Ilustrando a história
Através do sketchbook Beto Candia começou a retratar os pontos históricos de Ribeirão Preto
Viver da própria arte é o principal objetivo de Beto Candia, assim como de outros artistas plásticos. O paulistano, que escolheu Ribeirão Preto para viver, trabalha com arte desde os 15 anos de idade e, atualmente, percorre as ruas de Ribeirão Preto ilustrando a história da cidade por meio de desenhos de igrejas, casarões, praças e prédios antigos.
Com a prática do sketchbook — uma técnica que exige a observação urbana — Beto começou a examinar com mais cuidado os pontos históricos de Ribeirão Preto e a registrar esses momentos através dos seus desenhos. “Com a prática do sketchbook o artista adquire um olhar diferente do seu redor. Passamos a notar cores, tons, curvas, arcos, linhas paralelas e horizontais, além de situações que antes estavam escondidas. A partir dessa visão, defini que queria ilustrar e mostrar aos cidadãos de Ribeirão Preto a história, os casarões e os pontos turísticos da cidade. Pretendo desenvolver esse projeto no Usk Brasil”, comenta Candia, referindo-se à parte brasileira dos “Urban Skerchers”, grupo de artistas do mundo inteiro que se dispõe a registrar, através de desenhos, os locais onde vivem.
Definido o projeto, o artista plástico dedicou-se integralmente a retratar a história do patrimônio cultural do município com aquarela e papel. “Através dos resultados, percebi que a proposta era mesmo muito interessante e passei a me dedicar a essa atividade com mais profundidade, relacionando locais para compor uma visão completa — não total —, mas que reunisse os locais mais importantes da cidade. Faço várias visitas ao mesmo lugar para ter diversas impressões desse ponto dentro do contexto urbano”, explica Candia.
Com aquarela, marcadores e canetas em mãos, o artista registrou sua primeira obra, a Catedral Metropolitana de São Sebastião. Segundo ele, o local foi escolhido por possuir ricos detalhes arquitetônicos e, por isso, representar um grande desafio. “Além da praça ser linda e bem arborizada, internamente a Catedral é muito bonita, com telas e afrescos de Benedicto Calixto de Jesus. Reproduzir a arquitetura e a nave do lugar foi realmente um desafio”, analisa.
Para Beto, é importante divulgar para a população ribeirãopretana e para as autoridades o valor dos patrimônios históricos da cidade, assim como a necessidade de conservação. Assim que os desenhos estiverem finalizados, a intenção é reuni-los em uma exposição para comemorar o aniversário da cidade. “Pretendo divulgar para a população a importância e a beleza de nossa história, isso precisa ser valorizado e respeitado. Pode ser que as obras também virem um livro e sejam vendidas. Mas vamos deixar as coisas acontecerem naturalmente. Quem sabe dá certo”, revela o artista.
A Maria Fumaça US Amália, o Coreto da Praça Aureliano de Gusmão, a Escola Municipal Fabio Barreto, a Biblioteca Altino Arantes e o MARP estão entre as obras retratadas. “O Quarteirão Paulista está em processo de desenvolvimento, mas faltam Palácio Rio Branco, Casarão da Caramuru, Museu do Café, Bosque Municipal e muitos outros”, diz o artista entusiasmado.
Traços da infância
Desde pequeno, Beto Candia demonstrava afinidade pelo universo artístico e não demorou muito para descobrir sua verdadeira vocação. “Sempre gostei de tudo relacionado à arte, como histórias em quadrinhos, animações, pinturas, arte urbana ou simples logomarcas sempre me chamaram a atenção. Desde a infância, produzia meus pequenos desenhos. No começo da minha adolescência vi que faria isso para o resto da minha vida”, lembra.
Aos 15 anos, Beto vendeu seu primeiro desenho e, a partir desse momento, nunca mais desempenhou outra atividade. Elaborou projetos para “silkscreen”, grafitou muros — como o viaduto Dona Paulina e a Praça Roosevelt, em São Paulo —, participou de workshop com Maurício Villaça, precursor do grafite no Brasil juntamente com Alex Vallauri, e também com Eduardo Castro, grafiteiro de Londrina, no Paraná.
Em meados de 1992, Beto retornou a Ribeirão Preto trazendo a experiência de trabalhos anteriores, realizou uma exposição individual no Theatro Pedro II através do Projeto Concertando, participou de eventos e ilustrou diversos livros didáticos e infantis. “Depois de um longo percurso comecei a praticar um pouco de animação. Com o nascimento do mercado digital e o início da internet, fui abandonando gradativamente as pinturas para me dedicar mais à arte digital”, revela.
Após alguns anos longe dos pincéis, Beto Candia foi convidado a participar do blog Brazil Urban Sketchers, espaço virtual em que desenhistas convidados retratam o cotidiano das cidades onde moram. Este foi um dos motivos que o levaram de volta à aquarela.
Entre desenhos e viagens Beto buscou o aprimoramento da sua arte, estudou com artistas renomados, como Lenord Robinson, Serge Michaels, Alan Huck, Jason Yu, Glenn Vilppu, Martinho Isidoro Correa, Jay Blum e Casey Baugh, respectivamente em Los Angeles e Sarasota, nos Estados Unidos, Florença, na Itália, e Phoeniz, também nos Estados Unidos. No Brasil frequentou a Quanta Academia de Artes, a HGN Animações e a Art Academia por vários anos. Além disso, o artista teve a oportunidade de estudar aquarela com Gonzalo Cárcamo, segundo Beto, um dos melhores profissionais do mundo.
Para Beto Candia, a arte depende de como cada um analisa as cores e formas e, para realizar um bom trabalho, o profissional deve amar o que faz e não medir esforços para se superar. “Cada artista tem sua essência, sua forma de retratar o mundo e é isso que todos devem buscar. Acho que dom ou talento são outras formas de dizer que você ama determinada atividade, pois, a partir desse momento, não irá medir esforços para se superar, aprender, evoluir e conseguir ultrapassar todos os obstáculos que irão aparecer na sua trajetória. A evolução como artista é uma conquista lenta. Para mim, ser artista depende de 10% de inspiração e 90% de transpiração”, conclui.
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Texto: Pâmela Silva
Fotos: Julio Sian e Beto Candia