Índice otimista
A pesquisa aborda temas como: situação econômica nacional; condição financeira passada e futura; decisões de consumo, entre outros assuntos
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), fundação pública vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, divulgou no último dia 6 de julho a décima primeira edição do Índice de Expectativas das Famílias (IEF), com resultados relativos ao mês de junho. O índice é realizado em 3.810 domicílios, em mais de 200 municípios, abrangendo todas as unidades da federação e aponta para uma recuperação das perspectivas otimistas em relação à situação socioeconômica do país os próximos 12 meses e para os cinco anos seguintes.
A pesquisa aborda temas como: situação econômica nacional; condição financeira passada e futura; decisões de consumo; endividamento e condições de quitação de dívidas e contas atrasadas; mercado de trabalho, especialmente nos quesitos segurança na ocupação e sentimento futuro de melhora profissional.
Segundo o economista do Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto (Sincorvarp), Marcelo Bosi, apesar de refletir a percepção do indivíduo quanto a economia, O IEF não é necessariamente um indicador econômico, no sentido de medir a atividade econômica, principalmente porque os ânimos das pessoas podem ser abalados a qualquer momento por algum acontecimento novo.
“Apesar disso, os números mostram que, mesmo com uma série de notícias negativas no que se refere à economia mundial, o brasileiro se mantém otimista. Isso se deve principalmente à percepção de maior poder aquisitivo, causada pela facilidade acesso ao crédito por uma maior parcela da população brasileira, e que no cenário econômico de RP não é diferente, porém, não se reverte necessariamente em aumento do volume de vendas”, afirma o economista.
Ribeirão Preto possui um índice parecido, trata-se do Índice de Expectativas dos Consumidores, que na atual conjuntura econômica também aponta para uma elevação das expectativas, por parte dos consumidores, em termos da situação do emprego e em termos de quantidade de vagas.
“O índice ratifica os indicadores positivos de geração de empregos e de crescimento da massa salarial. Com relação às expectativas futuras, no prazo de seis meses, as pessoas reduziram suas perspectivas em relação a situação do emprego, mas também aumentaram suas expectativas em relação ao número de vagas que serão geradas na economia e consideraram melhora na situação familiar”, destaca Fred Guimarães, economista do Núcleo de Economia da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP).
Na visão dos especialistas, em Ribeirão Preto a demanda continua aquecida e o consumo segue uma trajetória de elevação, impulsionado pela reduzida taxa de desemprego e pelo maior nível de renda das famílias. Este ano, apenas em maio as vendas do comércio ficaram abaixo das do ano passado e, mesmo assim, a queda foi pequena, -1,24%, número que reflete muito mais a dificuldade em superar as vendas de maio de 2010 (foi o 3º melhor resultado do ano) do que propriamente uma desaceleração das vendas em 2011.
Há quatro meses o IEF vinha registrando queda do otimismo da população, o que na opinião do economista do Sincovarp contribuiu para a redução no ritmo de crescimento, mas as políticas de contenção do crédito e de aumento das taxas de juros não foram suficientes para mudar o rumo da escalada do consumo, avalia o economista da ACIRP, principalmente, em função do aumento de mais de 17 mil vagas na economia ribeirão-pretana e do aumento da massa salarial em patamares superiores ao nível da inflação, que sugere ganho real para o total dos trabalhadores empregados.
“Já em relação à trajetória das expectativas futuras dos consumidores, as mesmas se posicionaram em patamares mais moderados, o que sinaliza para mudanças, especificamente a partir do 3º trimestre desse ano, onde a atividade econômica pode ser atingida com maior força, o que traria impacto para a contração do consumo, dos negócios (crédito e financiamentos), da geração de emprego e dos níveis de vendas das empresas”, afirma Fred Guimarães.
Avaliação geral
O Índice de Expectativas das Famílias apurou que 74% das famílias possuem uma situação financeira familiar, hoje, mais favorável que há um ano. Além disso, 57% das famílias acreditam que a condição econômica brasileira vai melhorar nos próximos 12 meses.
Para o economista do Sincovarp, a situação econômica brasileira está num caminho ascendente, porém, o ritmo não poderá ser o mesmo do ano passado, pois o país sofre com sérios gargalos estruturais. “Muitos novos postos de trabalho estão sendo abertos e a grande massa da população tem crescente acesso a crédito, mas ainda se tem a sensação de estar construindo um castelo de cartas que pode desabar a qualquer momento. É preciso solucionar grandes problemas como infra-estrutura de portos, aeroportos, geração de energia elétrica e, principalmente, tornar a carga tributária mais racional e menor. Segundo nossa percepção, a economia vem se comportando muito bem nesse primeiro semestre, pois absorveu todas as medidas restritivas adotadas no início do ano pelo Banco Central sem uma queda acentuada da atividade econômica, mas é preciso que os índices de preço parem de subir. A volta da inflação é um efeito colateral do crescimento econômico que a economia brasileira não tem condições de assimilar”, diz Marcelo Bosi.
Já na opinião do economista da ACIRP, a queda das vendas no comércio varejista, exemplificada pelo número de consultas no crediário, cheque e pessoa jurídica, e atrelada aos indicadores de redução das expectativas dos consumidores e queda nas expectativas dos empresários, sugere um primeiro semestre de 2011 marcado pela contração da atividade econômica.
“As pressões inflacionárias contribuíram para um panorama de deterioração das expectativas dos agentes econômicos, porém, não podemos afirmar que houve crise, pois em 2010 a atmosfera econômica estava envolta por um conjunto de políticas expansionistas, ao contrário do que temos no ano de 2011, com aumento dos juros e dos compulsórios, sem que houvesse desonerações tributárias para as empresas. Mesmo assim, vislumbramos no mercado de trabalho elevações constantes no número de empregados formais e elevação da massa salarial total, o que sugere continuidade para o potencial de consumo da população. Além do mais, a trajetória de abertura de novas empresas na economia ribeirão-pretana é consistente, principalmente os micro empreendedores individuais que passaram a entrar na formalidade após o advento da Lei 128, que estabeleceu o MEI, com benefícios tributários para aqueles que se enquadram nas condições estabelecidas. Portanto, nossa avaliação é que a economia tenha tido um bom resultado, condizente com o panorama conjuntural atual”, finaliza Fred Guimarães.
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Texto: Yara Racy
*Publicada em 19/07/2011