Inspiração para a vida
Bate-papo entre os amigos de profissão Darílio Velludo e Nelson Jacintho
Texto: Cristiane Araujo | Fotos: Julio Sian
De médico e escritor todo mundo tem um pouco. A afirmação adaptada parece fazer mais sentido para quem acompanha o bate-papo entre Darílio Villela Velludo e Nelson Jacintho, ambos apaixonados e dedicados à Medicina e à Literatura. Se isso parece uma contradição, Darílio justifica em palavras. “Se a arte imita a vida, a vida quer imitar a arte; portanto, artistas somos todos nós, nós de cá, você de lá”.
A idade cronológica é o tema que dá início à entrevista de Nelson Jacintho com o colega de profissão e de literatura, que possui experiência de 30 anos de atuação como médico patologista. O consultório do Dr. Nelson, espaço simpático e simples, sem muito requinte, com artigos do corpo humano, esqueletos e uma estante cheia de livros, foi o cenário para a descontraída conversa entre os médicos, que revelaram admiração e respeito mútuos não só pela profissão, mas também pela trajetória que construíram. A entrevista, portanto, soou mais como uma conversa em que dois amigos revivem lembranças do passado.
Darílio foi pioneiro na realização de exames anatomopatológicos em Ribeirão Preto. Médico e estudioso, sempre contribuiu com a ciência na cidade através de suas pesquisas. Porém, outra paixão tomou conta da sua vida: a literatura. Seu nome não está na lista dos mais famosos escritores e, pelo seu jeito simples e simpático, nem seria sua pretensão. Fiel às experiências um tanto obsoletas, no seu segundo livro, “Auto-hetero biografia”, Darílio convida mais amigos a se expressarem por meio das palavras e relembra, logo na introdução, seu nascimento e um pouco de sua história. Mais de 40 escritores compõem, linha a linha, a biografia de Darílio, que conta um pouco dessa história na entrevista a seguir.
Nelson: Dizem que depois dos 70 anos as pessoas não se importam em revelar a idade, mas não se assuste, sei que o senhor é um dos médicos mais antigos de Ribeirão Preto. Há quantos anos o senhor é formado em Medicina?
Darílio: Nascido e criado em Ribeirão Preto, minha vida será até o fim nessa cidade. Sou formado em Medicina há 62 anos, com exercício de 30 anos. Nasci na casa dos meus pais, da cegonha, como era na época. Nada mais justo que nascer em casa em uma época que lugar de mulher era em casa. Convivi com meus pais e irmãos no lar doce lar e depois fui descobrindo novos ambientes, como as escolas por quais passei. Depois, o exercício profissional e, em seguida, atividades rurais. Moro na casa construída pelo meu pai em 1930, época getulista. Aliás, o ditador Getúlio Vargas e a Medicina tem tudo a ver: ambos se fizeram por cima de cadáveres.
Nelson: Onde foram os primeiros estudos? E a Faculdade de Medicina?
Darílio: Iniciei meus estudos, no chamado primeiro grupo, no Colégio Guimarães Junior. Depois fui para o Colégio Progresso, uma instituição particular. Na época, meu pai tinha falecido e eu me tornei responsável por mim mesmo. A vida, então, tornou-se insípida. Foi quando parei de estudar. Dos 11 aos 19 anos, dedicava-me somente ao jogo de baralho. Aliás, não conheço ninguém que tenha entrado para a faculdade já com o diploma de jogador de baralho, só eu, mestre em fazer o tempo passar (risos). Em 1946, entrei para a faculdade, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, curso que concluí em 1951.
Nelson: Por que escolheu essa carreira?
Darílio: A minha carreira foi praticamente um milagre porque, depois de oito anos de baralho, ser médico não era algo tão fácil assim. Passei em último lugar no vestibular, mas consegui. Cursar uma faculdade foi minha maior alegria porque me sentia útil. Por outro lado, tinha a expectativa da minha família porque meus dois irmãos eram médicos, portanto, não tinha outra saída.
Nelson: Por que escolheu a patologia, especialidade da medicina que, para alguns, é a mais fúnebre da carreira?
Darílio: No segundo ano de faculdade, conheci o professor Luigi Bognolo, um grande cientista que me cativou e me fez escolher esta carreira. Durante quatro anos, trabalhei como auxiliar de laboratório junto com o professor e, depois, fiz um curso de pós-graduação. Concluí a faculdade em dezembro e, em fevereiro do ano seguinte, estava nos Estados Unidos para a especialização, em um hospital conceituado que integrava o ranking dos dez primeiros hospitais na captação de autópsia. Essa experiência foi importante para mim, pois, naquele tempo, a patologia era diferente de hoje, mas, com alto índice de autópsia, aprendi na prática. Lá, tinha como referência o professor Harold, que foi minha inspiração, pois tinha formação italiana, e outro professor do Brasil, com formação europeia. Portanto, eles tinham frequentado os melhores centros médicos e me deram uma oportunidade única. Fiquei dois anos por lá e voltei nomeado médico patologista.
Nelson: Qual a diferença entre a Medicina da sua época e a Medicina atual?
Darílio: Observo que de lá para cá, a Medicina tem piorado bastante. As atividades governamentais pioraram acerca do trabalho médico. Por isso, acho que parei em um momento importante, pois a medicina de hoje é muito criticada, especialmente, sua parte administrativa. Essa é a diferença: a má administração da saúde.
Nelson: O que o levou a deixar a famosa Faculdade de Medicina da USP para trabalhar em uma clínica particular?
Darílio: Minha especialidade era a Patologia Cirúrgica e, lá, o trabalho era em tempo integral. Apesar de ganhar muito bem, o dobro do valor que fazia na clínica, minha vontade era atuar especificamente na especialidade para a qual me formei. Apenas com as cirurgias era possível me manter na USP, mas não com a Patologia. Então, tive que abandonar esse lado da minha vida. Apesar de me arrepender até hoje, não tinha outra opção. Eu não poderia simplesmente abandonar anos de estudos em outro país e rasgar o diploma da minha especialidade para isso. Sou uma pessoa imediatista e tento realizar aquilo que desejo para “ontem”. Por isso deixei a USP.
Nelson: Sabemos que o senhor lecionou em outras faculdades. Como foi essa atuação?
Darílio: Lecionei em cinco faculdades de Ribeirão Preto, sempre na área de Patologia. É importante declarar que nunca fiz uma consulta ou dei uma receita para um paciente. Minha função sempre foi contribuir com a Medicina e clinicar nunca foi meu objetivo.
Nelson: Quando descobriu sua veia de escritor?
Darílio: Essa descoberta aconteceu com o primeiro livro: “Angu Seco”. É a vida do meu irmão romanceada, pois a história dele é muito importante e eu não quis deixar passar em vão. Portanto, o personagem fez o autor. Demorei sete anos para escrevê-lo, não tinha computador e nem sabia usá-lo, mas essa era minha meta: passar a história para frente. Dos seis filhos de um dos meus irmãos, sobreviveram apenas dois. Sua vida não foi fácil, ele assassinou uma pessoa e foi parar no Carandiru. Pelo excesso de velocidade, atropelou uma criança. A esposa dele, filha de fazendeiro, foi para o Rio de Janeiro falar com Getúlio Vargas e, assim, ele foi solto. O segundo livro surgiu por um convite do doutor Campana, que me sugeriu escrever uma autobiografia. Mesmo com meu desinteresse, convenceu-me e, um dia, resolvi convidar 45 colaboradores que tinham lecionado comigo para fazer a segunda obra: “Darílio Villela Velludo: auto-hetero biografia”. Meu amigo, doutor Campanha, foi quem escreveu o prefácio.
Nelson: O que o levou a participar do Grupo de Médicos Escritores e Amigos Dr. Carlos Roberto Caliento, de Ribeirão Preto?
Darílio: Fiquei surpreso e satisfeito com o convite, pois, no momento, estava um pouco ocioso. Como sempre gostei de leitura e, principalmente, de escrever, o convite foi um imenso prazer. O grupo é do jeito que eu gosto, sem regras ou imposições, apenas amigos e um pouco de liberdade de expressão.
Nelson: O que o senhor acha desse grupo que nasceu com médicos, mas hoje recebe uma quantidade enorme de escritores?
Darílio: O grupo é contagiante e o ambiente, muito familiar. Existe um congraçamento entre as pessoas que frequentam o grupo, além da afinidade. Por esses motivos, o grupo se diferencia de uma academia literária. Não existe profissional e, apesar da presença de acadêmicos, o ambiente é de gente normal (risos).
Nelson: O senhor está escrevendo algum livro no momento ou apenas as crônicas para o Grupo de Médicos Escritores?
Darílio: Estou sempre escrevendo, em todos os momentos, mas evito tocar em assuntos políticos, por exemplo, para não causar desconforto. Mesmo assim, às vezes escapa. O que escrevo, religiosamente, são as crônicas —sempre tenho alguns livros começados, mas são apenas projetos. Já são mais de cem crônicas que, algum dia, irei publicar.
Nelson: Existe algum momento marcante da sua vida que gostaria de registrar?
Darílio: Entre os cursos do tempo como estudante de Medicina e as faculdades atuais, há uma diferença muito grande. Antes, ser professor era uma missão vitalícia. Hoje, não é assim. Aos 70 anos, o profissional já não está mais em atividade. Ter passado por isso me marcou muito. A USP tentou inovar o ensino, mas nunca estabeleceu um plano de carreira por aqui. Para mim, o professor é fundamental para a sobrevivência de qualquer instituição.
Nelson: O senhor gostava mais de sua vida de patologista, mexendo com peças humanas e corpos inanimados, ou prefere a do escritor?
Darílio: Tive duas fases na minha vida profissional: 30 anos recluso em um laboratório, dividindo meu tempo também nas salas de aula, e os outros 30 no sertão, quando perdi a ligação com o ambiente médico completamente. Foi aí que me apeguei ao grupo de escritores, que hoje é o único grupo que tenho. O importante é a união do grupo e sua presença que cativa as pessoas com o objetivo de uni-las. O lado escritor me uniu ao Dr. Nelson e a grandes amigos.
Admiração além do profissional
“Encarregado de entrevistar uma pessoa de Ribeirão Preto que admiro, vi-me diante de séria dificuldade, pois, como médico formado pela USP de Ribeirão Preto, venho angariando amigos e pessoas admiráveis há quase 50 anos. Muitos dos amigos que admirei já se foram, mas uma infinidade deles continua convivendo comigo. São médicos, escritores, professores, dirigentes de hospitais, enfermeiros, clientes, enfim, um número de pessoas impossível de ser relacionado. Escolher pelo tempo de amizade, pela profissão, pela simpatia, pelo relacionamento do dia a dia, pelo coleguismo, por ser escritor não foi tarefa fácil. Depois de muito pensar, cheguei ao meu amigo Dr. Darílio Vilella Velludo. Depois da aposentadoria como médico e professor, tornou-se fazendeiro e, atualmente, está envolvido com a literatura. Confesso que já conhecia Velludo há muitos anos, mas passei a ter um relacionamento mais profundo com ele depois que criei, em 2007, o Grupo de Médicos Escritores e Amigos Dr. Carlos Roberto Caliento. Apesar da idade, Dr. Velludo é pessoa muito dinâmica e alegre. A desenvoltura é característica marcante, além do bom humor que expressa em suas piadas e crônicas, engraçadas e, por vezes, apimentadas. Nas reuniões do Grupo, esperamos ansiosos por sua crônica para nos divertirmos. É pessoa cativante, por onde passa, angaria muitos amigos.”
Nelson Jacintho, médico e escritor