Irreverência francesa

Irreverência francesa

Jean Paul Gaultier mistura ícones tradicionais com uma perspectiva moderna

Não são poucas as criações que ficaram eternizadas pela assinatura de Jean Paul Gaultier, porém duas delas funcionam como verdadeiros cartões de visita do estilista: as malhas de listras ao estilo Breton e os sutiãs em formato de cone usados pela cantora Madonna. Porém, o francês vai além e, em 40 anos no mundo da moda, já quebrou várias regras e fixou sua imagem de irreverência em muitos traços.

Gaultier iniciou sua carreira enviando, por correio, desenhos para estilistas famosos. Mesmo sem ter educação formal  como desenhista, foi contratado como assistente de Pierre Cardin, que ficou impressionado com o talento do menino de 18 anos. Enquanto trabalhava com Cardin, o namorado de Gaultier, Francis Menuge, o encorajou a fazer sua própria linha de prèt-a-porter. Assim, em 1976, a primeira coleção individual do estilista foi apresentada, no planetário de Paris.

Para a confecção da coleção, Gaultier mobilizou amigos e familiares: a prima tricotou os suéteres, o porteiro do prédio ajudou com as costuras, Francis fez os acessórios e cuidou das burocracias. De maneira imprevisível, foram usados motivos icônicos da moda, como a estampa toile de jouy, jaquetas de motoqueiro e figurinos de balé. As modelos usavam vestidos feitos com jogos americanos, lonas e estofos, e jaquetas biker combinadas com tutus. Desde então, é desta forma irreverente que Gaultier tem apresentado seu trabalho.

No começo dos anos 80, o francês foi chamado de “enfant terrible” da moda. Ele foi um dos primeiros criadores a polemizar sobre a questão de gêneros, ao fazer saias, especialmente kilts,  para homens. Também causou grande impacto nos desfiles ao usar modelos pouco convencionais, como homens idosos e mulheres gordas, modelos tatuadas e com piercings, entre outras excentricidades.

A década de 1990 marcou a história do estilista por dois motivos: a morte de seu maior incetivador, Francis, e o início da confecção de trajes para Madonna, ao vesti-la em sua turnê “Blond Ambition”, momento em que consagrou os sutiãs em formato de cone. Ainda no quesito figurinos, apresentou seu trabalho em filmes como “O Quinto Elemento”, de Luc Bresson, “Kika” e “A pele que habito”, de Pedro Almodóvar, e “O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante”, de Peter Greenaway; para as turnês de Marilyn Manson e Kylie Minogue; e colocando Dita Von Teese e a vocalista do “The Gossip” Beth Ditto em sua passarela.

Gaultier também expandiu sua atuação ao universo da perfumaria. Irreverentes como sua moda, as fragrâncias quebram paradigmas. Sua maior inspiração são o corselet rosa e a camisa de marinheiro, ícones usados nos frascos de Classique e Le Male. O mix de perfumes foi reforçado com o lançamento do Ma Dame em 2009. Além dos perfumes e de suas coleções de roupas, durante sete anos, Gaultier também desenhou para a Hermès, porém, no ano passado foi anunciado o seu desligamento da marca francesa. Gaultier segue como diretor criativo da grife que leva seu nome.

Gaultier na telona
Dirigido pela ex-modelo muçulmana Farida Khelfa, o longa “Jean Paul Gaultier — Quebrando Barreiras” traz imagens de arquivo, desenhos feitos por Gaultier na infância e vídeos do seu primeiro desfile. Jean Paul relembra sua vida, a infância, um pouco da adolescência, os primeiros contatos com a indústria da moda e da alta costura. O documentário é iniciado com o último desfile da grife Hermès assinado por Gaultier. A partir daí, a história do protagonista é contada através relatos bem-humorados que dividem a cena com outros mais tocantes, do próprio Gaultier, e preciosas imagens de arquivo. Um dos pontos altos do filme é uma conversa com a primeira-dama francesa Carla Bruni, em que os dois conversam sobre iniciativas de combate à Aids, doença que matou o grande amor da vida de Gaultier, Francis Menuge.


Fotos: Júlio Sian.
Produção de Moda: Pamella Turatti, Marcela Versiani e Marina Casemiro.
Modelo convidada: Daniella Castaldelli, consultora

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