Já tocou o sinal!
Desafiadora a profissionais e alunos, volta às aulas é carregada de expectativas; para as escolas, é hora de preparar a recepção dos estudantes e, para eles, o momento é de novos desafios
Tanto quanto as páginas dos cadernos, o ano letivo ainda está em branco, pronto para ser retomado: dias de estudo, convivência, desafios e adaptações preencherão as próximas semanas de aula, que já são motivo da ansiedade de estudantes e profissionais da Educação.
Helena Bombig Marzola, de 17 anos, concluiu o terceiro ano do Ensino Médio no Liceu Albert Sabin e agora se prepara para ingressar em um cursinho. A estudante, que sonha em cursar Medicina no campus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), já está preparada para retomar os estudos e confessa: até sente falta da rotina. “Quando entrei de férias, fiquei relaxada, agora estou com saudades. Os primeiros dias de aula são os melhores, porque você conhece professores, as matérias”, afirma.

Ela, que se dedicou ao vestibular no ano passado, mas ainda não conseguiu garantir a vaga para a faculdade, aconselha os estudantes que estão às vésperas de prestar o exame. “Nunca dei muita atenção ao vestibular. Se eu pudesse voltar no tempo, teria estudado mais no primeiro e segundo ano do colegial. Por isso, digo: estude desde o começo, pois a escola vai determinar o que seremos na vida. Ela está aí tanto para me formar como pessoa social quanto intelectual. Espero passar na Fuvest [vestibular da USP] e ser muito feliz lá dentro”, diz.
Alternativas
Neste período de retomada, uma das saídas para abrandar as sensações de medo e insegurança está nas atividades integrativas realizadas pelas instituições de ensino. Elas consistem em ações que engajam os alunos, proporcionando leveza à responsabilidade que vem pela frente. “Abrimos espaço para a colaboração, sustentabilidade, metodologias inovadoras, para as diferentes linguagens, fluência digital e empreendedorismo, com aulas de educação financeira a partir do Ensino Fundamental I, além de aulas diárias em inglês para todos os níveis. Tudo isso está alinhado às tendências mundiais, o que possibilita o cumprimento da nossa missão de formar indivíduos críticos, éticos e responsáveis”, afirma Mônica Valéria de Almeida Righi, diretora geral da escola SEB.

Mônica explica que, na semana anterior ao início das aulas, há um momento em que alunos do Ensino Infantil e Fundamental I são chamados à escola com os pais. Assim, conhecem os novos professores, a sala e aproveitam para fazer novas amizades. Já o primeiro dia de aula é separado em duas etapas: alunos do Maternal, 1º e 6º ano recebem atenção diferenciada, enquanto o segundo dia é reservado aos demais, que são estimulados a desempenharem uma série de atividades integrativas. “Como somos uma escola associada à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), fazemos atividades de cunho socioemocional entre alunos, professores e colaboradores, de tal forma que todos possam se sentir parte do grandioso momento que é o início de um ano letivo”, ressalta.
Professor há quase 42 anos, João Angelo Mucke, mais conhecido como Gepê, diretor do Liceu Albert Sabin e responsável pelo Ensino Médio e Pré-vestibular da escola, é um dos que se prontifica a ficar em frente ao colégio no retorno às aulas, como forma de criar uma identificação com os alunos e mostrar a eles que a experiência dos três anos marcantes, segundo ele, pode ser bem positiva. Mensalmente, os estudantes fazem simulados com 90 questões, a fim de treinar para vestibulares como da Fuvest e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Não queremos que alunos funcionem como uma máquina, mas que percebam que, em pouco tempo, serão submetidos a grandes avaliações. Esse processo deve estar atrelado ao acolhimento. Quando o adolescente está convencido de que aquilo que foi feito é interessante, você ganha um aliado, e existem várias estratégias que podem ser utilizadas durante o ano a fim de pensar em cada caso”, destaca.

Margaret de Oliveira Guimarães, diretora da unidade Infantil e Fundamental do mesmo colégio, explica que qualquer planejamento para este início deve ser realizado a partir da adaptação às necessidades de cada segmento. A recepção dos alunos é feita com o conhecimento da sala e os novos pais são entrevistados, a fim de que conheçam mais sobre a maneira de “ser e agir dos filhos”. “O aconchego, o conhecimento do espaço e das pessoas que lidarão com eles são essenciais, preparando-se, assim, as atividades iniciais de entrosamento e socialização dos alunos, priorizando-se a inserção dos recém-chegados à escola”, conta.

No ensino público, as iniciativas também são semelhantes. Mesmo com todas as limitações de espaço e profissionais para atender à demanda, a Escola Estadual Prof. Alcides Corrêa proporciona várias tarefas de integração para fazer com que o aluno se sinta parte do ambiente de aprendizado. “As atividades são pensadas para serem de responsabilidade de todos. Acolhemos sem juízo de valor. Este ano, os alunos do 3º ano receberão os do 9º ano. Eles mostram a escola e questionam o que esperam dela. Queremos despertar neles o sentimento de pertencimento e, assim, criar vínculos com o ambiente. Precisamos, também, entender o que acontece dentro da sala de aula, com cada aluno, pois vários têm histórias de vida tristes”, afirma a diretora da unidade, Ana Luísa Landi da Cunha.
“Eu fico muito ansiosa e com saudade de todos. Gosto de ajudar os alunos em sala de aula, explicar uma conta matemática. Espero que este começo seja extraordinário e que sempre a escola melhore”, afirma Constanzia Antonia Guimarães Saretta, aluna nessa escola que irá para o 8º ano.

O coordenador do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio do Colégio Santa Úrsula, Fernando Lomas, salienta que a integração da unidade de ensino com o aluno se dá naturalmente. “Eu entendo que o compromisso que a escola tem com ele faz toda essa diferença. Temos a necessidade de, a todo momento, dar segurança para esse aluno, não só no sentido pedagógico, mas, também, no sentido pessoal, com segurança emocional, trabalho de relacionamento de grupos com professores e funcionários. O aluno deve perceber que existe preparação, uma equipe trabalhando em prol de seu conforto, e isso cria vínculo”, diz.

Para Octávio Antonio Jordan Volpe, aluno que irá para o 9º ano, a expectativa para o ano letivo que se inicia vem impulsionada por um objetivo extra: fugir da recuperação. “Vou ter que estudar Química e Física e estou ansioso. Também estou na expectativa para saber se meus amigos estarão na mesma sala, se vai voltar tudo à rotina normal. Penso que a escola é uma forma de viver em sociedade”, conclui.

Inimigo da convivência
É comum, no início do ano letivo, a chegada de alunos de outras escolas ou cidades. Por estarem, inicialmente, em adaptação, podem, também, ser vítimas de bullying. O termo se refere à prática de atos violentos ou violência verbal, cometidos com repetição e intencionalidade, contra uma pessoa. As consequências às vítimas podem ser tanto físicas quanto psicológicas e o papel da escola é de assumir postura vigilante, coibindo que ações dessa natureza ocorram dentro do espaço de aprendizado.
A Lei 13.663/2018 determina que seja atribuída à escola a promoção da cultura da paz, além de medidas de conscientização, prevenção e combate a diversos tipos de violência — entre eles, o bullying. Um em cada dez estudantes brasileiros é vítima do ato, que geralmente ocorre em ambiente escolar. O dado foi divulgado pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2015. “Temos alto índice de bullying em escolas. O papel da instituição é ficar atenta neste reinício, porque crianças que não praticavam o ato podem vir a fazer. Também é importante prestar a atenção nos novos alunos, para saber se sofrerão uma pressão ou a aplicarão em outros. O professor deve observar se aquele estudante é mesmo quieto, ou se está quieto. Os pais ainda precisam estar de olho, pois uma criança que sofre bullying, de maneira geral, reage não querendo ir à escola ou tem mau desempenho escolar”, explica a psicóloga Camila Matias.
Diretora geral da escola SEB, Mônica aposta no engajamento de alunos e corpo docente para banir qualquer ação nesse sentido. “Mantemos projetos de conscientização, prevenção e trocas de experiências, dentre eles valores em família, com a participação dos pais e profissionais convidados, alunos, professores, coordenadores e direção”, reforça.
Na Escola Estadual Prof. Alcides Corrêa, a diversidade está representada, seja entre alunos de cabelos coloridos ou roupas rasgadas, de forma bem acentuada, segundo a diretora. A equipe de coordenação da unidade age pontualmente para combater casos de discriminação e, se há uma proporção maior do problema, os profissionais vão para a sala de aula. “Fazemos um trabalho junto com a ronda escolar, que faz um serviço de prevenção e esclarecimento. Um policial entra em sala de aula, lê a legislação, explica, não no sentido de oprimir, mas de ensinar. Tivemos um caso de um aluno autista e precisamos ser firmes questionando os estudantes para saber se tinham noção do que era isso. Colocamos a sala toda para pesquisar o tema e, depois, apresentar numa roda de trabalho. Deu muito resultado”, destaca Ana Luísa.

A função de uma professora mediadora também pode contribuir para um ambiente harmônico. “É um projeto implantado nas escolas estaduais há um bom tempo e vejo que tem dado resultado. Você se depara com situações da realidade do aluno. Trabalhamos muito a prevenção. No retorno às aulas, é sempre bom colocar as regras e mostrar para eles a importância da escola”, afirma a mediadora Eloísa Cristina Negrão.

