Lição de empreendedorismo

Lição de empreendedorismo

Maurílio Biagi entrevista o jornalista e apresentador João Doria Jr.

Texto: Cristiane Araujo | Fotos: Ibraim Leão

A paixão pelo que fazemos tem que ser compartilhada”. A frase acima deu início à conversa entre Maurilio Biagi Filho e João Dória Jr. que, além de profissionais bem-sucedidos, são amigos. O encontro, depois de uma palestra emocionada de João Doria Jr, foi no Hotel Araucária, cenário da reunião promovida pelo LIDE Interior SP1. O evento atraiu empresários para debater o fortalecimento da livre iniciativa para o desenvolvimento econômico e social, além da defesa dos princípios éticos e de governança corporativa no setor público e privado.
Em sua palestra, João Dória afirmou que, para chegar ao sucesso, é necessário força de vontade e muito trabalho. “Para ser bem-sucedido, você precisa gostar do que faz, ser perseverante, trabalhar em equipe, e ter vontade de ser o melhor”, elenca. Disciplina, foco, determinação e humildade para saber que nada se conquista sozinho também são fatores importantes. “Um empreendedor de sucesso é aquele que sabe a hora de colocar uma ideia em prática, sem deixar de ouvir a própria intuição. Também é preciso estar atento e preparado para investir no que o mercado mais quer, no momento certo”, afirma João Doria.

Perfeccionista e obcecado pelo trabalho, o jornalista atribui o sucesso das cinco empresas que compõem o Grupo Doria — administração de bens, internacional, editora, eventos e marketing — ao esforço e à dedicação ao longo dos anos. Pai de três filhos, segue sua rotina à risca: dorme apenas três horas por noite e se orgulha de ser casado com uma única mulher a vida toda, de não ter nenhum vício, como cigarro e bebida, de não falar palavrão e, principalmente, de não perder o bom humor em momentos difíceis.

Começou a trabalhar aos 13 anos, depois de ver o pai, o deputado federal João Doria, cassado em 1964, ser exilado e perder todo o patrimônio. Aos 18 anos, já era diretor de uma rede de TV e, aos 38, fundou um grupo de lideranças empresariais, o LIDE, que reúne quase metade do PIB brasileiro.

Do outro lado, o empresário Maurílio Biagi Filho iniciou a carreira no armazém da Usina Santa Elisa, fundada pelo avô. Passou por todos os cargos até chegar a Chief Executive Officer (CEO).  Reconhecido como um dos principais interlocutores de governos estrangeiros sobre o etanol e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) da presidência da República, o empresário, durante a entrevista com o jornalista, relembra momentos da sua vida. O envolvente bate-papo passou por temas como agronegócio, economia e política.

Maurilio: Como você vê o momento do declínio do etanol no Brasil?
João: Embora eu não seja um especialista no assunto, a minha visão é que faltou continuidade na política do país. Essa interrupção é um grande problema na vida pública brasileira em dois momentos. Primeiro, quando há governos que fazem boas políticas, porém, que não têm continuidade. É para isso que elas servem, para serem continuadas, realizadas, aperfeiçoadas e atualizadas. A interrupção das políticas causa um dano brutal e, seguramente, na área do etanol, houve iniciativas boas que foram descontinuadas. Por exemplo, na área do Ministério da Agricultura, que está diretamente vinculado ao tema, há descontinuidade nos programas e, pontualmente, o número de ministros que surgem em  um prazo curto resultou em interrupções drásticas. Então, o Brasil passa a viver de memórias políticas. Pior que isso, ministros que muitas vezes não são vinculados à Agricultura e não têm o conhecimento necessário, o que culmina no retrocesso de programas. Eu serei uma pessoa feliz com o governo no dia em que os cargos forem negociados, sobretudo, de forma mais técnica. É uma falha lamentável verificar que continua havendo os mesmos erros do governo no passado, especificamente na Agricultura, que não vive um bom momento. Há a descontinuidade de boas gestões por desconhecimento ou até por medo de fazer.

Maurilio: O Brasil passou pelo governo Lula e a classe menos favorecida emergiu socialmente para outro patamar. Como você vê o Brasil daqui para frente? Quem serão os novos líderes na área política e empresarial?
João: A gestão do ex-presidente Lula tem débitos, porém, existem créditos importantes também. O fato de ter contribuído, em oito anos de governo, para elevar à condição de classe média 40 milhões de brasileiros que estavam muito abaixo da linha de trabalho e de oportunidade, de viver, alimentar-se e ter a oportunidade de educar seus filhos, é um mérito extraordinário. Mas todo mérito exige constante renovação. Você não pode considerar um médico brilhante apenas com o diploma da sua graduação, sem atualização. Por mais que ele tenha recebido prêmios e seja reconhecido ao longo da sua carreira, se não se aprimorar por meio de aulas técnicas, leituras, participar de congressos e ter consciência para entender que a dinâmica da sua própria profissão, pode ter insumos de outros países, como o surgimento de gente mais jovem, ficará para trás. É o que acontece com o Brasil.

Maurilio: Eu me identifico um pouco com essa média porque, na década de 60, consegui elevar a classe social que tínhamos em nossa empresa. Com esse aumento, as exigências sobem muito. Como suprir essas exigências sem que vire revolta?
João: Essa preocupação é legítima e verdadeira porque quem esteve na miséria e ascendeu para uma condição de classe média não deseja voltar a ter a vida que já conhece e que representava tanto sofrimento para ele e para toda a família. Estes, sim,  serão os mais fortes representantes populares em protestos nas ruas, por exemplo. Esse cidadão não quer voltar a uma condição da qual lutou muito para sair. Só quem viveu na miséria sabe o que é se sentir ameaçado. Para o Brasil, esse é um risco real. Se não tiver sua política econômica revigorada, atualizada para permitir o crescimento sem depender, exclusivamente, do mercado interno, voltará à condição de miserável. Assim, o que esse cidadão vai dizer aos filhos, por exemplo, se um dia não tiver mais a condição de oferecer a eles uma oportunidade para ingressar em uma universidade, aprimorar-se e elevar o seu status?

Maurilio: O LIDE é uma vitrine do empreendedorismo, de cases de sucesso que proporcionam exemplos de pessoas bem-sucedidas das mais diversas categorias. Trazer esses assuntos à tona e contaminar as pessoas através do exemplo é realmente um ponto positivo. Quem nessa caminhada mais o impressionou?
João: Posso citar alguns casos mais pontuais. O primeiro deles é de Edson de Godoy Bueno, membro do comitê de gestão que preside o LIDE Empreendedor e é o fundador do Conselho do Grupo Amil. Filho de um caminhoneiro e de uma lavadeira, Edson era engraxate. Tinha tudo para se tornar um fracassado na vida, mas seu sonho era maior. Vivia em um município pequeno, onde não tinha universidade. Estudava numa escola pública e, como a maioria dos garotos da sua época,  tinha o sonho de ser jogador de futebol. Um dia, teve deslocamento de retina e seu único sonho foi embora, pois não podia mais jogar futebol. Em outro acidente, foi socorrido pelo único médico da cidade, ficou tão impressionado com o atendimento que decidiu: seria médico. Mas como ser médico nessas condições? Perseguiu seu sonho. Inovou o processo de engraxar os sapatos, fazendo encomendas com os clientes e os devolvendo no dia seguinte. Com o valor guardado, mudou-se para uma república de estudantes no Rio de Janeiro, sede de uma das melhores universidades de Medicina da época. Para sobreviver, prestava serviços de limpeza do quarto a troco de não pagar moradia. Assim, formou-se médico e conseguiu sua primeira oportunidade de emprego, na Baixada Fluminense. A partir daí, conquistou a gerência da clínica, depois passou a ser sócio e, então, surgiu o primeiro  negócio da Amil. Mesmo com o seu império, não deixou a humildade e simplicidade de antes, formando gerações de admiradores na área de Medicina do grupo. Este é um exemplo, entre tantos, de brasileiro que, acreditando no seu sonho. Superou todas as dificuldades para chegar aonde desejava. Outro exemplo, ainda mais recente é o de Davi Pinto, que é da região de Ribeirão Preto, um exemplo de empreendedorismo com a empresa Dr. Resolve. Construiu um empreendimento vitorioso a partir de um programa de televisão. Em uma novela, tinha um personagem que fazia desde pequenos reparos a grandes obras, e o personagem na novela prosperou e enriqueceu. Davi transformou o virtual em realidade. Conseguiu, ao lado da esposa, aglomerar vários segmentos da construção em uma única empresa, desde marceneiro, pintor, pedreiro, entre outros. Com a empresa, já conseguiu faturar R$ 500 milhões. Um exemplo de empreendedorismo local, ou seja, tudo é possível. Se você sonha, tem bons princípios, dedicação e perseverança e quer trabalhar, faça isso! Eu nunca joguei na loteria, porque nunca quis que minha vida fosse alterada por uma simples circunstância, o caminho fácil. Não quero ganhar na sorte, quero ganhar no trabalho.

Maurilio: O LIDE está expandido para o mundo todo. Qual a sua opinião sobre essa expansão, simultaneamente, para o interior e exterior?
João: O Brasil é um país interiorano. Você tem vida e riqueza metropolitana e rural ao mesmo tempo no interior. Há uma mescla de segmentos. Ribeirão Preto é um exemplo disso. É preciso observar essa capilaridade para entender também o país. Ouvir e conhecer histórias de empreendedores ou necessidades e deficiências que não são exatamente aquelas que você vê em grandes centros é importante. Esse é o papel do LIDE: entender cada vez mais essa necessidade de polarizar histórias. Temos planos de expandir ainda mais para outros estados, mas precisamos de lideranças, pois sem liderança não há desenvolvimento. O interiorano tem essa capacidade plural de integrar e motivar as pessoas.

Amigos de longa data
“Fiquei muito feliz ao receber da Revide o convite para entrevistar o meu amigo de longa data, o empresário e jornalista, João Doria Jr., que é presidente do LIDE – Grupo de Líderes Empresariais, uma iniciativa empreendedora que ajuda o Brasil a olhar para frente e da qual faço questão de participar. Conheço o João desde antes dele se tornar essa pessoa tão conhecida e importante, mas confesso que fui surpreendido ao vê-lo, de uma forma absolutamente sincera e transparente, abrir o coração para contar, em detalhes, sua história de vida, uma verdadeira lição de superação. Durante o workshop em Ribeirão Preto, o João mostrou que, quando se tem força de vontade e perseverança, tudo é possível e ainda conseguiu passar à plateia uma grande lição sobre o quanto a família é importante na construção de um mundo melhor. Espero que os leitores também tenham a oportunidade de conhecer um pouco mais dessa pessoa maravilhosa e inspiradora.”
Maurilio Biagi Filho, empresário

Compartilhar: