Liberdade para criar

Liberdade para criar

Inspirada pelo Surrealismo e pela pop art, Pris Lo utiliza a colagem digital para manipular imagens e, assim, produzir obras que exaltam a beleza das diferenças

Natural de Brasília, Priscila Lopes Aires Pinheiro cresceu em Barretos, morou em São Paulo por um período, mas escolheu Ribeirão Preto como cidade do coração, principalmente pelas amizades especiais e pelas oportunidades que encontrou por aqui. Desde a infância, mostrava interesse e destreza para realizar tarefas manuais. Começou com o bordado. Já na adolescência, desenhava as próprias roupas, pois não achava nada que se enquadrasse ao seu estilo original nas lojas convencionais. Incentivada pela mãe, aprofundou-se cada vez mais nesse universo. Experimentou a pintura em argila, revitalizou alguns móveis e produziu vários acessórios, tanto de vestuário, quanto de decoração. 

Movida por uma inquietude criativa, buscou conhecimento em diferentes áreas: fez cursos de Design de Interiores, de História da Arte, de Moda e de Marketing Digital, sendo esse último o segmento em que atua no momento. Apresentada ao conceito de imagens híbridas, em 2014, descobriu que os recursos providos pela modernidade poderiam abrir um novo caminho para explorar a veia artística. Passou, desde então, a se dedicar à colagem digital. Hoje, aos 31 anos, Pris Lo, nome que utiliza para assinar as obras, conta com um amplo acervo de imagens e com diversas exposições no currículo, trabalhando, dia após dia, para democratizar a arte.

Revide: Você já trabalhou com moda e com decoração. Como foi sua experiência nessas áreas? Gosta de se expressar de diferentes formas?Pris Lo trabalha com a missão de democratizar a arte, sem restrições
Priscila: Amo criar. Desde textos até itens pessoais, roupas, acessórios e objetos de decoração, por exemplo. Quando criança, fui bastante estimulada nesse sentido. Era incentivada a aprender na prática, brincando, desbravando o mundo ao meu redor e soltando a imaginação. A principal responsável por isso é minha mãe, Neila Lopes, que tem essa propensão artística bem desenvolvida. Certa vez, uma tia me ensinou a bordar. Passava horas fazendo ponto cruz e vagonite. Acompanhada por uma amiga de infância, Camila Turati, desenhava figuras abstratas e pintava potes de argila. Vendíamos nossas obras na rua ou, então, organizávamos rifas. Foi uma época enriquecedora em todos os aspectos. Guardo ótimas lembranças desses momentos. Um pouco mais tarde, acabei me envolvendo com o design e a confecção de roupas. Já naquela época, tinha um estilo de me vestir diferente do padrão e dificilmente encontrava algo que gostasse nas lojas de Barretos. Minhas amigas pediam para que eu elaborasse peças personalizadas para elas também. A partir daí, nasceu a marca De Pitanga, que comercializava roupas e acessórios. Ainda testando minhas habilidades, fiz filtros dos sonhos, amuleto típico da cultura indígena norte-americana, e trabalhei com decoração de eventos. Em São Paulo, fundei o Ecolorido, um projeto de móveis e acessórios ornamentais recicláveis com colagens manuais. Adoro inventar, produzir e experimentar diversas ferramentas para me expressar. Estou sempre aberta a novas possibilidades. 

Foi em uma dessas buscas por conhecimento que descobriu a arte digital?
Sim. Em 2014, após trabalhar em um estúdio de fotografia e fazer cursos de Photoshop e de manipulação de imagens, fiquei apaixonada por essa ideia. Comecei compondo autorretratos através de colagens analógicas (recortes feitos à mão, com tesouras e estiletes) e digitais (através do Photoshop). Basicamente, a colagem digital é uma extensão contemporânea da manual. A lista de aplicabilidades dessa ferramenta na arte moderna é enorme, já que ela permeou movimentos icônicos, como cubismo, surrealismo, dadaísmo, futurismo, fluxus e pop art, entre outros. Essa técnica reúne as mais diversas formas de expressão gráfica, numa amostra ampla e eclética do panorama atual, influenciadas pelos modos tradicionais e, ao mesmo tempo, lançando-se na exploração de recursos mais recentes, criados pela sociedade da informação e pelos meios digitais. Atemporal, recorre a recortes do que já aconteceu para se tornar um novo registro, costurando o presente com o passado e o futuro. Aqui no Brasil, esse mercado está em plena expansão. Ver esse conceito de imagens híbridas sendo difundido e conquistando tantos apreciadores é maravilhoso.

Poderia descrever o seu processo criativo? Quais são as etapas e as ferramentas que utiliza?
Primeiramente, faço uma extensa pesquisa. Navego pelo Google e por bancos de imagens, salvando tudo aquilo que me desperta o interesse. Tenho uma preferência pelas cenas antigas. Adoro mesclá-las com as futuristas, especialmente às que remetem ao espaço sideral. Crio um universo meu, onde tudo é possível. Basta imaginar. Quando não encontro exatamente o que desejo, costumo envelhecer as imagens para que pareçam vintage. Eventualmente, começo esse processo já com a ideia pronta na cabeça. Aí, a seleção deixa de ser aleatória e passa a ser mais direta. Procuro expressar algo que provoque sentimentos, sejam eles bons ou ruins. Muitas vezes, assim como a Frida Kahlo, uso a minha vida, os meus conceitos, as minhas experiências como inspiração para criar.