Sem limites para sonhar (e estudar)
Aos 91 anos, a rotina de Carlos Augusto Manço é como a de muitos jovens por aí. O dia começa às 4h30, quando ele toma um café e inicia a rotina de estudos. À tarde, faz pilates e, à noite, cursa Arquitetura e Urbanismo, no Centro Universitário Barão de Mauá. O senhor simpático e sorridente de cabelos brancos mostra que a idade não é impedimento para alçar voos. Fez curso de desenhista e, com esta função, trabalhou por cerca de 10 anos no Departamento de Engenharia da USP. Também passou pelo Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão Preto (Daerp). Hoje, quando muitos diriam que é hora de parar, ele mostra que não existe idade para aprender, não.
Há cerca de um ano, Carlos se preparava para seu primeiro dia de aula. Ele chamou a atenção de vários jornais do país ao contar sua história e mostrar que, para estudar, basta apenas força de vontade. “Era um velho em meio à molecada, mas todos me receberam bem e essa situação melhora o espírito da gente. Os professores me dão muita atenção e me incentivam, também”, reforça.
O aluno, que não reprovou em matéria alguma em 2018, pretende continuar focado nos estudos e está ansioso para que 2019 venha com muitas novidades. “Nas últimas provas, eu tirei nota quatro. Fiquei espantado, no meu tempo quatro era nota ruim, menos da metade. Ali na escola, é normal. Agora, estou curioso para saber o que vão ensinar neste ano. Dizem que é um pouquinho mais folgado, porque o ano passado foi apertado”, lembra, aos risos.
Carlos quer concluir o curso, mas não almeja ocupar a vaga de nenhum jovem, como ele explica. Quer apenas trabalhar, por exemplo, como auxiliar de escritório, ajudando em algum projeto. “Eu converso muito com a molecada, de vez em quando falo para que não empurrem o lápis, mas que puxem. E que usem sempre um lápis mais consistente”, brinca.
Quando perguntado sobre o que espera para o novo ano, o universitário diz que quer agilizar os estudos. “Meu sonho era reduzir esses cinco anos para três. A faculdade é flexível quanto aos atrasos e essa facilidade incentiva a me dedicar mais. Essa experiência também ajuda a evoluir meu sentimento de convivência com os alunos, porque é preciso cativá-los. Um moço novo não tem a mesma ideia que um velho tem”, finaliza, animado com o que ainda vem pela frente.

Combate à ansiedade
Segundo a psicóloga Camila Matias CRP: 06/67.221, há muitas escolas que preparam os alunos apenas para fazer provas, contudo, falta preparo para que lidem melhor com a ansiedade e a frustração. A carga, em certos momentos, é pesada, com pressão para todos os lados. “Além do preparo técnico das aulas, eu oriento, também, o lado emocional, a lidar melhor com as expectativas, não só da prova, mas de não conseguir resolver um exercício. Meu conselho é que cada um perceba seu funcionamento. Faça uma coisa de cada vez, busque contato consigo mesmo ou o componente emocional pode por tudo a perder”.
No artigo científico intitulado “Ansiedade na adolescência”, Ênio Brito Pinto enfatiza que uma vida sem ansiedade é impossível e um dos pontos para entender o conceito desse sentimento é saber diferenciar a ansiedade normal e a ansiedade patológica. A normal seria aquela inevitável diante da possibilidade de algo. Uma ansiedade utilizada para proteger ao atravessar a rua ou, até mesmo, separar um traje para uma reunião importante. Em contrapartida, a ansiedade patológica pode ser entendida, em linhas gerais, como desproporcional à ameaça presente.

Let's go!
A volta às aulas não está restrita a quem retoma a rotina diária das disciplinas corriqueiras. É tempo, também, de retomar as atividades específicas, como as aulas de inglês. E como desenvolver ações que estimulem o aprendizado dos alunos? Esse desafio é encarado por Rafael Bianchi, diretor da Hopeland English Academy, escola de idiomas instalada em Ribeirão Preto.

Segundo ele, os estudantes precisam ter vontade de estar na escola e isso permite resultados práticos, pois não é possível ensinar inglês apenas na teoria. “A escola cria possibilidades para que os alunos se conectem com a língua e desenvolvam uma relação emocional positiva com ela. Isso acontece em momentos de convivência propostos pela escola, como nosso acampamento de inverno, celebrações festivas sazonais e em situações em que os estudantes têm a oportunidade de usar a língua como um instrumento, seja em uma viagem internacional ou em um processo de seleção para uma vaga de emprego, por exemplo”, diz.
De acordo com Rafael, a aprendizagem se consolida quando há estímulo ao cérebro para empenhar esforço cognitivo na realização de atividades práticas, que façam sentido e que tenham um propósito claro, principalmente para as crianças.
Texto: Bruna Romão
Fotos: Ibraim Leão, Júlio Sian e Luan Porto