Impacto profundo
Foto: Tânia Rego/ Agência Brasil

Impacto profundo

Ribeirãopretanos sentiram os efeitos da greve dos caminhoneiros, que comprometeu o abastecimento de combustíveis em todo o país; na região, estimativa do comércio é de perda de R$ 107 milhões por dia

São dois novos veículos a cada hora, em um total de mais de 530 mil automóveis que circulam pelas ruas da cidade. Ribeirão Preto ostenta o equivalente a quase 1,2 habitante por carro, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran.SP) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tanta potência, aparentemente implacável, viu-se travada nos quatro eixos durante a greve dos caminhoneiros, que bloqueou estradas e a distribuição de combustíveis em todo o Brasil, desde o dia 21 de maio. Faculdades cancelaram as aulas, ônibus deixaram de circular, supermercados racionaram os produtos disponíveis, obras públicas foram suspensas e a coleta de lixo mudou o cronograma. O ritmo da cidade de quase 700 mil habitantes foi reduzido.

O porquê

A paralisação dos caminhoneiros teve início após sucessivos reajustes no preço dos combustíveis. A principal reivindicação foi a queda no preço do óleo diesel. A classe pedia o fim da cobrança do PIS/Cofins e da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre o combustível. Outras solicitações, no entanto, também fizeram parte da pauta: a isenção do pagamento de pedágio dos eixos suspensos (quando o caminhão está vazio), a política de preços mínimos para o frete e a elaboração de um marco regulatório para os caminhoneiros.

Embora tenham sido necessários sete dias de paralisação para que o presidente Michel Temer (MDB) atendesse às reivindicações dos trabalhadores, o Governo Federal havia sido avisado da possibilidade de greve da classe. Em 16 de maio, a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) encaminhou um ofício à presidência solicitando que o valor do diesel fosse congelado. Dois dias depois, sem resposta, a CNTA encaminhou outro documento ao governo informando sobre a paralisação na segunda-feira, como ocorreu.

No domingo, sétimo dia de greve, Temer se pronunciou afirmando que reduziria em R$ 0,46 o preço do diesel e congelaria o valor por 60 dias. Também anunciou a publicação de três Medidas Provisórias (MP) que atenderam a categoria.

A MP 832 institui a chamada Política de Preços Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas, que estabelece o preço mínimo para o frete. A MP 833 determina que veículos de transporte de cargas que circularem vazios sejam isentos da cobrança de pedágio sobre o eixo suspenso. Já a MP 831 define que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) contratará transporte rodoviário de cargas, com dispensa do procedimento licitatório, para até 30% da demanda anual de frete da empresa.

Mesmo após o anúncio de todas as decisões, no entanto, a paralisação continuou nos quatro cantos do país. Segundo o presidente da Associação Brasileira do Caminhoneiros (Abcam), José da Fonseca Lopes, os trabalhadores queriam voltar ao trabalho, no entanto, um grupo de pessoas interessadas em “derrubar o governo” teria se infiltrado no movimento, impedindo que os caminhoneiros retomassem as atividades. 

Motoristas de Ribeirão Preto fizeram fila para abastecer o carro

Efeito na economia

A greve estendeu-se por oito dias no bloqueio às distribuidoras de etanol, gasolina e diesel — até o fechamento desta edição, no entanto, as estradas seguiam bloqueadas para o transporte de mercadorias. A liberação para reabastecimento dos postos de combustíveis, que ficaram com os estoques zerados, foi permitida em Ribeirão Preto, oficialmente, na última terça-feira, 29 de maio, após liminar expedida pelo juiz Benedito Sergio de Oliveira, da 2ª Vara Cível. De acordo com a estimativa da Associação Brasileira do Comercio Varejista de Combustíveis Automotivos e de Lubrificantes (Brascombustíveis), durante esse período de greve, os postos do município acumularam prejuízo de mais de R$ 30 milhões, uma vez que são 170 estabelecimentos que movimentam, em média, 8 mil litros de combustíveis diariamente.

Sem diesel para abastecer máquinas e equipamentos durante a greve, todas as 150 usinas e fornecedores de cana-de-açúcar do Estado de São Paulo paralisaram as atividades na segunda-feira, dia 28, e na terça. Segundo comunicado da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), são processadas, diariamente, 2 milhões de toneladas de cana, produzindo 150 mil toneladas de açúcar e 100 milhões de litros de etanol a cada 24 horas. A estimativa é de redução de R$ 180 milhões no faturamento dessas empresas, a cada dia em que não puderam abrir as portas.

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio) calcula em R$ 107 milhões diários o prejuízo à região de Ribeirão Preto (e mais 70 municípios que compõem a área de abrangência pela associação) em função da greve. De acordo com os dados calculados pela Federação, a perda em todo o Estado, no setor de bens não duráveis, chegou a R$ 1,8 bilhão por dia.

