Intimidade com as letras
Patrono da 18ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, o promotor e professor aposentado Sérgio Roxo da Fonseca revela um pouco de sua relação com os livros e com a leitura
A carreira bem-sucedida como promotor indica que a leitura — condição sine qua non para o bom exercício da profissão — sempre fez parte da rotina de Sérgio Roxo da Fonseca. Quando se adiciona às suas atividades profissionais o extenso currículo como professor e a atuação como advogado, a intimidade com as letras se torna ainda mais evidente. O gosto pela leitura o acompanha desde a infância, quando as obras de Monteiro Lobato o ajudaram a descobrir que ler podia ser uma deliciosa aventura. Consolidou-se ainda mais com os livros de Érico Verissimo, que emprestava regularmente da Biblioteca da Legião Brasileira, ilustre vizinha dos tempos de juventude.
O promotor e professor aposentado é o patrono da 18ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que termina no dia 27 de maio e vem trazendo à cidade, mais uma vez, diversos atores principais do universo literário e educacional brasileiros. O convite para ocupar o posto no ano em que o evento completa a maioridade foi motivo de grande alegria e possibilitou um resgate de lembranças antigas, quando a região central da cidade recebia feiras de livros usados, onde Sérgio encontrou algumas das obras que ainda hoje compõem seu acervo.
Permitiu revisitar, ainda, o Parlamento Estudantil, criado pelo professor Lourenço quando Sérgio estava entre os alunos da Escola Estadual Otoniel Mota. Ter feito parte desta iniciativa, de meados dos anos de 1950, foi fundamental para que o promotor aposentado escolhesse, finalmente, o Direito — depois de ter considerado a vida sacerdotal e a Medicina. A volta ao passado aconteceu graças à reunião com antigos colegas em um Salão de Ideias sobre a obra “As veias abertas da América Latina”, do uruguaio Eduardo Galeano.

De que forma recebeu o convite para ser o patrono desta Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto?
Estar pessoalmente acompanhando a Feira é o mesmo que estar envolvido com a história de Ribeirão Preto. O convite causou-me grande emoção.
Acompanhou as edições do evento, que chega à maioridade, até aqui?
A casa de meu pai, durante a minha juventude, ficava na Praça XV de Novembro. Naqueles tempos, por volta de 1950, acompanhei a instalação de feiras, quase sempre de livros usados, colocados defronte do Teatro Pedro II. Não havia planejamento público, mas havia feiras bem modestas de livros raros. Tenho alguns então adquiridos de literatura portuguesa. A fisionomia das atuais feiras, definidas especialmente por Galeno Amorim, Isabel de Farias e Adriana Silva, deu resposta à modernização da cidade e às reivindicações dos leitores. Melhor dizendo, foi ao encontro das reivindicações da tão brava e leal cidade de São Sebastião de Ribeirão Preto.
Está mais próximo dos organizadores em 2018? Quais são suas atividades como patrono?
A organização da nossa Feira atingiu todos os setores, universalizando o conhecimento, abrindo portas para todos os pontos cardiais do conhecimento. Ribeirão Preto é, também, uma cidade universitária, vale dizer, que a Feira tem o dever de olhar para todos os pontos cardiais mirados para o conhecimento científico, ombreando-se com a idade de todos os leitores.
Sua relação com os livros começou cedo? Quais são suas primeiras lembranças nesse sentido?
Guardo até hoje a minha primeira cartilha. Fui alfabetizado pela Cartilha Sodré, que, como disse, guardo exemplar que é consultado frequentemente, não só para matar saudades. Mais ainda, tenho comigo o meu primeiro caderno escolar quando então comecei a lidar com as palavras escritas pela humanidade.
Algum autor, especialmente, selou sua relação com a literatura definitivamente?
Aprendi a gostar de ler pelos livros de Monteiro Lobato.
Quais autores se tornaram bons companheiros durante a juventude?
Tive a oportunidade de ler quase todos os livros de Monteiro Lobato e de Érico Verissimo, especialmente porque residia bem próximo da Biblioteca da Legião Brasileira.
Até que ponto as obras lidas nas diversas fases da vida — em alguma, em especial? — ajudaram a definir quem o senhor se tornou?
Passei os primeiros anos da minha adolescência internado no Seminário Menor de Ribeirão Preto, que ficava defronte do prédio onde está instalado o Hospital São Francisco. Eu estava estudando para ser padre. Os alunos passavam quase todo o dia em silêncio, rezando ou estudando. Li um número enorme de livros contendo ensinamento religioso. Até hoje estudo constantemente livros religiosos. No início do ano, estive visitando o deserto que Moisés e seus seguidores cortaram a pé no rumo da Terra Prometida. Estive nas ruinas de “Petra”, onde Moisés enterrou seu irmão, Araão. Visitei o Monte Nebo de onde Deus autorizou Moisés enxergar a cidade de Jericó, antes de encerrar sua vida. Procuro encontrar nesses livros e nessas viagens a chave de um mundo que ainda não consigo compreender inteiramente. Faço força para encontrar as chaves do conhecimento.
