Imunidade em alta
Em tempos de pandemia, entenda melhor como funciona o complexo sistema de defesa do organismo
Nunca se falou tanto sobre a importância da imunidade como agora, durante a pandemia da Covid-19. Essa capacidade do organismo — de reconhecer e eliminar possíveis ameaças — pode ser dividida em dois grandes grupos: a imunidade inata e a adquirida. Assim como o nome sugere, todos nascem com a inata, uma proteção rápida, representada por barreiras físicas/mecânicas (como pele, cílios, fluídos corporais, tosses, espirros e mucosas, que representam os revestimentos internos dos órgãos), e por barreiras químicas e biológicas (como acidez estomacal e presença de bactérias intestinais). Ainda assim, uma substância estranha pode ser identificada por células que fazem parte da imunidade inata e, como consequência, o organismo aciona um mecanismo muito importante, que é a resposta inflamatória.
A inflamação é um processo determinante para auxiliar na eliminação de agentes infecciosos ou substâncias estranhas ao organismo. Porém, como tudo em excesso, pode causar prejuízo, como a Covid-19 tem mostrado. Quando a imunidade inata não é suficiente, entra em ação a imunidade adquirida (ou adaptativa), um tipo de proteção específica que se desenvolve durante a vida de uma pessoa, enquanto ela entra em contato com agentes invasores.
Embora o termo seja amplamente associado apenas à defesa contra infecções, o sistema imunológico também está envolvido em uma série de distúrbios e de doenças que não são causadas por agentes infecciosos, conforme explica a docente do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), Vânia Luiza Deperon Bonato. “Alguns exemplos são as doenças autoimunes, como diabetes, artrite, doença celíaca e colite; respostas de rejeição a tecidos ou órgãos transplantados; terapias que objetivam melhorar a destruição de tumores e manifestações alérgicas, como asma, rinites e dermatites”, pontua.
Fatores que influenciam
Ainda segundo a especialista, a boa resposta do sistema imunológico envolve fatores genéticos e ambientais/externos, incluindo idade, doenças prévias, estresse e tabagismo, entre outros. “Novamente, a Covid-19 está aí para ilustrar que questões como a progressão da idade e a existência de doenças prévias influenciam no desenvolvimento ou progressão de outras doenças, por afetarem a capacidade de ação do sistema imunológico. O sistema imunológico dos indivíduos, com o passar da idade, responde de forma menos eficiente contra infecções. Além disso, o sistema imunológico dos mais velhos exibe aumento nas respostas inflamatórias quando comparados aos adultos mais jovens. Daí o fato de que, com o passar dos anos, juntando a menor capacidade em responder e o aumento da inflamação, as pessoas ficam com maior predisposição ao desenvolvimento de câncer e de doenças autoimunes, ou respondem com menor eficiência aos esquemas de vacinação/imunização”, ressalta Vânia. Um dos sinais de que o sistema imunológico não está funcionando tão bem quanto deveria é a recorrência de infecções, como gripe, herpes e candidíase.
O que pode ajudar?
Graças ao intenso avanço da ciência, a cada dia que passa, os especialistas entendem melhor essa complexa dinâmica da imunidade. “Sabemos, por exemplo, que a obesidade induz um estado de inflamação de baixo grau e contínuo no nosso organismo, além de afetar nossa microbiota, que são as bactérias e outros microrganismos que residem no nosso intestino e pulmões. A inflamação de baixo grau e a alteração na microbiota funcionam como um desequilíbrio que pode interferir em diferentes sistemas do nosso organismo, como o nervoso, o respiratório e o cardiovascular. Hoje, sabemos também que o ritmo circadiano, que é o período de 24 horas do nosso ciclo biológico que sofre influência da luz, por exemplo, pode regular várias funções do nosso sistema imunológico”, ilustra.
Vânia compartilha outras informações importantes sobre o tema: a vitamina D, obtida pela curta exposição ao sol, pode fortalecer a imunidade. Uma alimentação rica em sal ou gordura pode interferir negativamente. Já a desnutrição corresponde a uma das maiores causas de imunodeficiência adquirida ou secundária, ou seja, quando o sistema imunológico falha em cumprir sua função. “Isso significa que precisamos adotar uma receita dos sábios e dos médicos, prescrita há tempos. Nos dias de hoje, entendemos cada vez mais porque devemos segui-la”, acrescenta. A receita é cuidar da saúde e ter uma vida equilibrada, com sono reparador, alimentação balanceada, prática regular de exercícios físicos aeróbicos e musculação, visitas médicas para realização de exames periódicos e preventivos, e demais medidas profiláticas por meio das vacinações. “O nosso bem-estar também não pode ser esquecido. Invista na convivência familiar e/ou com amigos, cultive a alegria sempre que possível e tente minimizar o estresse”, conclui.