Paulo Cesar Garcia Lopes avalia o impacto na economia da regiãoSegundo Paulo Cesar Garcia Lopes, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto e Região (Sincovarp), entidade filiada à Fecomercio, o cálculo é feito com base nos faturamentos dos setores de alimentos, remédios e combustíveis. Para o dirigente, o início do movimento não indicava a força e a potência da manifestação. “Parecia que seria um ato apenas de caminhoneiros. Não se imaginou a dimensão e acho que até o Governo Federal subestimou a greve”, afirmou. Ainda de acordo com Lopes, o que o Brasil tem vivenciado é consequência de uma política equivocada de reajuste de combustíveis. “Efetuaram um número absurdo de aumentos em curto es paço de tempo. Gerou indignação na população em geral, que, no primeiro momento, apoiou integralmente. Com o passar dos dias, no entanto, pode ficar mais difícil conviver com as limitações impostas pelo ato”, disse.

Na receita da administração municipal, ainda não é possível precisar o tamanho do impacto, mas, segundo a Prefeitura de Ribeirão Preto, já dá para garantir que haverá perda na arrecadação. “A redução ocorrerá por diminuição nos repasses federais, devido à isenção total de PIS/Cofins e Cide. Há reflexos em tributos municipais, porque houve redução na prestação de serviços no período. A paralisação levou também à redução de vendas, o que refletirá na arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), principal repasse estadual recebido pelo município. Reflexos poderão ser sentidos também pela redução de receitas dos pedágios da região — Sertãozinho e Sales Oliveira — com diminuição do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN)”, explicou, em nota. “Sem dúvida alguma vai ser prejudicial para a arrecadação de impostos, mas só vamos poder quantificar isso depois”, afirmou o prefeito Duarte Nogueira (PSDB).

Mudanças de rota

Nogueira acredita que arrecadação da cidade sofrerá com a greveNo nono dia de paralisação, apenas metade dos alunos da rede municipal compareceram às escolas de Ribeirão Preto. De 24,7 mil estudantes dos ensinos infantil e fundamental, apenas 13,1 mil estiveram nas salas de aula na última terça-feira, 29 de maio.

Em função da falta de combustível, o transporte público da cidade foi alterado, com veículos funcionando normalmente apenas nos horários de pico e respeitando, fora deles, o cronograma de domingo. 

A coleta de lixo também precisou sofrer alterações de rota e o processo seletivo para contratação de funcionários no Hospital Santa Lydia, marcado para 27 de maio, precisou ser adiado, assim como o concurso público do Tribunal Regional do Trabalho, que também seria realizado na mesma data. 

As faculdades de Ribeirão Preto também mexeram no calendário frente à paralisação dos caminhoneiros. A Universidade de São Paulo (USP) suspendeu as atividades dos cursos de graduação por três dias e a Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), por pelo menos dois. O Centro Universitário Moura Lacerda também cancelou as atividades acadêmicas por três dias. A Estácio suspendeu as aulas, pelo menos, no dia 29 de maio e o Centro Universitário Barão de Mauá optou por não alterar a grade, embora tenha remarcado as avaliações e não tenha computado as faltas dos estudantes que não puderam comparecer.

Alguns supermercados da cidade optaram por racionar os produtos das prateleiras e limitar a quantidade disponível a cada consumidor, com o objetivo de garantir o fornecimento de mercadorias aos clientes. 

Luta pacífica
Jean Aparício: “movimento não é favorável à intervenção militar”
O caminhoneiro Jean Aparício, um dos trabalhadores que se posicionou durante o movimento, afirmou que a paralisação não foi violenta, mas se manteve firme na luta por melhorias de condições.  “Desde o início da greve, nós nos manifestamos pacificamente. Estou morrendo de saudade de trabalhar, mas é preciso lutar por nossos direitos. Faz tempo que nós pedimos pelas mudanças em favor dos caminhoneiros”, disse.

Sobre o viés político que a manifestação ganhou ao longo dos dias, Aparício esclareceu. “É importante deixar claro que o movimento não é favorável à intervenção militar. O nosso pedido é simples: queremos o óleo diesel com o preço menor e a isenção da cobrança dos eixos suspensos em pedágios de todas as rodovias federais, estaduais e municipais”, garantiu.

Durante a paralisação que alterou a rotina dos brasileiros, muitos dividiram opiniões sobre a manifestação dos trabalhadores. Entre as divergências, no entanto, uma conclusão é certa: mesmo com tantos bloqueios nas estradas, as conquistas dos caminhoneiros, aparentemente, conseguiram chegar ao destino final. 

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