Especialistas acreditam que é a humanização no trato que leva à conquista da melhor ferramenta para a evolução necessária para j

Inspirar para educar

Especialistas acreditam que é a humanização no trato que leva à conquista da melhor ferramenta para a evolução necessária para juventude: o autoconhecimento

Cada uma em sua função, Margaret de Oliveira Guimarães e Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis têm um ponto em comum: ambas lidam com o público jovem, uma dentro da escola e outra, no consultório. Suas visões sobre como contribuir para o desenvolvimento deste público também estão alinhadas: as duas acreditam que é a humanização no trato que leva à conquista da melhor ferramenta para a evolução necessária nesta fase da vida: o autoconhecimento.À frente do Liceu Albert Sabin, Margaret é a diretora responsável por construir os caminhos, desde a Educação Infantil até o Ensino Fundamental II, para uma escolha de futuro consciente e adequada ao perfil de cada aluno. Já a psicanalista Maria Bernadete lida, no consultório, com os principais questionamentos da juventude atual, passando pelos mais diversos assuntos: a relação entre pais e filhos, o papel das instituições de ensino, a formação de uma identidade própria diante de tantas possibilidades e o desenvolvimento do caráter para a vida toda. Na entrevista, a psicanalista aborda pontos importantes da transição da infância até a fase adulta e discute, a convite de Margaret, assuntos bastante atuais relativos a essa verdadeira revolução pessoal da qual ninguém escapa. 

Margaret: Atualmente, a escolha profissional está cada vez mais difícil, em função das diversas opções do mercado de trabalho. O que a levou a optar pela Psicologia?
Bernadete: Minha escolha foi extremamente especial na minha vida. Eu me encantava por Física, e não pelas Humanas. Para mim, conhecer os fatores invisíveis que produziam os fenômenos visíveis era fascinante. Saber como era o processo por trás do simples ato de acender e apagar as lâmpadas ou como era possível projetar a imagem em uma televisão, por exemplo, eram curiosidades latentes em mim e descobri que a Física podia me dar essas respostas. Porém, no segundo colegial, tive aulas de Psicologia. Foi dessa maneira que descobri que, no comportamento humano, também existiam os fatores invisíveis que determinavam o comportamento visível das pessoas. Naquele momento, trabalhar com o inconsciente me atraiu ainda mais. A partir daí, quis estudar os diferentes fenômenos humanos, mas com o olhar voltado para cada pessoa. 


Margaret: Como você concilia a vida pessoal com a profissional e qual o seu conselho para mulheres que possuem jornada dupla?

Bernadete: 
Sinto que minha vida profissional sempre enriqueceu minha vida pessoal, talvez seja por trabalhar em uma área que requer desenvolvimento pessoal também. Preciso ler, estudar, assistir a filmes, observar obras de artes, enfim, estudar pessoas, o que me dá a oportunidade de transportar esse conhecimento tanto para a minha vida pessoal quanto para a profissional. Isso não acontece apenas porque trabalho com a Psicologia, afinal, qualquer carreira abre novos universos, cria uma possibilidade diária de contato com outras pessoas e assuntos diferentes, que levam a outros caminhos e ampliam horizontes. A vida familiar é excelente para isso também, pois já é um universo infinito, cheio de beleza e de possibilidades. Mas é único. Portanto, qualquer que seja a área profissional, este universo diferente nos ajuda a ser pessoas melhores. Assim, os aspectos pessoal e profissional se complementam e se integram. É isso que eu faço: um caminho de integração. 

Margaret: Você acha que os jovens de hoje, ao saírem do Ensino Médio, têm serenidade para analisar suas aptidões e fazer uma escolha profissional?

Bernadete: A correria do dia a dia e a complexidade da vida atual refletem na escolha profissional. Além disso, as opções, não só em termos de profissão, mas de carreira também, aumentaram muito. O próprio mercado de trabalho exige uma formação múltipla dos profissionais. Acredito que hoje está mais difícil para os jovens pensarem e avaliarem qual o melhor caminho a seguir. 

