pacientes com diversos tipos de câncer e da radioterapia na região da cabeça e do pescoço”, ressalta Maria Cristina.
Apesar da acupuntura ter se tornado uma especialidade odontológica este ano, a professora desenvolve trabalhos nessa área há mais de duas décadas. Até pouco tempo, a técnica milenar da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) era desacreditada por muitos profissionais da área da saúde. “Hoje, existem cerca de dez mil trabalhos publicados na literatura médica e 445 trabalhos publicados em Odontologia. Sua efetividade como técnica complementar vem sendo comprovada e amplamente difundida”, comenta a docente.
Na Odontologia, pode ser usada em pacientes com dores miofaciais, disfunções da articulação temporomandibular, bruxismo, lesões bucais, no controle do estresse e da ansiedade frente ao tratamento odontológico, no controle do reflexo de regurgitação e náusea e, principalmente, para analgesia. “A minha experiência com a acupuntura tem sido muito enriquecedora, pois esta é uma ciência completamente diferente dos nossos conceitos ocidentais. A visão holística e preventiva preconizada pela MTC, que se preocupa com a saúde e não com a doença, pode levar a população a uma perspectiva de melhor qualidade de vida e maior longevidade”, enfatiza Maria Cristina.
Muito antes disso, a cirurgiã-dentista já inovava, visando à humanização do tratamento dentário: desde 1985 atende a pacientes com necessidades especiais. “Este é outro trabalho muito gratificante. Em média, aproximadamente 15% da população mundial e brasileira apresentam algum tipo de deficiência, que, geralmente, é totalmente desassistida. Poucos profissionais se interessam pela área, especialidade odontológica desde a década de 90, provavelmente pela dificuldade e pelos riscos que os pacientes apresentam durante o tratamento”, explica a pesquisadora.
Os procedimentos utilizados nos pacientes especiais são semelhantes aos ministrados aos pacientes em geral, mas as dificuldades e os cuidados em função dos riscos que apresentam, relacionados aos diversos comprometimentos sistêmicos, tornam o atendimento diferenciado. Um dos diferenciais do atendimento, segundo a cirurgiã-dentista, é a abordagem da família, que recebe uma atenção específica, quando o tratamento é iniciado. “Como são pacientes com problemas de saúde considerados mais graves do que a saúde bucal, esta acaba negligenciada, fazendo com que os tratamentos realizados sejam mais complexos e requeiram uma equipe multidisciplinar. Na FORP-USP, os pacientes são atendidos sob os cuidados e a supervisão dos docentes da Disciplina de Odontopediatria, mas, muitas vezes, docentes de diversas áreas atuam conjuntamente”, esclarece Maria Cristina.
Suas pesquisas têm favorecido o melhor atendimento do cirurgião-dentista, em função da simplificação e do aprimoramento das técnicas de tratamento, e um maior grau de satisfação dos pacientes, através, por exemplo, do tratamento com acupuntura e com laser naqueles que apresentam ansiedade, estresse exagerado ou fobia frente ao atendimento odontológico. Tais técnicas contribuem para o controle desses comportamentos que afetam drasticamente o resultado final do tratamento.
Nos atendimentos realizados nas clínicas de Odontopediatria, de Pacientes Especiais e de diferentes clínicas de especialização, a equipe vivencia as dificuldades e as necessidades dos pacientes, bem como dos profissionais e estudantes. “Como pesquisadora, não poderia ficar indiferente. Foi assim que as experiências motivaram o desenvolvimento e o aprimoramento de materiais odontológicos, de novas técnicas de tratamento e a utilização de tecnologias de ponta”, conta Maria Cristina.
Com a experiência adquirida e as atividades desenvolvidas, a professora acredita estar trilhando o melhor caminho e pretende continuar realizando as atividades com a mesma dedicação e amor. “Pretendo desenvolver mais projetos que venham ao encontro das necessidades individuais e coletivas da população”, ressalta Maria Cristina. Também quer continuar a se dedicar à motivação dos alunos para que prestem um atendimento diferenciado, humanizado e holístico dos pacientes. Na extensão, pretende dar continuidade aos projetos ligados ao atendimento de pacientes infantis e de pacientes especiais utilizando as técnicas convencionais e acupuntura.
Para a docente, ter escolhido a área da saúde já demonstra sua preocupação precoce em ajudar e cuidar do outro. “Alguém que escolhe uma área que exige o cuidado com o outro não pode ficar indiferente à dor e à necessidade de qualquer pessoa. Depois de adquirir alguns conhecimentos, principalmente ligados à acupuntura, meu lado humanístico aflorou e me fez enxergar o ser humano de uma forma diferente e mais abrangente”, conclui a especialista.
Mulheres e medicina
Uma boa dica que pode servir de embasamento para compreender uma pouco mais sobre a luta das mulheres na conquista de seu espaço no mercado é a obra da professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da FMRP USP, Marta Edna Holanda Diógenes Yazlle: “Mulheres e Medicina homenageando as Professoras Pioneiras da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP”.
Em 158 páginas, a autora revela as dificuldades enfrentadas pelas mulheres para conseguirem estudar, entrar nas universidades e cursar Medicina, em diferentes épocas e países, sobretudo no Brasil, retratando, também, o início do ingresso de mulheres como professoras da FMRP. A obra reúne a biografia de 26 professoras, admitidas entre 1952 e 1972.
Texto: Carla Mimessi
Fotos: Ibraim Leão