Inteligência máxima
Crianças superdotadas têm habilidades em várias áreas, mas a vida delas não é muito fácil
Quando tinha sete anos de idade, o indiano Akrit Jaswal realizou uma cirurgia médica – curou a mão de uma menina de oito anos após uma queimadura. Hoje, com 16 anos, o adolescente dá palestras sobre temas complexos da Medicina, como Anatomia.
O estadunidense Gregory Smith já lia aos dois anos, entrou na universidade aos dez e corria o mundo ao lado de ativistas na busca dos direitos da criança. Fundador de uma organização que promove a paz entre jovens, o garoto, nascido em 1990, foi nomeado para receber o Nobel da Paz quando tinha só 12 anos.
Com apenas quatro anos, em 1966, o coreano Kim Yong-Ung já sabia ler em sua língua materna e outros idiomas como alemão, inglês e japonês. Aos 15, terminou os estudos universitários e se tornou PhD em Física logo depois.
O que essas três crianças têm em comum? A explicação vem em uma palavra: superdotação. Segundo o pesquisador Joseph Renzulli, do Centro Nacional de Pesquisa sobre o Superdotado e Talentoso da Universidade de Connecticut (EUA), crianças e adultos superdotados, ou com altas habilidades, são indivíduos que possuem três características: habilidade acima da média em determinada área, alto comprometimento com a tarefa e criatividade acentuada.
Essas habilidades são chamadas por ele de ‘Modelo dos Três Anéis’, pois a superdotação é resultado dessas três características em conjunto. Não é à toa, então, que o garoto indiano conseguiu realizar uma cirurgia sem nunca ter estudado Medicina, o menino estadunidense conseguiu ser nomeado ao prêmio Nobel e o jovem coreano se tornou PhD em Física.
Não existem números precisos, mas a estimativa é que 3% das crianças apresentem superdotação. A porcentagem é mínima, mas estes casos não são raros e estão presentes na História. Thomas Edison, o inventor da lâmpada, por exemplo, criou a sua primeira arte aos 21 anos, em 1868 – a invenção foi um contador automático de votos. Entretanto, os três modelos descritos pelo pesquisador não são necessariamente apresentados por alguma pessoa superdotada. “Algumas podem desenvolver mais aspectos ligados ao polo da criatividade, outras mais ligadas ao polo do alto comprometimento com a tarefa e outras demonstrar habilidade acima da média em alguma área do conhecimento”, afirmou o psicólogo escolar Adriano Gosuen, especializado em saúde mental e direitos humanos pela Organização Mundial de Saúde.
Isso implica que um superdotado pode ter habilidade em Matemática e ser fraco no estudo de idiomas ou ter interesse em ciências naturais e ser pouco hábil em Física. O que mais marca a habilidade, segundo Gosuen, é a comparação com pessoas da mesma idade. “É o que chamamos de habilidade assíncrona, ou seja, é uma habilidade que apresenta desempenho fora da faixa etária esperada”. Uma criança com alto nível de inteligência está acima de outras crianças da mesma idade, mas em geral, este superdotado tem maior destaque em alguma área. Já pessoas superdotadas com conhecimento em vários temas são uma raridade.
Nos três casos citados, as crianças apresentaram superdotação logo de cara. Apesar das muitas situações terem causado espanto pela faixa etária de cada uma, o psicólogo explica que mesmo assim não existe idade certa para o desenvolvimento da alta habilidade. “Quando a criança está na pré-escola (entre 4 e 6 anos) as características podem ficar mais evidentes, dada a frequência em um ambiente relativamente mais estruturado do ponto de vista da aprendizagem, bem como pelo fato da criança estar em contato com outras crianças de sua idade”, destaca.
É neste momento, normalmente, que as famílias notam a diferença do filho. Houve um caso, contado pelo psicólogo, em que a mãe achou bastante normal a criança falar muito cedo e aprender a ler bastante cedo. Ela só se deu conta da diferença de desenvolvimento do filho quando a criança passou a frequentar a creche.
Mas engana-se quem acha que um superdotado tem vida fácil. Mesmo o bem estar sendo o mais importante que se possa oferecer ao indivíduo com alta habilidade, o comportamento dele torna-se diferente dos demais e causa estranhamento. Isso quer dizer que há uma enorme variedade de personalidades e características pessoais entre os portadores de superdotação. “O relacionamento deles com as demais pessoas, portanto, varia da mesma forma que varia entre as pessoas que não tem altas habilidades. Alguns são mais centrados em si, outros mais direcionados às relações sociais”, conta o psicólogo.