Quais são os temas que você mais gosta de abordar?
Como disse anteriormente, tenho um verdadeiro fascínio por unir os opostos em uma mesma obra: o vintage com o futurista ou o clássico com o contemporâneo, por exemplo. Também tenho como base o feminismo e o budismo, temas importantes para que possamos evoluir nosso pensamento. 

Busca referências nas obras de artistas renomados? Quais?
As composições do movimento surrealista e da pop art me influenciam bastante. Frida Kahlo, Salvador Dalí, Andy Warhol e a grega Eugenia Loli são figuras que me inspiram muito artisticamente. 

Frida Kahlo, Salvador Dalí, Andy Warhol e Eugenia Loli são alguns dos nomes que influenciam a composição das obras

O público tem se mostrado receptivo com as obras que carregam essa proposta mais moderna?

Hoje, vejo muitas pessoas com a mente aberta, interessadas, de fato, em saber mais sobre arte. Porém, também percebo comentários preconceituosos, com duras críticas, como se o nosso trabalho não pudesse ser relacionado a algo artístico simplesmente porque elas não entendem o contexto. Esse pensamento precisa ser combatido, ainda mais nessa época em que vivemos, onde um conservadorismo cego e ignorante vem ganhando tanta força. De qualquer forma, acredito no diálogo. Juntos, conseguimos ultrapassar qualquer barreira que atrapalhe a nossa evolução como humanos.

A arte tem o poder de passar uma mensagem para quem a vê. Você pensa nisso quando está desenvolvendo uma composição?
Claro. Sempre penso no olhar do observador e na crítica que será gerada. Muitas obras são subjetivas, complexas e relativas. Assim, permitem que o espectador as analise sob diferentes perspectivas e as interprete de inúmeras formas. É necessário entender o quanto a diversidade é benéfica nesse mundo. Tentar conscientizar as pessoas através da arte é minha missão. Propago mensagens humanistas e humanitárias, exaltando características positivas e negativas, como potências que podem agregar ao invés de segregar. O que falta em um indivíduo pode ser uma característica complementar do outro. Faço da minha arte um meio de instigar reflexões e de propiciar visibilidade às minorias. É quase um ato de resistência.

O que a motiva a continuar elaborando novos trabalhos?
Como tenho esse propósito — de passar uma mensagem humanista, de estimular o senso crítico e de aumentar a valorização do que é diferente, fora dos padrões, mas considerado, por muitos, como anormal — o que mais me motiva é provocar, através do meu trabalho, a interação entre as pessoas. Uma vez, uma família (mãe, pai e filho) parou em frente a uma obra minha em exposição. A imagem colocava a diferença entre o feminismo e o machismo em discussão. O pai, então, questionou: “como não, o feminismo não é igual ao machismo?”. O filho respondeu: “não pai, o contrário de machismo é ‘femismo’”. Os dois ficaram ali por mais um tempo, observando e pensando. Ver essa cena, para mim, é o melhor resultado das minhas criações. Gerar diálogo na vida das pessoas não tem preço. É uma sensação gratificante.

Através do uso de recursos digitais, a artista manipula imagens e mistura o vintage com o futurismoA produção está a todo vapor?
Sim. Estou trabalhando em ritmo acelerado por conta da alta demanda. Além da produção dos pôsteres, também tenho me dedicado à arte de rua, gifs, capas de CDs, ímãs de geladeira e camisetas. Participei, ainda, da composição visual de um videoclipe, a convite da minha amiga, produtora e fotógrafa, Mari Rosa. A canção se chama Boxokê, da Liniker e os Caramelows em parceria com o projeto de música instrumental Aeromoças e Tenistas Russas e Tassia Reis. 

Onde você expõe essas criações?
Já expus na primeira Bienal Internacional de Cultura Psicodélica, em Campinas, e em alguns eventos locais, como a feira do Irajá. Atualmente, tenho uma parceria com a galeria digital VHMOR e estou com uma mostra ativa no Senac. Há pouco tempo, entrei em uma exposição em Rio das Ostras, chamada “A Bela e a Tela - A representação do Feminino na Arte”. Acabei de ser selecionada — ao lado de mais 49 nomes — como artista em destaque do Collage Collective Co. para o livro de melhores artistas de colagens, analógicas e digitais, do mundo em 2017. Estar nessa lista, ter um espaço nessa vitrine, é uma conquista que, definitivamente, merece ser comemorada. Exponho meus trabalhos na rua também. Sou adepta da arte lambe-lambe. Fiz, inclusive, uma ação em conjunto com um grande amigo, Manolo Araújo, que tem muita vivência nessa área. Foi uma experiência maravilhosa. Repito que a minha missão é democratizar a arte, levá-la ao alcance de todos. Sem restrições. Para mim, colar os lambes em locais estratégicos, onde as pessoas estão, normalmente, esperando o ônibus para ir para casa ou andando apressadas rumo a algum compromisso, é realizar meu propósito, deixar o meu legado. Consigo colorir o cotidiano desse público que, quase sempre, é inundado de cinza. Pretendo continuar promovendo iniciativas como essa em Ribeirão Preto e em São Paulo, já que a cultura do lambe na capital é muito bem aceita. 

Texto: Paula Zuliani
Fotos: Ibraim Leão

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