Incentivo à interatividade

Incentivo à interatividade

Por meio do projeto colhendo memórias, museu da cana preserva o patrimônio no engenho central e difunde a história do trabalhador rural, evidenciando sua importância na cadeia do setor sucroenergético

Teatro, música, roda de cantoria e confecção de estandartes são algumas das atividades que integram o roteiro do Projeto Colhendo Memórias: Museu e Escola, que acontece no Museu da Cana, em Pontal. Realizada em parceria entre Comunica Relações Públicas e Museu da Cana, por meio do Programa de Incentivo à Cultura do Estado de São Paulo (ProAC) e do repasse de parte do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), com patrocínio da Biosev, a iniciativa também tem apoio institucional da Prefeitura de Pontal. O projeto objetiva preservar o patrimônio imaterial do Engenho Central e difundir a história do trabalhador rural, destacando seu protagonismo na cadeia do setor sucroenergético.

Por meio de ação educativa junto aos alunos do 4º ano do Ensino Fundamental de escolas públicas de Pontal, o Museu propõe uma nova abordagem dos acervos e dos conteúdos que disponibiliza. O Colhendo Memórias tem como tema central o resgate do trabalhador da colheita da cana-de-açúcar, apresentando sua evolução durante a visita temática. De agosto a novembro de 2018, todas as quartas-feiras, nos períodos da manhã e da tarde, as crianças conheceram mais sobre o trabalhador rural do setor sucroenergético e tiveram contato direto com o universo caipira por meio de atividades culturais. Tudo elaborado de forma lúdica, para que os estudantes compreenderam a importância da cana-de-açúcar para a economia da região e do país.
A partir de 2019, Maria do Carmo estima que o projeto possa trazer estudantes de outras cidades
Para 2019, a proposta é dar continuidade ao trabalho também em novas versões, além de ampliá-lo para escolas de cidades vizinhas. Serão 600 crianças das unidades de ensino de Pontal e 600 de Sertãozinho. A previsão é de que as atividades retornem no segundo semestre, com a presença de uma especialista em museologia social. “Vamos oferecer como material pedagógico a trilha musical criada para o teatro, um CD com 12 músicas que poderá ser utilizado em sala de aula. Além disso, será liberada a playlist nos aplicativos de música como forma de democratização do acesso aos produtos culturais do projeto, cumprindo, assim, o compromisso com o investimento dos recursos públicos de forma ética, transparente e democrática”, observa a produtora executiva do projeto, Maria do Carmo Silva Esteves, que também é consultora na área de comunicação da Instituição.

Tradicionalmente, o trabalho começa ainda na sala de aula, com material didático desenvolvido exclusivamente para esse fim. A história do cultivo da cana é contada antes mesmo de seu início, quando as lavouras ainda eram dominadas pelo café, passando pelo boia-fria ao novo perfil do trabalhador rural. Nas aulas, as crianças conhecem mais sobre as celebrações do local, como a Festa de São Gonçalo e da Companhia dos Santos Reis, que se mantêm vivas, até hoje, no entorno do Engenho Central. No dia da visitação, as crianças são recepcionadas com um cortejo e, em todos os momentos, têm contato com a cultura caipira, como no café, em que podem provar delícias da culinária, como o bolo de fubá e a rapadura. Tudo elaborado com muita linguagem artística, especialmente as artes cênicas e a música. 
Segundo Leila, o Colhendo Memórias é mais um instrumento no processo de educação patrimonial
Essa extensa agenda envolve os alunos por quase três horas. Ao lado da gestora do Museu, Leila Heck, Maria do Carmo criou o Colhendo Memórias em 2017 para integrar e fortalecer a relação do Museu da Cana com as escolas das comunidades do entorno. Além da visita do público escolar, o projeto, em sua versão 2018, foi aberto para a comunidade com uma apresentação na Primavera de Museus e outras duas vezes durante a Semana da Criança.