A escolha pelo Direito está intimamente ligada ao gosto pela leitura?
Primeiramente, como disse antes, passei o início de minha adolescência internado no Seminário Menor de Ribeirão Preto. Queria ser padre. De lá saí quando foi instalada a Faculdade de Medicina. Passei a dizer que iria ser médico. Estava estudando no Otoniel Mota, que chamávamos de Ginásio do Estado, quando o professor Lourenço criou o Parlamento Estudantil. Os alunos — nem todos, mas quase todos — dirigiam-se para o Otoniel Mota no sábado para participar do Parlamento. Passaram por lá, entre outros, o procurador do Estado Feres Sabino, o juiz Rubens Ely de Oliveira, o grande médico Sérgio Arouca, o ministro Sidney Benetti, o desembargador Luis Antônio Rodrigues da Silva, o deputado Orlando Cunha, o jornalista Vicente Golfeto e tantos outros. Discutíamos livremente os temas do nosso tempo. Um deles, eu bem me lembro, foi a extensão do direito do analfabeto votar. Até então, os analfabetos não tinham direito ao voto no Brasil. Registro que a imprensa acompanhava nossos debates. Saí do Parlamento acreditando que havia encontrado a minha vocação. Fui fazer Direito. Tornei-me professor, advogado e promotor de Justiça. Acredito que fiz o máximo que o meu fôlego suportou.
Fora da literatura diretamente vinculada ao exercício da profissão, qual (ou quais) obra recomendaria a quem deseja seguir seus passos profissionais?
Tanques e Togas, de Felipe Recondo; Raízes do Conservadorismo no Brasil, de Juremir Machado da Silva; Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano.
A atuação como professor também está intimamente relacionada à sua realização profissional e pessoal?
Com toda certeza. Comecei a dar aulas nos cursos da Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP) em 1964. Sou professor velho de guerra. Encerrei minha carreira como livre docente da Faculdade de Direito da UNESP, de Franca, e coordenador da Faculdade de Direito do COC, de Ribeirão Preto..
Por quantos anos desempenhou a atividade e por que parou?
Fui professor durante 50 anos. Aos 70 anos, na minha época, os professores eram defenestrados, mandados para cascos de rolha, segundo a linguagem de Cervantes. Afirma-se que o Brasil tem tantos professores que os mais velhos são mandados para casa. Parei por imposição legal.
Quais foram os grandes professores que teve na vida? Neles buscou inspiração?
No primário: dona Petita Costa; no secundário: Lucy Julião, Lea Florianete, professor Lourenço, Dinho Sareta; no nível universitário: Celso Antônio Bandeira de Melo, Lúcia Vale Figueiredo, Amilcar de Araújo Falcão, Arnold Wald e Afonso Arinos de Melo Franco.
A profissão também o transformou em autor? Quais obras já publicou ou contam com a sua participação?
Conceitos Jurídicos Indeterminados, Princípios de Direito Administrativo e A Verdade do Ser.
Escreve também por prazer? A que estilos se dedica para essa finalidade?
Sim. Gosto de transformar em palavras o que penso de mim e do mundo. Coleciono palavras e as histórias das palavras.
Há projetos literários de sua autoria em andamento nesse momento?
A historiadora Tânia Registro e eu estamos desenvolvendo pesquisas sobre a História de Ribeirão Preto.
Hoje em dia, o que gosta de ler?
Borges, Pessoa e pesquisas históricas.
Um relatório sobre a crise mundial de aprendizagem divulgado este ano sugere que os brasileiros levarão 260 anos para atingir o nível de leitura dos países desenvolvidos. Qual sua opinião sobre isso?
Não conheço a origem da pesquisa. Segundo minha percepção, os brasileiros estão avançando rapidamente no amor aos livros.
Acredita que eventos como a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto contribuam para mudar estimativas como essa?
Não só acredito como tenho firme certeza, bastando ver os resultados positivos colhidos pela Feira de Livros.
Imagina que os livros ainda tenham espaço no mundo contemporâneo, apressado e instantâneo?
Os livros, que começaram a ser escritos nas cascas de árvore — razão pela qual damos a suas páginas o nome de “folhas” —, não poderão ser substituídos por nenhum aparelho elétrico ou eletrônico.
Bate-bola literário:
O livro que, de certa forma, mudou sua vida:
a Cartilha Sodré, escrita por Benedicta Sthal Sodré.
Um escritor obrigatório na vida de qualquer pessoa:
Confissões de Santo Agostinho.
O autor que mais revisitou a obra:
Fernando Pessoa.
A obra que mais releu por prazer:
os poemas de Fernando Pessoa.
A que ocupa sua cabeceira hoje:
Obras Completas de Jorge Luis Borges.
Um livro que gostaria de ter escrito:
O Som e a Fúria.