O professor Luiz Puntel se deparou com um aluno superdotado na década de 1990. “Esse meu aluno foi estudar Medicina em São Paulo”, relembra. O professor recorda que, na época, a criança superdotada se apegava rapidamente aos assuntos em sala de aula, mas também se desinteressava depressa. O tema, para a criança, já era conhecido a fundo. “Em aula que eu pudesse discutir gêneros, por exemplo, o aluno superdotado saberia discutir tudo, conheceria coisas que os outros da sala ainda não tinham ideia”,explica.
Para Puntel a criança superdotada precisa de escola especial. E não é por menos. O diagnóstico da superdotação não é essencial, mas se a criança tiver habilidades claramente avançadas para a faixa etária e acima dos colegas, a legislação permite que a criança seja reclassificada em uma turma mais ao nível dela. É preciso levar em conta também a adaptação da criança na nova sala, inclusive do ponto de vista relacional.
“Ela pode ir para turmas mais avançadas, a título de experiência, sentir como se adapta ali e até mesmo pode voltar para sua turma original, caso a experiência não dê os resultados esperados”, afirma o psicólogo Adriano Gosuen.
A escola, seja ela especial ou não, tem o papel de atendar a criança da melhor maneira, de acordo com as possibilidades de desenvolvimento de cada uma. O aluno que apresentar sinais de alta habilidade precisa estar em ambiente acolhedor e rico em oportunidade de desenvolver suas competências. “Isso implica em ser flexível e acolhedora o suficiente para as diferentes crianças que frequentam a escola, entre elas, as crianças com altas habilidades”, acrescentou.
Vale observar como a criança superdotada interage com os colegas de escola e os adultos à sua volta, e, da mesma forma, como ela se porta diante dos mesmos. “[Os superdotados] têm comportamento diferente, tendem a ser arredios, eles parecem desinteressados, como se já soubessem. Eles são diferentes do restante do pessoal da sala”, afirma o empresário e professor Luiz Cláudio Jubilato.
Segundo ele, o aluno superdotado não pode ser tratado da mesma forma que os outros, o que consiste em aplicar desafios a esta criança. “Eu tinha um aluno que não frequentava as aulas e no dia de prova, ele tirava nota 10”, conta relembrando um jovem superdotado que conheceu em 2008 em Ituverava. “Ele achava que não precisava de nada daquilo. Era uma criança arredia, um aluno muito difícil. Professores de História, Matemática tinham dificuldades em mantê-lo em aula”.
O professor se viu, então, tendo que oferecer desafios ao aluno, e conta que precisou fazer com que ele se interessasse pelas coisas, algo que o estimulasse e que confrontasse ele mesmo. Segundo ele, os pais da criança tinham dificuldade em lidar com aquela situação.
O professor afirma que se deparou com outros alunos extremamente inteligentes ao longo da carreira profissional, mas que este foi um caso em particular. “Ele discutiu Guimarães Rosa comigo. Que criança hoje discute isso?”. O jovem hoje vive na capital paulista e estuda Direito na Universidade de São Paulo.
Casos como o dos alunos de Luiz Puntel e Luiz Cláudio Jubilato evidenciam as necessidades especiais de ensino dos indivíduos superdotados. Mas o mais importante, segundo profissionais, é a observação dos pais em relação ao comportamento do filho, para que isso não o afete mais adiante na escola.
Um indivíduo portador de superdotação não é um ‘bicho de sete cabeças’, mas o diagnóstico conclusivo é tão importante quanto o bem estar dele, e isto envolve na frequência escolar a fim de que a criança desenvolva maiores competências e realize atividades complementares nas áreas que ela tiver alta habilidade.
Talento x Superdotação
O indivíduo talentoso tem muita facilidade em determinada atividade, mas apenas uma. Ele mantém alta taxa de concentração nessa atividade. Não possui Quociente de Inteligência (QI) superior — a média é de 100.
Já o indivíduo superdotado tem habilidade em determinadas atividades, sempre mais que uma, principalmente quando envolvem raciocínio. Tem boa memória, vocabulário avançado, facilidade de aprendizagem e autonomia. Possui QI igual ou superior a 130.
Texto: Fernando Belezine (Colaborador)
Fotos: Arquivo Revide