Igualdade intelectual
No Brasil, pessoas com deficiência devem lutar pela educação nas escolas regulares, como todos os cidadãos
Nos dias de hoje, muito se discute sobre o necessário respeito às diferenças, mas pouco se verifica, na prática, iniciativas que buscam derrubar preconceitos e promover a inclusão. Quando as pessoas com deficiência estão no centro da pauta, mais comum do que atitudes que aproximam são olhares carregados de pena, que surge pela falta de familiaridade com a situação de cidadãos que lidam com limitações físicas ou mentais.
Em sua obra, o físico inglês Stephen Hawking fez questão de salientar que “todo efeito inteligente tem em sua consequência também uma causa inteligente”. O cosmólogo e professor era portador de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença que não o impediu de se tornar um dos mais consagrados cientistas do século XX. Exemplo prático da própria teoria, Hawking comprova que as potencialidades de pessoas com deficiência são tão infinitas quanto as de qualquer outro cidadão. No entanto, as oportunidades, geralmente, não são equivalentes.
Na Escola Municipal Alfeu Luiz Gasparini, no Ipiranga, zona Norte de Ribeirão Preto, a iniciativa de uma turma do 6º ano, liderada pelo professor Lucas Dario Romero Y Galvão, tem mostrado que é possível mudar essa realidade. A chegada da pequena Isabela Fracaroli, de 11 anos, à instituição alterou a rotina da classe toda, guiada por um nobre motivo: a convivência e a troca de aprendizado com a colega surda. Desde o início de abril, a turma está aprendendo a se comunicar por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras). “Isabela é muito inteligente. Percebi que ela não falta e supus que fosse em razão da intérprete e das outras crianças surdas que ela tem para conversar na escola, já que os pais não sabem muito sobre a língua dos sinais. Perguntei para a intérprete, e ela concorda comigo”, afirma o professor de história.

Certo dia, Lucas entrou na sala de aula falando espanhol, idioma que aprendeu com o pai, que é argentino. “Ninguém, claro, entendeu o que eu estava dizendo. Foi dessa maneira que consegui fazer com que a sala toda compreendesse um pouquinho do que a Isabela sente ao não poder se comunicar com os amigos. Então, disse aos alunos que, a partir daquele dia, a intérprete iria ocupar uma parte das nossas aulas para ensinar Libras. Eu aprendo junto com os alunos e parte da nota vem dos trabalhos, das lições e das provas relacionadas ao tema”, conta Galvão.

A reação dos alunos foi a melhor possível. “Para minha surpresa, eles adoraram a ideia. Em uma brincadeira, eles já aprenderam sinais básicos para incluir a Isabela na conversa. Tudo está sendo feito, claro, com a autorização da direção da escola”, explica o professor.
Tradução
Kerima Garcia Santana é a responsável por traduzir o conteúdo das disciplinas às crianças surdas. “Quando o professor Lucas me chamou para conversar, achei a ideia dela muito interessante, pois alunos surdos passam por um processo bastante difícil. Com esse projeto, além de incluir a Isabela, ela não vai ficar tão dependente do intérprete e também poderá se comunicar com os amigos”, destaca a tradutora. Integrante da equipe da escola desde 2014, Kerima também é professora. “Estamos nos preparando para ensiná-los no contexto da língua, dentro de uma sala de aula. Vai ser algo natural, oferecido para todos, não será algo mecânico. Tenho certeza de que vai ser bem interessante”, acrescenta a professora.
Isabela afirma que ficou muito feliz com a ideia, pois poderá fazer novos amigos e conviver com mais liberdade com os colegas de sala. “Antes dessa ideia, nunca tive muitos amigos e me sentia triste por isso. Eu sonho em ser professora”, conta Isabela. A mãe da garota, Carmem Lucia Costa, também está contente com a iniciativa. “Fico feliz por alguém ter enxergado a Isabela e tê-la incluído nesse contexto. Em casa, consigo falar o básico em Libras, mas meu marido não domina os sinais. A nossa filha nos corrige e nos ensina o tempo todo”, acrescenta.
Sem estereótipos

Assim como Isabela, Thomas Robazzi, de 19 anos, passou a vida inteira lutando contra os estereótipos dentro da sala de aula. O jovem nasceu prematuro e teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) na primeira semana de vida, o que o deixou tetraplégico. Atualmente, cursa o terceiro semestre do curso de Letras em Ribeirão Preto. “Acompanho normalmente as aulas com outros estudantes, porém, conto com o auxílio de um computador para escrever”, explica Robazzi, que garante que ler e escrever são atividades que nunca pretende abandonar. “Estou escrevendo uma história há cerca de 4 anos. Trata-se de um romance em um reino fictício onde um cidadão se apaixona perdidamente pela princesa e vai ter que fazer de tudo para conquistar o seu amor. Estou bem animado com o projeto. A história é dedicada ao meu avô materno, meu maior herói, que me amou desde sempre”, exalta o rapaz.
Todo o trabalho é feito através de computadores. Atualmente, Robazzi é quase 100% independente. “Consigo tomar banho, trocar de roupa e ir ao banheiro sozinho. Tenho bastante autonomia em casa e sempre fui muito bem recebido nos lugares. Acho que tenho uma boa vida e até reconheço que, sem perceber, fiquei um pouco arrogante nos últimos anos. Tenho tentado melhorar”, garante o estudante de Letras.

Surpresa negativa
Gleice Priscila dos Santos, 24 anos, perdeu a visão aos 12 anos, como em um susto, que chega de repente. “Perdi a visão em uma sala de aula, quando estava na sexta série. A cegueira foi provocada por um deslocamento de retina e aconteceu sem aviso. Primeiro, comecei a enxergar umas ondas e quadrados e, de repente, a visão se apagou. Morava em uma cidade pequena e demorei para conseguir um encaminhamento médico para possível reversão”, relembra Gleice.

O choque daquela época foi grande para a menina e os familiares. O alívio só veio oito meses depois, em novembro, na Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região (Adevirp). “Em 2006, comecei a frequentar a Adevirp e, em dois meses, fui alfabetizada em braile — sistema de escrita tátil utilizado por pessoas cegas ou com baixa visão. Em 2007, voltei a cursar o ensino regular e tive que aprender o novo sistema de leitura rápido, para não perder muito tempo. Os amigos me ditavam as tarefas e eu escrevia em braile. Depois disso, o texto era transcrito e eu levava de volta para os professores”, explica a jovem.
O choque para a deficiente visual foi forte. “Eu me senti perdida, desorientada e pensei que os meus sonhos estavam perdidos. No entanto, quando cheguei à Adevirp, encontrei crianças mais novas do que eu e percebi que podia ter forças para lutar para superar minhas limitações e seguir minha jornada. O alfabeto em braille é muito diferente do padrão, por isso, foi muito difícil aprender. Entretanto, até hoje escrevo em tinta e faço de tudo para não perder a memória. Pretendo cursar Publicidade e Propaganda ou Jornalismo no futuro”, afirma Gleice.
Realização de um sonho

Luana da Silva Santos, 29 anos, conseguiu realizar o sonho de se formar em um curso universitário. Em 2017, graduou-se em Jornalismo pelo Centro Universitário Barão de Mauá. Apesar de formada, Luana tem atuado em outra área. Ela foi diagnosticada com paralisia cerebral e, atualmente, auxilia muitas pessoas com problemas semelhantes em uma clínica de fisioterapia.
“Durante a minha vida, sofri muitos preconceitos. Infelizmente, a sociedade ainda tem muita dificuldade de aceitar o diferente, mas nada que me impeça de ir em busca dos meus sonhos. O que me ajuda é que tenho o apoio da minha família e dos meus amigos, da vida e do trabalho, que sempre estiveram ao lado”, agradece Luana.

A paralisia atrapalha a jornalista em alguns aspectos, gerando insegurança. “Minha turma de faculdade sempre me ajudou, mas confesso que, no começo, fiquei com receio de como seria ou se as pessoas me aceitariam dentro da sala de aula. Agradeço pelo fato de ter conseguido passar por tudo isso e me formado”, salienta a jornalista. Atualmente, Luana procura aprimorar seus conhecimentos. “Quero começar um curso de radialista em setembro. Vou tentar ao máximo melhorar meu aprendizado e conseguir um trabalho na área”, continua a jornalista.
Visão social

Considerado um dos fundadores da Sociologia, Karl Emil Maximilian Weber dizia que o homem não teria alcançado o possível se, repetidas vezes, não tivesse tentado o impossível. Com base nessa teoria, o sociólogo Wlaumir Souza destaca que os desafios para superar a exclusão é cotidiano e ininterrupto. “É uma ação que requer resiliência diuturna para se impor e se fazer respeitar, quer nos direitos já consagrados pelo Estado ou naqueles demandados por grupos específicos. Organizar-se e construir uma agenda de trabalho é o melhor caminho para o sucesso da superação da exclusão”, explica Souza.
Para o especialista, graças à mobilização de deficientes e de seus familiares, assim como de campanhas de massa, atualmente, a visão sobre a pessoa com deficiência está mudando. “De um sujeito incapaz, dependente e isolado socialmente, são vistos, hoje, como seres humanos dotados de dignidade e que podem, com os meios adequados, fazer diversas funções e atividades — laborais, sociais ou políticas. Ao lado de mulheres, negros, gays e outras minorias, os deficientes têm superado os obstáculos históricos e se colocado cada vez mais como cidadãos com direitos e deveres, apesar dos recursos especiais que possam demandar”, garante o sociólogo.
De acordo com Souza, as minorias devem ser tratadas com solidariedade e empatia, tanto no espaço público quanto privado. “Mais que um direito do estudante com deficiência, a educação é um dever da do Estado e da instituição de ensino, que precisa estar adaptada às demandas específicas de cada aluno. Isso inclui também os colegas, que certamente possuem suas individualidades e precisam de atenção específica para o sucesso escolar. Incluir a pessoa com deficiência na escola comum é um dever para a socialização de todos os envolvidos e para a aprendizagem mútua de respeito, tolerância, inclusão e superação das necessidades especiais”, conclui Wlaumir.

Os “diferentes”
Desde o início dos tempos, o diferente não é visto com bons olhos ou tratado de forma positiva. Para a psicóloga Marlene de Cássia Trivellato Ferreira, atualmente, a inclusão está no discurso corrente e, por isso, muitas vezes é tratada como algo já constituído, mas a verdade é que sua teoria e sua prática são muito recentes, tanto na ciência quanto no cotidiano. “Viemos de um grupo de pessoas que, frente ao diferente ou ao inesperado, logo encontrava uma forma de se desfazer, jogando no precipício, queimando em fogueiras, internando em asilos ou inserindo em classes especiais. Ou seja, ao diferente era vetado o direito de pertencer ao convívio dos ditos ‘normais’. Assim, podemos dizer que crescemos e vivemos influenciados historicamente pelo princípio da exclusão. No nosso dia a dia, podemos verificar esta prática quando vamos ao supermercado comprar tomates, como referido por Lino de Macedo, ‘dificilmente escolhemos os tomates maduros, pois temos dificuldade em reconhecer as propriedades perfeitas do tomate maduro para a elaboração de um molho’. Costumeiramente nos atentamos às dificuldades, e não às potencialidades presentes nas diversidades humanas, o que nos permitiria identificar novas maneiras de ser”, explica Marlene.

O primeiro indício de um caminhar para o princípio da inclusão escolar está na Constituição Brasileira de 1988, que propõe a educação para todos, seguida da Declaração de Salamanca, de 1994, e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9.394/1996. “De tranquilo, o tema inclusão não tem nada! Diante da concepção da diversidade humana, social e cultural, é importante que um psicólogo possa fazer seu trabalho ou, melhor ainda, componha a equipe pedagógica da escola, estruturando junto aos gestores, professores, familiares e alunos ações que promovam a inclusão. Para tanto, é fundamental sua compreensão sobre o projeto pedagógico do local e o trabalho de escuta, compreendendo as angústias e os desafios da inclusão escolar, sob o ponto de vista de professores, familiares, alunos e gestores”, defende a psicóloga.
A especialista explica que, para incluir, é preciso ter disposição. “Não fazemos nada pelo que não acreditamos, não temos conhecimento ou não queremos. Por isso, precisamos rever nossas concepções perante viver as diversidades, verificar se acreditamos que podemos trabalhar com as potencialidades em vez de enfatizar “as dificuldades”, finaliza.
Referências bíblicas
No cristianismo, os deficientes eram, para Jesus, oportunidades para revelar o poder de Deus. A Bíblia afirma, em João 9:2-3: “Perguntaram-lhe os seus discípulos: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Jesus: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi para que nele se manifestem as obras de Deus.”
Texto: Pedro Gomes