Lidando com fortes emoções

Lidando com fortes emoções

O fator emocional possui um papel importante na condução do tratamento do câncer de mama e precisa ser observado, tanto pelo médico quanto pela paciente

Enfrentar um diagnóstico de câncer de mama, literalmente, requer da mulher redobrada coragem e força interior, justamente em um momento extremamente delicado, onde ela está diante de inúmeras dúvidas e temores. O medo de morte iminente, de não criar os filhos, de não concluir sonhos, além do medo da mutilação da mama, como se fosse perder sua condição de mulher, são apontamentos do médico mastologista Gustavo Zucca Matthes. Coordenador do Departamento de Mastologia e Reconstrução Mamária e do Centro de Treinamento em Oncoplástica Mamária do Hospital de Câncer de Barretos (HCB). O especialista atua na área desde 2002.

A expectativa que antecede o diagnóstico deixa a mulher sem chão. Diante dela, as atitudes passam por raiva, negação, tristeza, barganha e resignação, além da ansiedade pelo tratamento. Para o médico, o lado emocional da paciente deve receber o mesmo cuidado que o corpo físico. “Algumas pacientes encaram com mais coragem do que outras, dependendo da história de vida de cada uma. O importante, nesse momento, é o apoio familiar, de amigos e de uma equipe profissional multidisciplinar, para que ela se sinta amparada”, define Zucca.

Ainda segundo o mastologista, o fator emocional possui um papel importante na condução do tratamento. Encarar a doença  positivamente favorece e até ameniza os efeitos colaterais decorrentes da terapia. “Costumo dizer que o câncer de mama acontece não por que, mas para que. Se a paciente entende que pode ser tratada e encara isso de forma natural, apesar da angústia, mudando seus hábitos de vida, seu modo de agir e de pensar, apoiada por uma equipe multidisciplinar preparada, supera as dificuldades e vive da melhor forma possível, de peito aberto para a vida”, afirma o médico.

Apesar de ser notório que o caminhar pelo tratamento fica mais fácil quando a paciente está bem emocionalmente, às vezes, a imposição das pessoas para que a mulher se obrigue a ficar, ou mostrar, que está tranquila, acaba sendo um fardo, alerta o especialista. “É preciso respeito com os sentimentos da mulher e ela precisa de apoio. Digo às minhas pacientes que o tratamento é como uma escada, em que cada degrau é uma etapa, mas os corrimãos são os familiares e os profissionais treinados para que ela suba com segurança. Quando ela chegar ao topo, vai ver que essa subida não foi tão difícil”, explica o médico.

Ainda segundo o mastologista, o diagnóstico de um câncer de mama pode dividir a vida da paciente em duas etapas: antes e depois do tumor. Isso acontece porque a mama é um símbolo de maternidade, sexualidade e feminilidade, o que dá um peso extra a este diagnóstico, que pode interferir diretamente na forma com que a mulher se vê e como é vista pelos outros, o que muda de forma significativa as relações familiares e sociais. “O médico deve acompanhar a paciente em todas as etapas, tirando todas as dúvidas e mostrando a ela que este diagnóstico não é o fim da linha”, conclui Zucca. 


Finais felizes



A história da professora Eleusa Jendiroba Guimarães, de 51 anos, reforça a necessidade de prevenção. Ela foi acompanhar a irmã em um exame preventivo, acabou resolvendo fazer o teste também e descobriu o câncer de mama bem no início. “Fiquei suspensa um tempo, vendo minha vida passar diante de mim, enquanto ouvia as palavras do médico. A notícia abala, rouba qualquer ação”, diz a professora.

Para Eleusa, o diagnóstico leva  ao passado, em seguida, direto para o futuro. “O presente se apaga porque o medo de não ter mais tempo, de sofrer e de não poder realizar sonhos nos domina”, afirma.  Para ela, o apoio do médico é fundamental, no sentido de mostrar que um diagnóstico como esse, diferente do que a maioria das pessoas pensa, não significa uma sentença de morte, de dor ou de algo parecido. “Ele me fez perceber que, no meu caso, havia todas as chances de cura, especialmente pela descoberta precoce, e fomos conduzindo tudo devagar, um dia de cada vez”, explica Eleusa que passou por duas cirurgias para a retirada da região afetada e, depois, fez 19 sessões de radioterapia. 

A reconstrução da mama, que aconteceu após as cirurgias, foi de extrema importância. “O seio é um dos primeiros sinais de que a mulher vem tomando o lugar da menina e o espelho é nosso confidente. Olhar para nós e nos vermos inteiras alivia o sentimento de perda e faz aumentar a autoestima, ingrediente importantíssimo no tratamento”, afirma a professora. Eleusa diz que, às vezes, repensa em tudo que viveu e se sente como a protagonista de um filme ou de um livro, que sente temor, mas encara a vida como uma história que precisa escrever. Não sabe a razão que a faz desenvolver um câncer, pois foi atleta, pratica atividades físicas regularmente, sempre se alimentou bem e não fuma. “Talvez a genética, talvez o estresse, talvez os hormônios, talvez, talvez”, cogita.

A certeza, para ela, é de que está curada e tem muita vida pela frente. “Cada caso é um caso, e cada cabeça uma sentença, mas gostaria que não pensassem somente nas pessoas que morreram de câncer, também em todas aquelas que sobrevivem a ele, que confiassem na modernização das técnicas de tratamento e de reconstrução, disseminando as possibilidades de cura”, conclui Eleusa.


Direitos assegurados 

Medicamentos gratuitos
Pessoas com câncer têm o direito garantido por lei a medicamentos gratuitos. Isso pode ser pleiteado por via administrativa, para análise da Secretaria da Saúde ou por ação judicial. O paciente recebe o medicamento, mensalmente, de forma rápida, segura, eficaz e ininterrupta. Há penas severas para o descumprimento desse direito.

Cirurgia reconstrutora
A cirurgia plástica reparadora de mama é um direito garantido às mulheres que sofreram mastectomia total ou parcial e o procedimento pode ser realizado pela rede de unidades integrantes do Sistema Único de Saúde (SUS).

Isenção de impostos
Além do acesso aos medicamentos, as doenças graves — diante de um comprometimento mais efetivo e permanente — dão direito a isenções tributárias, como Imposto de Renda (IR), Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS), Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), além de outros direitos, como transporte gratuito.

Saque de PIS/PASEP
O trabalhador portador de doença grave, cadastrado no PIS, que tenha contribuído por, no mínimo, 12 meses, pode sacar suas quotas e também pedir auxílio-doença. O benefício é concedido quando há impedimento de trabalhar por mais de 15 dias consecutivos e essa comprovação é realizada por perícia médica da Previdência Social.

Liberação do Fundo de Garantia
O portador de doença grave — ou quem tenha um dependente nessas condições — também pode sacar o valor depositado no seu Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), caso queira. 

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