Instrumento de desenvolvimento

Instrumento de desenvolvimento

Com mais de nove milhões de associados e R$ 220 bilhões em ativos em 2017, cooperativismo de crédito no Brasil avança mais do que o sistema bancário tradicional

Alheios à crise econômica e às incertezas do cenário político brasileiro, o setor das cooperativas de crédito deve ter um ano de muito crescimento, entre 10% e 20%. Reguladas e fiscalizadas pelo Banco Central do Brasil (BCB), este segmento reúne mais de 9 milhões de cooperados. Em 2017, foram contabilizados ativos de R$ 220 bilhões, depósitos de R$ 103 bilhões e empréstimos de R$ 81 bilhões. A carteira de crédito do segmento, que está presente em aproximadamente 95% dos municípios, aumentou 9,90% de 2015 a 2016. 

No Brasil inteiro, são mais de 5,5 mil pontos de atendimento, o que coloca o país na 16ª posição no ranking mundial do cooperativismo de crédito. Atualmente, a rede de atendimento dessas unidades representa 18% das agências bancárias do país; já os depósitos administrados ultrapassam 5% do total. Somadas, as cooperativas de crédito; em relação ao volume de ativos, depósitos e empréstimos, ocupam a 6ª posição da lista, o que significa estar entre as maiores instituições financeiras de varejo do país. Segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), em 564 cidades, a única instituição bancária é uma cooperativa. 

De acordo com informações do Banco Central, existem, hoje, 1.019 cooperativas de crédito ativas, sendo 980 singulares, 35 centrais e quatro confederações. Dentro desse universo, os sistemas Sicred e Sicoob ganham destaque, uma vez que possuem os próprios bancos cooperativos, o Banco Sicredi e o Banco Cooperativo do Brasil (Bancoob), criados para atender, especificamente, às cooperativas de crédito afiliadas e sem agências próprias. “A carteira de crédito do segmento vem crescendo de forma contínua nos últimos anos, apesar de, em setembro de 2017, representar aproximadamente 3% da carteira de crédito do Sistema Financeiro Nacional”, acrescenta o chefe do departamento de Supervisão de Cooperativas e de Instituições Não Bancárias (Desuc), Harold Espínola. 

Harold reforça que a carteira de crédito do segmento cresce de forma contínua

Ofertando praticamente os mesmos serviços das redes bancárias tradicionais nas cooperativas, os associados são sócios e clientes ao mesmo tempo, participando, inclusive, da distribuição das sobras. O diretor ressalta que a cooperativa de crédito é uma instituição financeira formada pela associação de pessoas para prestar serviços financeiros exclusivamente aos associados e essa sociedade não visa ao lucro, levando a uma operação mais barata para o associado, que também é o seu sócio.

Em caso de resultado negativo ou de perdas, um rateio é feito entre os cooperados, de acordo com o estatuto social. De acordo com Harold, o BC fiscaliza as cooperativas e exige transparência nos demonstrativos, o que facilita o acompanhamento por parte dos associados. “Há lastro do Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop), protegendo os associados, em caso de intervenção ou liquidação extrajudicial nas cooperativas, nas mesmas condições dos clientes de bancos tradicionais”, assegura Harold. Este fundo garante depósitos até o limite de R$ 250 mil, da mesma forma que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) cobre os clientes de bancos. 

O diretor considera este tipo de cooperativa um caminho para a obtenção de taxas e tarifas mais atrativas e também para a busca de eficiência por parte das diversas entidades. Destaca, ainda, que o papel do cooperativismo de crédito no processo de inclusão financeira proporciona o acesso de pessoas com baixa disponibilidade de atendimento pelo sistema tradicional. Além disso, recicla a poupança local ao promover o reinvestimento de recursos na própria comunidade. “Essas duas linhas vão ao encontro do que prega a Agenda BC+, iniciativa lançada pelo BCB que pretende revisar questões estruturais do Sistema Financeiro Nacional (SFN), gerando benefícios sustentáveis para a sociedade”, reforça Harold.

Pioneirismo

A primeira unidade do gênero no país, que também foi a pioneira no setor privado, surgiu em Nova Petrópolis (RS), em 1902. Esta cooperativa de crédito serviu como embrião para o Sistema de Crédito Cooperativo (Sicredi), instituição do gênero ocupa 60ª posição entre os 200 maiores grupos empresariais de 2017, saltando 19 colocações em relação ao ranking do ano anterior. O Sistema fica em 8º lugar quando o fator considerado é o crescimento da receita, na comparação com o ano anterior. Esses dados estão disponíveis na 11ª edição do ranking Valor Grandes Grupos, divulgado no final do ano passado.

Segundo os gerentes de agências Ronaldo Personi Mazzoni e Alessandro Luiz Soares Rodrigues, os resultados enumerados se devem, em especial, ao portfólio de produtos para pessoas físicas e jurídicas e também para o agronegócio, que soma mais de 300 soluções financeiras. Outro fator positivo foi o crescimento médio de 23% dos ativos registrados em 2017, desempenho que os gestores esperam repetir em 2018. O Sicredi mantém um saldo em carteira de R$ 77,4 bilhões de ativos, R$ 43,9 bilhões na carteira de crédito, R$ 12,7 bilhões de patrimônio líquido e R$ 50,2 bilhões em depósitos totais. “O sistema registrou, em 2016, R$ 1 bilhão em resultado líquido. O balanço final de 2017 ainda não foi finalizado”, observam os gerentes.

Ronaldo aponta que o Sicredi oferece mais de 300 soluções financeiras

O Sicredi está presente em quase todos os estados brasileiros — com exceção de Minas Gerais e do Espírito Santo. Na região, mantém pontos de atendimento em Ribeirão Preto, Orlândia, São Joaquim da Barra, Guaíra, Ituverava, Barretos, Monte Alto, Bebedouro e Mococa. “Nos próximos cinco anos, chegaremos a mais 37 cidades da região”, estima Ronaldo. O Sistema trabalha sem taxa de adesão. Para se tornar um associado, basta comprar o capital a partir de R$ 50,00. Animados com as boas perspectivas para este ano, Ronaldo e Alessandro destacam que o mercado está aprendendo a atuar com mais liberdade em relação ao cenário político e que as instituições financeiras estão liberando mais recursos para todos os ramos de atividade.

Expansão acelerada

Com crescimento médio de 20% ao ano registrado desde 2008, o Sicoob é a quinta maior rede de atendimento no Brasil, com 2.697 agências. Para 2018, a expectativa é crescer entre 15% e 20%. EM 2017, ocupou a 55ª posição no ranking Valor Grandes Grupos. “Enquanto as maiores instituições financeiras diminuíram os pontos de atendimento, o Sistema ampliou sua rede em 5,7% no ano passado, em relação ao ano anterior”, acrescenta Henrique Castilhano Vilares, presidente do Sicoob. Nos últimos cinco anos, a instituição também cresceu em número de cooperados em todas as regiões do país, com destaque para as regiões Sudeste e Sul, que, juntas, somaram mais de 380 mil associados, número equivalente a 84,2% do crescimento total.

Henrique comemora a marca de 2.697 agências no Brasil

De acordo com o presidente, o Sicoob atende a 4% dos ativos de cooperados inseridos no sistema de cooperativismo de crédito nacional e detém cerca de 45% do mercado. Esse aumento pode ser relacionado à expansão da rede de atendimento, à maior difusão do cooperativismo no Brasil e, principalmente, à atenção, por parte dos clientes, às taxas de juros pagas e de retorno de investimentos realizados. A evolução patrimonial também é animadora. Em setembro de 2017, o Sicoob registrou R$ 89,3 bilhões em ativos totais (+20,7%); R$ 56,5 bilhões em depósitos totais (+21,6%); R$ 40,7 bilhões em operações de crédito (+ 8,4%) e outros R$ 2,1 bilhões de resultados (+16,3%). Além disso, registrou sobras de R$ 528 milhões, sendo R$ 71,6 milhões depositados nas contas correntes dos cooperados do Sistema. O restante foi destinado à conta capital de cada cooperado.

Para Henrique, esse sistema é vantajoso, principalmente, porque a movimentação financeira é menos onerosa ao correntista. “Não temos tantas tarifas quanto o sistema financeiro tradicional. As nossas taxas de juros são, em média, um terço mais baixas do que os percentuais praticados pelos bancos. O Sicoob é a empresa número 39 entre todos os empreendimentos privados do Brasil. Estamos, hoje, com R$ 90 bilhões em ativos, o que nos coloca na sexta posição no mercado financeiro. Gestão transparente e credibilidade são nosso negócio”, reforça Henrique. Seguindo a premissa de que o cooperativismo é uma sociedade de pessoas e não de capitais, Henrique observa que pretende mostrar o trabalho desenvolvido pelo Sicoob para todas as classes sociais, especialmente, para as classes D e E. 

A responsabilidade social é outro ponto forte da Instituição, que criou, no início de fevereiro, o Instituto Sicoob que, além de divulgar as mais de 80 atividades filantrópicas já realizadas pelo Sistema, deve ampliar as ações de aprimoramento profissional e de educação financeira nas escolas. “Acreditamos em um Brasil melhor e em pessoas que dão certo neste país”, frisa Henrique que, desde muito jovem teve sua carreira profissional alicerçada no sistema cooperativo.

Sem tarifas

Criadas inicialmente com base rural, hoje, as cooperativas de crédito possuem um amplo leque de associados, abrindo seu capital para a participação de qualquer pessoa, física ou jurídica. Com mais de 82 mil cooperados e ativos totais de R$ 5,221 bilhões, desde 2015, a Sicoob Credicitrus atua com livre admissão e sem cobrança de mensalidade ou tarifas. “Para se tornar um associado, é necessário adquirir cotas de capital da cooperativa. Hoje, esse investimento é de, no mínimo, R$ 300,00 para pessoas físicas”, orienta Marcelo Martins, diretor de Tecnologia da Sicoob Credicitrus e de administração do Sicoob/SP.

“A Credicitrus conta com 60 pontos de atendimento físicos e uma unidade móvel”, enumera Marcelo

Instalada em 55 municípios de São Paulo e do Triângulo Mineiro, a Cooperativa conta com 60 pontos de atendimento físicos e uma agência virtual. Em 2018, a principal novidade foi a criação de uma unidade móvel, que visitará cidades da área de atuação da Credicitrus e também feiras e eventos com o objetivo de prospectar novos associados, disseminar o modelo de negócio cooperativista e realizar todas as operações financeiras do dia a dia que podem ser feitas nas unidades físicas.

Seguindo a linha de inovação, os cooperados da instituição contam com o aplicativo “SicoobNet Celular”, canal de autoatendimento que permite acesso à conta pessoal ou da empresa para realização de transações financeiras. “Pensando na disseminação de informações para os cooperados, a Sicoob Credicitrus trará um vasto conteúdo para as mídias digitais e uma completa programação de eventos durante o ano”, reforça o diretor.

As pessoas como essência

Presente em 155 cidades em São Paulo e sul de Minas Gerais, a Sicoob Credicoonai entende que a essência do negócio são as pessoas. Por isso, nos 38 postos de atendimento mantidos os funcionários, que também são cooperados, prestam uma assessoria completa aos clientes, tanto pessoalmente quanto por meio da tecnologia. Aliás, neste segmento, a instituição vem crescendo ano a ano. “Nossas transações cresceram fortemente e parte desta carteira de depósitos — entre R$ 3 e R$ 4 milhões — nos últimos seis meses, vieram de plataformas digitais”, aponta a diretora financeira, Gianne Maria Sant’Ana Martelo.

“Feiras de negócios vão aproximar ainda mais a Credicoonai dos cooperados”, estima Gianne

Em tempos de crise, Gianne ressalta que as cooperativas abriram novas possibilidades de negócios. Tanto isso é verdade que a base de cooperados evoluiu de 36 mil para 41mil de 2016 para 2017. A instituição não cobra tarifas, apenas capitalização inicial de R$ 50,00. Valorizando o atendimento personalizado e ainda mais próximo junto ao cooperado, a Credicoonai lançou no fim do ano passado, uma programação de feiras e a primeira foi direcionada aos próprios funcionários, pois, de acordo com Gianne, eles devem ser os melhores clientes. 

Maior flexibilidade

Depois de ter atingido R$ 1,8 bilhão em operações de crédito em 2017 — um aumento de 12,5% em relação a 2016 —, a Sicoob Cocred espera chegar aos R$ 2 bilhões em 2018. A previsão é de Gabriel Jorge Pascon, diretor de negócios da instituição, que atingiu R$ 401,5 milhões em patrimônio líquido no ano passado. Com 32 mil associados, a Cocred oferece uma gama de produtos e de serviços direcionada à efetiva necessidade e particularidade de cada associado. 

Na cooperativa de crédito, o cooperado é dono também”, afirma Gabriel

Com sede administrativa em Sertãozinho, hoje, atua em 26 municípios do Estado de São Paulo. A Cooperativa não cobra tarifas para manutenção de conta corrente, nem pacotes e serviços. As taxas para operações de crédito, se comparadas às praticadas pelo Sistema Financeiro Nacional, são bem menores e mais atrativas. “Enquanto os bancos convencionais chegaram a cobrar 14,5% no cheque especial, em novembro do ano passado, praticamos 4,58% para a utilização do mesmo serviço, no mesmo período. Nosso objetivo, como cooperativa, é manter a sustentabilidade econômica e também fomentar o desenvolvimento”, aponta Gabriel. 



Sem surpresas

Este foi um dos maiores objetivos dos sócios José Eduardo do Prado Estevão e Ricardo Henrique Murer ao migrarem para o sistema cooperativo. Para os associados da Credicitrus, gestão transparente, melhores taxas e tarifas pré-definidas foram as principais vantagens encontradas no sistema. Antes, o fechamento do mês vinha sempre acompanhado de uma surpresa e de custos diferenciados praticados pelos bancos tradicionais. “Isso elevava os nossos custos. Agora, temos melhor atendimento e tecnologia avançada para fazer todas as operações bancárias por meio de plataformas digitais, com maior agilidade e segurança”, afirmam Eduardo e Ricardo. 



Baixa manutenção

Empresário e presidente das regionais ribeirãopretanas da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf) e do Sindicato das Indústrias Gráficas de São Paulo (Sindigraf), Levi Ceregato também trocou o sistema financeiro que utilizava anteriormente. Associado à Credicoonai há dois anos, destaca que a manutenção das contas é muito mais simples, tranquila e barata. “Na cooperativa, encontramos os serviços e o atendimento que buscávamos, de uma forma personalizada e muito transparente”, reforça Levi.



Responsabilidade social

Com 6.002 cooperados e dez pontos de atendimentos, a Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Profissionais da Saúde da Região da Alta Mogiana, Sicoob Credimogiana, está presente em Franca, Batatais, Brodowski e Ribeirão Preto. Oferecendo todos os produtos e serviços bancários, a cooperativa tem a responsabilidade social no seu DNA. É isso que apontam Nilson Camarota, diretor administrativo, Roberto Guimarães, presidente, e Maurício Bartocci, diretor financeiro da instituição. Entre os vários projetos e ações da cooperativa, o projeto Pé de Feijão, que trabalha a adoção de crianças carentes nas escolas da periferia, merece destaque. “Oferecemos a estes menores educação financeira, presentes de Natal, apoio a festividades, entre outras ações no decorrer do ano”, apontam os diretores.



 

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