Laboratório divertido

Laboratório divertido

Mais do que uma massa para manusear, as slimes conquistaram a garotada pelo modo de preparo: a graça está, justamente, em mesclar os ingredientes e fazer as próprias criações

A maioria das crianças, em algum momento, passa o tempo misturando ingredientes aleatórios para ver no que vai dar. Elas querem criar comidinhas, cosméticos, fórmulas mágicas, enfim, uma infinidade de testes que, muitas vezes, não dão em nada. Outras vezes, porém, a resposta é positiva, mesmo que a receita não seja, exatamente, inédita. É isso o que acontece com as slimes, a diversão que tem conquistado a atenção de crianças e de adolescentes. A mistura — que leva cola, espuma de barbear, corante e outros itens — resulta em uma goma divertida e relaxante. O maior prazer, no entanto, está na confecção do produto.

Pela febre que as slimes são hoje, nem parece que elas surgiram há tanto tempo. Com esse charme inovador, elas se tornaram populares no fim dos anos 80, com o filme “Ghostbusters” — ou “Caça-Fantasmas”. Um dos personagens, uma gosma verde, chamava-se, no original em inglês, Slimer, ou Geleia, na tradução. Comilão, inquieto e sempre metido em confusões, Slimer, que surgiu como vilão, conquistou os fãs e se tornou membro da turma de caça-fantasmas no segundo longa metragem. Desde então, as geleias vem sendo comercializadas como brinquedos, disponíveis em potinhos.

Recentemente, elas ganharam outras cores, texturas, aromas e, principalmente, a internet. Plataformas digitais como o YouTube e o Instagram disseminaram receitas caseiras do brinquedo de modelar e, aí sim, a slime conquistou uma avalanche de fãs: eles querem colocar a mão na massa. Só no YouTube, é possível encontrar cerca de 80 milhões de vídeos sobre o tema. No Instagram, são milhares de hashtags, que vão desde tutoriais até vídeos com misturas de pequenos objetos, como os chamados charms, miçangas e lantejoulas.

On-line

É no YouTube que Nathália Junqueira, 11 anos, mostra suas slimes, lança desafios e interage com os cerca de 82 mil seguidores no canal que leva seu nome. No começo, Nath, como também é conhecida em redes sociais como o Instagram, cuidava sozinha do canal, mostrando algumas bonecas de sua coleção. Os vídeos fizeram sucesso e a mãe, Priscila, começou a ajudar na produção. Logo, uma outra febre surgiu, rendendo ainda mais visualizações e “curtidas”: a slime.

Apesar do sucesso na internet, a brincadeira, para ela, teve início fora do mundo virtual. “Começou na escola. Meu amigo tinha levado e eu nunca tinha visto uma slime ao vivo. Eu nunca tinha mexido, grudava na minha mão. Ele falou que a irmã dele vendia e eu vi na internet várias lojinhas de slime. Comprei a cola e os demais ingredientes. Foi o primeiro vídeo do canal e começamos a gostar. Vimos que rendia visualizações, todo mundo gostava, e eu gostava, principalmente”, destaca a menina, enquanto se diverte em seu estúdio.
Depois da descoberta da slime pelo YouTube, a brincadeira se tornou uma verdadeira paixão para Anna Elisa Fachini Marques
Mania nas redes

Foi também pelos vídeos na internet que a pequena Anna Elisa Fachini Marques, oito anos, conheceu a slime. “Fizeram um desafio da Fluffy Slime no YouTube. Eu tentei fazer uma, mas ela deu errado”, brinca Anna. A primeira slime da garota, feita com bicarbonato de sódio e água boricada, ficou muito líquida. “Eu comecei a tentar até conseguir fazer, aí não parei mais. Comecei a ver vídeos e a conhecer materiais diferentes”, conta Anninha, que hoje tem um verdadeiro laboratório de slimes em casa.

Entre potes de vários tamanhos com massinhas de diversas cores e texturas — a maioria feita em casa —, Anna explica quais são as melhores colas, os tipos de ativadores e diz que o mais importante é soltar a imaginação. “Pode colocar muita coisa: glitter, estrelinha, enfim, vários detalhes. Tem algumas com neve, que ficam Cloud, outras brilham no escuro...”, conta Anna, indicando qual a cola usada para dar cada efeito. “Acho muito legal as crianças adquirirem novos conhecimentos por conta do slime. Quando nossa geração, aos oito anos, diria palavras como ‘ativador’, ‘água boricada’, ‘bórax’? É um novo movimento que eu acho que estimula a criatividade. A mistura de cores, que aprendemos na escola com teoria, elas aprendem na prática”, declara Joelma Fachini Marques, mãe de Anna.

Segundo a mãe, além dos presentes nas datas comemorativas, que geralmente são kits para a fabricação da massinha, Anna também usa a mesada para adquirir novos enfeites, colas e produtos para incrementar a brincadeira. E a pequena não brinca sozinha: quando as amigas a visitam, os desafios são a parte mais divertida do dia. “Elas se reúnem para brincar de telepatia. Elas se separam e têm de produzir a mesma slime com a mesma cor e a mesma textura”, explica Joelma.
Colas, glitters, charms e as slimes de que mais gosta chamam a atenção no cantinho favorito de Cecília Valochi Zampronio
A magia da criação

A aproximação de Cecília Valochi Zampronio, 11 anos, com a slime não foi diferente da maioria das adeptas. Os primeiros contatos também foram por meio de vídeos no YouTube e, a partir daí, veio o desejo de ter sua própria massa para modelar, esticar, puxar e apertar. À época, o produto não era encontrado facilmente no mercado. Foram dias de expectativas até a encomenda feita pela internet chegar às suas mãos. De lá para cá, o interesse só aumentou. Cecília passou a assistir a mais vídeos e, então, começou a acompanhar as receitas. Fez algumas tentativas, mas não foi bem-sucedida.

As amigas também estavam interessadas em fazer suas próprias slimes e, quando uma delas conseguiu a receita ideal, compartilhou com Cecília. A partir daí, a produção não parou de crescer. Para aprimorar os conhecimentos, acompanha vídeos, participa de oficinas e visita com frequência as lojas que comercializam os ingredientes, antenada às novidades.

Desta forma, não foi apenas a produção que cresceu, mas, também, o acervo de produtos. Só de slimes prontas são cerca de 80, além de seis tipos de colas, 20 corantes líquidos, 10 corantes em gel, 20 essências aromatizadas, mais de 60 tipos de glitter e, ainda, bolinhas de isopor de diversas cores, massa de EVA, lantejoulas, charms, java chips (outro tipo de enfeite) e, até, folhas de ouro. “No ano passado, meu padrinho trouxe de presente para mim, de uma viagem aos Estados Unidos, a cola Elmers, que dá a melhor base para a slime. Ele trouxe uma clear e uma que brilha no escuro, além de diversos glitters. Eu amei! Desde então, tenho usado mais essa marca de cola”, afirma Cecília. Hoje, a Elmers também pode ser comprada pela internet ou em lojas de artigos importados.

Mesmo que os kits comercializados nas lojas facilitem a produção, Cecília acaba esquecendo essa opção e prepara suas slimes da maneira mais tradicional, misturando, em uma tigela, ingrediente por ingrediente na medida certa, até dar o ponto. Alguns itens, no entanto, ela prefere ou foi recomendada a não usar, como o talco, o bicarbonato de sódio, a água boricada e o bórax (ou borato de sódio) em pó. Vez ou outra, acaba se rendendo às opções vendidas nas lojas. “A slime é um jeito muito gostoso de brincar, seja enquanto ela é feita, quando a mágica acontece, ou depois de pronta, quando podemos ficar puxando, esticando e torcendo a massa ou mesmo fazendo bolhas gigantes”, finaliza Cecília.
Manoela, Luana e Giovana criaram um espaço voltado para o mundo das slimes
Pequenas empreendedoras

Manoela Salomão Barbosa Lima, 12 anos, Luana Franco Barbosa Lima, 10, e Giovana Franco Barbosa Lima, 12, são primas e sócias à frente da primeira loja especializada em slime de Ribeirão Preto. “A ideia partiu da Manoela, minha filha, que acabou convencendo meu marido. Resolvemos fazer uma sociedade com a minha cunhada, que também tem filhas que amam slime”, conta Carla Lima, proprietária da loja. O espaço é totalmente voltado para o mundo das crianças, que sempre foram o maior foco, segundo Carla. “Na maioria dos workshops, são as crianças as convidadas. Fazemos também os encontros, em que damos oportunidade para mostrarem seu trabalho”, finaliza a empresária.
a brincadeira ajudou a menina a interagir mais com os colegas e a melhorar a autoestima
Diversão e novos amigos 

Para Maria Júlia Falconi Soldera, de 11 anos, assim como para tantos outros fãs da slime, a diversão está em misturar colas, charms e customizar outros ingredientes. Além disso, a brincadeira ajudou a menina a interagir mais com os colegas e a melhorar a autoestima. Assim que começou a fazer a geleia, Maju passou, também, a participar de encontros e, até a vender as criações entre os colegas. “O que eu mais gosto em ser slimer é de ir aos encontros, me divertir e ter bastante contato com as pessoas. É bem legal”, pontua Maju.
“Toda fabricação traz a lição para a criança de que, na vida, tudo é conseguido com esforço, além do prazer de construir o que se quer”
Estímulo criativo


Como toda boa brincadeira, a mania das slimes pode trazer benefícios não apenas ao aprendizado, mas, também, à sociabilidade da criança, segundo a psicóloga Myrna Coelho Matos. “O processo de fabricação da slime em um mundo em que quase tudo vem pronto traz uma conscientização para a criança de como a vida funciona. Parece óbvio, mas, muitas vezes, isso não é claro para a criança. A slime traz essa sensação agradável de conseguir fazer algo, de produzir o próprio brinquedo, e é responsável por um sentimento de autoeficácia, de orgulho e de valorização do brinquedo, porque ela mesma construiu”, expõe a psicóloga.

Dentro desses processos, segundo Myrna, a criança pode testar várias possibilidades e aprender a lidar com a frustração, nos casos em que a mistura não dá certo. “O erro faz parte da aprendizagem, mas, se for estimulada, a criança vai aprender a tentar de novo”, aponta a psicóloga. Toda fabricação traz a lição para a criança de que, na vida, tudo é conseguido com esforço, além do prazer de construir o que se quer.

A criatividade, por sua vez, é amplamente trabalhada com as possibilidades da brincadeira. “As crianças veem o modelo de outras e são estimuladas, a partir do momento em que observam a criatividade nos colegas”, afirma Myrna, que ainda destaca o reforço social presente na mania. “Uma pessoa vai reforçando o comportamento da outra, então, algumas crianças começam a perceber que têm habilidades e querem compartilhar. Elas fazem vídeos, postam, ficam aguardando as curtidas e, quando percebem que estão agradando, são ainda mais estimuladas. Algumas se propõem a ensinar outras crianças a fazer e se sentem úteis”, pontua a psicóloga.

Cuidados na brincadeira

A dúvida que deixa a febre das slimes um pouco mais séria, porém, é quanto à toxicidade de alguns elementos que constituem a massa, como o bórax. Segundo a dermatologista Juliana Truite, o bórax tem um pH alcalino que tende a danificar a camada de gordura da pele, o que compromete a barreira cutânea, principalmente em pessoas sensíveis. A água boricada, por ser diluída em água, apresenta menor risco, o que a torna uma opção mais segura. Ainda assim, há quem tenha sensibilidade a esse componente. 

A médica frisa que as crianças de até dois anos não devem brincar com a slime, porque ainda não têm a barreira cutânea totalmente formada. O mesmo conselho vale para crianças com dermatite atópica. “O maior problema é a possibilidade de inalação, ingestão ou absorção dessas substâncias por meio das mucosas ou feridas na pele”, alerta Juliana.

Mesmo em crianças com a barreira cutânea íntegra, o produto pode entrar em contato com mucosas, que são áreas mais sensíveis, ou por meio de ferimentos. “A mucosa ocular é, também, bem sensível e uma lesão nesse local pode deixar as pálpebras vermelhas, irritadas, com coceira e causar até uma evolução para um quadro infeccioso”, alerta a dermatologista. Ela aconselha que, para o manuseio de qualquer tipo de slime, a criança deve ser orientada a não esfregar a geleia no corpo descoberto ou no rosto e também não deve levar a massinha aos olhos, ao nariz ou à boca.

Glossário

De acordo com Cecília Valochi Zamprônio, dependendo do resultado, da textura e dos detalhes, há diversos tipos de slimes. Essas denominações são comuns entre os fãs das massinhas.

Tradicional
Glossy: com mais barulho
Fluffy: mais macia
Clear: transparente, mas pode receber corante 
Butter: estica mais e, geralmente, é feita com massa de EVA
Cloud: tem textura parecida com areia 
Metálica: feita com cola metálica
Ice: com neve falsa
Frosty: slime butter com neve falsa
Big: acima de 1 Kg
Foam: com muitas bolinhas de isopor
Putty: comprada em loja
Top: com todos os enfeites possíveis. Essa é criação própria de Cecília.

Mãos na massa

• Coloque em um recipiente meio litro de cola
• Acrescente 3 espirradas de espuma de barbear
• Adicione, também, corante, essência, glitter ou qualquer outro tipo de enfeite
• Aos poucos, vá jogando bórax (três colheres de sopa), sempre mexendo bem até dar o ponto
• Se a massa estiver dura, acrescente creme hidratante ou mais cola para amolecer
• Tire do pote, aperte bem e divirta-se!

Texto: Tainá Colafemina.

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