Jovens e a política

Jovens e a política

Falta de educação para a política, na escola e em casa, associada à falta de credibilidade no sistema político e de cultura político-partidária gera desinteress

Escândalos políticos, denúncias de corrupção, mensalão, propinas, processos parados na justiça desacreditam, cada vez mais, sobre a importância do exercício da democracia para o país. No caminho do desânimo também estão os jovens, que aprendem as lições de cidadania de uma forma incoerente, na maioria das vezes, tendo conhecimento apenas das irregularidades no setor público. “Política é um assunto pouco comentado entre a maioria dos jovens. Eu mesma apenas me lembro quando chega o período de eleições. Com tantos escândalos, fica difícil acreditar em uma melhora, e por não confiar mais, deixo passar e volto a me lembrar só na outra votação”, admite a estudante Nayara Motta.

Para o consultor político Luiz Rufino, os jovens não são educados para a vida pública, o que auxilia no desinteresse pela política. “Nossos jovens não são educados nem pelos pais e nem pelas escolas para a vida pública, para o trato público, para a política. E tem mais, há um consenso de que política não se discute que coloca qualquer possibilidade de aproximação da mesma num limbo”, explica Rufino.

De acordo com especialistas em ciências sociais, o movimento estudantil ainda é minoria no país. O engajamento estudantil nos anos onde a política era um dos assuntos mais abordados refletia a sociedade da época, insatisfeita com o regime político. Para os pesquisadores, a falta de interesse da maioria dos jovens hoje na política, também é reflexo da falta de cultura político-partidária dos brasileiros.

Ainda segundo os especialistas, três fatores são preponderantes para o desinteresse dos jovens em relação à política: a falta de credibilidade no sistema político e seus participantes, o sentimento de impotência de alguns cidadãos para mudar a política e o individualismo, que faz com que parte da população se lembre de seus governantes somente na hora do voto. “Os jovens precisam entender que a infelicidade daqueles que não se interessam por política é serem governados por aqueles que se interessam. É necessário que gestões públicas se ocupem de criar canais de acesso que permitam que os jovens sejam ouvidos e que participem de decisões públicas. Mas fica difícil fazer isso com uma juventude que só enxerga defeitos”, completa Rufino.

Mas nem todos os jovens trilham o caminho do desinteresse político, em alguns pontos do país muitos se mobilizam para cobrar mudanças diretamente na política pública ou organizam ações sociais para investir num futuro consciente, geralmente, isso acontece em universidades ou em projetos sociais.

A estudante de Relações Internacionais, Laura Bimbato, por exemplo, está escrevendo um projeto de Iniciação Científica, com base na ascensão de lideranças femininas na América Latina. O projeto consiste em analisar as mulheres no poder, a exemplo Bachelet no Chile, Kirchner na Argentina e, Dilma no Brasil. “Existem várias portas de entrada para a política, jovens das periferias, por exemplo, ao sentirem na pele e no cotidiano esta deficiência, acabam entrando na política para combater e melhorar a realidade em que vivem. Outra, e importantíssima, porta de entrada é a base familiar. Um jovem que tem na família interessados também pelo assunto, onde haja discussões e reflexões, pode se tornar um jovem ativo na política”, conta Laura.

Para o estudante de Comunicação Social, Fábio Sardinha, os jovens aprendem a conviver com a política a partir de pequenos aspectos do cotidiano. “Acredito que todo jovem que se organiza para buscar mudanças coletivas participa de um ato político, desde os jovens que se organizam para conseguir uma área de lazer em seu bairro até aquele que participa de audiências públicas e conselhos municipais, estão tendo uma vivência política”, reflete.

O consultor político Luiz Rufino acredita que os exemplos de mobilização juvenil, ainda que isolados, têm efeito multiplicador para as futuras gerações e aposta na educação para a cidadania como amplificadora da democracia representativa, que, segundo ele, é importante, mas limitada. “A política, isto é, a linguagem do poder esta em todas as esferas da vida, dar às costas para esse conhecimento é dar às costas para a construção do futuro. Jovens que se destacam nos grupos como lideranças têm um forte potencial para ser trabalhado. É só dar a instrução necessária àqueles que possuem vocação para a vida pública”, afirma.

A estudante Laura Bimbato sabe da importância da política, mas deseja visibilidade para outro ponto, o da mobilização comunitária. “É preciso quebrar essa imagem negativa e mostrar uma outra face da política, a política como um lugar onde se conhece e se aprende com o outro. Com as novas tecnologias o conhecimento pode ser simultâneo, podemos usá-lo para obter informações e usando com sabedoria a tecnologia é aliada do conhecimento”, diz.

Os escândalos políticos não devem produzir uma juventude indiferente. Os jovens precisam perceber que a política pode ser aperfeiçoada pela participação efetiva e que os valores éticos e morais devem ser repassados para todas as gerações, pois somente dessa forma eles, que são peça-chave para uma nova política, podem criar um futuro diferente dos atuais escândalos de corrupção.

Texto: Pâmela Silva
Fotos: Ibraim Leão

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