Margaret: A escola consegue auxiliar nessa decisão? E a família, é importante nessa fase? 

Bernadete: Lembro-me que, quando escolhi a Psicologia, não sabia exatamente o que era e quais seriam as funções de uma psicóloga. Entretanto, hoje tenho a certeza de que fiz a escolha certa. A escola, nessa questão, tem um papel importante junto aos alunos do Ensino Médio, levando profissionais de diversas áreas para palestras, por exemplo, assim como proporcionando o auxílio de um psicólogo, que conversa individualmente ou em grupo sobre as múltiplas profissões. Essa é uma ação importante, pois a família, às vezes, não tem a neutralidade necessaria para colaborar com os jovens nessa escolha. Eles precisam de pessoas que exerçam um papel imparcial, que os ajudem a pensar. Quando os pais auxiliam o adolescente, pode ser que ele fique à mercê dos desejos dos familiares. 

Margaret: Que palavra emblemática caracteriza a adolescência hoje em dia?
Bernadete: 
A adolescência é um período importante para o desenvolvimento do ser humano, quando a criança deixa de ser criança e se prepara para ser adulto. Nesse momento, existe uma transformação no corpo — mudanças hormonais, tanto nos meninos como nas meninas. O fato de existirem mudanças fisiológicas e físicas implica questões psicológicas também, e é inevitável que haja, ainda, uma transformação psíquica da infância para a adolescência. O fenômeno, entretanto, não é só físico e psíquico, é social e cultural também, ou seja, cada cultura, nos mais diferentes períodos históricos, lida com essa passagem de forma diferente. Ainda que haja uma determinação que independe da história e da cultura, (a passagem física), o momento histórico vai determinar diferenças na maneira de lidar com o adolescente e na maneira de ser adolescente. Hoje, por exemplo, ser adolescente é diferente do que era há 20 anos, pois nossa sociedade está muito modificada. As novas tecnologias são exemplo de experiências que gerações passadas não tiveram e que modificam muito as interações sociais, as reflexões a respeito do que é a vida, entre outros aspectos. 

Margaret: O que você acha, particularmente, desse mundo virtual?
Bernadete: 
Penso que, de um modo geral, as novas tecnologias são importantes e entraram na vida das pessoas de uma forma tão determinante e intensa que é impossível não ser influenciado por elas. Mas essa influência pode  ser benéfica ou prejudicial, de acordo com o uso que cada um faz: cada família, cada indivíduo, cada escola e cada sociedade determinam de que forma usarão essas ferramentas. A tecnologia é um instrumento importante sem a qual não vivemos, mas como utilizá-la é o que determina sua repercussão prejudicial ou não. Sobre essa questão, posso apontar alguns aspectos: as interações sociais podem se caracterizar por superficialidade e imediatismo, perdendo profundidade e intimidade. Isso ocorre com a valorização do visual, do efêmero, do curto e da mensagem rápida, sem um discurso completo; prevalece, nesse sentido, o figurativo, sem o significado e o sentido das coisas. Isso me preocupa muito, pois esse uso “rápido” leva as pessoas a se distanciarem da construção da subjetividade, que é a definição do ser, do quem sou eu, de qual é o meu projeto de vida. Todas essas questões são provenientes de sentidos que eu atribuo àquilo que vejo, que vivo ou que experimento no decorrer da minha vida. Receio que essas definições possam ser prejudicadas. Costumo dizer que há uma ameaça à construção da subjetividade e redução do poder de análise.

Margaret: A influência das tecnologias – benéfica ou prejudicial — é analisada com o devido cuidado pela escola e pela família? O adulto percebe a gravidade e sabe lidar com isso?

Bernadete: Acredito que ainda não. Temos uma geração de adultos também impactada pelo que acontece. Há pouco, questionei quem é a criança ou o adolescente de hoje. Temos dificuldade para definir quem são as nossas crianças. Estudei muito na tentativa de conhecer o desenvolvimento das crianças, mas se eu me debruçasse na metodologia de anos atrás não conseguiria identificar quem são elas atualmente. Existe uma geração de profissionais, de estudiosos, de famílias e de crianças que ainda precisam ser estudados. Estamos na fase de produção de conhecimento a respeito do que está acontecendo nos últimos anos. Ainda estamos na indagação do que é isso e o que fazer com essa nova realidade. Preocupo-me um pouco  com o fato de todo mundo estar vendo e vivendo as mesmas coisas, pensando do mesmo jeito, mas deveria ser o contrário. É importante vermos cada criança de forma individual, dentro da sua escola, da sua família e do seu contexto social. Em uma palestra em São Paulo, ouvi uma frase de Hegel que dizia: “a coruja de minerva só alça voo ao entardecer”. Em um primeiro momento, questionei-me sobre o significado da frase, mas, ao avaliá-la, entendo que a coruja é o símbolo da sabedoria, da possibilidade de pensar e só alça voo quando as coisas já aconteceram — só é ai que conseguimos pensar a respeito. A produção de conhecimento é mais lenta do que o acontecimento. Hoje, somos convocados a produzir conhecimento no momento desses acontecimentos. Nesse caso, é um desafio pensar e determinar as ações necessárias. O que nos baliza e nos ajuda muito dentro do contexto de produção de conhecimento do “aqui e agora” é a capacidade de observar o fenômeno e pensá-lo com os instrumentos que já temos construídos. Assim, podemos entender um pouco melhor aquilo que determinada criança precisa naquele momento. 

Margaret: Como trabalhar questões como imaturidade e autoestima em um adolescente? Esses termos não estão banalizados?
Bernadete: 
É um tema muito importante a ser discutido. Na psicanálise, temos uma preocupação muito grande a respeito dessas questões: a rotulação de pessoas com determinados diagnósticos, como, por exemplo, a depressão, a bipolaridade e o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), pois essa generalização destitui a pessoa da sua especificidade. Cada indivíduo está deprimido por razões próprias, por situações externas e internas peculiares. Nesse caso, o rótulo iguala, estabelece uma equação onde ela, na verdade, não existe. A ciência precisa de alguns conceitos para que possamos trabalhar, mas independente do que seja, cada um tem a sua especificidade. O rótulo entra na moda porque apazigua. Em vez de abrir o pensamento para um possível questionamento, torna-se a razão de tudo o que a pessoa está vivendo. Uma vez que esses rótulos apaziguam, a tendência é usá-los de forma irresponsável, a fim apenas de conceituar uma situação. Quando dizemos que uma criança tem uma autoestima baixa e, portanto, vai mal na escola, isso, em geral,  não é produto de observação cuidadosa de pais e de familiares sobre o que pode estar acontecendo com aquela criança. Serve somente para dar um nome à situação, o que leva, ilusoriamente, os pais a pensarem que têm a real noção do que se passa com a criança. O que seria a autoestima baixa? Seria o resultado da falta de sentido que a criança enxerga na vida, na relação com os pais ou com os amigos. Mas essa é apenas a ponta de um iceberg, portanto, identificar a autoestima baixa, e ponto, é banalizar e usar os termos de uma forma irresponsável. 

Margaret: A mídia, de maneira geral, cria a moda e dita esse comportamento? Bernadete: O bullying, por exemplo, passa a ser uma palavra destituída de significado que gera ações e não reflexões. A criança sofre bullying e os pais não refletem sobre a situação, não avaliam o contexto. É conveniente perguntar o que acontece com a criança que atrai o sadismo dos colegas, mas, ao contrário disso, o que ocorre é a identificação de um diagnóstico e, como resultado, uma possível medicação. Portanto, a conceituação dos termos é perigosa porque cria uma nomenclatura sem significado e, em vez de abrir o pensamento para reflexão, serve para fechar um diagnóstico sem tomar nenhuma providência a respeito. 

Margaret: Gostaria de saber sua opinião sobre o papel da escola e da família na sociedade contemporânea: estão bem definidos?

Bernadete: A delimitação dos papéis no mundo contemporâneo é importante porque o limite foi transposto, quebrado. Então, a globalização, o contato com outros países, a conexão rápida e fácil nos permitem dizer que vivemos sem fronteiras. É excelente que os territórios estejam conectados e as barreiras rompidas; por outro lado, quando isso passa para o mundo interno, instaura-se a psicose: a ausência de limites impedem configurações. Costumo usar o exemplo da água: é possível utilizá-la quando ela está em um continente, caso contrário, se estiver espalhada, perde-se. Quando não existem definições, configurações e limites internos, a personalidade não se faz, não se constrói. Na psicose, não existem delimitações, não se sabe o limite entre a realidade e ilusão. Para uma convivência mais saudável, precisamos definir os papéis — do pai, da mãe, da escola, da família, do aluno, da criança. 

Margaret: Essa definição não advém do exercício da autoridade? Estamos realmente exercendo nosso dever de educar? 
Bernadete:
 Podemos pensar que ser adulto inclui cuidar das crianças e, portanto, ter uma função que é de autoridade sobre elas. Aí está  uma das definições do papel de adulto. Precisamos estar conscientes dessa função como adulto —pai, mãe e professor, por exemplo — para que as crianças possam  ter a noção de que o papel delas é diferente. No entanto, hoje em dia, existe uma tendência a transformar tudo em igual. Ultimamente, os psicólogos têm sido muito requisitados para darem palestras sobre a falta de limite das crianças. Uma das razões para isso é exatamente esta: o adulto está tão próximo da criança que perde a noção da fronteira, que é tão necessária. Sem a autoridade do adulto, a criança se sente perdida, à mercê de seus próprios impulsos, que são de uma intensidade considerável, ainda sem modulação.  

Margaret: Os adultos de hoje são mais felizes depois de tanta evolução, material e pessoal?
Bernardete: Penso que a felicidade ou a infelicidade sempre existiram e continuarão a existir em todas as épocas —como explica a Antropologia, que estuda as diferentes culturas, e  a Sociologia, que olha para cada sociedade. Mas entendo que, a cada momento, vivemos possibilidades de experiências emocionais das mais diferentes ordens. Dá para afirmar, no entanto, que o consumo de bens materiais, ou melhor, o consumo de maneira geral, está exagerado. Mesmo quando conquistamos determinados bens, eles representam pouco em relação ao que poderíamos ter. Assim, vive-se em um sentimento constante de insatisfação. Se nos pautarmos no consumo material, estamos quase condenados a sermos pessoas incapazes de atingir a satisfação, ou seja, a felicidade. Por outro lado, a insatisfação nos move, portanto, o sentimento de infelicidade nos faz buscar sempre algo melhor. É bom que tenhamos esses dois sentimentos, mas de forma bem dosada. A felicidade não está em lugar nenhum, ela está em cada momento vivido. 

Personalidade ímpar
“Maria Bernadete é uma personalidade ímpar: sem vaidades,  sempre brilhante e humilde para ensinar;  sensível e precisa ao dizer o que o outro deve ouvir; uma profissional que está em permanente busca para entender melhor a condição humana. Para mim, entrevistá-la representa  mais um momento de aprendizado, além de uma rica oportunidade de dividir sua inteligente visão de mundo com os leitores. Não posso deixar de enfatizar que Bernadete tem uma incomparável capacidade de  inspirar o ser humano a buscar a melhor forma de chegar ao  autoconhecimento e à realização pessoal. Que essa leitura possa ser a gênese de produtivas mudanças!”.
Margaret de Oliveira Guimarães, diretora pedagógica

 

* Publicado em 04/07/2014

Compartilhar: