Lição de empreendedorismo

Lição de empreendedorismo

Na entrevista concedida ao cerimonialista e empresário Ed Mendes, Gilberto Nomelini revela os passos que o levaram à presidência da Gnatus

Apesar de serem universos completamente diferentes, tanto o segmento de eventos, do cerimonialista Ed Mendes, quanto o setor de equipamentos odontológicos, do empresário Gilberto Nomelini, estão repletos de boas histórias. Foi para conhecer um pouco mais da trajetória de Gilberto, a quem conhecia sob a perspectiva de um prestador de serviço, que Ed escolheu entrevistar o empresário.

Recentemente, o presidente da Gnatus Equipamentos Médico Odontológicos rompeu barreiras importantes e levou sua empresa à China e promete a considerável alavancada de 50% no faturamento para os próximos cinco anos.

Vindo de uma família de cinco irmãos, Gilberto orgulha-se de ter ingressado na empresa do pai pelo chão de fábrica e de conhecer cada setor da empresa antes de se tornar presidente.

Sua entrada na Gnatus ocorreu por iniciativa do pai, que o convidou a trabalhar com ele logo depois de sua formatura. Ao lado do criador do negócio, alçou voos importantes que fizeram da empresa uma multinacional.

Os produtos fabricados pela indústria ribeirãopretana chegam a 100 países, especialmente à América Latina. Segundo Gilberto, o principal objetivo estabelecido foi cumprido: tornar a empresa reconhecida mundialmente. Na entrevista, o empresário revela alguns dos principais episódios que marcaram essa trajetória.

Ed: Como foi o início da sua carreira?
Gilberto: Sempre fui prematuro. Aos 16 anos fui emancipado e, aos 22, concluí o curso de Engenharia Mecânica. Foi quando recebi o convite do meu pai para trabalhar com ele na empresa, que ainda estava começando. Naquela época, os recém-formados iam para a área acadêmica ou “pegavam no batente”. Portanto, eu não tinha muitas opções. Fazia estágio em outras empresas, mas optei por vir para Ribeirão Preto trabalhar com meu pai. A Gnatus possuía apenas seis funcionários e vim para para juntar forças e transformar a empresa em uma potência reconhecida mundialmente, e assim fizemos. Iniciei minhas atividades no chão de fábrica e, depois de dois anos, comecei a absorver outras atividades administrativas, com meu pai se dedicando à área comercial. Sempre discutimos qual era o objetivo da empresa, ou seja, onde queríamos chegar. A resposta era crescer interna e externamente. Queríamos ganhar o mundo, exportar e levar nossa marca a outros países. Sendo assim, já em 1981, expusemos os primeiros articuladores (aparelhos que reproduzem os movimentos da boca) em uma feira de Odontologia em Nova Iorque. Lá, assinamos um grande contrato de distribuição, que alavancou e colocou a Gnatus no cenário internacional. A partir daí, iniciou-se um ciclo de crescimento das vendas para o mercado externo.

Ed: Ao pensar na Gnatus, o que vem à cabeça são as cadeiras odontológicas. Na época, quem fazia o design desses produtos?
Gilberto: Eram projetistas e desenhistas que trabalhavam com nanquim. Hoje, temos uma equipe especializada nessa área, um departamento de Inovação que conta com profissionais e softwares especializados. Vale ressaltar, nessa questão, o próprio desenvolvimento do nosso parque fabril. Com o crescimento da empresa, o local em que a fábrica estava instalada começava a ficar pequeno e chegamos a ter sete prédios no bairro Santa Cruz. Mesmo assim, começávamos a não dar conta da grande demanda de pedidos. Devido a esse crescimento, chegou o momento de virar “gente grande” e buscar uma nova instalação para a produção de toda linha de produtos Gnatus. Desta forma, para instalarmos a nova fábrica, adquirimos um terreno na Rodovia Anhanguera. Eu mesmo fiz o projeto e identifiquei que a fábrica não caberia naquele local. Meu pai, surpreso, disse que era exagero meu, que eu era megalomaníaco. Eram 24 mil metros de terra e, mesmo assim, não caberia uma empresa do tamanho do projeto desenvolvido. Mesmo surpreso, meu pai concordou e vendemos esse espaço recém-adquirido. Em seguida, compramos uma gleba maior, local que até hoje abriga as instalações do parque fabril da Gnatus, na Rodovia Abrão Assed. No total, são 130 mil metros quadrados, com uma área construída de 22 mil metros quadrados.

Ed: Quais foram as maiores dificuldades?
Gilberto: No início, éramos uma empresa pequena, com pouco capital e nos deparamos com muitas dificuldades dentro do cenário brasileiro. Foi preciso administrar o crescimento da Gnatus em uma economia que vivia sendo corroída pela inflação. Entretanto, nunca abandonamos o mercado externo, diferente do que víamos acontecer, principalmente na época da supervalorização do Real. Éramos penalizados pelo valor do nosso dinheiro. Com a crise, muita gente deixou de exportar, mas nós permanecemos firmes. O cálculo era simples: perder um pouco ou abrir mão do investimento feito? E para retornar para o mercado, quanto seria gasto? Se abandonássemos a exportação naquele momento, gastaríamos de quatro a cinco vezes mais no futuro. E assim nos mantivemos, sempre crescendo em paralelo ao dólar, buscando atender aos mercados e conquistar a liderança. A Gnatus, então, tornou-se líder na América Latina, onde detemos 50% do mercado. Estamos presentes em mais de 142 países. Para se ter uma ideia, na Índia, 90% das faculdades locais utilizam equipamentos da nossa marca. A Gnatus é líder, também, na Indonésia e em vários países, o que muito nos orgulha.

Ed: Por que escolheu a China para expandir a empresa?
Gilberto: Instalar uma filial Gnatus na China faz parte de um planejamento estratégico desenvolvido com o objetivo de levar nossos produtos a mercados importantes, em que tínhamos dificuldade para alcançar o consumidor final. A questão era: como venderíamos na China? Sendo um “forasteiro” dentro desse mercado, as dificuldades para desenvolver vendas e registrar produtos são inúmeras. Para alcançar esse público, foi necessário instalarmos uma base fabril naquele país. Nossos principais objetivos são, além de atender ao consumidor chinês, desenvolver componentes e periféricos para complementarmos nossa linha no mercado internacional. Assim, fazemos o design e o desenvolvimento dos produtos no Brasil, produzimos na China e vendemos tanto no mercado local quanto para países como Índia, México, Indonésia, entre outros. Oficialmente, a China tem cerca de 300 milhões de pessoas consideradas ricas, com condições financeiras elevadas — ou seja, um pouco mais da população do Brasil —, ávidas por produtos ocidentalizados. Hoje, o Ocidente está dentro da China. O crescimento da percepção estética da Odontologia é outro fator a ser considerado, pois, antigamente, a cultura chinesa valorizava dentes escuros como sinal de status. Com a ocidentalização, a chegada de um novo “way of life”, as pessoas passaram a valorizar mais a estética bucal. Faculdades estão sendo criadas e o aumento do número de profissionais de Odontologia já é facilmente percebido. Com o objetivo de atender à demanda da população em busca de tratamentos dentários, o mercado odontológico está a todo vapor. Sendo assim, por que não estar mais próximo dos nossos clientes, com toda a estrutura de uma equipe de vendas, da rede de assistência técnica e tudo mais para atender esse público?

Ed: Recentemente, a empresa alçou voo em áreas médicas. Quais os novos planos da Gnatus?
Gilberto: Sempre me fazem a pergunta se ser líder é bom. Claro que sim, mas, ao mesmo tempo, é desafiador, pois o mais difícil é se manter na liderança. Para isso, a receita da Gnatus é inovar. Durante anos, a empresa tem sido referência como uma das empresas brasileiras da área da saúde que mais investe em inovação. Esse setor da Gnatus é formado por 60 colaboradores, o que representa 10% do quadro total da empresa, que hoje conta com pouco mais de 600 colaboradores em Ribeirão Preto. Além disso, cerca de 4% do faturamento bruto da empresa é investido em inovação (pesquisas, desenvolvimento de novos produtos, etc). Dentro dessa visão de investimento em inovação, nossa estratégia é crescer e aumentar a participação da marca Gnatus em todo o espectro da área da Saúde. Num primeiro momento, lançamos uma linha completa de equipamentos voltados para a área de podologia e, em breve, na Feira Hospitalar que será realizada em São Paulo, apresentaremos a nova linha de macas elétricas, com diversas aplicações (hospitais, ambulatórios, clínicas de estética, fisioterapia, massagem, etc). Ainda este ano, apresentaremos ao mercado a linha de ultrassom (diagnóstico por imagem) para a área médica, sendo que estes produtos foram desenvolvidos pela FigLabs, empresa que faz parte do grupo Gnatus. Assim, almejamos, em alguns anos, um lugar de destaque, também, na área médica.

Ed: O mercado ribeirãopretano é positivo para o segmento?
Gilberto: Sim, é um mercado em expansão, mas sabemos que pode melhorar. A cidade e a região são muito fortes para o mercado da saúde, principalmente por conta das melhores faculdades de Odontologia e de Medicina estarem em Ribeirão Preto. Destacamos, também, o novo complexo do Parque Tecnológico, que já está pronto e deve ser inaugurado em breve. Um projeto ligado à Fundação Instituto Polo Avançado da Saúde (FIPASE), instalado pelo governo de Estado de São Paulo dentro do campus da USP. A FigLabs, que faz parte do grupo Gnatus, foi uma das empresas selecionadas para se instalar neste Polo Tecnológico. Isso é um fomento para a área industrial da saúde no mercado ribeirão-pretano, e só vem a prestigiar ainda mais nossa região. Nós, como empresa exportadora, não podemos deixar de destacar as questões relacionadas à internacionalização do Aeroporto Leite Lopes, que trará grandes benefícios para a Gnatus e para o Município.

Ed: A Gnatus é uma empresa ativa nas questões sociais. Qual a sua opinião sobre o envolvimento de grandes empresários com essas questões?
Gilberto: Entre nossas ações, desenvolvemos projetos voltados para o esporte e apoiamos creches. Em especial, podemos citar o Projeto “Mão na Massa”, que objetiva apoiar instituições filantrópicas da cidade. Por meio dele, unimos diversos profissionais para fazer, de forma voluntária, reparos na pintura, na parte elétrica, entre outras necessidades da Instituição. O Lar dos Vicentinos foi o último beneficiado pelo programa. Temos também outros projetos, como o Viver Bem, em que nos preocupamos com a qualidade de vida do colaborador em sua área de trabalho. Esta ação tem se mostrado extremamente positiva para a empresa e para nossos colaboradores. Outro projeto que visa à integração do colaborador é o Programa Sugest, por meio do qual o colaborador sugere melhorias para o desenvolvimento da empresa. Já atingimos 78% de sugestões aprovadas e implantadas e, o mais importante, de maneira voluntária. Participamos, também, do Expedicionários da Saúde, uma ONG que leva tratamento Médico e Odontológico às tribos indígenas; e do Voluntários do Sertão, organizado pelo empresário Doriedson Pereira, mais conhecido como Dorinho, que todos os anos leva atendimento médico e odontológico gratuito para a população carente do sertão baiano. Em 13 anos de atuação, o Voluntários do Sertão mobilizou 3.280 profissionais da saúde, que realizaram mais de 138.000 atendimentos. Destaque também para o Odontomóvel, um projeto em parceria com a Ford que já prestou mais de 30 mil atendimentos a caminhoneiros. Vale destacar a preocupação da empresa com o meio ambiente: desenvolvemos nossos produtos de forma sustentável. Somos a primeira empresa a utilizar pintura através de nanotecnologia, que elimina os materiais pesados. Além disso, somos comprometidos com nossos recursos hídricos, promovendo o tratamento e a reutilização da água dentro da empresa. Enfim, temos uma contribuição importante acerca das questões sociais e ambientais.

Ed: Qual a sua mensagem para o jovem empreendedor que 
deseja ingressar em um novo mercado
Gilberto: A todo jovem que tem interesse em ter seu próprio negócio, o importante é planejar, avaliar com cuidado o mercado e, acima de tudo, ter dedicação. A Gnatus cresceu muito devido à extrema dedicação de todos os colaboradores que passaram pela empresa e deixaram sua parcela de contribuição e de comprometimento. Outro motivo do sucesso também é gostar do que se faz.

RECONHECIMENTO

“Escolhi fazer essa entrevista com o Gilberto por ver nele um exemplo de honestidade, sinceridade, ética e, acima de tudo, de empreendedorismo. Sempre trabalhei para atender às expectativas deste empresário através do meu trabalho, mas conhecer, de fato, sua trajetória nos impulsiona e instiga a querer crescer sempre mais. O Gilberto faz isso com clareza, com audácia e com muita dedicação, provocando nas pessoas o sentimento de que vale a pena acreditar nos sonhos. Mas acreditar não é suficiente: é necessário comprometimento e responsabilidade, além de muito trabalho. Para mim, o Gilberto deixa a lição de que, na vida, tudo o que é feito com planejamento e empenho tem o seu devido reconhecimento, como aconteceu com sua Gnatus.”
Ed Mendes, cerimonialista e empresário.

Texto:
Cristiane Araujo
Fotos: Carolina Alves

Compartilhar: