Leitura e a geração Y
Entre os estudantes brasileiros, cerca de 39% declararam ter no máximo dez obras literárias
Bibliotecas lotadas, jovens interessados, livrarias com número de vendas crescente e diversos projetos de incentivo à leitura, é o que boa parte dos brasileiros desejam para a juventude, principalmente com o avanço das novas tecnologias. Porém, o Brasil é o país onde crianças e adolescentes têm menos livros em casa, é o que revela o levantamento feito pelo Movimento Todos Pela Educação, com base no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) de 2010, que analisou 65 países. A pesquisa mostra ainda que os jovens que possuem o hábito da leitura apresentaram um desempenho melhor nas provas do programa.
Entre os estudantes brasileiros, cerca de 39% declararam ter no máximo dez obras literárias; a pesquisa confirma esse número revelando que o Brasil está em penúltimo lugar com 1,9% de jovens leitores, a frente apenas da Tunísia, com 1,7%. O índice brasileiro é pior que de estudantes de outros países latinoamericanos, como Colômbia, Argentina e México. Segundo a pesquisa, dentre os países exemplos, quando a questão é a compra de obras literárias, estão a Coreia com 22,2% de jovens leitores, Islândia com 20,32% e Liechtenstein com 20,48%.
Segundo a secretária da educação Débora Vendramini, a posição do Brasil no ranking na pesquisa realizada pelo PISA revela os problemas culturais e sociais que acontecem em todo o país. “A quantidade de livros em casa reflete o nível socioeconômico da família e a escolaridade dos pais e filhos”, explica a secretária.
Para o escritor Menalton Braff, a concorrência com as mídias eletrônicas torna a venda de grandes obras literárias algo mais difícil. “Hoje, os jovens acham mais interessantes as mídias, digamos, mais tecnológicas, sem se darem conta de que elas foram fruto dos livros. Apesar de ser secundário saber se o suporte do texto é papel ou outro material, o que importa é a credibilidade, a profundidade, o ritmo certo para a aquisição do conhecimento”, conta.
Outra pesquisa sobre o assunto realizado pelo projeto Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, revela que 49% das pessoas criaram o hábito de ler através das mães, 33% através da professora e 30% através do pai. “Sempre ouvimos dizer que a família é a base de tudo, e isso inclui hábitos culturais, os pais devem lembrar que são os primeiros educadores, a leitura realizada na escola algumas vezes pode parecer uma tarefa, porém se existe o incentivo em casa, os jovens vão construir novos valores”, conclui Débora.
O escritor Menalton ressalta que a literatura não é portadora de um conhecimento específico, o que provavelmente é uma das causadoras da rejeição dos jovens por esse tipo de leitura. Para ele, o jovem deve encontrar a leitura que o emocione. “O problema começa pela família, em um país que até poucas décadas tinha uma imensa maioria de não letrados, dificilmente o hábito da leitura poderia ser transmitido. Mas não se deve entender o fenômeno mecanicamente. Se a família não estimulou a leitura, é tarefa da escola fazê-lo. E existem duas maneiras básicas para que a escola o faça: por coação e por sedução. Ninguém pode dizer que não gosta de ler sem ter lido. E lendo, cada um vai encontrar o tipo de texto que lhe serve”, relata.
As estatísticas devem ser avaliadas por alunos, pais e profissionais da área e, a partir dos números, novos projetos serão encaminhados para o Ministério da Educação para que os resultados sejam outros em novas pesquisas. Em Ribeirão Preto, medidas estão sendo tomadas há algum tempo, na cidade existem diversos projetos voltados para a leitura, como o Sarau Literário, o Canto do Conto e a Feira Nacional do Livro. “Somos um país em construção e temos o dever de construí-lo como país civilizado, onde a leitura faz parte da vida das pessoas. Se o jovem encontrar seu texto, jamais dirá novamente que não gosta de ler”, conclui Menalton.
A pesquisa
O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) tem como objetivo apresentar indicadores educacionais que possam ser comparados com outros países, revelando dados dos sistemas nacionais e debatendo assuntos que possam auxiliar no bom desenvolvimento da educação. Participam das provas alunos de 15 anos dos 34 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e mais 31 convidados. As avaliações são feitas a cada três anos, com provas de leitura, matemática e ciências, a cada edição do programa, uma das áreas é enfatizada.
A maior nota de leitura no PISA foi de Xangai na China com 89,9% de jovens que declaram ter mais de dez livros. Em Luxemburgo 15,7% dos jovens dizem ter acesso a mais de 500 livros e no Brasil apenas 1% de jovens declararam ter acesso a mais de 500 obras literárias.
Texto: Pâmela Silva | Fotos: arquivo Revide
*Matéria publicada em 28/04/2011