Jubileu de Brilhante

Jubileu de Brilhante

Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, que passou a ter Alex Klein como regente principal, completa 75 anos em 2013

Contratação de um regente titular e de cinco músicos, aumento de salário para os instrumentistas, planos para ampliar o número de núcleos do projeto “Tocando a Vida”, plano de construir uma nova sede, com anfiteatro para 200 pessoas destinado a ensaios, lançamento de um selo comemorativo e a produção de um livro. É dessa forma que a Associação Musical de Ribeirão Preto responde às crises que a assolaram nos últimos tempos, na iminência do Jubileu de Brilhante da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP), que acontece em maio.

Com diretoria renovada, Décio Agostinho Gonzalez, presidente da Associação Musical, está bastante otimista em relação a esta temporada. “As perspectivas são as melhores possíveis: são 75 anos de atividades ininterruptas de uma orquestra que já foi comandada por grandes maestros, como Roberto Minczuk e Cláudio Cruz, e agora tem à frente Alex Klein, que contribuirá para manter o nome e a qualidade musical conquistados pela OSRP”, afirma.

O “Tocando a Vida”, desenvolvido por meio da Lei Rouanet,  já está colhendo frutos. O projeto leva música a crianças carentes de Sertãozinho e de comunidades ribeirãopretanas, como o conjunto habitacional João Rossi e o barro Ipiranga, com o objetivo de descobrir e formar jovens talentos para a música erudita. “Estão sendo formadas pequenas orquestras e é com base nessas experiências positivas que pretendemos estender a iniciativa para outras regiões menos favorecidas”, observa Décio.  O projeto acontece em parceria com a Instituição Aparecido Savegnago, com o RibeirãoShopping, com a RTE Rodonaves e com a Cia. Bebidas Ipiranga.

No entanto, o “Juventude tem Concerto”, considerado um dos projetos mais importantes da OSRP, está sem patrocínio desde agosto de 2012 e é um dos desafios a serem enfrentados na temporada 2013. Para Mariângela Quartim, gestora da Orquestra Sinfônica, esse problema deverá ser resolvido com a coordenação de Klein, em função do perfil do novo maestro. “É um projeto que vai mudar com a vinda do Alex, que tem planos maravilhosos para o ‘Juventude’. Hoje, o público que temos se deve ao projeto. Essas iniciativas que formam o público não podem ser pensadas em curto prazo. Acredito que assim que o Alex assumir o projeto, não demorará muito para o ‘Juventude’ voltar a ter um patrocinador”, ressalta.
Outros desafios a serem enfrentados são a atualização dos salários dos músicos e a construção de uma sede com um anfiteatro, cuja principal finalidade será garantir um local de ensaio contínuo para a OSRP.

“ Um terreno próximo à Unaerp foi doado pela Prefeitura Municipal para a construção deste projeto que agora depende da adesão de parceiros.  Também pretendemos, até o final do ano, melhorar os salários de nossa orquestra”, ressalta Décio.

Para as festividades do Jubileu de Brilhante, a intenção da Associação é, através do PROAC, iniciar a produção de um livro com a história da OSRP, projeto que deverá ser desenvolvido por Gisele Laura Haddad, mestra em música que, desde 2006, recupera, limpa e organiza o acervo histórico da Orquestra.   “Também pretendemos lançar um selo comemorativo que será enviado aos patrocinadores e a colecionadores que queiram participar deste momento tão importante para a Orquestra”, conta o presidente. As festividades não param por aí: haverá um grande concerto com solistas de renome, que ainda está sendo planejado pelo diretor artístico e o novo regente da Orquestra. No segundo semestre, a OSRP deverá participar da Ópera Carmen, espetáculo que será produzido pela Matiz Eventos.

Afinidades
Para colocar em prática todos esses projetos, a diretoria da Associação Musical de Ribeirão Preto agora conta com um grande aliado, com experiência adquirida em 25 anos vividos no exterior como músico e professor, que mantém contato com grandes nomes e orquestras; é um oboísta aclamado pela crítica, que já arrebatou vários prêmios internacionais expressivos, entre eles o Grammy; tem trânsito livre nas melhores salas de concerto; é diretor artístico e maestro de conceituados festivais em várias partes do mundo. É com essa bagagem que Alex Klein assumiu a direção artística da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto e o cargo de regente titular.

A afinidade de ideias com os membros da Associação Musical de Ribeirão Preto foi percebida pelo novo regente já na primeira reunião com a diretoria, quando constatou que suas principais preocupações relacionadas à Orquestra constavam na pauta do último encontro do grupo: o salário defasado dos músicos, a necessidade de um espaço próprio para ensaios e a necessidade de criação um fundo de reserva, a partir da Lei Rouanet, que garanta a saúde financeira da Orquestra, apesar das possíveis oscilações da economia. Alex encontrou na diretoria pessoas abertas, preocupadas em aprender e a se conectar com outras organizações de estruturas semelhantes.

O maestro conhece a tradição, mas também sabe que a OSRP tem passado por momentos de instabilidade e, para ele, apoio é tudo o que a Orquestra precisa para superar as adversidades. “A Orquestra de Ribeirão Preto toca muito melhor do que é de se esperar para uma orquestra do interior”, enfatiza. Alex explica que a grande movimentação de músicos nacionais e internacionais, nas capitais, faz com que o nível geral das apresentações se eleve, o que geralmente não ocorre no interior. O regente questiona, então, como a Orquestra pode tocar tão bem, diante do cenário artístico local. “Sua qualidade está muito além do que seu orçamento poderia proporcionar”, ressalta. Em função deste fator, acredita que a OSRP merece uma reavaliação de seu valor pelas comunidades local e nacional. “Interessa aos brasileiros que entidades como ela se espalhem pelo interior do Brasil, de forma que a população não continue tão dependente das capitais para ter acesso à cultura erudita”, observa Alex Klein.

Por isso, o novo maestro enfatiza a importância de um marketing mais agressivo, que evidencie o trabalho que a Orquestra Sinfônica desenvolve em Ribeirão Preto e na região. “A OSRP não só é a mais importante do interior, mas também faz esse trabalho de distribuição cultural. Isso precisa ser documentado e promovido para trazer reconhecimento e para que sirva de exemplo a outras orquestras que porventura possam fazer esse trabalho. Temos que dar esse recado para Ribeirão Preto e para o Brasil: o que acontece aqui é notável. Essa orquestra tem que assumir a posição que já tem”, explica.

Pensando na qualidade técnica já existente, Klein sugere o investimento em aprimoramento, cujo caminho é aprender com orquestras que construíram sua história, como a Chicago Symphony Orchestra, onde trabalhou por muitos anos. “A Orquestra de Chicago atua há 120 anos, custa mais de R$ 100 milhões ao ano e desenvolveu técnicas e estratégias provadas por décadas para atingir o nível de eficiência financeira que possui hoje”, ressalta. Para o maestro, Ribeirão Preto precisa aprender com essas orquestras, o que pretende estimular através de intercâmbio, como fez com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP): convidou uma equipe que, durante uma semana, participou das reuniões da Chicago Symphony Orchestra para compreender o funcionamento da entidade.

Apesar das diferenças entre os Estados Unidos e o Brasil, foram justamente as semelhanças existentes entre a OSRP e a Orquestra de Chicago que atraíram Alex Klein. Conforme ele, a OSRP é uma orquestra privada, assim como a de Chicago, que capta 99,5% de seu orçamento. “Há necessidade constante de atrair público, de ser inovador e, ao mesmo tempo, de manter um lado conservador, pois precisamos atrair o público e patrocinadores de várias direções. Este é o universo orquestral ao qual eu estava acostumado. Eu sempre tive uma afinidade com a OSRP por causa dessa relação entre ela e a orquestra de Chicago”, conta.

Para os músicos, a contratação do regente titular, de novos instrumentistas e os planos que a direção projetou para este início de temporada indicam que os problemas da OSRP estão sendo superados. “Estamos conhecendo a nova dinâmica e nossa expectativa é sempre positiva, pois muitos de nós deixaram família, amigos e história em países distantes para dedicarmos nossa vida à Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto”, afirma Denis Usov, spalla da Orquestra.

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Ibraim Leão

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