Japão à brasileira
Conheça algumas das tradições ainda preservadas em Mombuca, colônia japonesa localizada em Guatapará
O lugar não tem nenhuma sofisticação, não possui uma arquitetura típica e não revela seus segredos a olhos nus. No entanto, basta um passeio por Mombuca, a colônia oriental localizada a pouco mais de 40 quilômetros de Ribeirão Preto, em Guatapará, para perceber que lá realmente existe um pedaço do Japão. A fala dos moradores, quando não surpreende com um idioma estranho aos ouvidos brasileiros, revela um sotaque carregado, característico de quem nunca perdeu o contato com a língua mãe. Os trejeitos, contidos e um pouco tímidos, tornam-se ainda mais comuns quando se entra na Associação Agro-Cultural Esportiva de Guatapará, responsável pela administração da colônia e pela organização de todas as manifestações culturais e esportivas da localidade.
A Associação é a responsável, por exemplo, pela Festa de Aniversário e Colheita de Mombuca, que já tem data marcada em 2013: acontecerá nos dias 13 e 14 de julho. Quem antecipa o planejamento é um dos diretores da entidade, o issei — forma como é chamado o japonês que imigrou no Brasil — Kizuki Nitta. “Mandamos os convites para as autoridades japonesas no país desde agora e nos preparamos para receber os visitantes da melhor maneira possível”, garante o morador de Mombuca.
Segundo o diretor, hoje cerca de 100 famílias vivem na colônia, que tem sua origem datada em outubro de 1962. “Muita gente pensa que os imigrantes de Mombuca vieram para cá no famoso navio Kasato Maru, um marco do início da imigração japonesa no Brasil. Mas, na verdade, mais de 50 anos nos distanciam dos pioneiros”, explica Nitta. A confusão é reforçada por causa de uma coincidência: de fato, uma parte das primeiras 165 famílias que desembarcaram no Porto de Santos, em 1908, veio para a região de Ribeirão Preto — muitos deles, para trabalhar na fazenda Guatapará, uma das maiores produtoras de café da época, que também deu origem ao município de mesmo nome e à colônia oriental. No entanto, os moradores de Mombuca vieram em uma situação bem diferente: saíram do Japão no período pós-guerra com destino certo: uma área adquirida pela Japan Migration and Colonization (Jamic), uma empresa do governo japonês especializada em imigração.
Portanto, os pioneiros da colônia deixaram o país de origem com uma terra própria, onde poderiam reconstruir a vida. Trouxeram na bagagem todos os membros da família e suas expertises. A criação de bicho da seda e a plantação de arroz, milho, hortifrútis, por exemplo, foram alguns dos negócios que passaram a ser desenvolvidos na terra. Conhecidos pela dedicação ao trabalho, os japoneses de Mombuca não tiveram dificuldades para assumir as glebas e produzir, orientados pela Coperativa de Cotia, que chegou à colônia no ano de sua fundação, mas já foi desativada.
A adaptação ao novo país aconteceu naturalmente. Hoje, a comunidade já convive com um elevado número de brasileiros na vizinhança. A fonte de renda do lugar também mudou. Apesar de ainda haver alguns produtores de flor de lótus, tipicamente oriental e símbolo do budismo, e shimeji, um cogumelo que faz sucesso na culinária japonesa, boa parte dos moradores de Mombuca já se rendeu à cana-de-açúcar. Outra força econômica são as granjas, segmento em que Mombuca se destaca como a maior produtora da região, mas, como explica Nitta, as glebas antes dedicadas ao bicho da seda agora produzem matéria-prima para as usinas da região.
Este é o caso de Hiroshi Kishita, que atualmente se ocupa dos afazeres da Associação Agro-Cultural Esportiva. Antes, passou pela criação do bicho-da-seda e pela produção de ovos de codorna, mas decidiu arrendar sua área para a cana há sete anos. Aos 60 anos, vive sozinho em Mombuca, já que a família — a mulher e os três filhos — voltaram ao Japão em busca de melhores oportunidades de trabalho. “Isso já faz 12 anos. Eu fiquei porque precisava cuidar da minha mãe, já velhinha. Agora, não vou mais, pois não há melhor lugar para se viver do que o Brasil”, garante seu Hiroshi, sem perder o sorriso e o brilho nos olhos.
A simplicidade é uma característica comum na colônia, traduzida nas construções simples, nas ruas por asfaltar e, principalmente, no jeito dos moradores, que aceitam conversar e dividir suas histórias, mas não gostam das fotos. “Assim está bom”, defendem eles. Apesar de preferir não mostrar sua produção de shimeji, Ichiro Okada contou que, nos últimos anos, mudou algumas vezes de cultura. Desistiu do arroz, não deu muita sorte com o alho e, há cinco anos, produz o cogumelo, que entrega diretamente a restaurantes e a supermercados de Ribeirão Preto. São Aproximadamente 3 mil pacotes por mês. Das três filhas, apenas uma está de volta a Mombuca.
A saída das novas gerações é uma constante na Colônia. “Jovem não gosta dessa paradeira”, explica Shigueko Mogui, proprietária da mercearia de Mombuca. Dos seus cinco filhos, apenas um permanece na vila. O mais velho, Francisco, assumiu os negócios da família, que incluem um espaço dedicado a produtos japoneses no Novo Mercadão, em Ribeirão Preto. Bastante comunicativa para os padrões do lugar, Shigueko revela que dois filhos estão trabalhando no Japão, um acabou de retornar de lá e a filha, já casada, mora na Grande São Paulo. “Quem conhece esse mundão não quer mais essa vida pacata que a gente leva”, avalia a comerciante, que tem como maior preocupação atual os cuidados com a sogra, já idosa. O respeito e a dedicação aos mais velhos, aliás, é um dos valores importados do Japão que permanecem intactos.
Mombuca revisitada
Mais do que a descendência japonesa, Hiroshi, Ichiro e Shigueko têm outro fato em comum que se relaciona, inclusive, com a história da Revide. Há 27 anos, o jornalista Delcy Mac Cruz fazia a primeira reportagem do veículo sobre a colônia e foram esses mesmos personagens, entre muitos outros, que ajudaram o repórter a construir a matéria. Com a proposta de reencontrar algumas dessas histórias, a equipe da revista voltou à vila em Guatapará para contar novamente essas histórias.


As mudanças são muitas. A começar pelo volume de habitantes. Se no final da década de 1980 contabilizava-se cerca de 130 famílias, hoje são apenas 100. Muitos faleceram e outros foram tentar a vida em outro lugar. Na economia, percebe-se que as cerca de 10 culturas produzidas, em Mombuca, à época estão reduzidas a duas de maior expressão: as granjas, que já tinham força há quase 30 anos, e a cana-de-açúcar, que também tomou conta do lugar.
Ichiro, que hoje tem 58 anos, não fiscaliza, como antes, a produção diversificada dos 40 hectares. Produz shimeji, mas confessa que a cultura não é nada fácil. “Não traz muito lucro”, reclama de maneira divertida. Já seu Hiroshi, por exemplo, que era o único produtor de codornas naqueles tempos, também rendeu-se à cana. Ele é o pai do garoto que ilustrou a capa da edição de outubro de 1986, Lucas Kasushi, que atualmente mora e trabalha no Japão ao lado do resto da família.
Culturalmente, os mais velhos continuam tentando manter algumas tradições. O idioma, entre os adultos, é falado normalmente em todos os ambientes. Aos mais novos, a língua japonesa é ensinada às sextas e aos sábados. Na Associação, também há um campo de “gateball”, jogo que surgiu no Japão na década de 1940 e se tornou tradição no país de origem. Inicialmente criado para divertir as crianças, passou a ser muito praticado também por idosos e são, principalmente, os moradores mais antigos de Mombuca que praticam o esporte.
Saúde e dança
Apresentadas à reportagem por dona Shigueko, a única que se manteve no mesmo negócio nas últimas três décadas, as senhoras de Mombuca mostraram como mantêm a saúde em dia e as tradições vivas. Uma noite por semana, reúnem-se na Associação para uma sessão de “bon-odori”, dança típica, quase folclórica, do Japão. “São muitos estilos e ritmos, mas em comum as danças japonesas têm uma delicadeza típica, além de valorizarem bastante os gestos e o olhar”, explica dona Shigueko, enquanto ajuda Sachiko Fujiwama a vestir o kimono para mostrar. As senhoras, que têm entre 50 e 70 anos, estão habituadas a apresentarem as coreografias em eventos e outras associações nipo-brasileiras, mas não perdem o jeito tímido e recatado na hora de posar para as fotos.
O grupo conta que a dança também as ajuda a garantir longevidade. Cuidam da saúde com exercícios e com os ensaios que, além de representarem um resgate das tradições, também são uma excelente forma de socialização. “Não temos muitas opções em Mombuca, então, fazemos questão de nos reunir para os ensaios. Na Associação, também nos reunimos para as noites de karaokê e tem uma turma que até participa de campeonatos em outras cidades”, relata Shigueko, reforçando que as músicas cantadas são em japonês.
Entre mulheres de estatura baixa, jeito semelhante e fisionomia parecida, Mitio Saeki destoa da turma. Mais jovem, ela conta que não nasceu em Mombuca, apesar da descendência japonesa, mas já vive no lugar há sete anos em função do casamento. “Aqui, as tradições estão mais vivas do que em outras comunidades nipo-brasileiras que eu conheço”, garante Mitio. O grupo é formado por 15 mulheres, que reforçam que algumas estão deixando de ir aos ensaios noturnos em função do medo de assaltos. Segundo as senhoras, a criminalidade na pacata vila, que não tem muitos estabelecimentos comerciais, aumentou assustadoramente nos últimos anos.
Texto: Luiza Meirelles | Fotos: Julio Sian