Histórias reais
A Organização Voluntários do Sertão atendeu, de 18 a 22 de abril, cerca de 40 mil pessoas em Santa Cruz Cabrália (BA), com consultas, cirurgias, distribuição de óculos e medicamentos
Um fotógrafo pede para ele tirar os óculos escuros. Ele não sabe se pode. Uma enfermeira ao lado diz que pode tirar um pouquinho. Ele tira os óculos para ser fotografado, olha para uma repórter e diz “baica”. E explica em seguida: a palavra, dita em pachorran, língua falada em sua aldeia, significa bonita. Foi o começo da conversa com
o indígena pataxó Domingos Santana, de 75 anos, que acabara de sair de uma cirurgia de catarata, atendido pela Organização Voluntários do Sertão. Ele voltou a enxergar depois de cinco anos na escuridão e nem conseguia muito externar a emoção. Os óculos em questão eram para proteger da cirurgia.
Emocionado, pouco conseguiu falar com os jornalistas que o rodearam sob uma tenda onde os médicos atendiam os pacientes em duas carretas adaptadas em Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia. Quem explicou um pouco a história do velho índio foi seu filho, Benedito Gonçalves Santana, 54 anos, ou Parapati, como é chamado na aldeia. Contou que o pai teve 13 filhos, com quatro mulheres diferentes e que nunca cuidou muito da saúde. Agora, nem queria operar os olhos, por medo, mas acabou convencido. “Esperávamos por esse momento. A cirurgia particular ia custar R$ 10 mil. Agradecemos a Deus e aos voluntários”, disse Parapati. No pouco que falou, Domingos Santana explicou como pensa ter perdido a visão. “Eu gostava muito de caçar e andava pelas matas. A teia de aranha atingia meus olhos e eu fui perdendo a visão aos poucos. Agora a minha vida vai mudar. Consigo ver as pessoas de novo”, disse.
A poucos quilômetros do local de atendimento, outro índio passeava com a mãe em uma cadeira de rodas. Pelo sorriso largo, o menino nem parecia ter qualquer tipo de problema, mas tem mais de um. Portador de mielomeningocele — defeito congênito que afeta a espinha dorsal, o que o colocou na cadeira de rodas — Acauã
Pataxó, ou Mateus (nome civil), tinha também os testículos para dentro, ou não descidos. Ele passou por cirurgia para resolver o problema. “Era para ele ter feito o tratamento há tempos. Os médicos dizem que há possibilidade de se transformar em tumor, mas nunca tivemos acesso à cirurgia”, disse Taquarina Pataxó, mãe de Acauã.
Seis exames
Já em outro ponto de atendimento do mutirão dos Voluntários do Sertão estava a indígena aposentada Conceição Ferreira da Silva, de 69 anos, que tem nome de Oricana em sua tribo pataxó. Nas mãos, um envelope com o resultado da mamografia e nos olhos, os característicos óculos escuros da catarata. Moradora da aldeia Mata Medonha, Oricana contou ter passado por consultas e feito seis exames médicos e que só aguardava o atendimento da neta, Poyanauwá Oliveira Ferreira, de 10 anos, no setor odontológico. “Aproveitei para fazer todos os exames que precisava porque temos consultas médicas na aldeia, mas não temos como fazer os exames”, disse a índia.
Abandono de idoso
Há histórias mais tristes. Um dos “braços” da Organização Voluntários do Sertão, a ação em cidadania, leva
palestras com orientações diversas à população. Em Santa Cruz Cabrália, após uma denúncia, o grupo encontrou o aposentado Antônio João Feliciano da Cruz, de 75 anos, vítima de abandono material de incapaz. “Recebemos a denúncia e constatamos que ele estava mesmo abandonado, apesar de ter quatro filhos que moram no Rio Grande do Norte”, disse o advogado Hilário Bocchi Júnior, um dos integrantes do grupo.
O idoso foi levado a um hospital e, depois, para o Lar de Idosos. Magro e respirando com dificuldade, Antônio João tinha problemas para falar. A voz estava extremamente baixa. Além do abandono, o idoso sofre com tosse, incontinência urinária, tem suspeita de sífilis e fez biópsia para próstata. Encontrou ajuda médica e para conseguir uma moradia. “Conseguimos uma vaga para ele, desde que a gente levasse a cama da casa dele para o lar. Fizemos isso para que ele receba os cuidados necessários”, informou a assistente social Rafaela Matos, que acompanhou o trabalho.
Cidadania complementa a saúde
O mutirão dos Voluntários do Sertão tem número elevado de atendimentos em saúde — mais de 40 mil neste ano — e, por isso, outras ações não têm muita visibilidade, mas existem. Há um grupo de pessoas que cuida de cidadania. As ações incluem orientações de direito (notadamente previdenciário e da criança e do adolescente), saúde bucal, psicologia e educação sexual. Atuam no grupo da cidadania a psicóloga Ana Carolina Ferreira Castanho, a dentista Patrícia Rossi Peixoto, o advogado Hilário Bocchi Júnior (especializado em Direito Previdenciário) e o juiz Paulo César Gentile, da Vara da Infância e da Juventude de Ribeirão Preto, que explica às pessoas o alcance do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Aliás, a primeira ação em Santa Cruz Cabrália não foi de saúde, mas de cidadania. Cerca de 70 casais participaram de uma cerimônia de união estável, com direito a bênçãos de um padre e de um pastor. Com o documento de união estável, fica mais fácil conseguir direitos sociais e previdenciários. O porteiro Adriano Menezes Santos, 21 anos, foi um dos que participaram da cerimônia. Ele se uniu a Janine Souza de Almeida, de 19, com quem vive há quatro
anos e de cuja convivência nasceram os filhos Emanuel, de um ano, e Adriana, de dois anos. “Viemos colocar no papel o nosso relacionamento. Já tentamos outras vezes, mas sempre faltou dinheiro. Temos hoje o privilégio de nos unirmos e sermos mais felizes”, disse Adriano.
A falta de dinheiro foi também o motivo de Neilson Alexandrino Botelho, 41, e Carla Oliveira Santos, 37, não se unirem em matrimônio antes, apesar da vida em comum por 20 anos e dos três filhos, de 16, 12 e 7 anos de idade. “Nunca tivemos a oportunidade de nos casar. Sempre faltaram condições financeiras, mas, com a união estável, vamos nos unir muito mais”, afirmou Neilson.
Palestras
Nas palestras, os pequenos aprendem a escovar os dentes e a fazer uma higiene bucal eficiente. “Ensinamos a escovar de maneira correta. Também informamos os riscos de troca de escovas. Em populações menos informadas, há muita utilização de uma escova por mais de uma pessoa, o que provoca a transmissão de bactérias”, diz a dentista Patrícia Peixoto. A psicóloga Ana Carolina faz atendimento em um plantão psicológico e realiza palestras com terapia de grupo em busca da promoção da saúde. “Damos uma visão holística de homem integrado, de corpo e mente”, afirma Ana Carolina.
O juiz Paulo César Gentile fala sobre os direitos das pessoas e explica o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que tem 22 anos de existência, mas ainda há quem o desconheça. “Falamos muito do direito infantil, juvenil, de proteção aos idosos e da mulher vítima de violência porque, além dos problemas de saúde, há muitos conflitos”,
comenta o juiz.
Pelo trabalho do grupo, a Associação dos Cultivadores de Ostras do Guaiú terá sua oficialização. Segundo Gentile, a Associação existe há três anos e reúne seis famílias, mas continua na informalidade. “Hoje, eles conseguem uma receita de R$ 8 mil por mês, mas o potencial de crescimento é muito grande com a formalização”, salienta.
Já Hilário Bocchi aborda, em suas palestras, assuntos relacionados a aposentadorias e pensões. “O índio, por exemplo, tem direito a aposentadoria especial e muitos não sabem”, aponta o advogado. É também ele quem organiza as ações de união estável. “Criamos um multiplicador de informações ao mostrar que em nosso site a pessoa pode imprimir a declaração de união estável sem nenhum custo”, completa.
Voluntário sobrevivente
As histórias de superação estão não apenas entre os atendidos, mas também entre os voluntários. A técnica em enfermagem e assistente social Sandra Ferro Cerci, de 51 anos, participou do mutirão pela terceira vez neste ano. Em função das duas profissões, não seria incomum encontrá-la entre os participantes. A história dela, no entanto, se diferencia dos demais. Quando tinha 21 anos, ela sofreu um acidente em Bauru que a deixou tetraplégica. “Fiquei três meses no hospital sem qualquer cirurgia. Todos os médicos diziam que eu não teria mais os movimentos. Eu só mexia os olhos e a boca. Ainda tive infecção hospitalar na cabeça”, contou.
Sandra insistiu, com fisioterapia e muita fé. Um ano após o acidente, conseguiu mexer o dedão do pé. Mais um ano e recuperou o lado esquerdo. Em cinco anos, já andava. “Foi um milagre. Não há outra explicação”, conta. Sandra ficou em cadeira de rodas, enfrentou depressão e resolveu estudar. No vestibular de 30 vagas, ficou em 16º lugar. Ela se especializou em curativos oncológicos e, hoje, só cuida de pacientes com câncer.
Ela quis ir para a Etiópia, mas não conseguiu. Começou a se inscrever nos Voluntários do Sertão e só no terceiro ano pôde participar. Não parou mais. Sandra acha que sua história é de superação e de fé. “Motivação mesmo tem esse povo que, todo dia, tem que superar a falta de saúde, de educação, de trabalho e de comida”, comentou.
Comida para um batalhão
São 400 pessoas para comer. Café da manhã, lanche, almoço e jantar. Para alimentar tanta gente, o coordenador
da cozinha dos Voluntários do Sertão, Etelvino Ribeiro, o Tio Dú, 64 anos, montou duas equipes de 50 pessoas, que trabalham em turnos. A cada refeição foram preparados 20 quilos de arroz, 20 de feijão, 50 de carne e 50 de frango, além de muita salada, legumes e alguma massa. Hoje aposentado, Tio Dú foi chefe de cozinha por 43 anos, em São Paulo. Desde o início do mutirão, ele está na alimentação. “No começo, era pão com mortadela”, lembra-se emocionado.
Segundo ele, a responsabilidade é grande, pois não é fácil cozinhar para 400 pessoas. “O difícil é montar as equipes. Trago duas cozinheiras profissionais, mas as ajudantes não são especialistas. Algumas chegam sem saber cortar tomate, mas, no segundo dia, já estão bem melhor”, brinca. O trabalho começa cedo, às 4h da manhã, porque a primeira turma toma café por volta de 6h30. E o encerramento do jantar é às 20h30, com louças para lavar depois. “Não é fácil, mas é recompensador”, garante Tio Dú.
Voluntários maravilhosos
No domingo, 17 de abril, véspera do início dos atendimentos, o idealizador do projeto de mutirão, Doreedson Ribeiro Pereira, 42 anos, o Dorinho, recebeu das mãos do prefeito de Santa Cruz Cabrália, Jorge Monteiro Pontes (PT), a chave da cidade. Simbolicamente, ele foi o gestor da cidade por uma semana. Já prestes a encerrar o trabalho, Dorinho disse ter ficado muito feliz com mais esse resultado positivo da ação. “Fico feliz por saber que as pessoas estão felizes com o atendimento. Os voluntários são maravilhosos. Dispensam um atendimento carinhoso a estas pessoas necessitadas. Há muito amor em tudo que fazem”, disse.
Ele conta que a grande preocupação do projeto é justamente com a qualidade do atendimento. “Também temos a responsabilidade de atender a todos. Por isso, muitas vezes, o trabalho se alonga pela noite, para permitir que mais pessoas sejam examinadas. Também buscamos resolver todos os problemas dos pacientes, com exames e medicamentos”, afirmou. Dorinho tem outro desejo: que o projeto, que cresce a cada ano, possa servir de exemplo para outros interessados em realizar ações similares.
Alguns números
O relatório final aponta para 40.982 atendimentos dos Voluntários do Sertão em Santa Cruz Cabrália. Veja os principais.
Atendimentos 40.982
Consultas de enfermagem 15.818
Consultas de clínica médica especializada 5.971
Consultas oftalmológicas 4.694
Exames 2.852
Procedimentos odontológicos 16.303
Cirurgias 1.867 - 1.420 de cataratas
Óculos entregues 2.293
Ultrassom 806
Mamografias 314
Medicamentos dispensados 6.804