A iniciativa, segundo Maria do Carmo, também pretende subsidiar os professores com recursos pedagógicos que dão suporte ao aprendizado baseados nos temas transversais relacionados aos Parâmetros Curriculares Nacionais, como diversidade cultural e questões do patrimônio material e imaterial. Todo o conteúdo é elaborado por uma equipe multidisciplinar de educadores, com ação direcionada à educação patrimonial. Além disso, na visita, os alunos são recebidos por quatro arte-educadores, dois atores e dois músicos capacitados e alinhados aos objetivos educativos.
André revela que as músicas despertam a memória afetiva dos visitantes desde a chegada até o final da visita
O trabalho consiste em uma ação de preservação do patrimônio cultural imaterial acolhido no Engenho Central, localidade que aglutina uma série de manifestações de cultura popular que aconteciam e ocorrem na região. A idealizadora explica que a colheita atribui ao trabalhador rural a prerrogativa de protagonista, que, por sua vez, é quem realiza, por meio da força de seu trabalho, o cultivo da lavoura canavieira, inicialmente, com a grande participação laboral de homens e mulheres que dedicaram suas vidas à colheita da cana. “Agora, sem a participação direta desses trabalhadores, há o apoio da tecnologia. Apesar disso, eles ainda estão presentes impregnando seu ambiente social, dando origem à formação de um saber cultural vivo, que precisa ser preservado”, reforça Maria.

Engenho Central

A proposta do projeto é contar a história do Engenho Central pela ótica contextual dos antigos moradores da primeira colônia construída na Fazenda, que servia de moradia para os trabalhadores. O lugarejo foi derrubado por volta de 1974 para a construção de uma nova área de moradia, a colônia, ocupada até os dias atuais por quem a viu surgir, como Nair Bianchini Gonçalves e Vandair Rosa de Oliveira. Devido à riqueza histórica desta população, foi preciso definir um recorte para dar início à construção de conhecimentos relativos aos desdobramentos do tema. Assim, após o convívio com representantes locais, o escopo temático do trabalho foi definido: relatar a vida cotidiana da antiga colônia por meio de suas manifestações de cultura popular, tais como folguedos, festas e brincadeiras, sendo algumas das atividades realizadas até os dias atuais pelos próprios moradores da colônia. Para Maria do Carmo, este formato é extremamente representativo para essas pessoas, que reconhecem nas manifestações o patrimônio afetivo imaterial a ser difundido para a contemporaneidade.
Durante a visita os pequenos descobrem detalhes sobre o processo produtivo da cana
A primeira versão do projeto contou com a contribuição da historiadora Tania Registro, que organizou o conhecimento relativo à proposta do trabalho, dando embasamento científico aos produtos culturais, trazendo como referencial teórico a pesquisa de Antonio Candido sobre a cultura caipira, apresentada no livro “Os Parceiros do Rio Bonito”, que, apesar de ter sido desenvolvida na região de Botucatu em meados do século passado, está relacionada ao desenvolvimento das comunidades rurais do nordeste paulista na atualidade. O texto serviu como argumento para a produção do vídeo intitulado “A Cultura nas Terras da Cana”, relatando a história de épocas passadas e ainda hoje encontrada no entorno do Engenho Central, peça que ancora o Colhendo Memórias.

O trabalho envolve três equipes criativas, além de pessoal de suporte, totalizando aproximadamente 50 pessoas. Como legado para o Museu e para a história da região, Maria do Carmo destaca os conteúdos produzidos pelo projeto, especialmente o vídeo que está disponível no site www.colhendomemorias.com.br. “Considerando que os museus devem ser fortes agentes de transformação social, entendemos que o resgate, a valorização e a difusão da história do trabalhador rural da região estabelecem um legado imensurável para nossa sociedade”, reconhece a produtora.
Nair e Vandair fazem questão de acompanhar quase todas as visitas
Desenvolvimento da educação

Para Leila Heck, gestora do Museu da Cana, os museus são, por excelência, instituições a serviço da sociedade, comprometidas com ações que promovam conhecimento, valores e princípios éticos. A dirigente reconhece que o desenvolvimento de ações educativas nos museus surge como vital ferramenta, capaz de ir muito além do simples chamamento de público, mas construindo conhecimento, entretenimento e encantamento, que possibilitem reconhecer e mudar atitudes, bem como modificar o modo de ver o mundo, os objetos, as pessoas e as relações. “Os museus podem e devem ser dinâmicos interlocutores nesse processo”, enfatiza a gestora do lugar. 

Em cinco anos de funcionamento, o Museu da Cana se destaca por oferecer uma programação que contempla educação, cultura e lazer para a população da região, de forma gratuita, cumprindo seu papel social de democratização da cultura. Além das atividades monitoradas durante a semana, são realizados eventos, como a Festa Junina que, por mais de 60 anos, tem sido costume no Engenho Central; o Festival da Primavera, em setembro, com apresentações e atividades voltadas para o folclore regional, como o Maracatu, Folia de Reis, violeiros, Samba de Coco; e o “Quintal do Museu”, que, aos domingos, oferece atividades para crianças, com desenho, pintura, oficinas e brincadeiras.

A “Quinta Ambiental”, às quintas-feiras, é uma ação dirigida para grupos de crianças do Ensino Fundamental e adolescentes do Ensino Médio. “O Colhendo Memórias, sem dúvida, veio para intensificar as ações de cultura, arte e educação. Nesse contexto, os professores têm realizado um papel importante na fruição e no aproveitamento dos temas abordados”, explica Leila. Esse envolvimento, segundo ela, começou com um convite para assistir à pré-estreia. Nesse dia, os docentes receberam kit pedagógico e treinamento para que preparassem os alunos para a visita. O trabalho se tornou uma experiência incrível, pois favorece o processo de ensino e aprendizagem de maneira dinâmica e ampliada.

A gestora reforça, ainda, que a educação museal colabora para o processo de preservação da memória, reforçando a construção da identidade de um povo, de uma cidade e de um país. Segundo Leila, esse projeto é mais um instrumento no processo de educação patrimonial, que colabora com o despertar de uma consciência crítica e de responsabilidade com a preservação do patrimônio em toda a sua expressão, graças à percepção da relação entre esse patrimônio com a identidade pessoal e cultural. 

Grande parte do público do Museu da Cana é formada por trabalhadores da região, funcionários de usinas, cortadores de cana e familiares, mas poucos reconhecem suas origens caipiras. São todos herdeiros de uma cultura que se desenvolveu a partir do entrelaçamento étnico: índios, africanos e europeus. Os caipiras foram responsáveis por desbravar e povoar os sertões, formando a atual sociedade paulista. “Compreender a cultura caipira é entender a genealogia dessa sociedade. Preservar essa cultura é assumir nossa história, nossos costumes, nossas crenças e nossas tradições. Acreditamos que professores, alunos e familiares se sentirão atraídos a conhecer o Museu, encontrando aqui não só um ambiente de formação de conhecimento, mas, também, de lazer e de diversão”, argumenta Leila.

VOLTA AO PASSADO

Fabiana Aparecida Teixeira e Tatiane Faquim, professoras da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental (EMEIF) Mario Pedro, acompanharam mais um grupo de 31 crianças ao Museu. Ambas reconhecem a importância da iniciativa, que começa e termina em sala de aula, com uma programação recheada de história e cultura. “É um trabalho que permite que eles expressem de forma simples tudo o que vivenciaram e como foram impactados pelo projeto”, avaliam as professoras.

APRESENTAÇÃO ESPECIAL

Em comemoração ao Dia das Crianças, no dia 10 de outubro de 2018, o Colhendo Memórias realizou uma apresentação especial para os filhos dos colaboradores da Biosev, empresa parceira do projeto. As crianças foram recepcionadas com um animado cortejo e, em seguida, assistiram a uma peça de teatro divertida e cheia de histórias baseadas naquelas vividas pelos antigos moradores do Engenho Central, entre outras atividades. A visita terminou com a produção de estandartes, brincadeiras e uma roda de cantoria. Aproximadamente 40 crianças e acompanhantes das cidades de Barrinha, Sertãozinho, Pitangueiras e Viradouro participaram do passeio.

Maria Paula Ferreira Curto
, diretora de Recursos Humanos, Comunicação e Responsabilidade Social da Biosev, destaca que o Colhendo Memórias tem papel fundamental no resgate e preservação da cultura do setor sucroenergético. “O projeto celebra a história das pessoas que nos trouxeram até aqui e ensina as novas gerações. Convidamos os filhos dos nossos colaboradores nessa data especial para que eles pudessem se sentir mais próximos da profissão dos seus pais e compreendessem a importância da cana-de-açúcar para a história do país”, comenta a gestora.

ATENÇÃO REDOBRADA

Izadora Avanzi Balbino tinha menos de quatro anos quando esteve no Museu pela primeira vez com a família, mas disse que, desta vez, a visita foi diferente. A apresentação teatral foi o que mais chamou sua atenção, em especial, pelo resgate histórico da vida simples que os moradores daquela época levavam. “Vou convidar meus pais para voltarem ao Museu”, afirma a aluna.

BONS MOMENTOS

João Otávio dos Santos Costa relembrou os bons momentos vivenciados com a família em outra visita ao Museu, quando tinha por volta de cinco anos. “Eu gosto de todo o projeto, acho muito divertido e quero poder voltar outras vezes”, aponta João.

Texto: Rose Rubini | Fotos: Julio Sian

Compartilhar: